NeurológicaSíndrome de Guillain-Barré e outras neuropatias mediadas imunologicamentePublicado (Premium)

Síndrome de Guillain-Barré e outras neuropatias mediadas imunologicamente

Matriz PNA:D · Diagnóstico

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 9 perguntas neste tema

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Em resumo

A síndrome de Guillain-Barré (SGB) é a causa mais frequente de paralisia flácida aguda no adulto desde a erradicação da poliomielite, com uma incidência de cerca de 1 a 2 casos por 100 000 habitantes por ano. É uma polirradiculoneuropatia autoimune, tipicamente pós-infeciosa, cujo reconhecimento precoce é decisivo porque a falência respiratória e a disautonomia podem ser fatais. Este capítulo foca o diagnóstico e a terapêutica essencial, o ângulo examinável no PNA.

O diagnóstico de SGB é essencialmente clínico e deve ser considerado perante tetraparesia flácida arrefléxica progressiva. Os exames complementares confirmam e excluem alternativas, mas não devem atrasar o tratamento nem a vigilância.

Punção lombar e LCR. O achado característico é a dissociação albumino-citológica: proteínas elevadas com contagem celular normal (tipicamente menos de 10 células/µL). É um dado muito útil, mas com limitações examináveis: nas primeiras 48 horas as proteínas podem ainda estar normais (a sensibilidade sobe ao longo da 1.ª a 2.ª semana), pelo que um LCR normal precoce não afasta o diagnóstico. Uma pleocitose francamente elevada (por exemplo >50 células/µL) deve levantar suspeita de alternativas como infeção por VIH, doença de Lyme, sarcoidose ou infiltração neoplásica meníngea.

Estudos eletrofisiológicos (EMG/estudos de condução nervosa). Apoiam o diagnóstico e classificam o subtipo (desmielinizante vs axonal). Nas formas desmielinizantes observam-se prolongamento das latências distais, redução das velocidades de condução, bloqueios de condução e ondas F anormais/ausentes (que traduzem envolvimento proximal e radicular precoce). Podem estar normais nos primeiros dias.

Anticorpos anti-gangliosídeo. Não são necessários para o diagnóstico da forma clássica, mas ajudam em variantes: anti-GQ1b na síndrome de Miller-Fisher, anti-GM1/anti-GD1a nas formas axonais.

Critérios e diagnóstico diferencial. Os critérios de Brighton sistematizam o grau de certeza diagnóstica. Sinais que devem fazer duvidar de SGB (red flags): nível sensitivo bem demarcado (sugere lesão medular), assimetria marcada e persistente, disfunção esfincteriana precoce e proeminente, febre no início do quadro ou pleocitose acentuada. O diferencial inclui mielite/compressão medular (essencial excluir com imagem se houver nível sensitivo ou disfunção vesical), miastenia gravis, botulismo, paralisia por carraça, porfíria aguda, hipocaliémia e mielite transversa.

Avaliação de gravidade e monitorização (o ponto crítico). Mais importante do que confirmar o subtipo é avaliar e vigiar a função respiratória e autonómica. Deve medir-se seriadamente a capacidade vital forçada à cabeceira; valores em queda ou <20 mL/kg, força inspiratória negativa reduzida e a incapacidade de completar frases sinalizam risco de falência respiratória iminente e necessidade de UCI, muitas vezes antes de a saturação de oxigénio cair. A regra dos 20/30/40 (CV <20 mL/kg, PImáx <30 cmH2O, PEmáx <40 cmH2O) é um auxiliar mnemónico para escalar cuidados.

Síndrome de Guillain-Barré (SGB) Polirradiculoneuropatia aguda autoimune, monofásica e pós-infeciosa 1. Gatilho pós-infecioso Campylobacter jejuni (formas axonais, pior prognóstico); também CMV, EBV, hepatite E, Zika. Infeção 1-3 semanas antes em cerca de dois terços dos doentes. Mecanismo: mimetismo molecular, anticorpos anti-gangliosídeo com reatividade cruzada. 2. Clínica nuclear Paralisia flácida ASCENDENTE (começa nos membros inferiores), simétrica, com ARREFLEXIA (dado semiológico obrigatório). Parestesias distais e dor precoce; défice sensitivo objetivo discreto face ao motor. Progressão até ao nadir habitualmente até 4 semanas. Se >8 semanas, pensar CIDP. 3. LCR (punção lombar) Dissociação albumino-citológica Proteínas ELEVADAS Células NORMAIS (<10 células/uL) Pode ser normal nas primeiras 48 h. Pleocitose >50 células/uL: pensar VIH, Lyme, sarcoidose, meningite neoplásica. Estudos e critérios Condução nervosa: latências distais aumentadas, ondas F anormais/ausentes (envolvimento proximal precoce). Critérios de Brighton graduam a certeza. Red flags: nível sensitivo demarcado, assimetria marcada, febre inicial. 4. Variante de Miller-Fisher Tríade oftalmoplegia + ataxia + arreflexia, com força dos membros preservada. Associada a anticorpos anti-GQ1b. Curso habitualmente benigno e autolimitado. ! 5. Perigo: vigilância respiratória e autonómica Medir capacidade vital seriada; queda <20 mL/kg antecipa falência respiratória antes da dessaturação (a oximetria isolada dá falsa segurança). Disautonomia: labilidade tensional, arritmias, assistolia vagal (aspiração traqueal). Impõe monitorização cardíaca contínua; 20-30% precisam de ventilação mecânica. 6. Terapêutica Tratar com imunoglobulina endovenosa (IgEV, 2 g/kg em 5 dias) OU plasmaférese — eficácia equivalente, não se combinam. Iniciar precocemente. Os CORTICOIDES NÃO são eficazes na SGB — ao contrário da CIDP crónica, que responde. InovaQB — Neurologia — Síndrome de Guillain-Barré e neuropatias mediadas imunologicamente Diagnóstico clínico; os exames confirmam e excluem alternativas, sem atrasar o tratamento.

Referências

  1. Willison HJ, Jacobs BC, van Doorn PA. Guillain-Barré syndrome. Lancet. 2016;388(10045):717-727.
  2. Leonhard SE, Mandarakas MR, Gondim FAA, et al. Diagnosis and management of Guillain-Barré syndrome in ten steps. Nat Rev Neurol. 2019;15(11):671-683.
  3. van den Berg B, Walgaard C, Drenthen J, Fokke C, Jacobs BC, van Doorn PA. Guillain-Barré syndrome: pathogenesis, diagnosis, treatment and prognosis. Nat Rev Neurol. 2014;10(8):469-482.
  4. Hughes RAC, Swan AV, van Doorn PA. Intravenous immunoglobulin for Guillain-Barré syndrome. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(9):CD002063.
  5. Chevret S, Hughes RAC, Annane D. Plasma exchange for Guillain-Barré syndrome. Cochrane Database Syst Rev. 2017;(2):CD001798.
  6. Van den Bergh PYK, van Doorn PA, Hadden RDM, et al. European Academy of Neurology/Peripheral Nerve Society guideline on chronic inflammatory demyelinating polyradiculoneuropathy (2021 revision). Eur J Neurol. 2021;28(11):3556-3583.
  7. Fokke C, van den Berg B, Drenthen J, Walgaard C, van Doorn PA, Jacobs BC. Diagnosis of Guillain-Barré syndrome and validation of Brighton criteria. Brain. 2014;137(1):33-43.

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