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Neuropatia periférica

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · Prevenção

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 10 perguntas neste tema

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Em resumo

A neuropatia periférica engloba qualquer disfunção dos nervos periféricos e é um problema transversal a toda a medicina interna, sendo a diabetes a causa isolada mais frequente. O raciocínio clínico organiza-se em duas perguntas: qual o padrão anatómico (mononeuropatia, mononeurite múltipla ou polineuropatia simétrica) e qual o tipo de fibra e de lesão (sensitiva, motora ou autonómica; axonal ou desmielinizante). Este capítulo cobre a classificação, os mecanismos, a abordagem diagnóstica escalonada e as medidas de prevenção mais examináveis no PNA.

O nervo periférico responde à agressão por um número limitado de mecanismos, e distinguir lesão axonal de lesão desmielinizante é central porque orienta a etiologia (competência MD, mecanismo/fisiopatologia).

Degenerescência axonal (a mais frequente): a agressão metabólica ou tóxica compromete primeiro os axónios mais longos, por dependência do transporte axonal e maior vulnerabilidade energética. Explica o padrão dependente do comprimento e distal. Causas típicas: diabetes, álcool, urémia, hipotiroidismo, défice de B12 e fármacos (quimioterápicos como platinas, taxanos e alcaloides da vinca; também isoniazida, amiodarona, metronidazol). Nos estudos de condução traduz-se por redução das amplitudes com velocidades relativamente preservadas.

Desmielinização: lesão da bainha de mielina com relativa preservação inicial do axónio. Provoca lentificação da velocidade de condução, bloqueios de condução e dispersão temporal. Sugere causas imunomediadas (polirradiculoneuropatia inflamatória crónica) ou hereditárias desmielinizantes (Charcot-Marie-Tooth tipo 1). A recuperação tende a ser mais rápida do que na lesão axonal, que exige regeneração lenta do axónio.

Mecanismos por etiologia:

  • Diabetes: hiperglicémia crónica com ativação da via dos polióis, acumulação de produtos de glicação avançada, stress oxidativo e isquémia microvascular dos vasa nervorum; resulta em polineuropatia sensitivo-motora axonal e frequente componente autonómico.
  • Défice de B12: desmielinização por síntese deficiente de mielina, com envolvimento combinado de nervo periférico e cordões posteriores da medula (degenerescência combinada subaguda).
  • Vasculite: isquémia dos vasa nervorum por inflamação da parede vascular, produzindo enfarte nervoso focal e o padrão de mononeurite múltipla.
  • Paraproteinémias: deposição/efeito de imunoglobulinas monoclonais (investigar gamapatia se polineuropatia sem causa evidente).
  • Aprisionamento: compressão mecânica focal com desmielinização localizada e, se prolongada, perda axonal.

O tipo de fibra também reflete o mecanismo: as fibras finas (dor, temperatura, autonómicas) predominam nas neuropatias de fibras finas (diabetes, amiloidose); as fibras grossas (propriocepção, vibração) predominam nas ataxias sensitivas e no défice de B12.

A avaliação (competência D) parte da história e do exame para definir padrão, curso temporal e tipo de fibra, e só depois dirige os exames complementares.

Anamnese: início e progressão (agudo sugere inflamatório/vascular; crónico e insidioso sugere metabólico/hereditário), simetria, distribuição, sintomas positivos (parestesias, dor em queimadura) e negativos (dormência, fraqueza), disautonomia, história familiar (pés cavos, dedos em martelo apontam para Charcot-Marie-Tooth), consumo de álcool, fármacos e comorbilidades.

Exame neurológico: pesquisar défice sensitivo em 'luva e meia', reflexo aquiliano (precocemente abolido nas polineuropatias distais), força, atrofia, e sensibilidade vibratória e propriocetiva. Um padrão distal, simétrico e com arreflexia aquiliana é a apresentação prototípica da polineuropatia.

Estudos de neurocondução e eletromiografia (EMG): exame-chave que confirma a neuropatia, localiza-a e distingue axonal de desmielinizante, além de avaliar simetria e gravidade. A eletroneuromiografia é o exame de maior rendimento na caracterização da polineuropatia; o parâmetro de prática da AAN de 2009 (England et al.) fundamenta, por seu lado, a bateria laboratorial de primeira linha descrita adiante.

Laboratório de primeira linha (rentável na polineuropatia distal simétrica): glicémia em jejum/HbA1c (ou prova de tolerância à glucose, que aumenta a deteção de disglicémia), vitamina B12 (com metilmalónico/homocisteína se valor limítrofe), função renal, TSH e eletroforese de proteínas séricas com imunofixação (rastreio de paraproteína). Estes exames identificam a maioria das causas tratáveis.

Segunda linha, orientada pela suspeita: estudo de vasculite (VS, PCR, ANCA, crioglobulinas) e eventual biópsia de nervo (sural) quando se suspeita de vasculite ou amiloidose; punção lombar se se admite causa inflamatória desmielinizante (dissociação albumino-citológica); estudo genético para Charcot-Marie-Tooth em casos hereditários.

Sinais de alarme que exigem investigação acelerada: instalação rápida ou progressiva, predomínio motor, assimetria marcada (mononeurite múltipla) e envolvimento autonómico proeminente. Uma proporção de polineuropatias axonais crónicas permanece idiopática após investigação completa, sobretudo no idoso.

Neuropatia periférica — reconhecer o padrão 1 · Padrão anatómico — a primeira pergunta MONONEUROPATIA Um só nervo — compressão ou aprisionamento focal. Túnel cárpico: mediano, 3 primeiros dedos, agrava à noite. Cubital; radial = mão pendente. MONONEURITE MÚLTIPLA Vários troncos nervosos, assimétrico e sequencial. Bandeira vermelha para vasculite (vasa nervorum) ou diabetes. Investigar doença sistémica. POLINEUROPATIA DISTAL A mais comum. Dependente do comprimento do axónio: pés antes das mãos. Distribuição simétrica em 'luva e meia'. Insidiosa e progressiva. Causas de polineuropatia Diabetes — a causa isolada mais frequente Álcool Défice de B12 Urémia Hipotiroidismo Quimioterapia Hereditária (CMT) Quimioterapia: platinas, taxanos, alcaloides da vinca (vincristina). Padrão em 'luva e meia' Distal, simétrico, dependente do comprimento 2 · Axonal vs desmielinizante — o EMG / estudos de condução distinguem AXONAL Amplitudes reduzidas, velocidades preservadas. A maioria das metabólico-tóxicas: diabetes, álcool, urémia, B12, fármacos. Regenera lentamente (mm/dia). DESMIELINIZANTE Velocidades lentas, bloqueios de condução, dispersão temporal. Imunomediada (crónica) ou hereditária: Charcot-Marie-Tooth 1. Recuperação mais rápida. Investigar sempre a causa: glicémia/HbA1c, vitamina B12, função renal, TSH e eletroforese com imunofixação. Dor neuropática (NICE): amitriptilina, duloxetina, gabapentina ou pregabalina; a analgesia é adjuvante da causa.

A prevenção (competência P) atua sobre as causas modificáveis, sendo mais eficaz quanto mais precoce, porque a lesão axonal estabelecida recupera lentamente e muitas vezes de forma incompleta.

Controlo glicémico: é a medida preventiva de maior impacto. Na diabetes tipo 1, o controlo intensivo demonstrou reduzir de forma marcada a incidência de neuropatia (evidência do ensaio DCCT). Na diabetes tipo 2 o benefício sobre a neuropatia é mais modesto, pelo que a prevenção assenta também no controlo global do risco cardiometabólico (tensão arterial, lípidos, tabagismo, peso). A posição da ADA sobre neuropatia diabética (2017) recomenda rastreio anual de polineuropatia distal simétrica em todos os diabéticos tipo 2 desde o diagnóstico e nos tipo 1 a partir dos 5 anos de evolução, usando avaliação da sensibilidade (monofilamento de 10 g, diapasão de 128 Hz, reflexo aquiliano).

Prevenção do pé diabético: o rastreio com monofilamento identifica a perda de sensibilidade protetora e o risco de ulceração; associa-se educação para inspeção diária dos pés, calçado adequado e cuidado podológico. É a intervenção que mais reduz amputações.

Evicção de tóxicos: limitar ou suspender o álcool; rever e ajustar fármacos neurotóxicos (monitorizar dose cumulativa de quimioterápicos, vigiar isoniazida, amiodarona, metronidazol). A profilaxia com piridoxina (vitamina B6) previne a neuropatia por isoniazida.

Correção de défices e suplementação: rastrear e corrigir precocemente o défice de B12 (mais frequente em idosos, vegetarianos estritos, uso crónico de metformina ou inibidores da bomba de protões), o hipotiroidismo e a urémia. Atenção: o excesso de vitamina B6 em doses elevadas e prolongadas é, ele próprio, causa de neuropatia sensitiva, pelo que a suplementação deve ser dirigida e não indiscriminada.

Rastreio de comorbilidades: nos doentes com fatores de risco, vigiar a função renal e tiroideia permite intervir antes da instalação de lesão nervosa irreversível.

Referências

  1. England JD, Gronseth GS, Franklin G, et al. Practice Parameter: evaluation of distal symmetric polyneuropathy: role of laboratory and genetic testing (an evidence-based review). Report of the American Academy of Neurology, the American Association of Neuromuscular and Electrodiagnostic Medicine, and the American Academy of Physical Medicine and Rehabilitation. Neurology. 2009;72(2):185-192.
  2. Pop-Busui R, Boulton AJM, Feldman EL, et al. Diabetic Neuropathy: A Position Statement by the American Diabetes Association. Diabetes Care. 2017;40(1):136-154.
  3. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Neuropathic pain in adults: pharmacological management in non-specialist settings. Clinical guideline CG173. London: NICE; 2013 (atualizado).
  4. Callaghan BC, Price RS, Feldman EL. Distal Symmetric Polyneuropathy: A Review. JAMA. 2015;314(20):2172-2181.
  5. American Diabetes Association Professional Practice Committee. Retinopathy, Neuropathy, and Foot Care: Standards of Care in Diabetes-2024. Diabetes Care. 2024;47(Suppl 1):S231-S243.
  6. Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al., eds. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21.ª ed. New York: McGraw-Hill; 2022. Capítulo sobre neuropatia periférica.

10 perguntas sobre Neuropatia periférica

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