Esclerose múltipla
Atualizado em 18 de julho de 2026 · 10 perguntas neste tema
A esclerose múltipla (EM) é a doença inflamatória desmielinizante crónica mais frequente do sistema nervoso central, de etiologia autoimune, com predomínio em mulheres jovens (20-40 anos). O diagnóstico assenta na demonstração de disseminação das lesões no espaço e no tempo, apoiada pela ressonância magnética (RM) e pelo estudo do líquido cefalorraquidiano (LCR). Este capítulo foca a avaliação diagnóstica (competência-alvo) e a terapêutica essencial.
O diagnóstico é clínico-imagiológico e assenta na demonstração de disseminação no espaço (DIS) e disseminação no tempo (DIT), segundo os critérios de McDonald (a revisão de 2024, publicada em 2025, é a versão vigente e atualiza a revisão de 2017, que se mantém como base conceptual). O princípio essencial é provar que existem lesões em localizações diferentes do SNC (espaço) que surgiram em momentos diferentes (tempo), excluindo diagnósticos alternativos.
Sinais e sintomas típicos (a reconhecer no exame):
- Neurite óptica: perda visual monocular subaguda, com dor à mobilização ocular, discromatópsia (dessaturação do vermelho) e defeito pupilar aferente relativo (pupila de Marcus Gunn). Escreve-se sempre neurite óptica (visão), nunca ótica.
- Sinal de Lhermitte: sensação de choque elétrico descendente pela coluna com a flexão do pescoço (lesão dos cordões posteriores cervicais).
- Oftalmoplegia internuclear: défice de adução de um olho com nistagmo do olho contralateral em abdução, por lesão do fascículo longitudinal medial (FLM); é muito sugestiva de EM quando bilateral e num jovem.
- Outros: mielite parcial (parestesias, paraparésia, disfunção esfincteriana), síndromes do tronco cerebral, ataxia, fadiga.
Ressonância magnética (exame-chave): lesões hiperintensas em T2/FLAIR, ovoides, com topografia característica em quatro regiões que definem a DIS:
- Periventriculares (perpendiculares aos ventrículos: "dedos de Dawson")
- Justacorticais/corticais
- Infratentoriais (tronco cerebral, cerebelo)
- Medulares A DIS exige lesões em pelo menos 2 destas 4 localizações. A DIT demonstra-se pela coexistência de lesões captantes e não captantes de gadolínio na mesma RM, ou pelo aparecimento de nova lesão numa RM de seguimento. As lesões ativas captam gadolínio (rutura da barreira hematoencefálica).
Revisão de 2024 (McDonald 2024, guideline vigente): acrescenta o nervo óptico como quinta localização para a DIS (passando de 4 para 5 topografias); incorpora novos biomarcadores de suporte diagnóstico (sinal da veia central e lesões com halo paramagnético na RM, e kappa free-light chains no LCR como alternativa às bandas oligoclonais); e deixa de exigir a disseminação no tempo como critério obrigatório em vários cenários, permitindo um diagnóstico mais precoce.
Estudo do LCR: a presença de bandas oligoclonais (IgG intratecal, ausentes no soro) permite, nos critérios de McDonald 2017, substituir a demonstração de disseminação no tempo num doente com DIS e clínica compatível, acelerando o diagnóstico.
Diagnóstico diferencial e cautela: perante apresentação atípica (envolvimento sistémico, ausência de bandas oligoclonais, lesões extensas longitudinais da medula) deve considerar-se neuromielite óptica (anti-AQP4), doença anti-MOG, neurossarcoidose, vasculites e lúpus. Os critérios de McDonald só se aplicam depois de excluir alternativas mais prováveis ("no better explanation").
Referências
- Thompson AJ, Banwell BL, Barkhof F, et al. Diagnosis of multiple sclerosis: 2017 revisions of the McDonald criteria. Lancet Neurol. 2018;17(2):162-173. Montalban X, et al. Diagnosis of multiple sclerosis: 2024 revisions of the McDonald criteria. Lancet Neurol. 2025.
- Montalban X, Gold R, Thompson AJ, et al. ECTRIMS/EAN guideline on the pharmacological treatment of people with multiple sclerosis. Eur J Neurol. 2018;25(2):215-237.
- Filippi M, Bar-Or A, Piehl F, et al. Multiple sclerosis. Nat Rev Dis Primers. 2018;4(1):43.
- Reich DS, Lucchinetti CF, Calabresi PA. Multiple Sclerosis. N Engl J Med. 2018;378(2):169-180.
- Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, et al., eds. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022. Capítulo sobre Esclerose Múltipla e outras doenças desmielinizantes.
10 perguntas sobre Esclerose múltipla
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