Esclerose lateral amiotrófica
Atualizado em 27 de setembro de 2026 · 11 perguntas neste tema
A esclerose lateral amiotrófica (ELA) é a doença do neurónio motor mais frequente: uma degenerescência progressiva e fatal do primeiro neurónio motor, no córtex e na via corticospinal, e do segundo, no corno anterior da medula e nos núcleos motores do tronco cerebral. Começa habitualmente na sexta década, é ligeiramente mais frequente no homem e, em 5 a 10% dos casos, é familiar, com a expansão do C9orf72 à cabeça, que também liga a doença à demência frontotemporal.
Apresenta-se como fraqueza assimétrica e progressiva de um membro, com atrofia, fasciculações e cãibras, ou pelo início bulbar, com disartria e disfagia. O que a denuncia é a mistura: reflexos vivos e Babinski num músculo fraco e atrofiado. Poupa a sensibilidade, a oculomotricidade e os esfíncteres, e quando algum destes está atingido deve pensar-se noutro diagnóstico.
O diagnóstico é clínico, apoiado no eletromiograma, e só se faz depois de excluir o que se trata: a mielopatia cervical, a neuropatia motora multifocal, a doença de Kennedy e a miastenia gravis. Os critérios de Gold Coast pedem défice motor progressivo com sinais dos dois neurónios numa região, ou do segundo neurónio em duas.
Nenhum tratamento pára a doença. O riluzol prolonga a sobrevida uns meses e o tofersen serve só a mutação SOD1. O que mais pesa na sobrevida e na qualidade de vida é o seguimento multidisciplinar, com ventilação não invasiva e gastrostomia a tempo. A sobrevida mediana é de 3 a 5 anos e a morte deve-se sobretudo à insuficiência respiratória.
O diagnóstico é clínico, apoiado no eletromiograma, e exige a exclusão de outra doença que explique o quadro.
Critérios de Gold Coast (2020)
São os critérios em uso e classificam o doente só como ELA ou não ELA. Pedem os três:
- Défice motor progressivo, documentado pela história ou por avaliações repetidas, depois de função motora normal.
- Sinais do primeiro e do segundo neurónio na mesma região, se só uma estiver atingida, ou sinais do segundo neurónio em pelo menos duas regiões.
- Exames que excluam outras doenças.
- Regiões: bulbar, cervical, torácica e lombossagrada.
- Segundo neurónio: fraqueza com atrofia no exame, ou no eletromiograma alterações neurogénicas crónicas com denervação ativa. Uma região conta com dois músculos dos membros de raízes e nervos diferentes, ou um músculo bulbar, ou um torácico.
- Primeiro neurónio: pelo menos um de reflexos aumentados (incluindo num músculo fraco e atrofiado), reflexos patológicos (Hoffmann, Babinski), espasticidade ou lentificação dos movimentos que a fraqueza não explique.
- Em relação aos anteriores, incluem a atrofia muscular progressiva com atingimento de duas regiões e deixam de fora a esclerose lateral primária.
Critérios de El Escorial revistos
Graduavam a certeza pelo número de regiões com sinais dos dois neurónios: definitiva em três ou quatro, provável em duas, possível numa. Ficam como contexto: exigiam os dois neurónios em várias regiões, eram menos sensíveis e atrasavam o diagnóstico.
Eletromiograma e estudos de condução
- Eletromiograma: denervação ativa (potenciais de fibrilhação, ondas positivas, potenciais de fasciculação) e reinervação crónica (potenciais de unidade motora grandes, longos e polifásicos, com recrutamento reduzido).
- Condução sensitiva normal. A condução motora serve sobretudo para procurar bloqueios de condução.
Imagem
- Ressonância do crânio e da coluna cervical, incluindo o buraco magno, para excluir compressão medular e da junção cervicobulbar. A ressonância cerebral pode mostrar hipersinal em T2 das vias corticospinais.
Laboratório
- Em todos: hemograma, velocidade de sedimentação, proteínas totais e eletroforese, glicemia em jejum, bioquímica com cálcio, função tiroideia, vitaminas B12 e E, folato, zinco e cobre, e anticorpos anti-GM1.
- Conforme o contexto: paratormona, metais pesados na urina de 24 horas e chumbo, serologias de VIH, HTLV-1 (vírus linfotrópico T humano tipo 1) e Lyme, líquido cefalorraquidiano, anticorpos anti-Hu, anticorpos antirrecetor da acetilcolina e estudo genético se houver história familiar.
Diagnóstico diferencial
| imitador | o que o distingue |
|---|---|
| Mielopatia cervical espondilótica ou tumor do buraco magno | fraqueza e atrofia nos braços com espasticidade nas pernas, mas com dor, alterações sensitivas ou dos esfíncteres e sem atingimento dos pares cranianos; ressonância alterada |
| Neuropatia motora multifocal com bloqueios de condução | só segundo neurónio, na distribuição de troncos nervosos, sobretudo nos braços; mais de 75% homens; bloqueios de condução motora; anti-GM1 IgM em menos de metade; responde à imunoglobulina endovenosa, não aos corticoides |
| Doença de Kennedy (atrofia muscular bulboespinhal ligada ao X) | homem na idade adulta, só segundo neurónio, bulbar e dos membros, com ginecomastia e fertilidade reduzida; sem espasticidade; pode ter neuropatia sensitiva ligeira; expansão CAG do gene do recetor dos androgénios |
| Miastenia gravis | fatigabilidade, ptose e oftalmoparesia, que a ELA não dá; sem atrofia nem fasciculações; anticorpos antirrecetor da acetilcolina |
| Fasciculações benignas | sem fraqueza, sem atrofia e sem denervação no eletromiograma |
| Outros | tirotoxicose, intoxicação por chumbo, neuropatia motora com paraproteína ou linfoma, défice de hexosaminidase A, síndrome pós-poliomielite |
Referências
- Brown RH Jr. Amyotrophic lateral sclerosis and other motor neuron diseases. In: Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J, editors. Harrison's principles of internal medicine. 20th ed. New York: McGraw Hill; 2018. cap. 429.
- Hauser SL, Amato AA. Guillain-Barré syndrome and other immune-mediated neuropathies: multifocal motor neuropathy. In: Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J, editors. Harrison's principles of internal medicine. 20th ed. New York: McGraw Hill; 2018. cap. 439.
- Jackson CE, Bhavaraju-Sanka R. Neuromuscular diseases: disorders of the motor neuron and plexus and peripheral nerve disease. In: Cecil essentials of medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. cap. 123.
- Shefner JM, Al-Chalabi A, Baker MR, Cui LY, de Carvalho M, Eisen A, et al. A proposal for new diagnostic criteria for ALS. Clin Neurophysiol. 2020;131(8):1975-8.
- Turner MR, Al-Chalabi A, et al. Diagnosing ALS: the Gold Coast criteria and the role of EMG. Pract Neurol. 2022;22(3):176-8.
- Brooks BR, Miller RG, Swash M, Munsat TL. El Escorial revisited: revised criteria for the diagnosis of amyotrophic lateral sclerosis. Amyotroph Lateral Scler Other Motor Neuron Disord. 2000;1(5):293-9.
- Van Damme P, Al-Chalabi A, Andersen PM, Chiò A, Couratier P, De Carvalho M, et al. European Academy of Neurology (EAN) guideline on the management of amyotrophic lateral sclerosis in collaboration with European Reference Network for Neuromuscular Diseases (ERN EURO-NMD). Eur J Neurol. 2024;31(6):e16264.
- National Institute for Health and Care Excellence. Motor neurone disease: assessment and management. NICE guideline NG42. London: NICE; 2016 (atualizado em 2019).
- EFNS Task Force on Diagnosis and Management of Amyotrophic Lateral Sclerosis; Andersen PM, Abrahams S, Borasio GD, de Carvalho M, Chio A, et al. EFNS guidelines on the clinical management of amyotrophic lateral sclerosis (MALS): revised report of an EFNS task force. Eur J Neurol. 2012;19(3):360-75.
- European Medicines Agency. Questions and answers: withdrawal of the marketing authorisation application for Radicava (edaravone). Amsterdam: EMA; 2019.
- European Medicines Agency. Qalsody (tofersen): EPAR, public assessment report. Amsterdam: EMA; 2024.
- Ferrer. Top-line results from the phase III ADORE study of oral edaravone (FAB122) in ALS. Barcelona: Ferrer; 10 de janeiro de 2024.
11 perguntas sobre Esclerose lateral amiotrófica
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