Doenças vasculares cerebrais
Atualizado em 17 de julho de 2026 · 26 perguntas neste tema
As doenças vasculares cerebrais (acidente vascular cerebral, AVC) são a causa neurológica de maior peso no PNA e uma das principais causas de morte e incapacidade em Portugal. Cerca de 85% são isquémicos e 15% hemorrágicos, distinção feita de imediato pela tomografia computorizada cranioencefálica (TC-CE) sem contraste. O princípio operacional é intemporal: "tempo é cérebro", pelo que a via verde de AVC, a reperfusão precoce e a prevenção secundária dirigida à etiologia determinam o prognóstico.
Na isquémia, a interrupção do fluxo cria duas zonas: o núcleo de enfarte (tecido inviável) e a penumbra isquémica, tecido hipoperfundido mas ainda viável, que é o alvo da reperfusão. A queda do fluxo abaixo do limiar interrompe a produção de ATP, colapsa as bombas iónicas, provoca despolarização anóxica, entrada de cálcio, libertação de glutamato (excitotoxicidade), stress oxidativo e morte celular. A penumbra deteriora-se com o tempo, o que fundamenta a urgência.
A classificação etiológica (TOAST) orienta a prevenção:
- Aterosclerose de grande vaso: placa carotídea ou intracraniana, com embolia arterio-arterial ou trombose in situ.
- Cardioembolismo: sobretudo fibrilhação auricular; também prótese valvular, enfarte recente, endocardite. Enfartes tipicamente corticais, por vezes em múltiplos territórios.
- Doença de pequenos vasos: lipo-hialinose dos ramos perfurantes por hipertensão e diabetes, causando lacunas nos gânglios da base, tálamo, cápsula interna e ponte.
- Outras causas determinadas: disseção arterial (jovem), estados pró-trombóticos, vasculites.
- Criptogénico/ESUS: sem causa identificada após estudo.
Na hemorragia intracerebral, a hipertensão arterial crónica lesa os pequenos perfurantes (microaneurismas de Charcot-Bouchard), com localizações profundas típicas: putâmen/gânglios da base, tálamo, ponte e cerebelo. No idoso normotenso, a angiopatia amiloide cerebral deposita beta-amiloide na parede dos vasos corticais e causa hemorragias lobares recorrentes. O hematoma expande-se e o efeito de massa gera lesão secundária e hipertensão intracraniana.
Na HSA aneurismática, a rotura de um aneurisma sacular (junções do polígono de Willis, sobretudo artéria comunicante anterior) lança sangue no espaço subaracnoideu, elevando abruptamente a pressão intracraniana. Nos dias seguintes surge risco de recidiva hemorrágica e de vasoespasmo com isquémia diferida. Compreender o mecanismo de cada subtipo permite antecipar complicações e escolher a terapêutica dirigida.
A avaliação do AVC agudo é cronometrada. Regista-se a hora do último momento sem sintomas (last known well), aplica-se a escala NIHSS para quantificar a gravidade e ativa-se a via verde de AVC.
O exame de primeira linha é a TC-CE sem contraste: exclui rapidamente hemorragia (que contraindica trombólise) e pode mostrar sinais precoces de isquémia (apagamento dos sulcos, hipodensidade, sinal da ACM hiperdensa). Na suspeita de oclusão de grande vaso (LVO) acrescenta-se angio-TC para localizar o trombo e TC de perfusão (ou RM com difusão/perfusão) para estimar núcleo versus penumbra, o chamado mismatch, decisivo na seleção para tratamento em janelas alargadas. A RM com difusão (DWI) é o método mais sensível para enfarte precoce e para a fossa posterior.
Na suspeita de HSA, a sequência é cefaleia em trovoada, TC-CE sem contraste e, se a TC for negativa mas a suspeita persistir, punção lombar à procura de xantocromia (produtos de degradação da hemoglobina), que a distingue de uma punção traumática. Confirmada a HSA, faz-se angiografia para identificar o aneurisma.
No AIT e AVC menor, a investigação procura a etiologia para prevenir recorrência: estratificação de risco com ABCD2, estudo das carótidas (ecodoppler, angio-TC ou angio-RM), ECG e monitorização prolongada do ritmo (Holter) para detetar fibrilhação auricular paroxística, ecocardiograma e análises (glicemia, lípidos, coagulação).
É essencial considerar os imitadores de AVC: hipoglicemia (medir glicemia capilar sempre), crise convulsiva com paralisia de Todd, enxaqueca com aura, lesão expansiva e distúrbios metabólicos. A neuroimagem e a glicemia resolvem a maioria das dúvidas e evitam trombólise inadequada.
A prevenção é onde se ganha a maior parte do benefício populacional. Na prevenção primária, controla-se a hipertensão arterial (o fator de risco modificável mais importante), a diabetes, a dislipidemia, cessa-se o tabagismo e promove-se atividade física. Na fibrilhação auricular, a decisão de anticoagular baseia-se no risco tromboembólico estimado (escala CHA2DS2-VA, que nas guidelines ESC 2024 substituiu o CHA2DS2-VASc ao deixar de contar o sexo feminino como fator isolado), preferindo-se os anticoagulantes orais diretos à varfarina na maioria dos doentes.
A prevenção secundária dirige-se à etiologia identificada:
- AVC isquémico não cardioembólico: antiagregação (ácido acetilsalicílico ou clopidogrel). No AVC menor ou AIT de alto risco, a dupla antiagregação (DAPT) curta, iniciada precocemente e limitada a cerca de 21 dias, reduz a recorrência (ensaios CHANCE e POINT); prolongá-la aumenta o risco hemorrágico sem benefício adicional.
- AVC cardioembólico por fibrilhação auricular: anticoagulação oral, com início ajustado ao tamanho do enfarte para reduzir o risco de transformação hemorrágica.
- Dislipidemia: estatina de alta potência para todos os AVC isquémicos ateroscleróticos, com alvos agressivos de LDL.
- Hipertensão: controlo tensional mantido a longo prazo, pilar transversal a todos os subtipos.
Na estenose carotídea sintomática (isquémia ipsilateral) de grau elevado (aproximadamente 70 a 99%), a endarterectomia carotídea reduz o risco de recorrência e deve realizar-se precocemente (idealmente nas primeiras duas semanas); o benefício é mais modesto no grupo 50 a 69% e deve ser individualizado. O stent carotídeo é alternativa em doentes selecionados. Não há indicação para rastreio sistemático nem para revascularização da estenose assintomática de forma generalizada, decisão que exige ponderação individual.
No AVC isquémico agudo, o internamento em unidade de AVC melhora, por si só, mortalidade e incapacidade. A pedra angular é a reperfusão precoce.
Trombólise endovenosa: indicada até 4,5 horas do início. Segundo a atualização AHA/ASA 2026, a tenecteplase 0,25 mg/kg (bólus único) é hoje alternativa recomendada, e cada vez mais preferida, à alteplase 0,9 mg/kg, pela administração mais simples e eficácia pelo menos comparável; a ESO deu recomendação expedita favorável em 2023. Verificam-se contraindicações (hemorragia, cirurgia recente, coagulopatia) e controla-se a tensão arterial antes de tratar. Em doentes selecionados por imagem com mismatch, a trombólise pode estender-se para além das 4,5 horas (até 24 horas) quando a trombectomia não é possível (ensaios EXTEND, TRACE-3).
Trombectomia mecânica: na oclusão de grande vaso da circulação anterior, é eficaz até 6 horas e, com seleção por imagem (mismatch clínico-radiológico), até 24 horas (ensaios DAWN, até 24 h, e DEFUSE-3, até 16 h). Quando o doente é elegível para ambas, faz-se trombólise e trombectomia de forma sequencial, sem atrasar o procedimento.
Medidas gerais: tensão arterial permissiva (só se trata acima de limiares elevados no não trombolisado), normoglicemia, controlo da temperatura, avaliação da deglutição antes de qualquer ingesta oral e profilaxia de tromboembolismo.
Na hemorragia intracerebral, prioriza-se o controlo tensional precoce e a reversão urgente da anticoagulação: idarucizumab para o dabigatran, andexanet alfa (ou concentrado de complexo protrombínico) para os inibidores do fator Xa, e complexo protrombínico com vitamina K para a varfarina. A cirurgia (drenagem, craniectomia) reserva-se para casos selecionados, com destaque para o hematoma cerebeloso com compressão do tronco ou hidrocefalia.
Na HSA aneurismática, securiza-se o aneurisma precocemente por clipagem cirúrgica ou embolização endovascular (coiling), administra-se nimodipina para prevenir isquémia por vasoespasmo e vigia-se hidrocefalia e recidiva hemorrágica.
Referências
- Prabhakaran S, et al. 2026 Guideline for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke: A Guideline From the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke. 2026;57. doi:10.1161/STR.0000000000000513.
- Powers WJ, et al. Guidelines for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke: 2019 Update. Stroke. 2019;50(12):e344-e418.
- Berge E, Whiteley W, Audebert H, et al. European Stroke Organisation (ESO) guidelines on intravenous thrombolysis for acute ischaemic stroke. Eur Stroke J. 2021;6(1):I-LXII.
- Alamowitch S, Turc G, Palaiodimou L, et al. European Stroke Organisation (ESO) expedited recommendation on tenecteplase for acute ischaemic stroke. Eur Stroke J. 2023;8(1):8-54.
- Nogueira RG, Jadhav AP, Haussen DC, et al. Thrombectomy 6 to 24 Hours after Stroke with a Mismatch between Deficit and Infarct (DAWN). N Engl J Med. 2018;378(1):11-21.
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- Greenberg SM, Ziai WC, Cordonnier C, et al. 2022 Guideline for the Management of Patients With Spontaneous Intracerebral Hemorrhage: A Guideline From the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke. 2022;53(7):e282-e361.
- Johnston SC, Easton JD, Farrant M, et al. Clopidogrel and Aspirin in Acute Ischemic Stroke and High-Risk TIA (POINT). N Engl J Med. 2018;379(3):215-225.
- Wang Y, Wang Y, Zhao X, et al. Clopidogrel with Aspirin in Acute Minor Stroke or Transient Ischemic Attack (CHANCE). N Engl J Med. 2013;369(1):11-19.
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