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Doença de Parkinson

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 14 perguntas neste tema

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Em resumo

A doença de Parkinson é a segunda doença neurodegenerativa mais frequente e a causa mais comum de parkinsonismo. O diagnóstico é clínico, ancorado na bradicinésia associada a rigidez e/ou tremor de repouso, e o reconhecimento de sinais de alarme para parkinsonismo atípico ou secundário é decisivo para não rotular erradamente casos com prognóstico e resposta terapêutica distintos.

A lesão nuclear da DP é a perda progressiva de neurónios dopaminérgicos da substância negra pars compacta, cujos axónios projetam para o estriado (putâmen e núcleo caudado). A depleção estriatal de dopamina desequilibra os circuitos dos gânglios da base.

No modelo clássico, a dopamina modula duas vias: a via direta (recetores D1, facilitadora do movimento) e a via indireta (recetores D2, inibidora). A perda de dopamina hipoativa a via direta e desinibe a via indireta, aumentando o output inibitório do globo pálido interno/substância negra pars reticulada sobre o tálamo. O resultado é inibição talamocortical e o fenótipo hipocinético (bradicinésia, rigidez). Os sintomas motores só se tornam evidentes após perda de cerca de 50 a 70% dos neurónios nigrais e depleção estriatal ainda maior, o que explica a longa fase pré-clínica.

O substrato molecular é a agregação de alfa-sinucleína mal enovelada em corpos e neurites de Lewy, com disfunção mitocondrial, stress oxidativo, falência da autofagia/sistema ubiquitina-proteassoma e neuroinflamação. A hipótese de Braak propõe uma progressão ascendente e caudocraniana da patologia: início no bulbo olfativo e no núcleo motor dorsal do vago, subindo depois ao tronco cerebral (incluindo a substância negra, correspondendo ao aparecimento dos sinais motores) e, por fim, ao neocórtex (fase de declínio cognitivo). Esta topografia explica os pródromos não-motores:

  • Hiposmia (envolvimento olfativo precoce).
  • Obstipação e disautonomia (envolvimento vagal e do sistema nervoso entérico).
  • Perturbação comportamental do sono REM (lesão de núcleos do tronco), forte marcador prodrómico de sinucleinopatia.
  • Depressão e alterações do humor.

Além do défice dopaminérgico, há degenerescência de sistemas colinérgico, noradrenérgico (locus coeruleus) e serotoninérgico, que fundamenta muitos sintomas resistentes à levodopa (défice cognitivo, disautonomia, alterações do humor, quedas).

O diagnóstico da DP é clínico, seguindo os critérios MDS 2015 (Movement Disorder Society). O primeiro passo é confirmar parkinsonismo: bradicinésia mais rigidez e/ou tremor de repouso. Estabelecido o parkinsonismo, aplicam-se três conjuntos de critérios.

Critérios de suporte (aumentam a probabilidade de DP):

  • Resposta clara e marcada à levodopa.
  • Discinésias induzidas por levodopa.
  • Tremor de repouso de um membro.
  • Presença de hiposmia ou desnervação simpática cardíaca na cintigrafia MIBG.

Critérios de exclusão absoluta (afastam DP): sinais/anomalias cerebelosas inequívocas, paralisia supranuclear do olhar vertical para baixo, diagnóstico de variante comportamental de demência frontotemporal/afasia primária progressiva nos primeiros 5 anos, parkinsonismo restrito aos membros inferiores por mais de 3 anos, tratamento com bloqueador dopaminérgico compatível com parkinsonismo iatrogénico, ausência de qualquer resposta a doses altas de levodopa, ou imagiologia funcional dopaminérgica pré-sináptica normal.

Sinais de alarme (red flags) que sugerem parkinsonismo atípico:

  • Quedas precoces e recorrentes e paralisia do olhar vertical (para baixo) → paralisia supranuclear progressiva (PSP).
  • Disautonomia grave e precoce (hipotensão ortostática, disfunção urogenital), disfunção cerebelosa ou sinais piramidais → atrofia multissistémica (AMS).
  • Progressão rápida (cadeira de rodas em 5 anos), simetria acentuada, ausência de sintomas não-motores e má resposta à levodopa.
  • Demência precoce com flutuações e alucinações visuais → demência de corpos de Lewy (parkinsonismo e demência com início < 1 ano entre si).

A neuroimagem estrutural (RM) serve sobretudo para excluir mímicos (vascular, hidrocefalia de pressão normal). O DaTscan (SPECT do transportador de dopamina) documenta desnervação dopaminérgica pré-sináptica e ajuda a distinguir DP de tremor essencial ou parkinsonismo farmacológico (DaTscan normal nestes), mas não distingue DP dos parkinsonismos atípicos. A prova terapêutica com levodopa continua a ser um instrumento diagnóstico de grande valor.

Doença de Parkinson — parkinsonismo e sinais de alarme PARKINSONISMO (síndrome motora dos gânglios da base) BRADICINÉSIA obrigatória + rigidez e/ou tremor de repouso (4-6 Hz) Instabilidade postural é tardia — não integra o núcleo diagnóstico precoce. Doença de Parkinson — o que aponta a favor Início assimétrico — um hemicorpo mais afetado. Resposta robusta e sustentada à levodopa. Sintomas não-motores prodrómicos (precedem os motores em anos): hiposmia · obstipação · perturbação do sono REM (RBD) · depressão Substrato: substância negra pars compacta + corpos de Lewy (alfa-sinucleína). ! Sinais de alarme — suspeitar de parkinsonismo ATÍPICO ou SECUNDÁRIO Quedas precoces recorrentes + paralisia do olhar vertical inferior → PSP Disautonomia grave precoce (ortostatismo, urogenital), cerebelo ou piramidal → AMS Demência precoce com flutuações e alucinações visuais → corpos de Lewy Simetria acentuada · progressão rápida (cadeira de rodas em < 5 anos) Má resposta ou ausência de resposta à levodopa · sem sintomas não-motores Bloqueadores D2 (neurolépticos, metoclopramida, flunarizina) → farmacológico Terapêutica — pontos-chave Levodopa (+ carbidopa/benserazida) é o fármaco mais eficaz nos sintomas motores. A longo prazo surgem complicações motoras: flutuações (wearing-off, on-off) e discinésias.

O tratamento da DP é sintomático (não modifica a progressão) e visa otimizar função e qualidade de vida. A decisão de iniciar terapêutica é guiada pelo grau de incapacidade, não por um valor rígido, e a escolha do primeiro fármaco pondera idade, comorbilidades e risco de efeitos adversos.

Levodopa (associada a carbidopa ou benserazida) é o fármaco mais eficaz no controlo dos sintomas motores e o de escolha, sobretudo em doentes mais idosos ou com incapacidade significativa. A carbidopa/benserazida inibe a descarboxilase periférica, reduzindo náuseas e hipotensão. Limitação a longo prazo: complicações motoras.

Agonistas dopaminérgicos (pramipexol, ropinirol, rotigotina transdérmica) são alternativa inicial em doentes mais jovens, adiando o início da levodopa e as flutuações. Menor potência motora e risco de sonolência diurna, edema, alucinações e perturbações do controlo dos impulsos (jogo, compras, hipersexualidade), que devem ser ativamente rastreadas.

Inibidores da MAO-B (rasagilina, selegilina, safinamida) oferecem benefício sintomático ligeiro, úteis em monoterapia inicial na doença ligeira ou como adjuvantes.

Adjuvantes para prolongar o efeito da levodopa: inibidores da COMT (entacapona) reduzem o wearing-off; amantadina é o fármaco de eleição para as discinésias. Anticolinérgicos (triexifenidilo) podem ajudar no tremor em jovens, mas evitam-se em idosos pelo risco cognitivo.

Ao longo dos anos surgem complicações motoras: flutuações (wearing-off, fenómeno on-off) e discinésias. Geridas fracionando doses, associando adjuvantes ou recorrendo a terapêuticas de administração contínua (infusão intestinal de gel de levodopa, apomorfina subcutânea).

A estimulação cerebral profunda (DBS), geralmente do núcleo subtalâmico ou do globo pálido interno, é opção em doentes selecionados: DP com boa resposta à levodopa mas flutuações/discinésias incapacitantes refratárias, sem demência nem perturbação psiquiátrica major. Fisioterapia, terapia da fala e exercício estruturado complementam a farmacoterapia.

Referências

  1. Postuma RB, Berg D, Stern M, et al. MDS clinical diagnostic criteria for Parkinson's disease. Mov Disord. 2015;30(12):1591-1601.
  2. Bloem BR, Okun MS, Klein C. Parkinson's disease. Lancet. 2021;397(10291):2284-2303.
  3. Armstrong MJ, Okun MS. Diagnosis and treatment of Parkinson disease: a review. JAMA. 2020;323(6):548-560.
  4. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Parkinson's disease in adults. NICE guideline NG71; 2017.
  5. Poewe W, Seppi K, Tanner CM, et al. Parkinson disease. Nat Rev Dis Primers. 2017;3:17013.
  6. Kalia LV, Lang AE. Parkinson's disease. Lancet. 2015;386(9996):896-912.

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