Doença de Parkinson
Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 14 perguntas neste tema
A doença de Parkinson é a doença neurodegenerativa mais frequente depois da doença de Alzheimer e a causa de cerca de três quartos dos parkinsonismos. Começa em média por volta dos 60 anos, é um pouco mais frequente no homem e resulta da perda dos neurónios dopaminérgicos da substância negra pars compacta, com corpos de Lewy de alfa-sinucleína. A maioria dos casos é esporádica; as formas monogénicas são raras e pesam sobretudo quando a doença começa antes dos 40 anos.
O parkinsonismo define-se por bradicinésia com rigidez, tremor de repouso ou ambos. Na doença de Parkinson começa de um lado e mantém-se assimétrico, e é precedido, às vezes em décadas, por hiposmia, obstipação, perturbação comportamental do sono REM e depressão. O diagnóstico é clínico, pelos critérios de 2015 da sociedade internacional de doenças do movimento: confirma-se o parkinsonismo, afastam-se os critérios de exclusão absoluta e pesam-se os critérios de suporte contra as bandeiras vermelhas.
O que se não pode falhar é o parkinsonismo que não é doença de Parkinson: o farmacológico, que reverte ao suspender o fármaco, e os atípicos (paralisia supranuclear progressiva, atrofia multissistémica, degenerescência corticobasal, demência com corpos de Lewy), que se denunciam por quedas precoces, disautonomia grave, demência precoce, simetria e má resposta à levodopa.
O tratamento é sintomático. A levodopa é o fármaco mais eficaz e, com os anos, traz flutuações e discinésias, que se gerem com adjuvantes, terapêuticas contínuas ou estimulação cerebral profunda. Na doença avançada pesam sobretudo as quedas, a demência, a psicose e a disfagia, e a pneumonia de aspiração é a causa de morte mais frequente. A medicação antiparkinsónica nunca se suspende de repente.
Anatomia patológica
- Perda dos neurónios dopaminérgicos da substância negra pars compacta, com despigmentação visível a olho nu, e redução da dopamina no estriado.
- Inclusões intraneuronais de alfa-sinucleína: os corpos de Lewy e as neurites de Lewy. É uma sinucleinopatia, como a atrofia multissistémica e a demência com corpos de Lewy.
- A degenerescência atinge também neurónios não dopaminérgicos: colinérgicos do núcleo basal de Meynert, noradrenérgicos do locus coeruleus, serotoninérgicos dos núcleos da rafe, o sistema olfativo, o córtex, a medula e o sistema nervoso autónomo periférico.
Circuito dos gânglios da base
- O estriado é a entrada e o globo pálido interno com a substância negra pars reticulata é a saída, que inibe o tálamo.
- Os neurónios estriatais que projetam para o globo pálido interno (via direta) têm recetores D1; os que projetam para o globo pálido externo (via indireta) têm recetores D2.
- Sem dopamina, o núcleo subtalâmico e o globo pálido interno disparam em excesso, o tálamo fica demasiado inibido e o córtex motor pouco ativado: daí a pobreza de movimentos.
- É este modelo que justifica a estimulação cerebral profunda do núcleo subtalâmico ou do globo pálido interno.
Progressão da patologia
- A patologia de Lewy parece começar no sistema nervoso autónomo periférico, no bulbo olfativo e no núcleo motor dorsal do vago, e subir depois ao tronco cerebral alto, onde atinge a substância negra, e por fim aos hemisférios (estadiamento de Braak).
- A perda dopaminérgica nigral e os sinais motores surgem assim a meio da doença.
- A obstipação, a hiposmia, a perturbação comportamental do sono REM e a desnervação simpática cardíaca podem anteceder os sinais motores em anos ou décadas.
- A patologia não dopaminérgica explica os sintomas que não respondem à levodopa: quedas, bloqueio da marcha, disautonomia, demência.
Mecanismos de morte neuronal
- Stress oxidativo, disfunção mitocondrial (defeito do complexo I), inflamação, excitotoxicidade e acumulação de proteínas mal enoveladas.
- A alfa-sinucleína mal enovelada propaga-se de célula a célula, de forma semelhante a um prião.
Genética
| gene | transmissão | o que distingue |
|---|---|---|
| GBA (glucocerebrosidase) | fator de risco, também em heterozigotia | o maior fator de risco genético pelo tamanho do efeito; défice lisossómico que acumula alfa-sinucleína; ligação à doença de Gaucher |
| LRRK2 | autossómica dominante | a causa conhecida mais frequente de doença familiar; cerca de 1% dos casos esporádicos; fenótipo igual ao esporádico; penetrância variável |
| SNCA (alfa-sinucleína) | autossómica dominante | muito rara; duplicações e triplicações dão início precoce e demência |
| Parkina, PINK1, DJ-1 | autossómica recessiva | início precoce; a parkina explica até 77% dos casos com início antes dos 20 anos, com distonia frequente, boa resposta ao tratamento e demência rara |
O diagnóstico é clínico, pelos critérios de 2015 da MDS (sociedade internacional de doença de Parkinson e doenças do movimento). Os exames só ajudam nos casos duvidosos.
Critérios da MDS (2015)
- Confirmar parkinsonismo: bradicinésia com rigidez, tremor de repouso ou ambos, inequívocos e não explicados por outra causa.
- Procurar critérios de exclusão absoluta, bandeiras vermelhas e critérios de suporte.
Critérios de suporte
- Resposta clara e marcada à terapêutica dopaminérgica: função normal ou quase normal no início do tratamento, melhoria de mais de 30% na escala motora com mudanças de dose, ou flutuações marcadas com desgaste de fim de dose previsível.
- Discinésias induzidas pela levodopa.
- Tremor de repouso de um membro, documentado no exame.
- Hiposmia ou desnervação simpática cardíaca na cintigrafia com metaiodobenzilguanidina.
Critérios de exclusão absoluta (qualquer um afasta a doença de Parkinson)
- Sinais cerebelosos inequívocos.
- Paralisia supranuclear do olhar vertical para baixo, ou lentificação seletiva das sacadas verticais para baixo.
- Demência frontotemporal de variante comportamental ou afasia primária progressiva nos primeiros 5 anos.
- Parkinsonismo limitado aos membros inferiores durante mais de 3 anos.
- Bloqueador dos recetores da dopamina ou depletor de dopamina em dose e tempo compatíveis com parkinsonismo farmacológico.
- Ausência de resposta a levodopa em dose alta (pelo menos 600 mg por dia) com doença pelo menos moderada.
- Perda sensitiva cortical inequívoca, apraxia ideomotora clara de um membro ou afasia progressiva.
- Imagem funcional do sistema dopaminérgico pré-sináptico normal.
- Outra doença documentada que explique o parkinsonismo.
Bandeiras vermelhas
- Cadeira de rodas de uso regular nos primeiros 5 anos, por progressão rápida da marcha.
- Ausência completa de progressão motora durante 5 anos ou mais, sem explicação pelo tratamento.
- Disfunção bulbar grave nos primeiros 5 anos: fala ininteligível ou disfagia que obriga a dieta mole, sonda ou gastrostomia.
- Estridor inspiratório, diurno ou noturno, ou suspiros inspiratórios frequentes.
- Falência autonómica grave nos primeiros 5 anos: queda da pressão arterial de pelo menos 30 mm Hg na sistólica ou 15 mm Hg na diastólica nos 3 minutos depois de se levantar, ou retenção ou incontinência urinária grave.
- Quedas recorrentes (mais de uma por ano) por desequilíbrio nos primeiros 3 anos.
- Anterocolo desproporcionado ou contraturas das mãos ou dos pés nos primeiros 10 anos.
- Nenhum sintoma não motor comum ao fim de 5 anos de doença.
- Sinais piramidais sem outra explicação.
- Parkinsonismo bilateral e simétrico desde o início.
Níveis de certeza
| nível | exige |
|---|---|
| Clinicamente estabelecida | nenhum critério de exclusão, pelo menos 2 critérios de suporte e nenhuma bandeira vermelha |
| Clinicamente provável | nenhum critério de exclusão e bandeiras vermelhas compensadas por critérios de suporte: 1 bandeira pede pelo menos 1 critério de suporte, 2 bandeiras pedem pelo menos 2; mais de 2 bandeiras afastam este nível |
- A demência não exclui a doença de Parkinson.
Exames
| exame | papel |
|---|---|
| Cintigrafia do transportador da dopamina, com ioflupano | redução assimétrica da captação estriatal, sobretudo no putâmen posterior; normal no tremor essencial e no parkinsonismo farmacológico; não distingue a doença de Parkinson dos parkinsonismos atípicos, em que também está alterada |
| Ressonância magnética estrutural | não serve para diagnosticar a doença de Parkinson; procura alternativas: lesões vasculares, hidrocefalia, sinais de parkinsonismo atípico |
| Cintigrafia cardíaca com metaiodobenzilguanidina | desnervação simpática cardíaca, critério de suporte |
| Teste do olfato | hiposmia, critério de suporte |
| Estudo genético | não por rotina; história familiar, início antes dos 40 anos, fenótipo ou origem étnica sugestivos |
Diagnóstico diferencial
| entidade | o que a distingue |
|---|---|
| Paralisia supranuclear progressiva | quedas precoces, paralisia do olhar vertical para baixo com sacadas lentas, rigidez axial com o pescoço em extensão, disfagia e disartria precoces, pouca resposta à levodopa; atrofia do mesencéfalo em «bico de colibri» na ressonância; tauopatia; morte muitas vezes nos primeiros 5 anos |
| Atrofia multissistémica | disautonomia grave e precoce (hipotensão ortostática, retenção urinária, disfunção erétil), sinais cerebelosos ou piramidais, parkinsonismo simétrico com resposta fraca ou transitória; sinal da «cruz» na protuberância ou hipersinal da margem externa do putâmen; inclusões gliais de alfa-sinucleína; morte em 6 a 8 anos |
| Degenerescência corticobasal | parkinsonismo muito assimétrico com distonia e mioclonias de um membro, apraxia, perda sensitiva cortical, membro alienígena; em regra sem resposta à levodopa; tauopatia |
| Demência com corpos de Lewy | demência antes do parkinsonismo ou até 1 ano depois, alucinações visuais espontâneas, flutuações da atenção, disfunção visuoespacial e executiva |
| Parkinsonismo farmacológico | antipsicóticos, metoclopramida e proclorperazina, tetrabenazina, flunarizina e cinarizina, ácido valproico, lítio, amiodarona; classicamente simétrico e sem tremor de repouso, mas pode ser indistinguível; transportador da dopamina normal; pode demorar meses a resolver depois de suspender o fármaco e às vezes persiste |
| Parkinsonismo vascular | predomínio nos membros inferiores e na marcha, tremor raro, fatores de risco vascular, por vezes agravamentos em degrau; ressonância com lesão vascular |
| Hidrocefalia de pressão normal | alteração da marcha, défice cognitivo e urgência ou incontinência urinária, com ventrículos dilatados sem atrofia proporcional |
| Tremor essencial | tremor postural e cinético, simétrico, 6 a 10 Hz, sem bradicinésia; transportador da dopamina normal |
| Doença de Wilson | doente jovem, doença hepática |
| Distonia sensível à levodopa | antes dos 20 anos; resposta excelente à levodopa sem neurodegenerescência |
Nenhum tratamento atrasa comprovadamente a progressão. O tratamento é sintomático, individualizado e ajusta-se à idade, à incapacidade, às comorbilidades e aos efeitos adversos.
Início do tratamento
- Sintomas motores que já pesam na qualidade de vida: levodopa.
- Sintomas motores sem impacto na qualidade de vida: escolha entre levodopa, agonista dopaminérgico ou inibidor da monoaminoxidase B.
- Tende a preferir-se a levodopa no idoso, no doente com défice cognitivo ou comorbilidades, e quando o diagnóstico é incerto; o agonista no doente jovem, para adiar as complicações motoras.
- Quase todos acabam por precisar de levodopa e de associações. Não se nega a levodopa a quem não fica controlado com as alternativas.
- Antes de começar, avisar o doente e a família do risco de perturbações do controlo dos impulsos, de sonolência súbita e de alucinações.
Fármacos
| classe | exemplos | lugar | efeitos a vigiar |
|---|---|---|---|
| Levodopa com inibidor da descarboxilase periférica | levodopa com carbidopa ou com benserazida | o mais eficaz; melhora a função, a autonomia e a sobrevida | náuseas, vómitos e hipotensão ortostática no início; flutuações e discinésias com os anos |
| Agonistas dopaminérgicos não ergotínicos | pramipexol, ropinirol, rotigotina transdérmica; apomorfina subcutânea | início no jovem; adjuvante nas flutuações, com a maior redução do tempo em desligado | sonolência e adormecimento súbito, alucinações, perturbações do controlo dos impulsos, edema |
| Inibidores da monoaminoxidase B | selegilina, rasagilina, safinamida | monoterapia na doença ligeira (selegilina e rasagilina); adjuvante nas flutuações (as três) | bem tolerados; podem aumentar as discinésias |
| Inibidores da catecol-O-metiltransferase | entacapona (200 mg com cada dose de levodopa), opicapona (50 mg ao deitar), tolcapona | só com levodopa, no desgaste de fim de dose | discinésias e náuseas (reduzir a levodopa 20 a 30%), diarreia, urina corada; hepatotoxicidade grave com a tolcapona, que obriga a vigiar a função hepática |
| Amantadina | a única oral que reduz as discinésias sem agravar o parkinsonismo | défice cognitivo, livedo reticularis, aumento de peso; suspender devagar | |
| Anticolinérgicos | triexifenidilo | só tremor grave no doente jovem | défice cognitivo, retenção urinária, glaucoma; evitar no idoso e em quem já tem flutuações ou discinésias |
- Os agonistas ergotínicos (bromocriptina, cabergolina) não se usam em primeira linha, pelo risco de fibrose valvular cardíaca e pulmonar.
- As náuseas da levodopa resolvem-se com titulação lenta, tomas com alimentos ou domperidona, que bloqueia a dopamina fora do cérebro. A metoclopramida não se usa.
- Perguntar ativamente pelas perturbações do controlo dos impulsos em cada consulta (jogo, compras, hipersexualidade, compulsão alimentar), porque o doente esconde-as. A primeira medida é reduzir gradualmente o agonista.
- Sonolência diurna ou adormecimento súbito: não conduzir e rever a medicação.
Complicações motoras
| complicação | o que é | como se gere |
|---|---|---|
| Desgaste de fim de dose | o benefício de cada toma encurta até se aproximar da semivida da levodopa, de 60 a 90 minutos | fracionar as tomas, juntar inibidor da catecol-O-metiltransferase, inibidor da monoaminoxidase B ou agonista |
| Fenómeno de ligar e desligar | passagens imprevisíveis entre períodos com e sem efeito; atraso ou falha da resposta a uma toma | as mesmas medidas; apomorfina subcutânea de resgate |
| Discinésias de pico de dose | movimentos coreicos, por vezes distónicos, no pico de concentração | reduzir cada dose e fracionar; amantadina |
| Discinésias difásicas | movimentos estereotipados dos membros inferiores no início e no fim do efeito | aliviam com doses maiores de levodopa, à custa de mais discinésias de pico |
- Surgem mais na mulher, no doente jovem, na doença grave e com doses altas de levodopa, e resultam da estimulação dopaminérgica intermitente.
- Com flutuações, a proteína da dieta concentra-se na última refeição do dia, sem reduzir o total.
Terapêuticas avançadas
| terapêutica | indicação |
|---|---|
| Estimulação cerebral profunda do núcleo subtalâmico ou do globo pálido interno | flutuações e discinésias incapacitantes apesar do melhor tratamento oral; tremor incapacitante refratário à levodopa; intolerância à levodopa com resposta objetiva. Oferece-se também nas flutuações precoces. Não se oferece na doença inicial sem flutuações |
| Levodopa com carbidopa em gel, em perfusão contínua por sonda jejunal | flutuações não controladas com fármacos orais |
| Foslevodopa com foscarbidopa em perfusão subcutânea contínua | flutuações graves quando os fármacos não chegam e a apomorfina ou a estimulação não são possíveis ou deixaram de as controlar |
| Apomorfina em perfusão subcutânea contínua | flutuações não controladas com fármacos orais, sem cirurgia |
- A resposta à levodopa antes da estimulação prevê a resposta motora a curto prazo, exceto no tremor.
- A estimulação não melhora o que não responde à levodopa: bloqueio da marcha, quedas, demência. O défice cognitivo significativo pesa contra, porque limita o consentimento e o benefício funcional. As perturbações do controlo dos impulsos e outras perturbações psiquiátricas não a excluem, mas tratam-se antes.
Sintomas não motores
| problema | abordagem |
|---|---|
| Alucinações e psicose | procurar infeção, desidratação ou outra causa; retirar primeiro anticolinérgicos, amantadina e agonistas e só depois baixar a levodopa; não tratar se forem bem toleradas; quetiapina se não houver défice cognitivo; clozapina se falhar, com vigilância do hemograma pelo risco de agranulocitose |
| Demência da doença de Parkinson | inibidor da acetilcolinesterase, com a rivastigmina indicada na norma da DGS; memantina se não for tolerado |
| Depressão e ansiedade | antidepressivos, que não se devem negar; melhorar o controlo dopaminérgico |
| Hipotensão ortostática | rever anti-hipertensores, diuréticos, dopaminérgicos, anticolinérgicos e antidepressivos; sal e cabeceira elevada; midodrina e, em alternativa, fludrocortisona |
| Obstipação | líquidos, fibras, laxantes |
| Sialorreia | terapia da fala; glicopirrónio; toxina botulínica nas glândulas salivares |
| Perturbação comportamental do sono REM | clonazepam, 0,5 a 1 mg ao deitar, ou melatonina |
| Sonolência diurna | rever a medicação; não conduzir |
Medidas não farmacológicas
- Exercício físico regular para todos; fisioterapia para o equilíbrio e a marcha; terapia ocupacional.
- Terapia da fala para a voz, a deglutição e a sialorreia.
- Estímulos sensitivos (marcar o passo, ritmo, uma linha imaginária no chão) ajudam no bloqueio da marcha.
- Suplemento de vitamina D; nutrição; apoio ao cuidador; cuidados paliativos em qualquer fase.
Referências
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