Distrofias musculares
Atualizado em 17 de julho de 2026 · 6 perguntas neste tema
As distrofias musculares são miopatias hereditárias, progressivas, causadas por defeitos em proteínas do complexo distrofina-glicoproteína ou em vias reguladoras do músculo. Para o PNA importam sobretudo três entidades: a distrofia muscular de Duchenne, a sua variante mais ligeira Becker e a distrofia miotónica tipo 1 (Steinert). O reconhecimento do padrão clínico (idade, distribuição da fraqueza, sinais associados) orienta a confirmação genética e antecipa as complicações cardíaca e respiratória que determinam o prognóstico.
O diagnóstico parte do padrão clínico e confirma-se com estudo genético.
Duchenne: rapaz com atraso da marcha e dificuldade a correr, subir escadas e levantar-se. O sinal de Gowers (a criança "trepa" sobre si própria apoiando as mãos nas coxas para se erguer) traduz fraqueza proximal dos membros inferiores. É típica a pseudo-hipertrofia dos gémeos (músculo substituído por tecido fibroadiposo). A fraqueza é proximal e simétrica; a marcha torna-se bamboleante e a perda de marcha ocorre habitualmente na primeira/segunda década. Pode associar-se atraso cognitivo ligeiro.
Becker: fenótipo semelhante mas início mais tardio e mais ligeiro; muitos mantêm a marcha na idade adulta. Cãibras, intolerância ao esforço e, por vezes, cardiomiopatia desproporcionada à fraqueza são pistas.
DM1: adulto jovem com miotonia (relaxamento muscular lento, ex.: dificuldade em largar a mão após aperto ou em abrir os olhos após encerramento forçado; miotonia de percussão da eminência tenar), fraqueza de predomínio distal e facial, ptose, atrofia dos temporais e do esternocleidomastóideo (fácies "em machadinha"). Somam-se cataratas de início precoce, calvície frontal, e manifestações endócrinas.
Exames complementares:
- Creatina-cinase (CK): muito elevada na DMD (frequentemente >10x o normal), moderadamente elevada na DMB; normal ou apenas ligeiramente elevada na DM1.
- Estudo genético: é o exame confirmatório. Na DMD/DMB pesquisa-se deleção/duplicação e depois mutação pontual no gene DMD; na DM1 quantifica-se a expansão CTG no DMPK.
- Eletromiografia (EMG): padrão miopático (potenciais de unidade motora de baixa amplitude, curta duração, polifásicos, recrutamento precoce). Na DM1 há descargas miotónicas (som "em avião a mergulhar").
- Biópsia muscular com imuno-histoquímica: reservada para casos não esclarecidos pela genética; na DMD a marcação para distrofina está ausente, na DMB está reduzida/irregular. Mostra fibras em necrose/regeneração e fibrose.
A sequência prática é reconhecer o padrão, dosear a CK e pedir o teste genético dirigido, deixando EMG e biópsia para quando persiste dúvida.
Referências
- Birnkrant DJ, Bushby K, Bann CM, et al. Diagnosis and management of Duchenne muscular dystrophy, part 1: diagnosis, and neuromuscular, rehabilitation, endocrine, and gastrointestinal and nutritional management. Lancet Neurol. 2018;17(3):251-267.
- Birnkrant DJ, Bushby K, Bann CM, et al. Diagnosis and management of Duchenne muscular dystrophy, part 2: respiratory, cardiac, bone health, and orthopaedic management. Lancet Neurol. 2018;17(4):347-361.
- Duan D, Goemans N, Takeda S, Mercuri E, Aartsma-Rus A. Duchenne muscular dystrophy. Nat Rev Dis Primers. 2021;7(1):13.
- Mercuri E, Muntoni F. Muscular dystrophies. Lancet. 2013;381(9869):845-860.
- Thornton CA. Myotonic dystrophy. Neurol Clin. 2014;32(3):705-719.
- Ashizawa T, Gagnon C, Groh WJ, et al. Consensus-based care recommendations for adults with myotonic dystrophy type 1. Neurol Clin Pract. 2018;8(6):507-520.
- Emery AEH. The muscular dystrophies. Lancet. 2002;359(9307):687-695.
6 perguntas sobre Distrofias musculares
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