Coma e alterações da vigília e estado de consciência
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 11 perguntas neste tema
A consciência tem duas componentes que se lesam de forma independente: o nível, ou vigília, que depende do sistema reticular ativador ascendente, do tegmento da ponte e do mesencéfalo até ao tálamo; e o conteúdo, ou consciência de si e do meio, que depende do córtex e das suas ligações ao tálamo. O coma é o estado em que o doente não desperta e mantém os olhos fechados mesmo com estímulo vigoroso, e exige lesão do tronco ou do diencéfalo, ou disfunção difusa dos dois hemisférios; uma lesão de um só hemisfério só causa coma quando já está a comprimir o tronco.
As causas arrumam-se em estruturais (hemorragia, enfarte, tumor, abcesso, traumatismo, hidrocefalia), que dão sinais assimétricos e perda ordenada das funções do tronco, e metabólicas ou tóxicas (hipoglicemia, alterações do sódio, falência hepática ou renal, hipercapnia, fármacos e tóxicos), que dão depressão simétrica com as pupilas reativas até muito tarde. Juntam-se-lhes a meningite e as crises epiléticas, incluindo o estado de mal não convulsivo. Três pontos do exame fazem a separação: a resposta motora à dor, as pupilas e os movimentos oculares reflexos.
A abordagem corre em paralelo com a estabilização: via aérea, ventilação e circulação, glicemia capilar imediata e correção da hipoglicemia sem atraso, tiamina antes ou com a glicose no doente em risco, naloxona quando há miose com depressão respiratória. Seguem-se a tomografia, a punção lombar ou o antibiótico empírico quando há suspeita de infeção, e o eletroencefalograma quando o coma fica por explicar. A escala de Glasgow regista-se por componentes, porque é a resposta motora que distingue doentes com o mesmo total.
O coma depois da paragem cardíaca tem regras próprias: prevenir ativamente a febre, manter a pressão arterial média acima de 60 a 65 mmHg e não prognosticar antes das 72 horas, com uma estratégia que junta exame, eletrofisiologia, biomarcadores e imagem.
O coma é transitório. Quem desperta sem recuperar a consciência entra na síndrome de vigília sem resposta (antigo estado vegetativo) ou no estado de consciência mínima, que se confundem em cerca de 40% dos diagnósticos. A síndrome de encarceramento não é coma: o doente está consciente e comunica pelo olhar vertical. A morte cerebral é, em Portugal, a morte da pessoa (Lei n.º 141/99), verificada pelos critérios da Ordem dos Médicos.
O que não se pode falhar: a hipoglicemia, a meningite, a herniação em curso, a oclusão da artéria basilar, o estado de mal não convulsivo, a encefalopatia de Wernicke, e o doente encarcerado tomado por inconsciente.
Referências
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