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Coma e alterações da vigília e estado de consciência

Matriz PNA:D · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 11 perguntas neste tema

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Em resumo

O coma é uma emergência neurológica em que o doente perde simultaneamente a vigília e a consciência do meio, exigindo estabilização e diagnóstico etiológico em paralelo. Dominar a Escala de Coma de Glasgow, o exame do tronco cerebral e a distinção entre causas estruturais e metabólicas/tóxicas permite reverter de imediato o que é reversível e reconhecer a herniação antes que se torne irreversível. Este capítulo cobre o espectro da vigília, a avaliação sistematizada, a abordagem terapêutica e os estados de consciência alterada relevantes para o PNA.

A avaliação corre em paralelo com a estabilização: garantir via aérea, ventilação e circulação (ABC) e obter glicemia capilar de imediato. A colheita rápida de história (colaterais, fármacos, tóxicos, trauma, febre, início súbito vs progressivo) orienta a etiologia.

Escala de Coma de Glasgow (GCS): abertura ocular /4, resposta verbal /5, resposta motora /6; total 3 a 15. O coma corresponde tipicamente a GCS igual ou inferior a 8, limiar clássico para considerar proteção da via aérea. A resposta motora é o item com maior valor prognóstico; documentar sempre os subscores (p. ex. E2V3M4), não apenas o total.

Exame do tronco cerebral (localiza a lesão e distingue estrutural de metabólico):

  • Pupilas: tamanho e reatividade. Anisocoria com midríase fixa unilateral sugere compressão do III par por herniação uncal; mióticas puntiformes apontam lesão pontina ou opioides; midríase bilateral fixa surge na anóxia grave ou em anticolinérgicos.
  • Reflexo oculocefálico (olhos de boneca) e oculovestibular (prova calórica com água fria): testam a integridade do tronco entre III e VIII pares. Só realizar o oculocefálico após excluir lesão cervical.
  • Reflexo corneano, tosse/gag, padrão respiratório (Cheyne-Stokes, hiperventilação neurogénica central, apneústico, atáxico) completam a topografia.
  • Postura reflexa: descorticação (flexão dos membros superiores) indica lesão acima do núcleo rubro; descerebração (extensão) indica disfunção mais caudal e é mais grave.

Padrão a favor de causa metabólica/tóxica: depressão simétrica, reflexos de tronco (sobretudo pupilares) preservados, asterixis, mioclonias, tremor.

Exames: glicemia, ionograma, gasometria, função hepática/renal, amónia, cálcio, rastreio toxicológico, hemograma, PCR. TC-CE urgente perante suspeita estrutural ou coma inexplicado; punção lombar se meningite/encefalite ou hemorragia subaracnoideia com TC não conclusiva; EEG se se suspeitar de estado de mal não-convulsivo (causa subvalorizada de coma). A escala FOUR (Full Outline of UnResponsiveness) é alternativa útil no doente intubado, por avaliar reflexos de tronco e respiração sem depender da componente verbal.

Coma — espectro da consciência, Glasgow e exame do tronco Espectro da consciência (nível de arousal decrescente →) Vigil desperto, orientado Sonolência desperta ao chamar Estupor só a estímulo forte Coma olhos fechados Escala de Coma de Glasgow (GCS) — total 3 a 15 Abertura ocular /4 Resposta verbal /5 Resposta motora /6 4 Espontânea 3 A estímulo verbal 2 A estímulo doloroso 1 Ausente 5 Orientada 4 Confusa 3 Palavras inapropriadas 2 Sons incompreensíveis 1 Ausente 6 Obedece a ordens 5 Localiza a dor 4 Retirada à dor 3 Flexão (descorticação) 2 Extensão (descerebração) 1 Ausente Total 3–15 · coma tipicamente GCS ≤ 8 (limiar para proteger a via aérea). Documentar subscores (ex. E2V3M4); a resposta motora tem o maior valor prognóstico. Reverter o reversível — cocktail do coma Glicose IV após glicemia capilar (ou empírica se indisponível). Tiamina ANTES da glicose no alcoólico/desnutrido → evita encefalopatia de Wernicke. Naloxona se suspeita de opioides (mióse + depressão respiratória). Flumazenil: raro (convulsões). Estrutural vs Metabólica/tóxica — distinção-chave ESTRUTURAL (focal, assimétrico) • Sinais focais, assimétricos • Sinais de tronco / herniação • Anisocoria fixa, postura reflexa • Ex.: AVC, hemorragia, tumor, trauma METABÓLICA / TÓXICA (simétrico) • Depressão simétrica • Reflexos de tronco preservados • Pupilas reativas; asterixis, mioclonias • Ex.: hipoglicemia, hiponatremia, hepática, tóxicos Exame do tronco cerebral Pupilas: midríase fixa unilateral → herniação uncal (III par) puntiformes → lesão pontina/opioides; bilateral fixa → anóxia Oculocefálico + oculovestibular (calórica): integridade do tronco Reflexo corneano, tosse/gag; padrão respiratório (Cheyne-Stokes, hiperventilação central, apneústico, atáxico) Postura: descorticação (flexão) < descerebração (extensão) Pupilas Simétricas, reativas Midríase fixa (III par)

A abordagem é simultânea ao diagnóstico e segue a lógica de estabilizar e reverter o reversível.

1. ABC e proteção da via aérea: administrar oxigénio, monitorizar, obter acessos. GCS igual ou inferior a 8, ausência de reflexo de tosse ou hipoventilação são indicação para entubação orotraqueal. Corrigir hipotensão e hipóxia (ambas agravam a lesão cerebral).

2. Cocktail do coma (reverter o reversível de imediato):

  • Glicose IV após glicemia capilar (ou empiricamente se não disponível).
  • Tiamina ANTES da glicose no doente alcoólico ou desnutrido, para prevenir a precipitação de encefalopatia de Wernicke.
  • Naloxona se suspeita de intoxicação por opioides (mióse, depressão respiratória).
  • Flumazenil: uso muito cauteloso e raramente recomendado como rotina (risco de convulsões e de abstinência em uso crónico de benzodiazepinas).

3. Tratar a causa específica:

  • Suspeita de meningoencefalite: antibioticoterapia empírica precoce mais aciclovir (não atrasar à espera da punção lombar/TC).
  • Convulsão/estado de mal: benzodiazepina seguida de antiepilético (a fosfenitoína, valproato ou levetiracetam são opções de segunda linha suportadas pelos dados do ensaio ESETT 2019).
  • Distúrbios metabólicos/eletrolíticos: correção dirigida (hiponatremia, hipercalcemia, hiperamoniemia, etc.).

4. Hipertensão intracraniana e herniação (emergência): elevar a cabeceira a 30 graus com a cabeça em posição neutra, garantir normocapnia, osmoterapia com manitol ou soro salino hipertónico, controlo da dor/agitação e da temperatura. A hiperventilação só deve ser usada como medida-ponte temporária para o bloco operatório, pela vasoconstrição que provoca. Referenciar de imediato a Neurocirurgia para eventual drenagem/descompressão de lesão ocupante de espaço.

5. Cuidados de suporte e alvos fisiológicos: evitar hipotensão, hipóxia, hipertermia e disglicemia; profilaxia de tromboembolismo e de úlceras de stress; proteção ocular; e reavaliação neurológica seriada, documentando a evolução do GCS. Envolver Neurologia/Cuidados Intensivos conforme a etiologia.

Referências

  1. Teasdale G, Jennett B. Assessment of coma and impaired consciousness: a practical scale. Lancet. 1974;2(7872):81-84.
  2. Wijdicks EFM, Bamlet WR, Maramattom BV, Manno EM, McClelland RL. Validation of a new coma scale: the FOUR score. Ann Neurol. 2005;58(4):585-593.
  3. Posner JB, Saper CB, Schiff ND, Claassen J. Plum and Posner's Diagnosis of Stupor and Coma. 5th ed. Oxford University Press; 2019.
  4. Giacino JT, Katz DI, Schiff ND, et al. Practice guideline update recommendations summary: Disorders of consciousness. Neurology. 2018;91(10):450-460.
  5. Greer DM, Shemie SD, Lewis A, et al. Determination of Brain Death/Death by Neurologic Criteria: The World Brain Death Project. JAMA. 2020;324(11):1078-1097.
  6. Nolan JP, Sandroni C, Böttiger BW, et al. European Resuscitation Council and European Society of Intensive Care Medicine guidelines 2021: post-resuscitation care. Resuscitation. 2021;161:220-269.
  7. Kapur J, Elm J, Chamberlain JM, et al. Randomized trial of three anticonvulsant medications for status epilepticus (ESETT). N Engl J Med. 2019;381(22):2103-2113.

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