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Abordagem ao doente com cefaleias

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 16 perguntas neste tema

Em resumo

A cefaleia é das queixas mais frequentes em medicina e, no conjunto do mundo, a doença neurológica que mais incapacidade causa. Divide-se em primária, em que a dor e os sintomas que a acompanham são a própria doença, e secundária, em que é sintoma de outra coisa. A grande maioria é primária: a cefaleia de tensão é a mais frequente na população, e a enxaqueca, que atinge em cada ano cerca de 15% das mulheres e 6% dos homens, é a que mais leva o doente ao médico.

A tarefa clínica é separar a minoria secundária grave da maioria primária, e faz-se com a história e o exame. Os sinais de alarme decidem quem é investigado: início súbito, primeira cefaleia depois dos 50 anos, défice focal, papiledema, febre, agravamento progressivo, dor desencadeada pela tosse ou que muda com a posição, gravidez, neoplasia ou imunossupressão. Sem alarmes e com exame normal, o diagnóstico é clínico e não se pede imagem.

A cefaleia em trovoada, máxima em menos de um minuto, é hemorragia subaracnoideia até prova em contrário: tomografia computorizada sem contraste e, se negativa, punção lombar. A cefaleia nova depois dos 50 anos com claudicação da mandíbula e velocidade de sedimentação alta é arterite de células gigantes, e o corticoide começa antes da biópsia, porque sem tratamento cega.

A enxaqueca é uma doença do cérebro e não dos vasos: os aferentes do trigémio libertam o péptido relacionado com o gene da calcitonina (CGRP, na sigla inglesa), e a vasodilatação é consequência. A crise trata-se cedo, com anti-inflamatório ou paracetamol e um antiemético, e com triptano quando não chegam. A profilaxia entra a partir de 4 crises por mês, e os anticorpos contra o CGRP juntaram-se aos fármacos orais como opção de primeira linha. Contar os dias de medicação aguda previne a cefaleia por uso excessivo de medicação, a causa evitável da cronificação.

O que não se pode falhar é a hemorragia subaracnoideia com tomografia tardia e sem punção, a arterite sem corticoide, o papiledema que ninguém procurou e o triptano dado a um doente coronário.

Porque dói a cabeça

  • Poucas estruturas cranianas são sensíveis à dor: o couro cabeludo, as artérias meníngeas, os seios durais, a foice e os segmentos proximais das grandes artérias piais, além da porção intracraniana do trigémio, do glossofaríngeo, do vago e das raízes cervicais altas.
  • O parênquima, o epêndima, os plexos coroideus e as veias piais não doem. Por isso um hematoma ou um tumor volumoso podem doer pouco ou nada, e a dor das lesões expansivas nasce da tração e distorção das estruturas sensíveis, não da pressão em si.

Enxaqueca

  • Doença do processamento sensorial do cérebro, não dos vasos. Os aferentes do gânglio trigeminal inervam a dura-máter e os grandes vasos (sistema trigémino-vascular). Ativados, libertam o CGRP (péptido relacionado com o gene da calcitonina), que dilata os vasos meníngeos e provoca inflamação neurogénica. A infusão de CGRP desencadeia crises, e bloqueá-lo trata-as e previne-as.
  • A vasodilatação é secundária: as alterações vasculares da enxaqueca e das salvas são conduzidas pelos reflexos autonómicos cranianos e não predizem a resposta ao tratamento.
  • O sinal converge no complexo trigémino-cervical, o núcleo caudal do trigémio prolongado pelos cornos posteriores das primeiras raízes cervicais, o que explica a dor referida à nuca; segue para o tálamo e o córtex. O tronco cerebral (substância cinzenta periaquedutal, locus coeruleus, núcleos da rafe) e o hipotálamo modulam esta via.
  • Pródromo: horas a dias antes da dor, com bocejos, cansaço, dificuldade de concentração, alteração do humor, desconforto cervical, poliúria e desejo de certos alimentos, com ativação hipotalâmica nas imagens funcionais. Parte do que se toma por desencadeante é já o pródromo.
  • Aura: depressão alastrante cortical, uma onda de despolarização neuronal que avança pelo córtex de trás para a frente; explica a marcha lenta do escotoma cintilante.
  • Dopamina: os agonistas dopaminérgicos provocam bocejos, náusea e vómitos no doente com enxaqueca em doses que não afetam os outros, e os antagonistas dopaminérgicos (metoclopramida, clorpromazina) tratam a crise.
  • Genética: há história familiar em 65 a 91% dos casos. A enxaqueca hemiplégica familiar é monogénica e envolve canais iónicos (CACNA1A, canal de cálcio, cerca de 50% dos casos; ATP1A2, bomba de sódio e potássio, cerca de 20%; SCN1A, canal de sódio), o que aponta para um córtex hiperexcitável.
  • Desencadeantes: luz intensa, ruído, fome, o alívio depois de um período de stresse, esforço, mudanças de tempo, menstruação, falta ou excesso de sono, álcool e nitratos.

Onde atuam os fármacos da crise

classemecanismo
Triptanosagonistas dos recetores 5-HT1B e 5-HT1D da serotonina (5-hidroxitriptamina): travam a transmissão no núcleo caudal do trigémio e no tálamo, e contraem os vasos cranianos
Ditanos (lasmiditan)agonistas do recetor 5-HT1F: atuam só nos neurónios, sem vasoconstrição
Gepantes (rimegepant)antagonistas do recetor do CGRP
Antagonistas dopaminérgicostratam a náusea e restabelecem a motilidade gástrica, de que depende a absorção dos outros

Tensão e salvas

  • Tensão: perturbação primária da modulação central da dor. A contração muscular não a distingue da enxaqueca, e o nome não significa que a tensão nervosa seja a causa.
  • Salvas: ativação da substância cinzenta do hipotálamo posterior, junto ao núcleo supraquiasmático, que dá a periodicidade circadiana; o reflexo trigémino-autonómico dá o lacrimejo e a rinorreia. A ptose e a miose resultam da lesão das fibras simpáticas que envolvem a carótida dilatada.

As secundárias que não se podem falhar

causapistas
Hemorragia subaracnoideiacefaleia intensa, máxima em menos de 5 minutos, a pior da vida, com rigidez da nuca e sem febre; paralisia do terceiro par com midríase, hemorragias retinianas; 5 a 12% começam durante uma relação sexual
Outras causas de cefaleia em trovoadahemorragia intracerebral, trombose venosa cerebral, disseção arterial cervical, síndrome de vasoconstrição cerebral reversível, apoplexia hipofisária, quisto coloide do terceiro ventrículo
Meningite ou encefalitefebre, rigidez da nuca, vómitos em cerca de metade, dor que agrava com os movimentos oculares; imita a enxaqueca, com fotofobia e náusea
Arterite de células gigantesmais de 95% com 50 anos ou mais; cefaleia em 60%, claudicação da mandíbula, polimialgia reumática em metade, febre e emagrecimento; artéria temporal espessada, dolorosa e sem pulso; velocidade de sedimentação alta, em média 100 mm/h
Lesão expansiva e hipertensão intracranianacefaleia progressiva, pior de manhã ou que acorda, que agrava com a manobra de Valsalva, com vómitos, papiledema ou défice focal. Os vómitos que antecedem a cefaleia durante semanas são típicos do tumor da fossa posterior
Hipertensão intracraniana idiopáticamulher obesa entre os 15 e os 45 anos, obscurecimentos visuais, diplopia por paresia do sexto par, papiledema
Hipotensão liquóricacefaleia que surge de pé e alivia em minutos ao deitar, depois de punção lombar ou por fuga espontânea
Glaucoma agudodor ocular intensa, náusea e vómitos, olho vermelho com pupila fixa e semidilatada
Hematoma subdural, cefaleia pós-traumáticatraumatismo recente ou antigo, por vezes esquecido
Cefaleia por uso excessivo de medicaçãocefaleia em 15 ou mais dias por mês numa cefaleia prévia, com analgésicos tomados na maioria dos dias
Outrashipertensão arterial mal controlada e apneia do sono (cefaleia ao acordar), fármacos (nitratos, dipiridamol, ciclosporina), privação de cafeína, hipoglicemia, intoxicação por monóxido de carbono

A primeira pergunta perante uma cefaleia não é qual é a primária, é se há alguma coisa a sugerir que seja secundária. Uma cefaleia nova e intensa tem uma probabilidade de causa grave muito maior do que a cefaleia recorrente de há anos.

Anamnese

  • Há quanto tempo, e como era no início: intermitente, diária desde o primeiro dia ou progressiva.
  • Quanto tempo até ao máximo: segundos a um minuto é trovoada.
  • Aviso prévio: aura, pródromo.
  • Onde, como e quanto tempo; hora do dia; se acorda o doente.
  • Agravantes e alívio: luz, ruído, cheiros, esforço, tosse, posição; se procura o escuro e o repouso ou se anda de um lado para o outro.
  • Desencadeantes: sono, jejum, álcool, menstruação, stresse.
  • Repercussão na vida diária.
  • Fármacos: quantos dias por mês toma analgésicos, incluindo os de venda livre; fármacos novos.
  • Antecedentes: neoplasia, imunossupressão, gravidez, anticoagulação, traumatismo; história familiar de cefaleias.

Padrão temporal

padrãoo que sugere
Aguda, nova e intensahemorragia subaracnoideia, meningite, hematoma, glaucoma, sinusite purulenta; primeira crise de enxaqueca
Recorrente, com intervalos livresenxaqueca, tensão episódica, salvas
Diária, não progressivaenxaqueca crónica, tensão crónica, uso excessivo de medicação, cefaleia diária persistente de novo
Progressiva em dias a semanaslesão expansiva, hidrocefalia, hipertensão intracraniana, hematoma subdural

Exame objetivo

Na maioria dos doentes é normal, e a atenção vai para o que muda a conduta:

  • pressão arterial e temperatura;
  • fundoscopia, à procura de papiledema;
  • pares cranianos (sexto par, pupilas), força, sensibilidade, reflexos, coordenação e marcha;
  • sinais meníngeos (Kernig e Brudzinski);
  • depois dos 50 anos, palpação das artérias temporais;
  • olhos (hiperemia, pupila, pressão intraocular), seios perinasais e mobilidade cervical;
  • estado de humor: a ansiedade e a depressão acompanham muitas cefaleias crónicas e tratam-se, mas raramente as explicam.

Sinais de alarme

sinalo que se teme
Início súbito, máxima em menos de 1 minuto; a pior dor da vidahemorragia subaracnoideia, outras causas de trovoada
Primeira cefaleia depois dos 50 anosarterite de células gigantes, lesão expansiva, hematoma subdural
Febre, sinais sistémicosmeningite, encefalite, infeção sistémica
Défice focal, alteração da consciência, convulsãolesão estrutural, hemorragia, encefalite
Papiledemahipertensão intracraniana
Progressiva, ou mudança do padrão de uma cefaleia antigalesão expansiva, uso excessivo de medicação
Desencadeada pela tosse, pelo esforço ou pela manobra de Valsalvalesão da fossa posterior, malformação de Chiari
Posicional: pior deitado e de manhã, ou pior de péhipertensão ou hipotensão intracraniana
Vómitos que precedem a cefaleia; acorda o doentelesão da fossa posterior, hipertensão intracraniana
Gravidez ou puerpériopré-eclâmpsia, trombose venosa cerebral, apoplexia hipofisária
Neoplasia, VIH, imunossupressãometástases, carcinomatose meníngea, infeção oportunista
Olho vermelho e doloroso com sinais autonómicosglaucoma agudo; salvas
Depois de traumatismohematoma
Artéria temporal dolorosa, claudicação da mandíbulaarterite de células gigantes
Cefaleia: sinais de alarme e cefaleias primárias ! Sinais de alarme: mandam investigar, em regra com imagem Início súbito, máxima em menos de 1 minuto Primeira cefaleia depois dos 50 anos Défice focal ou alteração da consciência Papiledema; febre ou sinais sistémicos Desencadeada pela tosse ou esforço; posicional Progressiva, ou mudança do padrão habitual Neoplasia, VIH ou imunossupressão Gravidez ou puerpério; olho vermelho doloroso Conduta: trovoada, tomografia sem contraste e, se negativa, punção lombar. Arterite, corticoide antes da biópsia. Cefaleias primárias: diagnóstico clínico, sem sinais de alarme e com exame normal Enxaqueca Unilateral, pulsátil, 4 a 72 horas Náusea, fotofobia e fonofobia Agrava com o esforço Por vezes aura visual reversível (cada sintoma dura 5 a 60 min) Cefaleia de tensão Bilateral, em aperto Não pulsátil Ligeira a moderada Sem náusea Não agrava com o esforço Cefaleia em salvas Unilateral, periorbitária Excruciante, 15 a 180 min Do lado da dor: lacrimejo, rinorreia, ptose, miose Agitação, não se deita Crise de enxaqueca Anti-inflamatório ou paracetamol, e metoclopramida Triptano se não chega; contraindicado na doença coronária e cerebrovascular e na hipertensão não controlada; nesses casos, gepantes ou lasmiditan Profilaxia: 4 ou mais crises por mês Oral: betabloqueante, topiramato, amitriptilina, candesartan; topiramato e valproato teratogénicos Anticorpos contra o CGRP: também primeira linha Objetivo: reduzir as crises para metade Salvas: na crise, oxigénio a 100% e sumatriptano subcutâneo; na profilaxia, verapamilo com eletrocardiograma

Três perguntas

  1. Há sinais de alarme na história?
  2. O exame, com fundoscopia, é normal?
  3. O padrão encaixa numa cefaleia primária?

Sem alarmes, com exame normal e padrão típico, o diagnóstico é clínico e não se pede imagem. Quando a cefaleia parece primária nos cuidados de saúde primários, mais de 90% são enxaqueca. Se os critérios não fecham, um diário de cefaleias durante um mês esclarece o padrão.

Imagem

situaçãoexame
Cefaleia recente com sinais de alarme ou exame anormaltomografia computorizada (TC) ou ressonância magnética (RM), com sensibilidade semelhante como primeiro rastreio
Início súbito, urgênciaTC sem contraste de imediato
Suspeita de hipertensão intracranianaRM com venografia, antes da punção lombar
Suspeita de hipotensão liquóricaRM com gadolínio: realce difuso das meninges
Cefaleia trigémino-autonómica (salvas, hemicrania paroxística)RM com estudo da hipófise e função hipofisária, pelo excesso de tumores hipofisários que as imitam
GrávidaTC e RM são seguras; evita-se o contraste

Cefaleia em trovoada

passoo que se faz
1TC sem contraste de imediato. Feita nas primeiras 6 horas, num equipamento moderno e lida por neurorradiologista, teve sensibilidade de 100% para a hemorragia subaracnoideia
2TC negativa depois das 6 horas, ou com défice neurológico novo: punção lombar, à procura de xantocromia (sensibilidade de 100% e especificidade de 95% por espectrofotometria) e de eritrócitos
3Hemorragia confirmada: angiografia por TC, com sensibilidade de cerca de 97% para o aneurisma, ou angiografia de subtração
4Tudo negativo: estudo dos vasos (angiografia e venografia) para a síndrome de vasoconstrição cerebral reversível, a disseção arterial e a trombose venosa cerebral

A cefaleia em trovoada primária só se diagnostica depois de imagem cerebral e vascular normais e líquor normal. Com estudo negativo o prognóstico é bom: cerca de 15% têm novos episódios, e perto de metade vêm a ter enxaqueca ou cefaleia de tensão.

Arterite de células gigantes

  • Suspeita-se com mais de 50 anos, cefaleia nova, claudicação da mandíbula, polimialgia, febre, anemia e velocidade de sedimentação ou proteína C reativa elevadas. Velocidade de sedimentação normal não exclui.
  • A ecografia Doppler das temporais mostra o halo hipoecogénico à volta do lúmen.
  • A biópsia da temporal confirma; como o atingimento é segmentar, colhe-se um segmento de 3 a 5 cm, com cortes seriados. A vasculite continua visível na biópsia até cerca de 14 dias depois de iniciar o corticoide, pelo que o tratamento nunca espera pelo exame.

Hipertensão intracraniana idiopática

  • Mulher obesa em idade fértil; cefaleia generalizada, presente ao acordar e pior deitada; obscurecimentos visuais transitórios, diplopia por paresia do sexto par (falso sinal localizador); papiledema, muitas vezes mais impressionante do que a clínica.
  • RM com venografia primeiro (exclui lesão e trombose venosa), depois punção lombar em decúbito lateral com pressão de abertura, habitualmente entre 250 e 450 mm de água. A remoção de líquor alivia a cefaleia.
  • Procurar a causa: vitamina A, isotretinoína, danazol, suspensão de corticoides, trombose venosa, síndrome antifosfolipídica.
  • Campimetria formal mesmo sem queixas visuais: é a visão que está em risco.

Hipotensão liquórica

  • Cefaleia ortostática, que alivia em minutos ao deitar e volta em minutos a uma hora de pé.
  • A causa mais frequente é a punção lombar: surge em 10 a 30%, habitualmente nas primeiras 48 horas, mas até 12 dias depois. Pode ser espontânea, depois de esforço ou tosse.
  • RM com gadolínio com realce meníngeo difuso; pressão de abertura baixa.

Diferencial das primárias

enxaquecatensãosalvashemicrania paroxística
Ladounilateral, pode alternarbilateralsempre o mesmo durante a salvaunilateral
Qualidadepulsátilpressão, apertoperfurante, excrucianteexcruciante
Duração4 a 72 horas30 minutos a 7 dias15 a 180 minutos2 a 30 minutos
Frequênciacrisesepisódica ou diária1 em dias alternados a 8 por dia, à mesma horamais de 5 por dia
Comportamentoquieto, no escurocontinua a atividadeagitado, anda de um lado para o outroagitado
Acompanhanáusea, foto e fonofobiaquase nadalacrimejo, rinorreia, ptose, miose do lado da doridem
Indometacinasem resposta específicasem resposta específicasem respostaabolição completa
  • As crises unilaterais neuralgiformes de curta duração com hiperemia conjuntival e lacrimejo duram 5 a 240 segundos, surgem até 200 vezes por dia e não respondem à indometacina. Distinguem-se da neuralgia do trigémio por terem sinais autonómicos marcados e não terem período refratário ao estímulo.
  • Muitas cefaleias rotuladas de sinusais são enxaqueca ou salvas: a rinorreia e a congestão são sinais autonómicos e os descongestionantes não servem.

Quem faz profilaxia da enxaqueca

  • Doentes com 4 ou mais crises por mês, com crises cada vez mais frequentes, ou com crises que respondem mal ao tratamento agudo, e que aceitam uma toma diária.
  • O objetivo é reduzir a frequência em pelo menos 50%, não abolir as crises. Começa-se com dose baixa e sobe-se devagar até ao benefício ou à dose máxima razoável.
  • O efeito demora 2 a 12 semanas a aparecer. Se funciona, mantém-se cerca de 6 meses e depois reduz-se devagar, para ver se ainda é preciso; muitos doentes ficam depois com menos crises.
  • O diário de cefaleias acompanha tudo: frequência, desencadeantes, dias de medicação e resposta.

Cefaleia por uso excessivo de medicação

A cefaleia secundária que mais cronifica a enxaqueca e a cefaleia de tensão, e a mais evitável. Mais de metade das pessoas com cefaleia em 15 ou mais dias por mês têm-na.

critériodefinição
Cefaleiaem 15 ou mais dias por mês, numa cefaleia prévia
Uso regular durante mais de 3 mesestriptanos, ergotamínicos, opioides ou analgésicos combinados em 10 ou mais dias por mês; analgésicos não opioides (paracetamol, anti-inflamatórios, ácido acetilsalicílico), mesmo alternados entre si, em 15 ou mais dias por mês
  • Os analgésicos combinados são os que juntam fármacos de classes diferentes (por exemplo paracetamol com codeína ou com cafeína).
  • Na prática, para não chegar lá: analgésicos e anti-inflamatórios em no máximo 2 a 3 dias por semana e menos de 10 por mês; triptanos e analgésicos combinados em 2 dias por semana e menos de 8 por mês.
  • Quem tem cefaleia em 2 ou mais dias por semana deve ser avisado do risco.
  • Cerca de metade dos doentes que parecem ter enxaqueca crónica voltam à forma episódica depois de suspender o fármaco em excesso.
  • Uma explicação simples sobre a causa e as consequências, dada nos cuidados de saúde primários, basta muitas vezes para prevenir ou interromper o uso excessivo.

Medidas sem fármacos

  • Vida regular: sono com horários certos, refeições regulares, exercício, sem excesso de cafeína nem de álcool, e cuidado com as variações bruscas de stresse, incluindo o alívio depois de um período tenso.
  • Evitar os desencadeantes que o diário mostra serem reais.
  • Relaxamento, biofeedback e outras técnicas de gestão do stresse ajudam muitos doentes, sobretudo como complemento dos fármacos.
  • Explicar que a enxaqueca é uma tendência herdada, que se controla mas não se cura, e que não se associa a doença grave.

Enxaqueca com aura e risco vascular

  • A enxaqueca com aura associa-se a um risco de acidente vascular cerebral isquémico cerca de 2 vezes maior (risco relativo de 2,16 numa meta-análise), sobretudo na mulher, abaixo dos 45 anos, na fumadora e com contracetivos orais.
  • Na enxaqueca com aura, a contraceção hormonal combinada está contraindicada (categoria 4 dos critérios de elegibilidade da Organização Mundial da Saúde). Os métodos só com progestativo e os não hormonais podem usar-se.
  • Deixar de fumar é prevenção.

A crise de enxaqueca

Princípios: tratar cedo, com a dose adequada; na enxaqueca sem aura, enquanto a dor ainda é ligeira; na enxaqueca com aura, quando começa a dor, porque os triptanos não tratam a aura. O objetivo é estar sem dor às 2 horas, sem recorrência e sem precisar de medicação de resgate.

situaçãoo que se faz
Crise ligeira a moderadaácido acetilsalicílico 900 mg, ibuprofeno 400 a 600 mg, naproxeno 500 a 550 mg ou paracetamol 1000 mg por via oral
Náusea, ou para acelerar a absorçãojuntar metoclopramida 10 mg ou domperidona 10 mg
Sem resposta ao analgésico ou anti-inflamatório, em dose adequada e tomado cedotriptano na crise seguinte: sumatriptano 50 a 100 mg oral (pode repetir-se 2 horas depois, máximo 200 mg por dia), 10 a 20 mg nasal ou 6 mg subcutâneo (pode repetir-se 1 hora depois, máximo 2 doses em 24 horas); rizatriptano 10 mg; zolmitriptano 2,5 mg oral ou 5 mg nasal; eletriptano 40 mg; almotriptano 12,5 mg; naratriptano e frovatriptano 2,5 mg, mais lentos e mais bem tolerados
Vómitos precocesvia não oral: subcutânea, nasal ou retal; ou antiemético associado
Resposta parcial ao triptanosubir para a dose máxima, mudar de via ou de triptano; depois, sumatriptano 50 a 100 mg com naproxeno 550 mg, que também reduz a recorrência
Recorrência depois de respostasegunda dose do mesmo fármaco dentro do limite diário
Falência de 3 triptanos, intolerância ou contraindicaçãogepante (rimegepant 75 mg) ou lasmiditan, que dá tonturas, sonolência e risco de quedas
  • Triptanos contraindicados na doença coronária e cerebrovascular e na hipertensão não controlada. Nestes doentes o paracetamol é a primeira linha, e os gepantes e o lasmiditan a segunda.
  • Ergotamínicos: só quando tudo o resto falhou, e nunca na doença vascular.
  • Opioides e barbitúricos não entram: não tratam o mecanismo, reduzem a resposta futura aos triptanos e alimentam o uso excessivo e a dependência.
  • No idoso com função hepática normal, paracetamol primeiro; anti-inflamatórios em segunda linha, vigiando a hemorragia digestiva e a função renal.

Na urgência e no estado de mal

  • Confirmar que é a enxaqueca habitual: se o doente diz que esta é diferente, excluir causa secundária.
  • Hidratação, ambiente calmo; anti-inflamatório endovenoso (cetorolac 30 mg) ou ácido acetilsalicílico endovenoso, com antagonista dopaminérgico (metoclopramida 10 mg endovenosa, clorpromazina); sumatriptano 6 mg subcutâneo se não o tomou.
  • A dexametasona endovenosa reduz a recorrência depois da alta.
  • Sem resposta: sulfato de magnésio ou valproato endovenosos, bloqueio do grande nervo occipital.
  • Sem opioides.

Profilaxia da enxaqueca

Escolhe-se pela comorbilidade e pelos efeitos adversos. A probabilidade de sucesso com qualquer um é de cerca de 50%.

fármacodoseescolher secuidado
Propranolol40 a 120 mg duas vezes por diahipertensãoasma, síncope, cansaço
Metoprolol25 a 100 mg duas vezes por diaidemidem
Amitriptilina10 a 75 mg à noitecefaleia de tensão associada, insónia, depressãosonolência, aumento de peso
Topiramato25 a 200 mg por diaexcesso de pesoparestesias, lentificação cognitiva, litíase renal, glaucoma; teratogénico
Valproato400 a 600 mg duas vezes por diaepilepsiaaumento de peso, tremor, queda de cabelo, alterações hepáticas e hematológicas; teratogénico
Candesartan4 a 24 mg por diahipertensãotonturas; boa tolerância
Flunarizina5 a 15 mg por diasonolência, aumento de peso, depressão, parkinsonismo
Erenumab70 ou 140 mg subcutâneo cada 4 semanasver abaixoreações no local de injeção, espasmos musculares
Fremanezumab225 mg subcutâneo por mês ou 675 mg cada 3 mesesver abaixoreações no local de injeção
Galcanezumab240 mg de carga e depois 120 mg subcutâneo por mêsver abaixoreações no local de injeção, vertigem, prurido, obstipação
Toxina botulínica A155 unidades em injeções pericranianas cada 12 semanassó na enxaqueca crónica; na episódica os ensaios foram negativosfraqueza da musculatura frontal
  • Topiramato e valproato não se usam na gravidez, e na mulher que pode engravidar só com contraceção eficaz, no âmbito dos programas de prevenção da gravidez da Agência Europeia do Medicamento.
  • O verapamilo, que é a base da profilaxia das salvas, não tem evidência na enxaqueca.

Anticorpos contra o CGRP

  • Anticorpos monoclonais contra o CGRP (fremanezumab, galcanezumab, eptinezumab, este endovenoso) ou contra o seu recetor (erenumab). São específicos da enxaqueca, bem tolerados e sem interações relevantes.
  • A Federação Europeia de Cefaleias (2022) propõe-nos como opção de primeira linha, e a Sociedade Americana de Cefaleias (2024) entende que iniciá-los não deve exigir falência prévia de outros preventivos. Podem começar-se sem suspender antes o fármaco em uso excessivo.
  • Avalia-se a eficácia ao fim de 3 meses seguidos e pondera-se uma pausa depois de 12 a 18 meses de tratamento, retomando se a enxaqueca piorar.
  • Evitam-se na gravidez e na amamentação; na doença vascular decide-se caso a caso.
  • Em Portugal, o financiamento público do erenumab (2021) ficou reservado a adultos com pelo menos 4 dias de enxaqueca por mês e 3 ou mais falências terapêuticas prévias.

Cefaleia por uso excessivo de medicação

  • Suspender o fármaco em excesso, de uma vez ou reduzindo cerca de 10% cada 1 a 2 semanas, e avisar que a cefaleia pode piorar nas semanas de privação.
  • Começar a profilaxia ao mesmo tempo ou logo depois: os preventivos funcionam mal enquanto o uso excessivo continua.
  • Naproxeno 500 mg duas vezes por dia ajuda a dor residual durante a redução.
  • Internamento quando falhou a suspensão em ambulatório ou há doença que a complica (epilepsia, diabetes), sobretudo com opioides ou barbitúricos.

Cefaleia de tensão

  • Na crise: paracetamol, ácido acetilsalicílico ou anti-inflamatório, com o mesmo limite de dias.
  • Os triptanos não servem na cefaleia de tensão pura.
  • Na crónica, a amitriptilina é o único tratamento com eficácia provada; relaxamento e intervenções comportamentais ajudam. A toxina botulínica foi negativa.

Cefaleia em salvas

  • Crise: oxigénio a 100% com débito de pelo menos 12 L/min durante 15 minutos, por máscara, e sumatriptano 6 mg subcutâneo, que encurta a crise para 10 a 15 minutos. Sumatriptano 20 mg ou zolmitriptano 5 mg nasais são alternativa. O triptano oral é lento demais e não serve.
  • Profilaxia de fundo: verapamilo em pelo menos 240 mg por dia. Eletrocardiograma antes de começar e repetido à medida que a dose sobe, 80 mg cada 3 a 4 dias; cerca de um quinto dos doentes faz alterações da condução auriculoventricular, também em dose estável. Lítio em segunda linha.
  • Ponte enquanto o verapamilo faz efeito, ou em salvas curtas: prednisona 60 a 100 mg por dia durante 5 dias, reduzindo depois 10 mg cada 4 a 5 dias; ou bloqueio do grande nervo occipital com corticoide.
  • Evitar o álcool durante a salva, porque desencadeia crises.

Hemicrania paroxística e hemicrania contínua

  • Indometacina, começando em 25 mg três vezes por dia e subindo até 75 mg três vezes por dia; a resposta é completa. Proteção gástrica, porque os efeitos gastrointestinais são o limite.

Arterite de células gigantes

  • Prednisolona 40 a 60 mg por dia no próprio dia da suspeita, cerca de 1 mês, com desmame lento; a maioria precisa de cerca de 2 anos de tratamento e 60 a 85% recaem durante o desmame.
  • Com sintomas visuais: metilprednisolona 1 g endovenosa por dia durante 3 dias, para proteger a visão que resta.
  • O tocilizumab, anticorpo contra o recetor da interleucina 6, aumenta a remissão sustentada e poupa corticoide.
  • A toxicidade do corticoide atinge 35 a 65% dos doentes: vigiar a glicemia, a pressão arterial e o osso.

Hipertensão intracraniana idiopática

  • Suspender o fármaco causal e perder peso: pode ser preciso perder até 15% do peso para a remissão.
  • Acetazolamida 250 a 500 mg duas vezes por dia; o topiramato ajuda na cefaleia e no peso; a furosemida é segunda linha.
  • Perda visual progressiva: fenestração da bainha do nervo ótico, que preserva ou recupera a visão em 80 a 90%, ou derivação do líquor.
  • Seguimento com acuidade visual, pupilas, campimetria formal, fundoscopia e peso.

Hipotensão liquórica

  • Repouso e cafeína; se persistir, cafeína endovenosa (500 mg em 500 mL de soro fisiológico em 2 horas, com eletrocardiograma prévio).
  • O tampão hemático epidural com sangue do próprio doente é habitualmente curativo, tanto na fuga identificada como na cefaleia pós-punção.

Referências

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