Síndromes paraneoplásicas
Atualizado em 17 de julho de 2026 · 14 perguntas neste tema
As síndromes paraneoplásicas são manifestações à distância de uma neoplasia, mediadas por hormonas, péptidos ou por autoimunidade dirigida a antigénios partilhados pelo tumor e por tecidos normais, e não pelo efeito de massa ou pelas metástases. Podem preceder o diagnóstico oncológico em meses a anos, pelo que reconhecer o quadro é muitas vezes a via para descobrir um cancro oculto. O tratamento assenta sobretudo no controlo do tumor de base, complementado por medidas dirigidas à própria síndrome.
1. Endócrinas (secreção ectópica)
- SIADH: produção ectópica de hormona antidiurética (ADH/vasopressina), classicamente pelo SCLC. A retenção de água livre gera hiponatremia euvolémica com osmolalidade sérica baixa, osmolalidade urinária inapropriadamente elevada (>100 mOsm/kg) e sódio urinário aumentado. No conjunto de todas as neoplasias, é a hipercalcemia da malignidade (por PTHrP) a síndrome paraneoplásica endócrina mais frequente; o SIADH é a mais frequente apenas no contexto específico do SCLC.
- Hipercalcemia humoral: mediada pelo péptido relacionado com a paratormona (PTHrP), que mimetiza a PTH no recetor, aumentando a reabsorção óssea e a reabsorção tubular de cálcio. Típica do carcinoma pavimentocelular (pulmão, cabeça e pescoço, esófago, cérvix), do carcinoma renal, da bexiga e do ovário. O perfil laboratorial mostra cálcio alto, PTH suprimida e PTHrP elevado. Outros mecanismos de hipercalcemia oncológica (osteólise local, produção de calcitriol nos linfomas) são distintos.
- Cushing ectópico: secreção de ACTH por SCLC ou tumores carcinoides/neuroendócrinos. Predominam a hipocaliemia, a alcalose metabólica, a hiperglicemia e a fraqueza muscular, muitas vezes sem o fenótipo cushingoide clássico pela rapidez de instalação.
2. Neurológicas (autoimunidade onconeuronal)
O tumor expressa antigénios normalmente restritos ao sistema nervoso; a resposta imune (anticorpos e células T) ataca de forma cruzada o tecido neuronal. Associações-chave:
- Síndrome miasténica de Lambert-Eaton: anticorpos anti-canais de cálcio dependentes da voltagem (anti-VGCC, tipo P/Q) na membrana pré-sináptica, reduzindo a libertação de acetilcolina; forte ligação ao SCLC.
- Degenerescência cerebelosa subaguda: anti-Yo (PCA-1), associada a carcinoma do ovário e da mama.
- Encefalomielite/neuronopatia sensitiva e encefalite límbica: anti-Hu (ANNA-1), ligada ao SCLC.
3. Hematológicas e outras
- Síndrome de Trousseau: estado protrombótico (tromboflebite migratória, tromboembolismo) por fatores procoagulantes tumorais, típico de adenocarcinomas (pâncreas, trato gastrointestinal).
- Eritrocitose por eritropoietina ectópica (carcinoma renal, hepatocelular, hemangioblastoma).
Ao contrário das causas hormonais, as neurológicas são geralmente irreversíveis quando já há morte neuronal, o que reforça o valor da deteção precoce.
A abordagem parte do reconhecimento do padrão clínico e da confirmação de que a manifestação não se explica por metástase, invasão local, distúrbio metabólico comum ou toxicidade terapêutica.
Confirmação bioquímica (endócrinas)
- SIADH: hiponatremia com osmolalidade sérica baixa, osmolalidade urinária inapropriadamente elevada e sódio urinário aumentado, em doente euvolémico com função tiroideia e suprarrenal normais.
- Hipercalcemia por PTHrP: hipercalcemia com PTH suprimida; o doseamento de PTHrP apoia a etiologia paraneoplásica e distingue-a do hiperparatiroidismo primário (PTH elevada) e da produção de calcitriol.
- Cushing ectópico: cortisol elevado não suprimível com dexametasona em dose alta, ACTH elevado e frequente hipocaliemia; a imagem procura o tumor fonte.
Confirmação imunológica (neurológicas)
A pesquisa de anticorpos onconeuronais no soro e no líquido cefalorraquidiano orienta simultaneamente o diagnóstico e a procura do tumor. Os critérios diagnósticos atualizados (PNS-Care, Graus 2021) integram o fenótipo clínico, o tipo de anticorpo e a presença de tumor, classificando os anticorpos em alto risco (>70% associados a cancro, ex.: anti-Hu, anti-Yo) e risco intermédio. Um fenótipo de alto risco com anticorpo de alto risco eleva muito a probabilidade de neoplasia subjacente.
Procura do tumor oculto
Perante uma síndrome paraneoplásica sem cancro conhecido, a investigação deve ser dirigida pelo padrão:
- TC toracoabdominopélvica como primeira linha.
- PET-TC com FDG quando a TC é negativa e a suspeita persiste.
- Rastreios específicos consoante o anticorpo (ex.: imagem pélvica/mama perante anti-Yo; avaliação pulmonar exaustiva perante anti-Hu ou anti-VGCC, dado o peso do SCLC).
- Se a primeira investigação for negativa, recomenda-se vigilância seriada periódica, porque o tumor pode surgir mais tarde.
A electromiografia com estimulação repetitiva apoia o Lambert-Eaton (incremento da resposta em alta frequência), e a RM cerebral e o estudo do LCR ajudam nas encefalites e degenerescências. A confirmação histológica do tumor mantém-se o passo final para estadiamento e tratamento.
Referências
- Graus F, Vogrig A, Muniz-Castrillo S, et al. Updated Diagnostic Criteria for Paraneoplastic Neurologic Syndromes. Neurol Neuroimmunol Neuroinflamm. 2021;8(4):e1014.
- Pelosof LC, Gerber DE. Paraneoplastic syndromes: an approach to diagnosis and treatment. Mayo Clin Proc. 2010;85(9):838-854.
- Goldner W. Cancer-Related Hypercalcemia. J Oncol Pract. 2016;12(5):426-432.
- Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al., eds. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022. Paraneoplastic Syndromes: Endocrinologic/Hematologic and Neurologic.
- Zahid A, Thompson C. Paraneoplastic Syndromes. StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024.
- Qiang JK, Kim WB, Baibergenova A, Alhusayen R. Risk of Malignancy in Dermatomyositis and Polymyositis. J Cutan Med Surg. 2017;21(2):131-136.
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