Neoplasias do pulmão
Atualizado em 17 de julho de 2026 · 8 perguntas neste tema
As neoplasias do pulmão são a principal causa de morte por cancro a nível mundial, com o tabaco como fator etiológico dominante. Distinguem-se dois grandes grupos com implicações clínicas e terapêuticas opostas: o carcinoma não pequenas células (NSCLC, ~85%) e o carcinoma de pequenas células (SCLC, muito agressivo e quimiossensível). O diagnóstico tardio explica o mau prognóstico global, o que valoriza o rastreio com tomografia computorizada (TC) de baixa dose nos fumadores de alto risco e, sobretudo, a cessação tabágica.
A carcinogénese pulmonar resulta da acumulação de lesões genéticas induzidas por carcinogéneos do fumo do tabaco (hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, nitrosaminas), que provocam mutações e instabilidade genómica no epitélio brônquico. O conceito de cancerização de campo explica porque toda a mucosa exposta está em risco, com progressão de hiperplasia para displasia, carcinoma in situ e carcinoma invasor.
Os mecanismos moleculares divergem por histologia, o que sustenta a estratificação terapêutica atual:
- Adenocarcinoma: enriquecido em alterações condutoras (drivers) mutuamente exclusivas e diretamente tratáveis, com destaque para mutação do EGFR (mais comum em não fumadores), rearranjos de ALK e ROS1, e ainda KRAS G12C, BRAF, MET, RET e fusões NTRK. Estas vias ativam sinalização de proliferação e sobrevivência celular.
- Carcinoma pavimentocelular: dominado por inativação de TP53, alterações de vias como PI3K e amplificações; poucas alterações condutoras acionáveis.
- SCLC: caracteriza-se pela perda bialélica de TP53 e RB1 e por amplificação de genes MYC, o que confere o fenótipo neuroendócrino, a elevada taxa de proliferação e a marcada quimiossensibilidade inicial (seguida de recidiva precoce e quimiorresistência).
A natureza neuroendócrina do SCLC (e de alguns tumores carcinoides) explica a produção ectópica de hormonas e péptidos responsáveis pelas síndromes paraneoplásicas:
- SIADH (secreção inapropriada de ADH): hiponatrémia euvolémica, sobretudo no SCLC.
- Síndrome de Cushing por produção ectópica de ACTH: instalação rápida, hipocaliémia e alcalose, sem o fenótipo cushingoide clássico.
- Síndrome miasténica de Lambert-Eaton: anticorpos contra canais de cálcio pré-sinápticos, com fraqueza proximal que melhora com o esforço repetido.
No carcinoma pavimentocelular, a hipercalcémia decorre da produção de PTHrP (péptido relacionado com a PTH). O adenocarcinoma associa-se a hipercoagulabilidade (fenómeno de Trousseau) e a osteoartropatia hipertrófica. Compreender estas vias é essencial: a presença de uma alteração condutora torna a terapia alvo preferível à quimioterapia, e a expressão de PD-L1 informa o benefício da imunoterapia.
A apresentação é frequentemente inespecífica e tardia. Sintomas comuns: tosse persistente ou com alteração de padrão, hemoptise, dispneia, dor torácica, pneumonia obstrutiva recorrente no mesmo território, e sintomas sistémicos (perda ponderal, astenia, anorexia). Deve haver elevado índice de suspeita perante um fumador com sintomas respiratórios que não resolvem.
Alguns quadros de extensão locorregional são altamente sugestivos:
- Tumor de Pancoast (sulco superior): dor no ombro/braço, síndrome de Horner (ptose, miose, anidrose) por invasão do gânglio estrelado e atrofia da mão.
- Síndrome da veia cava superior: edema da face e membros superiores, distensão das veias jugulares e circulação colateral (mais associada ao SCLC).
- Rouquidão por paralisia do nervo laríngeo recorrente (mais o esquerdo).
- Disfagia por compressão esofágica e derrame pleural maligno.
A investigação começa com radiografia e TC do tórax (com contraste, estendida ao abdómen superior/suprarrenais). A confirmação histológica obtém-se por broncofibroscopia com biópsia (útil nas lesões centrais) ou biópsia transtorácica guiada por TC (lesões periféricas); a citologia do derrame pleural também pode ser diagnóstica.
O estadiamento utiliza o sistema TNM da IASLC/UICC. É essencial:
- PET-TC com FDG para avaliar extensão ganglionar e metástases à distância.
- Avaliação invasiva do mediastino com EBUS (ecoendoscopia brônquica) ou mediastinoscopia para confirmar adenopatias N2/N3, decisivas para a operabilidade.
- RM cerebral (o SCLC e o adenocarcinoma metastizam frequentemente para o cérebro).
O SCLC classifica-se ainda, de forma prática, em doença limitada (um hemitórax, abrangível por um campo de radioterapia) versus extensa.
No NSCLC avançado não escamoso (e escamoso em não fumadores/jovens), a caracterização molecular é obrigatória antes de iniciar tratamento: EGFR, ALK, ROS1, além de BRAF, KRAS G12C, MET, RET e NTRK, e ainda a expressão de PD-L1 por imuno-histoquímica. Este perfil determina a escolha entre terapia alvo (inibidores de tirosina cinase) e imunoterapia com ou sem quimioterapia.
A cessação tabágica é a medida isolada com maior impacto na prevenção do cancro do pulmão e deve ser oferecida ativamente a todos os fumadores, com aconselhamento e apoio farmacológico. O risco diminui progressivamente após a cessação, embora permaneça elevado durante muitos anos, o que justifica manter vigilância nos ex-fumadores de alto risco. A prevenção primária inclui ainda mitigação da exposição ao radão doméstico e às exposições ocupacionais (asbesto, sílica, arsénio). Importa recordar que a suplementação com beta-caroteno aumenta o risco em fumadores, pelo que não deve ser usada com intuito preventivo.
O rastreio dirige-se a indivíduos assintomáticos de alto risco com TC de baixa dose (LDCT) anual, estratégia que demonstrou reduzir a mortalidade específica por cancro do pulmão em ensaios de grande dimensão, nomeadamente o NELSON (Europa) e o NLST.
Critérios de elegibilidade da USPSTF (2021), a referência mais citada:
- Idade 50 a 80 anos.
- Carga tabágica de pelo menos 20 UMA (unidades maço-ano).
- Fumadores atuais ou que cessaram há menos de 15 anos.
O rastreio deve cessar quando a pessoa completa 15 anos sem fumar ou quando desenvolve uma condição que limita substancialmente a esperança de vida ou a possibilidade de cirurgia curativa. A decisão deve ser partilhada, integrando a cessação tabágica e a informação sobre falsos positivos e achados incidentais.
Pontos práticos:
- O rastreio não substitui a cessação tabágica; combina-se com ela.
- Deve realizar-se em programas organizados, com protocolos de seguimento de nódulos (categorias tipo Lung-RADS) para reduzir procedimentos desnecessários.
- Em Portugal, o rastreio populacional ainda não está implementado como programa nacional, ao contrário do que sucede com o rastreio da mama, colo do útero e cólon/reto; a evidência e as recomendações europeias apontam, contudo, para a sua adoção em populações de alto risco.
Referências
- US Preventive Services Task Force. Screening for Lung Cancer: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA. 2021;325(10):962-970.
- de Koning HJ, van der Aalst CM, de Jong PA, et al. Reduced Lung-Cancer Mortality with Volume CT Screening in a Randomized Trial. N Engl J Med. 2020;382(6):503-513.
- Hendriks LE, Kerr KM, Menis J, et al. Oncogene-addicted metastatic non-small-cell lung cancer: ESMO Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up. Ann Oncol. 2023;34(4):339-357.
- Hendriks LE, Kerr KM, Menis J, et al. Non-oncogene-addicted metastatic non-small-cell lung cancer: ESMO Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up. Ann Oncol. 2023;34(4):358-376.
- Dingemans AC, Früh M, Ardizzoni A, et al. Small-cell lung cancer: ESMO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, treatment and follow-up. Ann Oncol. 2021;32(7):839-853.
- National Comprehensive Cancer Network. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology: Non-Small Cell Lung Cancer. Version 4.2024.
- Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21ª ed. McGraw-Hill; 2022.
8 perguntas sobre Neoplasias do pulmão
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