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Neoplasias do pâncreas

Matriz PNA:MD · MecanismosD · Diagnóstico

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 9 perguntas neste tema

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Em resumo

O adenocarcinoma ductal do pâncreas é uma neoplasia de mau prognóstico, habitualmente diagnosticada em fase avançada e responsável por elevada mortalidade apesar da incidência relativamente modesta. Este capítulo aborda o tema pela ótica da oncologia médica, com ênfase na apresentação clínica, na estratégia diagnóstica e de estadiamento e no tratamento sistémico (a avaliação de ressecabilidade e a técnica cirúrgica são desenvolvidas em Cirurgia Digestiva).

O adenocarcinoma ductal origina-se no epitélio ductal exócrino e desenvolve-se por progressão de lesões precursoras, tipicamente a neoplasia intraepitelial pancreática (PanIN), que acumula alterações genéticas de forma sequencial. Outras vias precursoras incluem as neoplasias mucinosas papilares intraductais (IPMN) e as neoplasias mucinosas quísticas.

O modelo molecular clássico envolve quatro genes-chave:

  • KRAS: ativação por mutação em mais de 90% dos casos, evento iniciador precoce que sustenta a proliferação.
  • CDKN2A (p16): perda de função, com desregulação do ciclo celular.
  • TP53: inativação, com perda do controlo de apoptose e da estabilidade genómica.
  • SMAD4 (DPC4): perda associada a fenótipo mais agressivo e a maior propensão para disseminação metastática.

Uma característica biológica central é o estroma desmoplásico denso: o tumor induz uma reação fibrótica exuberante, hipovascular e hipóxica, que funciona como barreira à entrega de fármacos e contribui para a quimiorresistência. Este microambiente ajuda a explicar a limitada eficácia da terapêutica sistémica.

Dois fenómenos fisiopatológicos com tradução clínica examinável:

  • Diabetes de novo: o PDAC pode induzir insulinorresistência e diabetes paraneoplásica; uma diabetes de início recente num adulto mais velho, sobretudo com emagrecimento, deve levantar suspeita.
  • Estado de hipercoagulabilidade (síndrome de Trousseau): a tromboflebite migratória e o tromboembolismo venoso resultam de fatores procoagulantes tumorais (fator tecidular, mucinas), constituindo uma manifestação paraneoplásica associada a adenocarcinomas mucinosos, com destaque para o do pâncreas.

A disseminação faz-se por invasão local (via biliar, duodeno, vasos mesentéricos), linfática (adenopatias regionais) e hematogénea, sendo o fígado o local metastático mais frequente, seguido do peritoneu e do pulmão. A invasão perineural, particularmente característica deste tumor, correlaciona-se com a dor dorsal e com a dificuldade em obter margens livres.

A apresentação clássica do tumor da cabeça do pâncreas é a icterícia obstrutiva indolor, acompanhada de colúria, acolia e prurido, por compressão da via biliar. O sinal de Courvoisier (vesícula biliar palpável, não dolorosa, num doente ictérico) sugere obstrução maligna e afasta a litíase como causa mais provável. Outros achados frequentes: dor dorsal (irradiação epigástrica para o dorso, sugerindo invasão perineural/retroperitoneal), emagrecimento e anorexia, diabetes de novo e tromboflebite migratória (Trousseau). Tumores do corpo e da cauda tendem a apresentar-se mais tarde, com dor e perda ponderal, sem icterícia precoce.

Avaliação laboratorial

  • Padrão de colestase (bilirrubina conjugada, fosfatase alcalina e GGT elevadas).
  • CA 19-9: marcador de apoio ao diagnóstico e, sobretudo, útil no seguimento e na avaliação de resposta. NÃO serve para rastreio populacional (baixa especificidade; falsos positivos na colestase/colangite e falsos negativos em doentes com fenótipo Lewis negativo). Deve ser interpretado após resolução da icterícia.

Imagem e obtenção de tecido

  • TC com protocolo pancreático (multifásica, com fases arterial e venosa): exame de eleição para caracterizar o tumor, avaliar a relação com os eixos vasculares (artéria mesentérica superior, tronco celíaco, veia mesentérica superior/porta) e pesquisar metástases, orientando a ressecabilidade.
  • Ecoendoscopia (EUS) com punção aspirativa/biópsia: método preferencial para confirmação histológica, com elevada sensibilidade em lesões pequenas.
  • Colangiopancreatografia por RM (CPRM) e RM complementam a caracterização; a CPRE reserva-se sobretudo para drenagem biliar paliativa (colocação de stent), não como método diagnóstico de primeira linha.

Estadiamento e categorização Após confirmação, o doente é classificado (com base na TC e no estadiamento sistémico) em quatro categorias que orientam a terapêutica: ressecável, borderline (ressecável limítrofe), localmente avançado (não ressecável por envolvimento vascular) e metastático. A pesquisa de mutações germinais BRCA1/2 e a caracterização molecular são recomendadas na doença avançada, pelas implicações terapêuticas.

Adenocarcinoma ductal do pâncreas Neoplasia exócrina mais frequente (>90%); 60-70% na cabeça → icterícia obstrutiva. Apresentação clínica Icterícia obstrutiva indolor — colúria, acolia, prurido (tumor da cabeça). Sinal de Courvoisier — vesícula palpável, indolor, no doente ictérico. Dor dorsal — invasão perineural/retroperitoneal. Emagrecimento e anorexia. Diabetes de novo no adulto mais velho com perda ponderal. Tromboflebite migratória de Trousseau — hipercoagulabilidade. Diagnóstico e estadiamento TC com protocolo pancreático (multifásica) — relação vascular e ressecabilidade. Ecoendoscopia (EUS) com biópsia — confirmação histológica preferencial. CPRE — reservada para drenagem biliar paliativa, não para diagnóstico. ! CA 19-9: seguimento e resposta — NÃO serve para rastreio (interpretar após resolver a icterícia). Categorias que orientam a terapêutica Ressecável Borderline Localmente avançado Metastático Cirurgia seguida dequimioterapia adjuvantemFOLFIRINOX(PRODIGE 24) se bom PS. Terapêuticaneoadjuvante/induçãoe reavaliar aressecabilidade. Não ressecável porenvolvimento vascular.Indução (QT ± RT);reavaliar conversão. Tratamento sistémicopaliativo.Fígado é o localmetastático mais comum. Tratamento sistémico (1.ª linha, bom PS) FOLFIRINOX/mFOLFIRINOX ou gemcitabina + nab-paclitaxel; frágil → gemcitabina em monoterapia.

Referências

  1. Conroy T, Pfeiffer P, Vilgrain V, et al. Pancreatic cancer: ESMO Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up. Annals of Oncology. 2023.
  2. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology. Pancreatic Adenocarcinoma. National Comprehensive Cancer Network; 2024.
  3. Conroy T, Desseigne F, Ychou M, et al. FOLFIRINOX versus gemcitabine for metastatic pancreatic cancer (PRODIGE 4/ACCORD 11). N Engl J Med. 2011;364(19):1817-1825.
  4. Von Hoff DD, Ervin T, Arena FP, et al. Increased survival in pancreatic cancer with nab-paclitaxel plus gemcitabine (MPACT). N Engl J Med. 2013;369(18):1691-1703.
  5. Conroy T, Hammel P, Hebbar M, et al. FOLFIRINOX or gemcitabine as adjuvant therapy for pancreatic cancer (PRODIGE 24/CCTG PA.6). N Engl J Med. 2018;379(25):2395-2406.
  6. Golan T, Hammel P, Reni M, et al. Maintenance olaparib for germline BRCA-mutated metastatic pancreatic cancer (POLO). N Engl J Med. 2019;381(4):317-327.
  7. Wainberg ZA, Melisi D, Macarulla T, et al. NALIRIFOX versus nab-paclitaxel and gemcitabine in metastatic pancreatic ductal adenocarcinoma (NAPOLI 3). The Lancet. 2023.

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