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Neoplasias do fígado e vias biliares

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · Prevenção

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 8 perguntas neste tema

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Em resumo

As neoplasias hepatobiliares primárias abrangem sobretudo o carcinoma hepatocelular (CHC), que surge quase sempre sobre fígado com doença crónica, e os tumores das vias biliares (colangiocarcinoma e carcinoma da vesícula). Este capítulo centra-se no ângulo da oncologia médica e do rastreio: quem vigiar, como estabelecer o diagnóstico de forma não invasiva e que terapêutica sistémica oferecer. A face cirúrgica (estadiamento BCLC operatório, ressecabilidade, transplante e técnicas como o Whipple) é tratada no capítulo de Cirurgia Digestiva.

O CHC resulta de um processo de carcinogénese multifásica sobre um fígado com lesão crónica. A inflamação persistente, a necrose e a regeneração repetida geram stress oxidativo, instabilidade genómica e acumulação de mutações. Histologicamente, a sequência típica é: hepatócito displásico, nódulo displásico de baixo e alto grau e, finalmente, CHC. Este percurso explica por que o risco se concentra nos doentes cirróticos e justifica a vigilância periódica.

Mecanismos etiológicos distintos convergem no mesmo fenótipo:

  • VHB: integra o seu ADN no genoma do hepatócito e expressa proteínas (por exemplo HBx) com atividade oncogénica, promovendo carcinogénese por via direta, além da cirrose.
  • VHC: atua sobretudo de forma indireta, por inflamação crónica, fibrose progressiva e cirrose.
  • Álcool e MASH/MASLD: geram esteato-hepatite, stress oxidativo, lipotoxicidade e fibrose.
  • Aflatoxina B1 (contaminante alimentar em algumas regiões): induz mutação característica do gene TP53, sinergizando com o VHB.

Do ponto de vista molecular, o CHC é hipervascular, com marcada neoangiogénese dependente do VEGF, e caracteriza-se por alterações em vias como TERT, TP53, CTNNB1 (beta-catenina/Wnt). Esta biologia é a base racional da terapêutica atual, que combina bloqueio da angiogénese com imunoterapia por inibição de pontos de controlo (PD-L1/PD-1, CTLA-4). A hipervascularização arterial é também o que sustenta o padrão radiológico diagnóstico.

Nos tumores biliares, a carcinogénese decorre de inflamação crónica e colestase do epitélio ductal (colangite esclerosante, litíase, quistos, parasitoses), com aquisição de alterações moleculares distintas por localização. O colangiocarcinoma intra-hepático apresenta com frequência fusões do FGFR2 e mutações do IDH1, alvos hoje acionáveis; os tumores extra-hepáticos e da vesícula têm perfis próprios (por exemplo alterações de KRAS, TP53, HER2). Esta divergência biológica sustenta a caracterização molecular na doença avançada.

O CHC tem a particularidade de poder ser diagnosticado por imagem, sem biopsia, num doente com fígado de risco (cirrose ou VHB crónico). O suporte é a imagem dinâmica com contraste (TC ou RM multifásicas) e a leitura estruturada pelo sistema LI-RADS. O padrão característico do nódulo maligno é a captação arterial (wash-in) seguida de lavagem em fase venosa/tardia (wash-out). Numa lesão com estas características e dimensão adequada, o diagnóstico pode ser assumido como CHC sem confirmação histológica.

Regras práticas de interpretação:

  • Wash-in arterial + wash-out num nódulo em fígado cirrótico é altamente sugestivo de CHC.
  • Quando a imagem é inconclusiva ou o contexto atípico (por exemplo fígado não cirrótico), impõe-se biopsia para confirmação.
  • A alfafetoproteína (AFP) apoia mas não estabelece isoladamente o diagnóstico: pode estar normal em tumores pequenos e elevada noutras condições; valores muito altos reforçam a suspeita e têm valor prognóstico.

O estadiamento completa-se com avaliação de invasão vascular (trombose tumoral portal), doença extra-hepática (pulmão, osso, adenopatias) e caracterização da função hepática (Child-Pugh, bilirrubina, albumina, tempo de protrombina) e do desempenho (ECOG), que orientam a estratégia terapêutica.

Os tumores biliares seguem lógica diferente: habitualmente exigem confirmação histológica/citológica. A investigação combina TC e colangio-RM (CPRM), e frequentemente CPRE com escovado/biopsia nas lesões da via biliar. O marcador CA 19-9 apoia a monitorização, com a ressalva de poder elevar-se na colestase/colangite sem tumor. Perante um adenocarcinoma hepático de origem incerta, deve equacionar-se colangiocarcinoma intra-hepático versus metástase (o fígado é sede frequente de metástases de outros primários, causa mais comum de lesão maligna hepática do que o próprio CHC). Na doença biliar avançada, a caracterização molecular (fusões de FGFR2, mutação de IDH1, entre outros) passou a ter implicação terapêutica.

A prevenção do CHC é causal e organiza-se por níveis. A prevenção primária mais eficaz é a vacinação universal contra o VHB, que reduz a incidência de infeção crónica e, a longo prazo, de CHC. Acrescem o tratamento antiviral das hepatites crónicas (antivirais orais no VHB; antivirais de ação direta com cura virológica no VHC), a redução do consumo de álcool e a abordagem da síndrome metabólica na MASLD/MASH (peso, controlo glicémico e lipídico).

A prevenção secundária assenta no rastreio/vigilância dos doentes de risco para deteção em estádio tratável:

  • Ecografia hepática, com ou sem AFP, a cada 6 meses nos doentes cirróticos.
  • Vigilância também recomendada em portadores de VHB crónico com risco acrescido, mesmo sem cirrose estabelecida.
  • O intervalo semestral é o padrão; a ecografia é o exame de primeira linha, e a elevação ou subida da AFP pode motivar imagem dinâmica adicional.

É importante reter que não há rastreio populacional do CHC: a vigilância dirige-se a grupos de risco definidos (cirrose de qualquer etiologia e portadores selecionados de VHB), não à população geral.

Nos tumores biliares não existe rastreio populacional estabelecido nem estratégia de vigilância validada de forma generalizada. A prevenção passa sobretudo por controlar os fatores de risco e vigiar entidades predisponentes: acompanhamento da colangite esclerosante primária, ponderação de colecistectomia em situações selecionadas (por exemplo pólipos vesiculares com critérios de risco ou vesícula em porcelana) e seguimento dos quistos do colédoco, cuja excisão reduz o risco de degenerescência. A vacinação contra o VHB e a atenuação da doença hepática crónica beneficiam também, de forma indireta, a saúde hepatobiliar global.

Carcinoma hepatocelular — rastreio e diagnóstico Ângulo médico: o CHC surge quase sempre sobre cirrose; vias biliares em paralelo. Fatores de risco CHC — sobre doença hepática crónica VHB • VHC • Álcool MASLD / esteato-hepatite (MASH) O VHB pode originar CHC mesmo sem cirrose Vias biliares (adenocarcinomas) Colangite esclerosante primária Litíase biliar de longa evolução Quistos do colédoco Rastreio e vigilância Cirróticos e portadores de VHB crónico de alto risco: Ecografia hepática +/- AFP de 6 em 6 meses Sem rastreio populacional — dirigido a grupos de risco definidos. Diagnóstico não invasivo — LI-RADS Nódulo em fígado de risco em TC ou RM dinâmica com contraste: Wash-in arterial + wash-out venoso/tardio = CHC Padrão típico dispensa biópsia; a AFP apoia mas não confirma só por si. Imagem atípica ou fígado não cirrótico: exige biópsia. Terapêutica sistémica de 1.ª linha (CHC avançado) Doente Child-Pugh A e bom estado geral (ECOG): Atezolizumab (anti-PD-L1) + bevacizumab (anti-VEGF) IMbrave150. Avaliar varizes esofágicas antes do bevacizumab. Alternativa: durvalumab + tremelimumab (HIMALAYA) ou TKI. Prevenção (causal) Vacinação universal contra o VHB — medida primária mais eficaz. Tratar hepatites (VHB/VHC), reduzir álcool, controlar MASLD.

Referências

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  8. Kelley RK, Ueno M, Yoo C, et al. Pembrolizumab in combination with gemcitabine and cisplatin for advanced biliary tract cancer (KEYNOTE-966): a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet. 2023;401(10391):1853-1865.
  9. Vogel A, Bridgewater J, Edeline J, et al. Biliary tract cancer: ESMO Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up. Ann Oncol. 2023;34(2):127-140.

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