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Neoplasias de origem primária oculta

Matriz PNA:MD · MecanismosD · Diagnóstico

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 14 perguntas neste tema

Em resumo

O carcinoma de origem primária oculta é um carcinoma, ou uma neoplasia indiferenciada, comprovado por biópsia numa metástase, cujo tumor primário continua por identificar depois de uma avaliação padronizada: história e exame objetivo completos, análises básicas, tomografia computorizada do pescoço, tórax, abdómen e pélvis, mamografia na mulher e imuno-histoquímica feita por fases. Representa 3 a 5% das neoplasias, é mais frequente com a idade e no homem, e tem peso na mortalidade maior do que na incidência. O tabaco, a diabetes tipo 2, algumas doenças autoimunes e a história familiar aumentam o risco.

Clinicamente apresenta-se como doença metastática em vários órgãos, sobretudo fígado, pulmão, gânglios, peritoneu, osso e cérebro, ou como uma complicação: dor óssea, derrame, trombose, hipercalcemia. Cerca de um quarto dos doentes já teve um cancro, e a recidiva desse cancro é a primeira hipótese a excluir. Linfoma, melanoma, sarcoma, tumores germinativos e neuroendócrinos não entram na definição, porque têm tratamento próprio mesmo sem primário.

O objetivo da investigação não é encontrar o órgão a qualquer preço. É classificar o doente. Cerca de 20% pertencem a um dos sete subtipos favoráveis, que se tratam como o cancro que imitam: a doença de local único ou oligometastática, a metástase axilar isolada na mulher, a carcinomatose peritoneal serosa papilar na mulher, o carcinoma epidermoide em gânglios cervicais não supraclaviculares, o homem com metástases ósseas blásticas ou antigénio específico da próstata, o perfil colorretal e o perfil de células renais. Os outros 80% são o grupo desfavorável: tratam-se com um dupleto de platina e com terapêutica dirigida quando a sequenciação encontra um alvo.

O prognóstico do grupo desfavorável é mau: na população, só cerca de 20% estão vivos a 1 ano. O estado geral e a desidrogenase láctica separam quem beneficia de quimioterapia de quem precisa sobretudo de cuidados de suporte. O que não se pode falhar é o subtipo favorável escondido num quadro que parece desfavorável, a recidiva de um cancro antigo e, no homem jovem com massa da linha média, o tumor germinativo extragonadal, que é curável.

Fatores de risco

fatorrisco relativo aproximado
Tabaco, 1 a 15 cigarros por dia1,8
Tabaco, 16 a 25 cigarros por dia3,5
Tabaco, mais de 25 cigarros por dia4,1
Diabetes tipo 21,8
Polimiosite ou dermatomiosite3,5
Colangite biliar primária1,8
Doença de Addison1,7
História familiarfator estabelecido
  • O tabaco pesa mais nos doentes com metástases respiratórias (4,9 vezes) do que nos que têm metástases hepáticas (2,0 vezes), o que é coerente com primários pulmonares não encontrados.
  • Índice de massa corporal e perímetro abdominal altos e nível socioeconómico baixo são possíveis fatores adicionais.
  • Os sobreviventes têm mais segundos cancros, sobretudo do intestino delgado, genitais masculinos e vias aerodigestivas, e também linfoma não Hodgkin e carcinoma epidermoide da pele. O padrão sugere um contributo da imunidade deprimida.

Porque é que o primário não aparece

  • O primário pode ter regredido depois de semear as metástases, ou ser tão pequeno que não se deteta; a imunidade pode tê-lo contido ou eliminado.
  • A hipótese alternativa é a de uma entidade própria, com vantagem para metastizar ou sobreviver à distância em relação ao primário.
  • Os perfis moleculares apontam o pulmão, o rim, a bexiga e as vias pancreatobiliares como origens frequentes do que fica oculto. No fígado, o colangiocarcinoma intra-hepático passa muitas vezes por primário oculto.

O que a biologia mostra

  • Aneuploidia em cerca de 70% dos adenocarcinomas e carcinomas indiferenciados, e alterações dos cromossomas 1 e 12. Não se encontrou uma assinatura molecular exclusiva.
  • O panorama de mutações é semelhante ao dos cancros de primário conhecido: TP53 em cerca de metade dos doentes, KRAS em cerca de 20%, CDKN2A e ARID1A menos. É um panorama heterogéneo, com alterações potencialmente acionáveis dispersas.
  • Ativação de KRAS ou NRAS e deleção de CDKN2A associam-se, de forma independente, a pior prognóstico.
  • Esta sobreposição genómica é a base da abordagem independente do órgão: se o alvo é o mesmo, o fármaco vale seja qual for a origem.

Avaliação mínima obrigatória

  • História e exame objetivo completos.
  • Hemograma e bioquímica básica.
  • Tomografia computorizada com contraste (ou ressonância) do pescoço, tórax, abdómen e pélvis.
  • Mamografia em todas as mulheres.
  • Biópsia da lesão mais acessível com tecido suficiente, por agulha grossa ou excisão, e não citologia aspirativa isolada: é preciso tecido para a imuno-histoquímica, para a sequenciação e para os biomarcadores.

O resto pede-se dirigido pelos achados clínicos e pela histologia. A endoscopia digestiva alta e a colonoscopia fazem-se quando um primário digestivo é plausível, a broncoscopia só quando a clínica ou a imuno-histoquímica apontam pulmão.

Imuno-histoquímica por fases

  1. Linhagem: citoqueratina de largo espectro (epitelial), CD45 (hematolinfoide), SOX10 e S100 (melanoma). Negativa nas três, pensa-se em origem mesenquimatosa.
  2. Par de citoqueratinas 7 e 20 no carcinoma, que restringe a topografia (tabela na figura).
  3. Marcadores dirigidos, escolhidos pelo par e pela clínica, e não em bloco.
marcadoraponta para
TTF-1pulmão, tiroide
CDX2, SATB2tubo digestivo; SATB2 é bastante específico do intestino distal
PAX8mülleriano (ovário, trompa, endométrio), rim, tiroide
GATA3mama (também a triplo-negativa), urotelial
Mamoglobina, GCDFP-15, recetores de estrogéniomama
NKX3.1, antigénio de membrana específico da próstatapróstata
p40, p63, CK5/6carcinoma epidermoide
SALL4, OCT3/4tumor germinativo
Sinaptofisina, INSM1, cromograninaneuroendócrino
Arginase-1, HepPar-1, glipicano-3hepatocelular
Calretinina, WT1, D2-40mesotelioma
  • No homem, exclui-se sempre o carcinoma da próstata com NKX3.1 ou antigénio de membrana específico da próstata. Na mulher, o GATA3 rastreia a mama e o SOX10 a mama triplo-negativa.
  • Na biópsia hepática com adenocarcinoma, o painel inicial é CK7, CK20, CDX2 e TTF-1, com GATA3 ou SOX10 na mulher.
  • O perfil CK7 negativo, CK20 positivo e CDX2 positivo é o de pelo menos 80% dos carcinomas colorretais, mas aparece por vezes em tumores digestivos altos e, raramente, pancreatobiliares.

Onde a imuno-histoquímica engana

  • O TTF-1 só é positivo em cerca de 60% dos adenocarcinomas do pulmão pouco diferenciados e metastizados: um TTF-1 negativo não exclui pulmão. Com CK7 positiva, TTF-1 negativo e suspeita de pulmão, pondera-se a pesquisa da perda de SMARCA4. A napsina A ajuda em conjunto com o TTF-1, pouco quando ele é negativo.
  • O mesotelioma expressa citoqueratinas e passa por carcinoma: nas biópsias de pleura, pericárdio ou peritoneu pede-se calretinina.
  • Sarcomas epitelioides (sinovial, epitelioide) e alguns linfomas e neoplasias de plasmócitos também expressam citoqueratinas.
  • A pouca diferenciação reduz a sensibilidade de todos os marcadores, e nenhum é 100% sensível ou específico: lêem-se padrões, não marcadores isolados.

Marcadores séricos

  • Não se pede painel de marcadores: o antigénio carcinoembrionário, o CA 19-9, o CA 15-3 e o CA 125 sobem sem especificidade e não localizam o primário.
  • Pedem-se dirigidos: alfafetoproteína e gonadotrofina coriónica humana (fração beta) no homem com suspeita de tumor germinativo, antigénio específico da próstata no homem com possível próstata, CA 125 e CA 15-3 na suspeita ginecológica ou mamária, e cromogranina A na suspeita neuroendócrina.
  • Os marcadores que estejam elevados servem depois para seguir a resposta.

Imagem dirigida

situaçãoexame
Adenopatia axilar na mulher com mamografia e ecografia negativasressonância mamária, que encontra o primário em cerca de dois terços e é obrigatória antes de dar o diagnóstico de mama oculta
Adenopatia cervical de carcinoma epidermoidetomografia por emissão de positrões com fluorodesoxiglicose, antes da panendoscopia; ressonância ou tomografia do pescoço; endoscopia flexível
Doença de local único ou oligometastática candidata a tratamento ablativotomografia por emissão de positrões e ressonância cerebral
Suspeita de cabeça e pescoço, metástases cerebrais ou neoplasia pélvicaressonância
Suspeita neuroendócrina ou da próstatatomografia por emissão de positrões com traçador próprio (análogo da somatostatina, ligando do antigénio de membrana específico da próstata)
  • Fora destas situações, a tomografia por emissão de positrões é opcional: mostra bem a extensão da doença, mas só encontra o primário em cerca de um terço dos casos.

Diagnóstico diferencial

  • Recidiva de uma neoplasia prévia: em caso de dúvida, sequenciação comparativa do tumor antigo e da metástase.
  • Carcinoma do pulmão não pequenas células: cerca de 40% são TTF-1 negativos, e a decisão entre metástases pulmonares de um primário oculto e um primário do pulmão com metástases usa a lesão dominante, os gânglios hilares e mediastínicos e o padrão das metástases.
  • Colangiocarcinoma intra-hepático: difícil por imuno-histoquímica; a perda de BAP1 ou ARID1A apoia, mas a decisão é clínica e radiológica.
  • Ovário, rim, glândula salivar e mama têm algoritmos próprios de exclusão.
  • Algumas alterações moleculares apontam uma origem: fusões de ALK ou ROS1 (pulmão), TMPRSS2 (próstata), rearranjo NUTM1 (carcinoma NUT), e assinaturas de luz ultravioleta ou de tabaco.

Estudo molecular

  • A sequenciação de nova geração com painel pan-cancro pode fazer-se por rotina; a instabilidade de microssatélites também. A carga mutacional tumoral e a expressão de PD-L1 pedem-se, pelo menos, quando se pondera imunoterapia.
  • Os classificadores do tecido de origem por expressão génica ou metilação não se recomendam fora de ensaios: predizem um órgão, mas orientar o tratamento por eles não melhorou a sobrevivência.
  • Sem tecido suficiente, a biópsia líquida pode dar a parte molecular, mas não substitui a histologia.

A classificação que decide o tratamento

subtipo favorávelcritérios
Local único ou oligometastáticonúmero de metástases até cinco, todas as lesões tratáveis por cirurgia ou radioterapia; confirmado por tomografia por emissão de positrões e ressonância cerebral; sem carcinomatose pleural, pericárdica, peritoneal ou leptomeníngea
Mama ocultamulher, metástases axilares isoladas, perfil compatível com mama, ressonância mamária negativa
Ovário ocultomulher, carcinomatose peritoneal isolada de adenocarcinoma seroso ou indiferenciado, sem primário no ovário, trompa ou útero; CA 125 muitas vezes alto
Cabeça e pescoçocarcinoma epidermoide em gânglios cervicais não supraclaviculares, sem primário mucoso
Próstatahomem com metástases ósseas blásticas (bacia e coluna lombar) e ou antigénio específico da próstata no sangue ou no tecido
Colorretaladenocarcinoma com metástases sobretudo intra-abdominais, CK7 negativo, CK20 e CDX2 positivos, colonoscopia negativa
Células renaishistologia (células claras ou papilar) e imuno-histoquímica renal (PAX8, PAX2, racemase, CD10), sem lesão no rim
  • Os restantes, cerca de 80%, são o grupo desfavorável.
  • Saíram da lista: o carcinoma pouco diferenciado da linha média (muitos eram tumores germinativos extragonadais, e alguns jovens têm um carcinoma NUT, agressivo e subdiagnosticado); o carcinoma epidermoide em gânglios inguinais, que cabe no grupo oligometastático; e os neuroendócrinos, que se classificam pela sua própria classificação, haja ou não primário.
Carcinoma de origem primária oculta Imuno-histoquímica para orientar a origem e separar os subtipos favoráveis do grupo desfavorável Sequência da imuno-histoquímica, em biópsia com tecido suficiente 1. Confirmar carcinoma excluir linfoma e melanoma CK, CD45, S100/SOX10 → 2. Par CK7 / CK20 define a topografia provável do adenocarcinoma → 3. Marcadores dirigidos órgão-específicos, guiados pelo contexto clínico Par CK7 / CK20: topografia provável CK7+ / CK20− Pulmão, mama, tiroide, endométrio, ovário seroso, pâncreas e via biliar CK7− / CK20+ Colorretal (com CDX2 positivo) CK7+ / CK20+ Urotelial, pancreatobiliar, ovário mucinoso CK7− / CK20− Hepatocelular, renal, próstata, epidermoide, neuroendócrino Marcadores órgão-específicos dirigidos TTF-1: pulmão, tiroide CDX2: trato gastrointestinal PAX8: mülleriano, renal, tiroide GATA3: mama, urotelial GCDFP-15 / mamoglobina: mama NKX3.1 / PSMA / PSA: próstata SALL4 / OCT3-4: tumor germinativo p40 / p63 / CK5-6: epidermoide Sinaptofisina / INSM1: neuroendócrino Séricos úteis: PSA, AFP, beta-hCG Subtipos favoráveis (cerca de 20%): tratar como Local único ou oligometastático: ablação local Mulher, axila isolada: mama Mulher, carcinomatose serosa papilar: ovário Epidermoide cervical não supraclavicular: cabeça e pescoço Homem, osso blástico ou PSA: próstata CK7−, CK20+ e CDX2+: colorretal Perfil de células renais: carcinoma renal Já não são subtipos: linha média no homem jovem, gânglios inguinais epidermoides, neuroendócrinos Grupo desfavorável (cerca de 80%) Adenocarcinoma visceral disseminado Na população, cerca de 20% vivos a 1 ano Adversos: mau estado geral, LDH elevada, fígado, vários locais Tratamento: dupleto de platina com taxano ou gemcitabina Perfil genómico por sequenciação de nova geração, que pode fazer-se por rotina Alvos: fusões NTRK, EGFR, ALK, ROS1, BRAF V600E, ERBB2, FGFR, MET; e instabilidade de microssatélites, que também se pesquisa por rotina. Independentes do órgão: inibidor de TRK nas fusões NTRK; pembrolizumab na instabilidade de microssatélites ou na carga mutacional alta, em segunda linha. Terapêutica dirigida pelo perfil, depois de controlo com platina, contra continuar a quimioterapia: sobrevivência livre de progressão mediana de 6,1 contra 4,4 meses.

Referências

  1. Krämer A, Bochtler T, Pauli C, Baciarello G, Delorme S, Hemminki K, et al. Cancer of unknown primary: ESMO Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up. Ann Oncol. 2023;34(3):228-46.
  2. Krämer A, Bochtler T, Pauli C, et al. Molecularly guided therapy versus chemotherapy after disease control in unfavourable cancer of unknown primary: an open-label, randomised, phase 2 study. Lancet. 2024;404(10452):527-39.
  3. Raghav K, Abbruzzese JL, Varadhachary GR. Carcinoma of unknown primary. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022. p. 716-21.
  4. Other solid tumors (head and neck, sarcomas, melanoma, unknown primary). In: Benjamin IJ, Griggs RC, Wing EJ, Fitz JG, editors. Andreoli and Carpenter's Cecil Essentials of Medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. cap. 62.
  5. Complications of cancer and cancer treatment. In: Benjamin IJ, Griggs RC, Wing EJ, Fitz JG, editors. Andreoli and Carpenter's Cecil Essentials of Medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. cap. 63.

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