NeoplásicaNeoplasias de origem primária ocultaPublicado (Premium)

Neoplasias de origem primária oculta

Matriz PNA:MD · MecanismosD · Diagnóstico

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 16 perguntas neste tema

Fazer perguntas deste tema
Em resumo

O carcinoma de primário oculto (CUP, do inglês cancer of unknown primary) define-se por metástases confirmadas histologicamente na ausência de tumor primário identificável após uma avaliação padronizada. Representa cerca de 2 a 4% de todas as neoplasias e é, na maioria dos casos, um adenocarcinoma disseminado de prognóstico reservado. O raciocínio clínico central consiste em usar a imuno-histoquímica e o contexto clínico para separar os poucos subtipos favoráveis e tratáveis do grande grupo inespecífico.

O CUP é entendido como uma entidade biológica própria, e não apenas uma metástase à espera de primário. A hipótese unificadora é a de um fenótipo metastático precoce e agressivo: o clone tumoral adquire capacidade de disseminação numa fase em que o primário ainda é microscópico, involuiu (regressão espontânea) ou se mantém dormente, enquanto as metástases progridem de forma autónoma.

A nível molecular, o CUP caracteriza-se por elevada instabilidade cromossómica e aneuploidia, com sobreexpressão de genes ligados à motilidade, angiogénese e invasão. Todavia, o panorama de mutações condutoras é globalmente semelhante ao dos carcinomas de primário conhecido: as alterações mais frequentes são em TP53 e KRAS, sem uma assinatura mutacional exclusiva do CUP. Esta sobreposição é a base racional para a abordagem tumor-agnóstica.

Dois eixos moleculares merecem destaque examinável:

  • Classificadores de tecido de origem por perfil de expressão génica (gene expression profiling): conseguem predizer o órgão provável na maioria dos casos. Contudo, o ensaio de Hayashi (2019) demonstrou que orientar a terapêutica pelo tecido predito por estes classificadores não foi superior à quimioterapia empírica com carboplatina e paclitaxel. Por isso, os classificadores de origem não são recomendados por rotina para guiar tratamento site-específico.
  • Perfil genómico abrangente por NGS: identifica alterações potencialmente acionáveis numa fração relevante dos doentes (aproximadamente um terço), incluindo fusões NTRK, BRAF V600E, amplificação/mutação ERBB2 (HER2), alterações de FGFR e MET, além de biomarcadores tumor-agnósticos como instabilidade de microssatélites elevada (MSI-alta)/dMMR e carga mutacional tumoral elevada (TMB-alta).

O ensaio CUPISCO (2024) validou clinicamente este eixo: em CUP desfavorável não pavimentocelular com controlo da doença após indução com platina, a terapêutica dirigida por perfil molecular prolongou a sobrevivência livre de progressão face à continuação de quimioterapia (mediana 6,1 vs 4,4 meses). Consolidou-se, assim, o conceito de que o substrato genómico do CUP, e não o órgão de origem presumido, é o que melhor orienta a decisão nos casos desfavoráveis.

A avaliação parte de uma biópsia representativa com imuno-histoquímica (IHQ) faseada, complementada por história e exame objetivo completos (incluindo mama, pélvico, toque rectal, testículos, pele e cadeias ganglionares), hemograma, bioquímica e TC do tórax, abdómen e pélvis.

O primeiro passo da IHQ é confirmar a linhagem (carcinoma vs linfoma, melanoma ou sarcoma) com um painel de rastreio (citoqueratinas, LCA/CD45, S100/SOX10, vimentina). Confirmado o carcinoma, o par CK7/CK20 orienta a topografia provável:

  • CK7+ / CK20-: pulmão, mama, tiroide, ovário (seroso), pâncreas/via biliar, endométrio.
  • CK7- / CK20+: colorretal.
  • CK7+ / CK20+: urotelial, pancreatobiliar, ovário mucinoso.
  • CK7- / CK20-: hepatocelular, renal, próstata, pavimentocelular, neuroendócrino.

Seguem-se marcadores órgão-específicos dirigidos: TTF-1 (pulmão, tiroide), CDX2 (trato gastrointestinal), PAX8 (mülleriano/ovário, renal, tiroide), GATA3 (mama, urotelial), GCDFP-15/mamoglobina (mama), NKX3.1/PSA (próstata), p40/p63/CK5-6 (pavimentocelular), SALL4/OCT3-4 (tumor germinativo), sinaptofisina/cromogranina/INSM1 (neuroendócrino).

Exames dirigidos por achados: mamografia e ecografia mamária na mulher com adenopatia axilar (com RM mamária se negativas); PSA no homem com metástases ósseas osteoblásticas; AFP e beta-hCG no padrão da linha média sugestivo de tumor germinativo. A PET-TC com FDG tem papel estabelecido sobretudo no carcinoma pavimentocelular de adenopatias cervicais, para localizar um primário oculto de cabeça e pescoço e orientar o campo de tratamento. A endoscopia deve ser guiada por sintomas ou pela IHQ, não indiscriminada.

Deve evitar-se a solicitação em painel de marcadores séricos inespecíficos (CEA, CA 19-9, CA 15-3, CA 125), pois raramente localizam o primário e geram falsos rastreios. PSA, AFP e beta-hCG são as exceções úteis por poderem definir subtipos tratáveis. Quando o tecido é insuficiente, a biópsia líquida por NGS é uma alternativa para pesquisa de alvos.

Carcinoma de primário oculto (CUP) Imuno-histoquímica para orientar a origem e separar os subtipos favoráveis do grupo desfavorável Sequência da imuno-histoquímica (biópsia + TC toracoabdominopélvica) 1. Confirmar carcinoma vs linfoma, melanoma, sarcoma CK, LCA/CD45, S100/SOX10 2. Par CK7 / CK20 define a topografia provável do adenocarcinoma 3. Marcadores dirigidos órgão-específicos, guiados pelo contexto clínico Par CK7 / CK20 — topografia provável CK7+ / CK20− Pulmão, mama, tiroide, ovário seroso, pâncreas e via biliar, endométrio CK7− / CK20+ Colorretal (perfil CDX2+ associado) CK7+ / CK20+ Urotelial, pancreatobiliar, ovário mucinoso CK7− / CK20− Hepatocelular, renal, próstata, pavimentocelular, neuroendócrino Marcadores órgão-específicos dirigidos TTF-1 — pulmão, tiroide CDX2 — trato gastrointestinal PAX8 — mülleriano, renal, tiroide GATA3 — mama, urotelial GCDFP-15 / mamoglobina — mama NKX3.1 / PSA — próstata SALL4 / OCT3-4 — tumor germinativo p40 / p63 / CK5-6 — pavimentocelular Sinaptofisina / INSM1 — neuroendócrino Séricos úteis: PSA, AFP, beta-hCG Subtipos FAVORÁVEIS e tratáveis (cerca de 15 a 20%) Axila isolada (mulher) → tratar como mama Carcinomatose serosa papilar (mulher) → ovário Cervical pavimentocelular → cabeça e pescoço (PET-FDG) Inguinal pavimentocelular → primário anogenital Homem jovem, linha média, AFP/beta-hCG, i(12p) → tumor germinativo extragonadal (curável) Osso osteoblástico + PSA (homem) → próstata CK20+ / CDX2+ / CK7− → esquema colorretal Neuroendócrino pouco diferenciado → platina + etoposido CUP inespecífico DESFAVORÁVEL (cerca de 80%) Adenocarcinoma visceral disseminado Sobrevivência mediana de 9 a 12 meses Adversos: mau estado geral, LDH elevada, fígado, vários locais Tratamento: quimioterapia empírica com platina (+ taxano) Emergentes — perfil genómico (NGS) e biomarcadores tumor-agnósticos NGS deteta alvo acionável em cerca de 1/3 dos doentes: fusões NTRK, BRAF V600E, HER2/ERBB2, FGFR, MET. Tumor-agnóstico: pembrolizumab se MSI-alta/dMMR ou TMB-alta; larotrectinib e entrectinib nas fusões NTRK (inibidores de TRK). CUPISCO (2024): terapêutica dirigida por perfil molecular supera a quimioterapia no CUP desfavorável (PFS mediana 6,1 vs 4,4 meses).

Referências

  1. Krämer A, Bochtler T, Pauli C, et al. Cancer of unknown primary: ESMO Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up. Ann Oncol. 2023;34(3):228-246.
  2. Krämer A, Bochtler T, Pauli C, et al. Molecularly guided therapy versus chemotherapy after disease control in unfavourable cancer of unknown primary (CUPISCO): an open-label, randomised, phase 2 study. Lancet. 2024;404:527-539.
  3. Hayashi H, Kurata T, Takiguchi Y, et al. Randomized phase II trial comparing site-specific treatment based on gene expression profiling with carboplatin and paclitaxel for patients with cancer of unknown primary site. J Clin Oncol. 2019;37(7):570-579.
  4. National Comprehensive Cancer Network. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology: Occult Primary (Cancer of Unknown Primary). 2024.
  5. Rassy E, Pavlidis N. Progress in refining the clinical management of cancer of unknown primary in the molecular era. Nat Rev Clin Oncol. 2020;17(9):541-554.

16 perguntas sobre Neoplasias de origem primária oculta

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

Criar conta e treinar