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Neoplasias da próstata

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · Prevenção

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 10 perguntas neste tema

Em resumo

O adenocarcinoma da próstata é o cancro não cutâneo mais frequente do homem e uma das principais causas de morte por cancro masculina, mas é sobretudo uma doença indolente: encontra-se em mais de 70% das autópsias na oitava década, e a maioria dos homens com o diagnóstico morre de outra causa. Toda a abordagem gira à volta desta tensão, que é separar a doença clinicamente significativa da que nunca faria mal.

Nasce quase sempre na zona periférica da glândula, longe da uretra e ao alcance do toque retal, e por isso não dá sintomas enquanto localizado; as queixas miccionais obstrutivas pertencem à hiperplasia benigna, que cresce na zona de transição. Os fatores de risco são a idade, a história familiar, a ascendência africana e as variantes germinativas de BRCA2. O crescimento depende de androgénios, e é essa dependência que a privação androgénica explora na doença avançada.

Diagnostica-se pelo antigénio específico da próstata (PSA), que é específico do órgão e não do cancro, e pelo toque retal. A ressonância multiparamétrica antes da biópsia decide quem é biopsado e onde; a biópsia dá o índice de Gleason, lido em grupos ISUP de 1 a 5, que com o PSA e o estádio definem o grupo de risco. O risco decide entre vigilância ativa, prostatectomia radical ou radioterapia, e na doença metastática a base é a privação androgénica intensificada.

Em Portugal a norma da Direção-Geral da Saúde proíbe o PSA como rastreio populacional e só o admite como rastreio oportunístico entre os 50 e os 75 anos, com o homem informado dos riscos de sobrediagnóstico e sobretratamento. O que não se pode falhar: investigar um nódulo duro mesmo com PSA normal, não confundir vigilância ativa com observação paliativa, proteger o início de um agonista da hormona libertadora de gonadotrofinas contra a exacerbação e reconhecer a compressão medular metastática como emergência.

Fatores de risco

  • Idade, o determinante mais forte.
  • História familiar: o risco aumenta 2,5 vezes com um familiar em primeiro grau afetado e 5 vezes com dois ou mais. Cerca de 5 a 10% são hereditários, e 40% dos de início precoce.
  • Ascendência africana: mais incidência, doença mais precoce, de grau mais alto e mais agressiva.
  • Variantes patogénicas germinativas de BRCA2: doença mais agressiva, com mais recidiva e mortalidade.
  • Dieta rica em gordura animal associa-se a mais risco; nenhum alimento, vitamina ou suplemento mostrou reduzi-lo.

Anatomia: duas zonas, duas doenças

CarcinomaHiperplasia benigna
zona de origemperiférica, palpável ao toque retaltransição, à volta da uretra
sintomas obstrutivosnão, enquanto localizadosim, são a forma de apresentação
como se detetaPSA ou toque retalqueixas miccionais

Quando um homem com carcinoma localizado tem queixas obstrutivas, vêm quase sempre de hiperplasia concomitante ou de doença localmente avançada.

Dependência androgénica

  • A testosterona é convertida na próstata em di-hidrotestosterona pela 5-alfa-redutase e atua no recetor de androgénios, de que dependem tanto o epitélio normal como o tumoral.
  • Mais de 90% dos androgénios vêm dos testículos e menos de 10% das suprarrenais. É por isso que a castração, cirúrgica ou médica, faz regredir o tumor.
  • Na doença resistente à castração a maioria dos tumores continua dependente da sinalização do recetor: sobre-expressão do recetor, variantes de splicing sem domínio de ligação que o ativam sem ligando, e síntese de androgénios dentro do próprio tumor. É esta a base dos inibidores da via do recetor de androgénios (abiraterona, que bloqueia a síntese pela CYP17, e enzalutamida, apalutamida e darolutamida, que antagonizam o recetor).

Alterações moleculares

  • A fusão TMPRSS2-ERG põe um oncogene da família ETS sob o comando de um promotor regulado por androgénios; é a alteração genómica mais comum.
  • Alterações dos genes de reparação do ADN (BRCA2, BRCA1, ATM, CHEK2) em cerca de 20% da doença metastática resistente à castração e 8 a 12% da localizada; tornam o tumor sensível aos inibidores da PARP (poli-ADP-ribose polimerase).

PSA

  • É uma calicreína, a KLK3, protease de serina do epitélio prostático que liquefaz o coágulo seminal. Produzem-no as células benignas e as malignas: é específico da próstata, não do cancro.
  • No sangue circula sobretudo ligado à alfa-1-antiquimotripsina, com semivida de 1 a 2 semanas; a fração livre é eliminada em 12 a 18 horas. Depois de prostatectomia radical deve ficar indetetável em cerca de 6 semanas.
  • A fração livre é proporcionalmente menor no carcinoma do que na hiperplasia, o que dá sentido à relação livre sobre total.

Graduação

O padrão de Gleason mede a perda de arquitetura glandular, de 1 (bem diferenciado) a 5 (indiferenciado). Somam-se o padrão predominante e o segundo mais frequente; na prática o mínimo atribuído é 6, o que fazia um tumor favorável parecer de meio da escala. Os grupos ISUP (sociedade internacional de patologia urológica), de 1 a 5, corrigem isso e têm relação linear com o prognóstico.

Disseminação

Gânglios pélvicos e retroperitoneais e osso, sobretudo coluna e bacia. As metástases ósseas são caracteristicamente osteoblásticas, escleróticas na radiografia e com captação intensa na cintigrafia, que deteta a reação do osso e não o tumor.

Pontos de partida

  • PSA e toque retal. Um nódulo suspeito investiga-se seja qual for o PSA.
  • Não há valor de PSA abaixo do qual o risco seja zero, e a maioria dos homens com PSA acima de 4 ng/mL não tem carcinoma na biópsia.
  • Com PSA entre 3 e 10 ng/mL num homem com toque normal, repete-se o doseamento ao fim de cerca de 4 semanas antes de avançar.

Interpretar o PSA

  • Colheita: de preferência antes de qualquer manipulação prostática; depois de biópsia, esperar pelo menos um mês.
  • Causas benignas de subida: hiperplasia benigna, prostatite, infeção urinária febril (pode passar de 100 ng/mL e levar até um ano a normalizar), retenção urinária, biópsia, cistoscopia ou algaliação recentes.
  • Densidade de PSA (PSA a dividir pelo volume da próstata): abaixo de 0,10 ng/mL/cm³ o risco de doença clinicamente significativa é baixo; acima de 0,20 é alto.
  • Relação PSA livre sobre total: a norma nacional pede-a só com PSA total entre 4 e 10 ng/mL e toque negativo; abaixo de 25% favorece carcinoma.
  • A prostatite aguda sintomática trata-se antes; antibiótico empírico para baixar um PSA alto num homem assintomático não se faz.

Ressonância magnética antes da biópsia

  • Ressonância multiparamétrica nos homens com suspeita (PSA entre 3 e 20 ng/mL), antes da biópsia.
  • Relata-se por PI-RADS (sistema de relato e dados da imagem da próstata), de 1 a 5, com a probabilidade de doença clinicamente significativa, isto é, ISUP 2 ou mais.
  • PI-RADS 3 ou mais: biópsia dirigida às lesões (3 a 5 fragmentos) e sistemática (pelo menos 12 fragmentos).
  • Ressonância negativa com baixa suspeita clínica e densidade de PSA baixa: pode omitir-se a biópsia, por decisão partilhada.

Biópsia

  • Via transperineal, preferida pelo menor risco infecioso.
  • A anatomia patológica dá o índice de Gleason, o grupo ISUP, o número e a extensão dos fragmentos positivos e a invasão perineural.
  • Neoplasia intraepitelial prostática de alto grau isolada tem significado clínico incerto.
grupo ISUPíndice de Gleason
16 ou menos
27, padrão predominante 3 e secundário 4
37, padrão predominante 4 e secundário 3
48
59 e 10

Grupos de risco da doença localizada (EAU)

A EAU é a associação europeia de urologia.

riscocritérios
BaixoISUP 1, PSA abaixo de 10 ng/mL e cT1 a cT2
Intermédio favorávelISUP 2 com PSA abaixo de 10, ou ISUP 1 com PSA 10 a 20 ng/mL; cT1 a cT2
Intermédio desfavorávelISUP 2 com PSA 10 a 20, ou ISUP 3; cT1 a cT2
AltoISUP 4 ou 5, ou PSA acima de 20 ng/mL
Localmente avançadocT3 a cT4 ou cN1, qualquer ISUP e PSA

Estadiamento

  • T1 impalpável (T1c, detetado por biópsia pedida por PSA elevado), T2 confinado, T3a extensão extracapsular, T3b vesículas seminais, T4 estruturas vizinhas.
  • Ressonância para a extensão local; o toque retal é impreciso e a TC é inferior à ressonância.
  • Risco alto: estadiamento sistémico. A PET com PSMA (antigénio de membrana específico da próstata) é mais sensível do que a TC e a cintigrafia óssea. A cintigrafia raramente é positiva com PSA abaixo de 10 ng/mL, salvo tumor de alto grau.

Diagnóstico diferencial

  • Do PSA elevado: hiperplasia benigna, prostatite, infeção urinária, retenção, manipulação urológica recente.
  • Do nódulo duro: hiperplasia benigna e cálculo prostático.
  • Das lesões ósseas escleróticas: metástases de outros tumores, doença de Paget; fraturas em consolidação e artrose também captam na cintigrafia.
Adenocarcinoma da próstata: do PSA à conduta por risco PSA sérico Específico da próstata, não do cancro. Refina-se com a densidade e a fração livre. Toque retal Nódulo duro, irregular ou assimétrico. Suspeito: investigar mesmo com PSA normal. Ressonância multiparamétrica antes da biópsia (PI-RADS de 1 a 5) PI-RADS 3 ou mais: biópsia dirigida à lesão e sistemática. Ressonância negativa, baixa suspeita e densidade de PSA baixa: pode omitir-se a biópsia. Biópsia dirigida e sistemática, de preferência por via transperineal Anatomia patológica: índice de Gleason traduzido em grupo ISUP. Grupos ISUP (agressividade histológica crescente) ISUP 1 Gleason 6 ISUP 2 Gleason 7 (3 e 4) ISUP 3 Gleason 7 (4 e 3) ISUP 4 Gleason 8 ISUP 5 Gleason 9 ou 10 Grupos de risco (associação europeia de urologia) Baixo ISUP 1, PSA <10 ng/mL e cT1 a cT2 Intermédio ISUP 2 ou 3, ou PSA 10 a 20; cT1 a cT2 Alto ISUP 4 ou 5, ou PSA >20 ng/mL Localmente avançado cT3 a cT4 ou cN1, qualquer ISUP e PSA Conduta Vigilância ativa Padrão no baixo risco: PSA, toque, ressonância e nova biópsia. Tratamento curativo Prostatectomia radical ou radioterapia, com privação androgénica no maior risco. Doença metastática Privação androgénica com inibidor da via androgénica e, em selecionados, docetaxel. ! A reter Rastreio só depois de decisão informada: pesar o sobrediagnóstico e o sobretratamento. Metástases ósseas osteoblásticas (escleróticas), sobretudo na coluna e na bacia. Estadiamento do alto risco: PET com PSMA mais sensível do que a cintigrafia óssea e a TC.

O problema do rastreio

  • O benefício do rastreio por PSA é uma redução modesta da mortalidade por cancro da próstata: entre os 55 e os 69 anos, cerca de 1,3 mortes e 3 casos de doença metastática evitados por cada 1000 homens rastreados. Os danos são os falsos positivos, as complicações da biópsia e, sobretudo, o sobrediagnóstico de tumores que nunca causariam doença e o sobretratamento, com incontinência e disfunção erétil.
  • Por isso não se pede PSA sem o homem saber porquê: a decisão é informada e partilhada, e só vale a pena com esperança de vida longa. Abaixo de 10 a 15 anos de esperança de vida não se oferece.

Norma da Direção-Geral da Saúde (060/2011, atualizada em 2017)

  • O PSA não se prescreve para rastreio populacional.
  • Para rastreio oportunístico, só entre os 50 e os 75 anos, depois de a pessoa ser informada dos benefícios e dos riscos de sobrediagnóstico e hipertratamento, com registo no processo clínico.
PSA totalconduta
abaixo de 2,5 ng/mLrepetir de 2 em 2 anos
de 2,5 a menos de 4 ng/mLrepetir anualmente
de 4 a 10 ng/mL, toque negativopedir a percentagem de PSA livre: 25% ou mais, controlo anual; abaixo de 25%, referenciar para biópsia
acima de 10 ng/mLreferenciar para biópsia
  • A referenciação para biópsia faz-se a consulta hospitalar, no prazo máximo de 60 dias e com caráter prioritário.
  • A indicação principal do PSA é a monitorização depois de tratamento; na doença avançada resistente à castração não se pede, salvo em protocolo de tratamento.

Estratégia europeia adaptada ao risco

A EAU propõe deteção precoce organizada pelo risco individual, e a Recomendação do Conselho da União Europeia de 2022 pede aos Estados-Membros que avaliem programas por etapas, com PSA seguido de ressonância.

inícioquem
50 anospopulação geral
45 anoshistória familiar de cancro da próstata ou ascendência africana
40 anosportadores de variante patogénica de BRCA2
  • O intervalo segue o PSA inicial: de 2 anos quando está acima de 1 ng/mL aos 40 anos ou acima de 2 ng/mL aos 60; até 8 anos na maioria dos homens com PSA baixo até aos 60.

Quimioprevenção

  • Os inibidores da 5-alfa-redutase (finasterida, dutasterida) reduzem o risco relativo de diagnóstico em 23 a 25%, sobretudo à custa de tumores de baixo risco, mas não estão aprovados para prevenção.
  • Vitamina E e selénio não previnem.

Referências

  1. Scher HI, Eastham JA. Benign and malignant diseases of the prostate. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2022. Capítulo 87.
  2. Genitourinary cancers. In: Wing EJ, Schiffman FJ, editores. Cecil Essentials of Medicine. 10.ª ed. Filadélfia: Elsevier; 2022. Capítulo 59.
  3. Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 060/2011 de 29/12/2011, atualizada a 13/07/2017: Prescrição e determinação do antigénio específico da próstata (PSA). Lisboa: DGS; 2017.
  4. European Association of Urology. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer. Arnhem: EAU Guidelines Office; 2025.
  5. Council Recommendation of 9 December 2022 on strengthening prevention through early detection: a new EU approach on cancer screening. Official Journal of the European Union. 2022;C 473:1-10.

10 perguntas sobre Neoplasias da próstata

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