NeoplásicaNeoplasias da cabeça e pescoçoPublicado (Premium)

Neoplasias da cabeça e pescoço

Matriz PNA:D · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 8 perguntas neste tema

Fazer perguntas deste tema
Em resumo

As neoplasias da cabeça e pescoço são maioritariamente carcinomas pavimentocelulares (espinocelulares) da mucosa das vias aerodigestivas superiores, com dois grandes eixos etiológicos: a sinergia tabaco-álcool e a infeção pelo vírus do papiloma humano (HPV). Distinguir o doente HPV-positivo (p16+), de melhor prognóstico, do doente tabágico clássico é a chave que organiza o diagnóstico, o estadiamento e a decisão terapêutica. Este capítulo cobre a apresentação típica, a avaliação diagnóstica, a prevenção e o tratamento multimodal.

Suspeita clínica. Sintomas persistentes (> 2-3 semanas) exigem investigação: disfonia persistente (laringe glótica), disfagia e odinofagia, otalgia referida (dor reflexa por inervação partilhada do IX/X), úlcera oral que não cicatriza, hemorragia oral, trismo e, com frequência no HPV+, uma massa cervical indolor (adenopatia) como primeira manifestação. Perda ponderal e voz abafada são sinais mais avançados.

Exame objetivo. Inspeção e palpação bimanual da cavidade oral e palpação sistemática das cadeias ganglionares cervicais (níveis I-VI). A avaliação da via aérea superior faz-se por nasofibroscopia flexível em consulta de ORL, indispensável para orofaringe, hipofaringe e laringe.

Diagnóstico histológico. A confirmação exige biopsia da lesão primária. Perante uma adenopatia cervical suspeita, a citologia aspirativa por agulha fina (CAAF) é o primeiro passo; nunca fazer biopsia excisional ganglionar cega antes de procurar o primário, pois compromete a disseção subsequente. Se o primário não for evidente (carcinoma de primário oculto), procede-se a panendoscopia com biopsias dirigidas, incluindo amigdalectomia diagnóstica.

Determinação do estado HPV. Em todo o carcinoma da orofaringe é obrigatório determinar o estado de HPV, tipicamente por imuno-histoquímica para p16 (marcador substituto validado), eventualmente confirmado por deteção de HPV. O resultado altera o estadiamento e o prognóstico.

Imagem. TC com contraste do pescoço e tórax e/ou RM (superior para tecidos moles, base da língua, invasão perineural e óssea) definem a extensão local e ganglionar. A PET-TC com FDG é útil na doença localmente avançada, na pesquisa de primário oculto, na avaliação de metastização à distância e na resposta pós-tratamento. O estadiamento TNM segue a AJCC 8.ª edição, que introduziu um sistema separado para o carcinoma da orofaringe p16+ (menor sobrestimação da gravidade). Toda a decisão terapêutica passa por discussão em reunião multidisciplinar.

Carcinoma pavimentocelular da cabeça e pescoço Dois perfis etiológicos, sinais de alarme, diagnóstico e tratamento multimodal Dois perfis do carcinoma pavimentocelular TABACO + ÁLCOOL Homem, meia-idade a idoso Cavidade oral, hipofaringe, laringe Sinergia multiplicativa (não aditiva) Cancerização de campo (tumores múltiplos) Pior prognóstico HPV-16 / p16-POSITIVO Mais jovem, não fumador, bom estado Orofaringe: amígdala e base da língua Melhor resposta ao tratamento Estadiamento próprio (AJCC 8.ª ed.) Melhor prognóstico ! Sinais de alarme (sintomas persistentes > 2-3 semanas) Massa cervical indolor (adenopatia) Disfonia persistente Disfagia e odinofagia Otalgia referida (otoscopia normal) Úlcera oral que não cicatriza Trismo, voz abafada (mais avançado) Diagnóstico e estadiamento Nasofibroscopia flexível (ORL) e biopsia da lesão primária Adenopatia: primeiro CAAF; nunca biopsia excisional cega p16 / HPV obrigatório em todo o carcinoma da orofaringe TC/RM do pescoço e tórax; PET-TC (primário oculto, metástases) Estadiamento AJCC 8.ª ed.; decisão em reunião multidisciplinar Tratamento multimodal Estádios I-II: modalidade única (cirurgia OU radioterapia) Localmente avançado: quimio-RT concomitante com cisplatina Cisplatina em alta dose: 100 mg/m² cada 3 semanas Margem positiva ou extensão extraganglionar: quimio-RT adjuvante Preservação de órgão: evita laringectomia total (voz, deglutição) Recorrente/metastático: pembrolizumab em 1.ª linha (KEYNOTE-048) Prevenção Cessação tabágica: intervenção isolada mais custo-efetiva Redução do consumo de álcool (sinergia com o tabaco) Vacina HPV nonavalente (Gardasil 9): 10 anos, ambos os sexos Sem rastreio populacional; deteção precoce oportunista

Prevenção primária. As duas intervenções de maior impacto atacam os eixos etiológicos:

  • Cessação tabágica: a intervenção isolada mais custo-efetiva. Reduz o risco de novo carcinoma e de segundos tumores, melhora a tolerância e a eficácia do tratamento (a manutenção do tabagismo durante a radioterapia piora o controlo local) e diminui a mortalidade global. Abordagem estruturada: aconselhamento breve sistemático mais apoio farmacológico (terapêutica de substituição de nicotina, vareniclina ou bupropiom).
  • Redução do consumo de álcool, potenciada pelo aconselhamento conjunto dado à sinergia com o tabaco.
  • Vacinação contra o HPV: em Portugal, o Programa Nacional de Vacinação inclui a vacina nonavalente (Gardasil 9) para raparigas e rapazes aos 10 anos (rapazes desde outubro de 2020, coortes nascidas a partir de 2009), com esquema de 2 doses e alargamento de repescagem a idades superiores. Ao prevenir a infeção persistente por HPV de alto risco, espera-se redução futura da incidência do carcinoma da orofaringe HPV-associado, embora o efeito populacional se manifeste a longo prazo.

Rastreio. Ao contrário do colo do útero ou do cólon, não existe programa de rastreio populacional organizado para o carcinoma da cabeça e pescoço, por ausência de teste validado com benefício demonstrado na mortalidade nesta população. A estratégia assenta na deteção precoce oportunista: exame da cavidade oral em consulta médica e dentária, com atenção a leucoplasia, eritroplasia e úlceras persistentes, sobretudo em fumadores e consumidores de álcool. Toda a lesão da mucosa oral que não cicatriza em 2-3 semanas deve ser biopsada. A vigilância de lesões potencialmente malignas conhecidas é parte da prevenção secundária.

A decisão é sempre multidisciplinar e depende da localização, estádio (TNM/AJCC 8.ª ed.), estado HPV, estado geral e preferências do doente. O tratamento é habitualmente multimodal.

Doença localizada (estádios I-II). Modalidade única, com intenção curativa: cirurgia ou radioterapia (RT), escolhida pela localização e pela morbilidade funcional. Na laringe precoce, a RT ou a cirurgia transoral permitem elevado controlo com preservação da voz.

Doença localmente avançada (estádios III-IVA/B). Estratégia combinada:

  • Cirurgia seguida de RT (ou quimio-RT) adjuvante quando há fatores de risco patológicos. As indicações de maior peso para quimio-RT adjuvante com cisplatina são a margem cirúrgica positiva e a extensão extraganglionar (extracapsular).
  • Quimio-RT concomitante com cisplatina (em regime de alta dose, tipicamente 100 mg/m2 a cada 3 semanas) como alternativa para preservação de órgão, sobretudo na laringe e hipofaringe avançadas, evitando a laringectomia total. Em doentes inelegíveis para cisplatina, o cetuximab associado à RT é opção, embora inferior à cisplatina.

Preservação de órgão. Conceito central: substituir a cirurgia radical (ex.: laringectomia total) por quimio-RT, preservando função (voz, deglutição) sem comprometer a sobrevivência quando adequadamente selecionado.

Doença recorrente ou metastática. A imunoterapia com pembrolizumab (anti-PD-1) é o tratamento de primeira linha, isolado ou combinado com quimioterapia com base em platina, conforme a expressão de PD-L1 (ensaio KEYNOTE-048). O esquema clássico prévio combinava platina, 5-fluorouracilo e cetuximab.

Carcinoma da orofaringe HPV+. Apesar do excelente prognóstico, mantém-se, fora de ensaio, o mesmo padrão de tratamento; as tentativas de desintensificação substituindo cisplatina por cetuximab mostraram inferioridade (ensaios RTOG 1016 e De-ESCALaTE HPV), pelo que a cisplatina continua a ser o agente de referência.

Suporte. Cuidados de suporte são parte integral: nutrição (frequente necessidade de gastrostomia), saúde oral pré-RT, gestão da mucosite, xerostomia e disfagia, e reabilitação da fala.

Referências

  1. Machiels JP, René Leemans C, Golusinski W, et al. Squamous cell carcinoma of the oral cavity, larynx, oropharynx and hypopharynx: EHNS-ESMO-ESTRO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, treatment and follow-up. Ann Oncol. 2020;31(11):1462-1475.
  2. National Comprehensive Cancer Network. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology: Head and Neck Cancers. Versão 2024.
  3. Amin MB, Edge SB, Greene FL, et al. AJCC Cancer Staging Manual. 8.ª ed. Springer; 2017.
  4. Burtness B, Harrington KJ, Greil R, et al. Pembrolizumab alone or with chemotherapy versus cetuximab with chemotherapy for recurrent or metastatic squamous cell carcinoma of the head and neck (KEYNOTE-048): a randomised, open-label, phase 3 study. Lancet. 2019;394(10212):1915-1928.
  5. Gillison ML, Trotti AM, Harris J, et al. Radiotherapy plus cetuximab or cisplatin in human papillomavirus-positive oropharyngeal cancer (NRG Oncology RTOG 1016): a randomised, multicentre, non-inferiority trial. Lancet. 2019;393(10166):40-50.
  6. Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional de Vacinação (PNV): vacinação contra o HPV com vacina nonavalente. Lisboa: DGS; 2020 e atualizações subsequentes.

8 perguntas sobre Neoplasias da cabeça e pescoço

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

Criar conta e treinar