Lúpus eritematoso sistémico e Síndrome do anticorpo antifosfolipídico
Atualizado em 17 de julho de 2026 · 16 perguntas neste tema
O lúpus eritematoso sistémico (LES) é o protótipo da doença autoimune multissistémica mediada por autoanticorpos, com marcada predominância na mulher jovem em idade fértil. A síndrome do anticorpo antifosfolipídico (SAAF) é uma trombofilia autoimune que pode ocorrer isoladamente (primária) ou associada ao LES (secundária), definida pela conjugação de eventos trombóticos ou morbilidade obstétrica com anticorpos antifosfolipídicos persistentes. Dominar os autoanticorpos-chave, os critérios de classificação e os princípios de tratamento é essencial para o PNA.
O LES resulta da interação entre predisposição genética, fatores hormonais e desencadeantes ambientais (radiação ultravioleta, infeções, fármacos), que culminam na perda de tolerância imunológica a antigénios nucleares.
Falência da depuração de material apoptótico. A apoptose e a NETose (libertação de armadilhas extracelulares de neutrófilos) expõem antigénios nucleares (DNA de cadeia dupla, nucleossomas, ribonucleoproteínas). A depuração deficiente destes restos, agravada por defeitos do complemento precoce (a deficiência homozigótica de C1q é o fator de risco genético mais forte, ainda que raro), prolonga a exposição a autoantigénios.
Ativação imune e autoanticorpos. As células dendríticas plasmocitóides detetam ácidos nucleicos via recetores Toll-like e produzem grandes quantidades de interferão tipo I, uma citocina central na fisiopatologia (a chamada assinatura do interferão), o que fundamenta a terapêutica dirigida a esta via. Linfócitos T auto-reativos e linfócitos B (estimulados pelo BAFF/BLyS) geram autoanticorpos dirigidos a antigénios nucleares.
Lesão por imunocomplexos. Os autoanticorpos formam imunocomplexos que se depositam nos tecidos (glomérulo, pele, plexos coróideus) e ativam a via clássica do complemento, com consumo de C3 e C4. Daí que, na doença ativa (sobretudo na nefrite lúpica), se observe subida do anti-dsDNA e descida de C3/C4, marcadores úteis de atividade. O anti-dsDNA é diretamente nefritogénico.
Fisiopatologia da SAAF. Os anticorpos antifosfolipídicos não reconhecem sobretudo o fosfolípido isolado, mas o cofator proteico beta2-glicoproteína I ligado a superfícies fosfolipídicas. Estes anticorpos promovem um estado pró-trombótico por múltiplos mecanismos: ativação de células endoteliais, plaquetas e monócitos (com expressão de fator tecidular), interferência com anticoagulantes naturais (proteína C, anexina A5) e ativação do complemento. O resultado é trombose de artérias e veias e, na gravidez, trombose e inflamação placentárias que condicionam insuficiência placentar. Paradoxalmente, o anticoagulante lúpico prolonga in vitro os testes de coagulação dependentes de fosfolípidos, apesar de ser pró-trombótico in vivo.
O diagnóstico do LES é clínico-laboratorial; os critérios de classificação ACR/EULAR 2019 apoiam-no e servem sobretudo para investigação, não substituindo o juízo clínico.
Autoanticorpos (a lógica sensibilidade vs especificidade).
- ANA (anticorpos antinucleares): teste de rastreio, muito sensível (positivo em quase todos os doentes) mas pouco específico (positivo em infeções, outras doenças autoimunes e indivíduos saudáveis). Um ANA negativo torna o LES muito improvável.
- Anti-dsDNA e anti-Sm: altamente específicos do LES. O anti-dsDNA correlaciona-se com atividade e nefrite; o anti-Sm é muito específico mas pouco sensível.
- Anti-Ro/SSA e anti-La/SSB: associados a lúpus cutâneo subagudo, síndrome de Sjögren e risco de lúpus neonatal/bloqueio cardíaco congénito.
- Complemento (C3/C4): descem na doença ativa.
Critérios ACR/EULAR 2019. Exigem um critério de entrada obrigatório: ANA positivo (título ≥1:80 em células HEp-2). Cumprido este, aplicam-se domínios ponderados (clínicos e imunológicos), classificando-se como LES com ≥10 pontos e pelo menos um critério clínico. Pontos altos são atribuídos à nefrite lúpica classe III/IV e aos anticorpos específicos; um doente só conta um item por domínio (o de maior peso). A biópsia renal é determinante para classificar a nefrite e orientar o tratamento.
Diagnóstico da SAAF (critérios de Sydney/Sapporo revistos, 2006). Requer pelo menos um critério clínico (trombose vascular objetivamente documentada ou morbilidade obstétrica definida: ≥1 morte fetal ≥10 semanas, ≥3 abortamentos <10 semanas, ou parto prematuro <34 semanas por insuficiência placentar/pré-eclâmpsia) mais pelo menos um critério laboratorial persistente, confirmado em duas ocasiões com ≥12 semanas de intervalo: anticoagulante lúpico, anti-cardiolipina (IgG/IgM em título médio-alto) ou anti-beta2-glicoproteína I (IgG/IgM). A persistência é essencial, pois positividades transitórias ocorrem em infeções. A tripla positividade (os três testes positivos) identifica o perfil de maior risco trombótico. Foram propostos critérios ACR/EULAR 2023 para a SAAF, mais estritos, mas os critérios revistos de Sydney mantêm-se de uso corrente.
O tratamento do LES é estratificado pela atividade e pelos órgãos envolvidos, com o objetivo de atingir remissão ou baixa atividade, minimizando a dose cumulativa de corticoide.
Base transversal. A hidroxicloroquina deve ser oferecida a todos os doentes com LES (salvo contraindicação): reduz surtos, poupa órgãos, melhora a sobrevivência e diminui o risco trombótico; exige vigilância oftalmológica pela toxicidade retiniana. Acresce fotoproteção rigorosa, cessação tabágica, controlo cardiovascular e imunizações.
Doença ligeira (cutâneo-articular): hidroxicloroquina, corticoide em dose baixa e, se necessário, metotrexato ou azatioprina.
Doença moderada a grave e nefrite lúpica. Indução com corticoides (evitando doses elevadas prolongadas) associados a um imunossupressor:
- Micofenolato de mofetil ou ciclofosfamida são a base da indução na nefrite lúpica proliferativa (classes III/IV).
- Esquemas atuais favorecem terapêutica combinada desde o início, adicionando belimumab (anti-BAFF) ou voclosporina (inibidor da calcineurina) ao micofenolato, permitindo poupar corticoide.
- Anifrolumab (anti-recetor do interferão tipo I) é opção na doença cutânea/articular refratária.
- Rituximab reserva-se para casos refratários, incluindo citopenias graves.
Manutenção: micofenolato ou azatioprina, com desmame lento do corticoide. A azatioprina é o imunossupressor preferido na gravidez (a ciclofosfamida e o micofenolato são teratogénicos e devem ser suspensos com antecedência).
Tratamento da SAAF. O pilar é a anticoagulação:
- Trombose venosa: anticoagulação com varfarina (INR alvo 2-3), habitualmente indefinida.
- Trombose arterial ou tripla positividade: não usar anticoagulantes orais diretos (DOAC); o ensaio TRAPS mostrou aumento de eventos (sobretudo arteriais) com rivaroxabano face à varfarina. Preferir varfarina (por vezes com antiagregante associado).
- SAAF obstétrica: heparina de baixo peso molecular em dose profilática mais aspirina em dose baixa durante a gravidez, melhorando os desfechos.
- SAAF catastrófica (CAPS): emergência com trombose multiorgânica; tratar com anticoagulação + corticoides + plasmaférese e/ou imunoglobulina endovenosa, tratando fatores precipitantes.
Referências
- Aringer M, Costenbader K, Daikh D, et al. 2019 European League Against Rheumatism/American College of Rheumatology classification criteria for systemic lupus erythematosus. Ann Rheum Dis. 2019;78(9):1151-1159.
- Fanouriakis A, Kostopoulou M, Andersen J, et al. EULAR recommendations for the management of systemic lupus erythematosus: 2023 update. Ann Rheum Dis. 2024;83(1):15-29.
- Miyakis S, Lockshin MD, Atsumi T, et al. International consensus statement on an update of the classification criteria for definite antiphospholipid syndrome (APS). J Thromb Haemost. 2006;4(2):295-306.
- Barbhaiya M, Zuily S, Naden R, et al. The 2023 ACR/EULAR Antiphospholipid Syndrome Classification Criteria. Arthritis Rheumatol. 2023;75(10):1687-1702.
- Tektonidou MG, Andreoli L, Limper M, et al. EULAR recommendations for the management of antiphospholipid syndrome in adults. Ann Rheum Dis. 2019;78(10):1296-1304.
- Pengo V, Denas G, Zoppellaro G, et al. Rivaroxaban vs warfarin in high-risk patients with antiphospholipid syndrome (TRAPS). Blood. 2018;132(13):1365-1371.
- Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022.
16 perguntas sobre Lúpus eritematoso sistémico e Síndrome do anticorpo antifosfolipídico
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar