Musculo-esqueléticaGota e outras artropatias microcristalinasPublicado (Premium)

Gota e outras artropatias microcristalinas

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 10 perguntas neste tema

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Em resumo

As artropatias microcristalinas resultam da deposição de cristais no interior e à volta das articulações, desencadeando sinovite aguda e, a prazo, dano articular estrutural. A gota (cristais de urato monossódico) e a doença por deposição de pirofosfato de cálcio (CPPD, pseudogota) são as duas entidades centrais. Distinguem-se pela morfologia e birrefringência dos cristais no líquido sinovial, pela apresentação clínica e pela abordagem terapêutica, temas nucleares para o PNA.

Gota. O ácido úrico é o produto final do catabolismo das purinas, gerado pela ação da xantina-oxidase (hipoxantina → xantina → ácido úrico). Nos humanos falta a uricase, pelo que não há degradação adicional do urato. Quando a uricemia excede o limiar de solubilidade (~6,8 mg/dL), formam-se cristais de urato monossódico em tecidos avasculares e periarticulares (temperaturas mais baixas e menor pH favorecem a precipitação, o que explica a predileção pela 1.ª MTF e regiões acrais).

A crise aguda é uma resposta inflamatória mediada pelo inflamassoma NLRP3: os cristais de UMS são fagocitados por macrófagos, ativam o NLRP3, com clivagem de pró-IL-1β em IL-1β ativa, recrutamento de neutrófilos e libertação de mediadores inflamatórios. Esta via justifica a eficácia dos inibidores da IL-1 na gota refratária. A resolução espontânea da crise relaciona-se com a formação de redes de neutrófilos e o revestimento dos cristais por proteínas.

A hiperuricemia crónica resulta de:

  • Subexcreção renal (maioria): idiopática, doença renal crónica, diuréticos (tiazídicos e de ansa), ciclosporina, doses baixas de aspirina.
  • Sobreprodução: dieta rica em purinas, álcool (sobretudo cerveja), frutose, síndromes de elevado turnover celular (doenças mieloproliferativas/linfoproliferativas, lise tumoral, psoríase), défices enzimáticos raros.

Os tofos são agregados de cristais de UMS envolvidos por reação granulomatosa crónica, marcadores de doença de longa duração e elevada carga de urato.

Doença por CPPD. Formam-se cristais de pirofosfato de cálcio na cartilagem, por alteração do metabolismo do pirofosfato inorgânico. Também ativam o inflamassoma NLRP3, gerando crise inflamatória. Associa-se a envelhecimento, artrose e a causas metabólicas a pesquisar em doença precoce ou poliarticular: hemocromatose, hiperparatiroidismo, hipomagnesemia e hipofosfatasia.

O padrão de referência no diagnóstico das artropatias microcristalinas é a análise do líquido sinovial por microscopia de luz polarizada, obtido por artrocentese. A identificação dos cristais permite a distinção definitiva:

  • Gota (UMS): cristais em forma de agulha, com birrefringência negativa forte. No compensador vermelho, surgem amarelos quando paralelos ao eixo do compensador e azuis quando perpendiculares. Podem ser intracelulares (fagocitados por neutrófilos) na crise aguda.
  • CPPD: cristais romboides (ou em bastonete curto), com birrefringência positiva fraca; azuis quando paralelos ao eixo do compensador.

Uma regra mnemónica útil: no urato a birrefringência é negativa e o cristal é uma agulha; no pirofosfato é positiva e romboide.

O líquido sinovial é tipicamente inflamatório (leucócitos ~2000 a 50 000/µL, predomínio de neutrófilos). Como a artrite séptica e a gota podem coexistir e ser clinicamente indistinguíveis, é imperativo pedir sempre exame bacteriológico e cultura do líquido.

Avaliação laboratorial complementar:

  • Uricemia: apoia o diagnóstico mas pode estar normal ou baixa durante a crise aguda (redistribuição), pelo que uma uricemia normal não exclui gota; reavaliar 2 a 4 semanas depois.
  • Provas inflamatórias (VS, PCR) elevadas, leucocitose, o que não distingue de infeção.
  • Na CPPD precoce, rastrear causas metabólicas (ferritina/saturação de transferrina, cálcio/PTH, magnésio, fosfatase alcalina).

Imagem:

  • Radiografia: na gota crónica, erosões em saca-bocado com bordos salientes (overhanging edge) e preservação relativa da interlinha; tofos como massas de partes moles. Na CPPD, condrocalcinose (calcificação linear da fibrocartilagem, ex.: menisco do joelho, ligamento triangular do punho, sínfise púbica).
  • Ecografia: sinal do duplo contorno (depósito de urato sobre a cartilagem) sugestivo de gota.

Os critérios de classificação ACR/EULAR de 2015 para gota (aplicáveis quando não há cristais visualizados) integram achados clínicos, laboratoriais e imagiológicos; a presença de cristais de UMS é, por si só, critério suficiente.

Gota vs pseudogota (CPPD): a armadilha da birrefringência Padrão de referência: microscopia de luz polarizada do líquido sinovial (artrocentese) GOTA CPPD (pseudogota) Cristal Forma Birrefringência Clínica / local Radiografia Crise aguda Longo prazo Urato monossódico (UMS) Pirofosfato de cálcio Agulha Romboide NEGATIVA amarelo se paralelo ao eixo POSITIVA azul se paralelo ao eixo Podagra (1.ª MTF), tofos, hiperuricemia Joelho e punho no idoso, condrocalcinose Erosões em saca-bocado (gota crónica) Condrocalcinose (calcificação da fibrocartilagem) AINE, colquicina ou corticoide AINE, colquicina ou corticoide Alopurinol (inibidor da xantina-oxidase), alvo de uricemia < 6 mg/dL Sintomático; tratar a causa metabólica. Sem fármaco que dissolva os cristais ! Na crise: NÃO iniciar nem parar o alopurinol. Se o doente já o fazia, manter e ajustar depois. Iniciar o hipouricemiante só após a crise resolver, sob cobertura com colquicina ou AINE (3 a 6 meses).

A prevenção na doença microcristalina atua sobre a hiperuricemia, os fatores desencadeantes e as comorbilidades associadas, sendo transversal à abordagem crónica da gota.

Medidas de estilo de vida (gota):

  • Reduzir álcool, sobretudo cerveja e destilados (o álcool aumenta a produção de urato e reduz a sua excreção); o vinho tem menor impacto mas deve ser moderado.
  • Limitar carnes vermelhas, vísceras e marisco (ricos em purinas) e bebidas açucaradas/frutose, que elevam a uricemia.
  • Favorecer laticínios magros e café, associados a menor risco.
  • Incentivar perda ponderal e tratamento da síndrome metabólica, hidratação adequada e atividade física regular.

Revisão da medicação:

  • Sempre que clinicamente possível, evitar ou substituir fármacos hiperuricemiantes: diuréticos tiazídicos e de ansa, ciclosporina e aspirina em baixa dose (esta não deve, contudo, ser suspensa quando indicada para cardioproteção).
  • Losartan (efeito uricosúrico) e certos bloqueadores dos canais de cálcio são anti-hipertensores preferenciais no doente hiperuricémico e hipertenso.

Rastreio e vigilância:

  • Nos doentes com gota, avaliar e tratar de forma agressiva as comorbilidades cardiovasculares e metabólicas (hipertensão, diabetes, dislipidemia, doença renal crónica, obesidade), dado o risco cardiovascular acrescido.
  • Não se recomenda tratar a hiperuricemia assintomática de rotina; a exceção discutida inclui uricemias muito elevadas persistentes ou risco de lise tumoral (aqui com profilaxia específica).
  • Na CPPD, a prevenção passa por identificar e corrigir causas metabólicas subjacentes (hemocromatose, hiperparatiroidismo, hipomagnesemia).

A abordagem da gota separa o tratamento da crise aguda do tratamento hipouricemiante de longo prazo, dois objetivos distintos que não devem ser confundidos.

Tratamento da crise aguda. Instituir terapêutica anti-inflamatória o mais precocemente possível. Três opções de primeira linha, com eficácia sobreponível, escolhidas segundo comorbilidades:

  • AINE (ex.: naproxeno, indometacina) em dose plena, se não houver contraindicação (doença renal, úlcera péptica, insuficiência cardíaca).
  • Colquicina, mais eficaz nas primeiras 24 horas; esquema atual de dose baixa (ex.: 1 mg seguido de 0,5 mg 1 hora depois) é tão eficaz e mais tolerado do que os esquemas antigos de dose alta; ajustar/evitar na insuficiência renal e com inibidores do CYP3A4/glicoproteína-P.
  • Corticosteroides (orais, ex.: prednisolona, ou intra-articulares após excluir infeção), preferenciais na doença renal crónica e quando AINE e colquicina estão contraindicados.
  • Nos casos refratários, considerar inibidores da IL-1 (ex.: anacinra).

Regra-chave: não iniciar terapêutica hipouricemiante durante a crise (pode prolongá-la ou desencadear novas crises), mas se o doente já a fazia, não a suspender, ajustando-a depois. Iniciar a terapêutica hipouricemiante após resolução da crise, sob cobertura anti-inflamatória.

Tratamento hipouricemiante (longo prazo). Indicado em gota com crises recorrentes (habitualmente 2 ou mais/ano), tofos, artropatia erosiva ou litíase úrica.

  • Alopurinol (inibidor da xantina-oxidase) é o fármaco de primeira linha, incluindo na doença renal crónica. Iniciar em dose baixa (≤100 mg/dia, menos na DRC) e titular progressivamente.
  • Febuxostato (inibidor da xantina-oxidase) como alternativa em intolerância/ineficácia; o ensaio CARES (2018) levantou um sinal de risco cardiovascular, mas o ensaio FAST (2020) não confirmou o excesso de mortalidade cardiovascular face ao alopurinol, mantendo-se, ainda assim, cautela na doença cardiovascular estabelecida.
  • Uricosúricos (ex.: probenecide) em subexcretores sem litíase.
  • Estratégia treat-to-target: titular a dose por uricemia seriada até alvo inferior a 6 mg/dL (ou inferior a 5 mg/dL na gota tofácea/grave).
  • Profilaxia de crises ao iniciar hipouricemiante (a mobilização de urato pode precipitar crises): colquicina em dose baixa (ou AINE) durante pelo menos 3 a 6 meses.
  • Antes de alopurinol em populações de risco (ex.: ascendência asiática/africana), ponderar tipagem HLA-B*58:01 pelo risco de síndrome de hipersensibilidade grave.

Referências

  1. FitzGerald JD, Dalbeth N, Mikuls T, et al. 2020 American College of Rheumatology Guideline for the Management of Gout. Arthritis Care Res (Hoboken). 2020;72(6):744-760.
  2. Neogi T, Jansen TLTA, Dalbeth N, et al. 2015 Gout Classification Criteria: an American College of Rheumatology/European League Against Rheumatism collaborative initiative. Ann Rheum Dis. 2015;74(10):1789-1798.
  3. Richette P, Doherty M, Pascual E, et al. 2016 updated EULAR evidence-based recommendations for the management of gout. Ann Rheum Dis. 2017;76(1):29-42.
  4. Richette P, Doherty M, Pascual E, et al. 2018 updated EULAR evidence-based recommendations for the diagnosis of gout. Ann Rheum Dis. 2020;79(1):31-38.
  5. Zhang W, Doherty M, Bardin T, et al. European League Against Rheumatism recommendations for calcium pyrophosphate deposition. Part I: terminology and diagnosis; Part II: management. Ann Rheum Dis. 2011;70(4):563-575.
  6. White WB, Saag KG, Becker MA, et al. Cardiovascular Safety of Febuxostat or Allopurinol in Patients with Gout (CARES). N Engl J Med. 2018;378(13):1200-1210.", "Mackenzie IS, Ford I, Nuki G, et al. Long-term cardiovascular safety of febuxostat compared with allopurinol in patients with gout (FAST): a multicentre, prospective, randomised, open-label, non-inferiority trial. Lancet. 2020;396(10264):1745-1757.
  7. Dalbeth N, Gosling AL, Gaffo A, Abhishek A. Gout. Lancet. 2021;397(10287):1843-1855.
  8. Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21.ª ed. McGraw-Hill; 2022 (capítulos sobre gota e outras artropatias por cristais).

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