Esclerose sistémica (esclerodermia)
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 11 perguntas neste tema
A esclerose sistémica é uma doença autoimune rara em que três processos se alimentam uns aos outros: a lesão obliterante dos pequenos vasos, a autoimunidade com anticorpos muito específicos e a fibrose da pele e dos órgãos internos. Atinge sobretudo a mulher, cerca de quatro a cinco vezes mais do que o homem.
O fenómeno de Raynaud está em mais de 95% dos doentes e costuma ser a primeira manifestação, por vezes anos antes da pele. Um Raynaud que começa depois dos 30 anos, com úlceras digitais, capilaroscopia alterada ou anticorpos específicos, é secundário até prova em contrário, e é aí que o diagnóstico se pode fazer cedo.
A extensão da pele separa as duas formas. Na limitada, a pele endurece só abaixo dos cotovelos e dos joelhos e na face, a evolução é lenta, o anticorpo típico é o anti-centrómero e a complicação que mata, tardia, é a hipertensão arterial pulmonar. Na difusa, a pele endurece acima dos cotovelos e dos joelhos ou no tronco, os anticorpos são o anti-Scl-70 e o anti-RNA polimerase III, e a doença pulmonar intersticial e a crise renal aparecem nos primeiros anos. Coisa diferente é classificar a doença: pelos critérios ACR/EULAR de 2013, o espessamento da pele dos dedos proximal às metacarpofalângicas basta, qualquer que seja a forma.
O diagnóstico junta a clínica, os anticorpos e a capilaroscopia, e continua no rastreio de órgão: provas respiratórias com capacidade de difusão do monóxido de carbono, tomografia de alta resolução e ecocardiograma anual. O tratamento é dirigido ao órgão, segundo a EULAR (Aliança Europeia de Associações de Reumatologia) de 2023: nifedipina no Raynaud, micofenolato, nintedanib, rituximab ou tocilizumab no pulmão, terapêutica combinada na hipertensão arterial pulmonar.
O que não se pode falhar é a crise renal esclerodérmica: hipertensão súbita, lesão renal aguda e hemólise microangiopática, tratada com IECA (inibidor da enzima de conversão da angiotensina) de imediato, mantido mesmo com a creatinina a subir. O corticoide em dose alta precipita-a.
O diagnóstico é clínico, apoiado pelos anticorpos e pela capilaroscopia. Numa doença estabelecida, o espessamento simétrico da pele com o envolvimento visceral típico chega; o desafio é a fase inicial, em que há só Raynaud, dedos tumefactos ou refluxo.
Duas perguntas diferentes sobre a pele
| pergunta | limite anatómico | para que serve |
|---|---|---|
| É esclerose sistémica? | pele dos dedos das duas mãos espessada proximal às metacarpofalângicas | critério suficiente de classificação ACR/EULAR 2013: vale 9 pontos e classifica sozinho, nas duas formas |
| Que forma é? | pele espessada acima dos cotovelos e dos joelhos, ou no tronco | separa a difusa da limitada e prevê as complicações |
Um doente com a pele dura desde os dedos até ao meio do antebraço cumpre o critério suficiente (passa as metacarpofalângicas) e tem forma limitada (não passa o cotovelo).
Critérios de classificação ACR/EULAR 2013
Do colégio americano de reumatologia e da liga europeia contra o reumatismo. Não se aplicam a quem tenha pele espessada que poupa os dedos, nem a quem tenha outra doença esclerodermiforme que explique o quadro. Classificam como esclerose sistémica com 9 pontos ou mais; em cada item conta só a alínea de maior pontuação.
| item | alínea | pontos |
|---|---|---|
| Espessamento da pele dos dedos das duas mãos proximal às metacarpofalângicas | critério suficiente | 9 |
| Espessamento da pele dos dedos | dedos tumefactos | 2 |
| esclerodactilia (distal às metacarpofalângicas, proximal às interfalângicas proximais) | 4 | |
| Lesões das polpas | úlceras digitais | 2 |
| cicatrizes puntiformes | 3 | |
| Telangiectasias | 2 | |
| Capilaroscopia anormal | 2 | |
| Hipertensão arterial pulmonar e/ou doença pulmonar intersticial | máximo 2 | 2 |
| Fenómeno de Raynaud | 3 | |
| Anticorpos (anti-centrómero, anti-Scl-70, anti-RNA polimerase III) | máximo 3 | 3 |
- A hipertensão arterial pulmonar conta só se provada por cateterismo direito; a doença intersticial, por fibrose basal na tomografia ou na radiografia, ou por crepitações em «velcro» sem outra causa.
- Sensibilidade de 91% e especificidade de 92% na validação.
- Exemplo: Raynaud (3), esclerodactilia (4) e anti-centrómero (3) somam 10 e classificam, sem pele proximal às metacarpofalângicas.
Autoanticorpos
Anticorpos antinucleares positivos em praticamente todos os doentes, por imunofluorescência indireta; a especificidade confirma-se por imunoensaio.
| anticorpo | padrão | forma | associação clínica |
|---|---|---|---|
| Anti-centrómero | centromérico | limitada (95% dos portadores) | hipertensão arterial pulmonar isolada, úlceras digitais, calcinose; crise renal rara, doença intersticial menos frequente |
| Anti-Scl-70 (anti-topoisomerase I) | mosqueado | difusa | doença pulmonar intersticial precoce, úlceras digitais, envolvimento cardíaco, pior prognóstico |
| Anti-RNA polimerase III | mosqueado | difusa | pele de progressão rápida, crise renal, ectasia vascular do antro, cancro próximo do início; úlceras raras |
| Anti-U3-RNP (fibrilarina) | nucleolar | ambas | hipertensão arterial pulmonar, doença intersticial, crise renal, miosite |
| Anti-PM/Scl | nucleolar | limitada | sobreposição com miosite, calcinose |
| Anti-U1-RNP | mosqueado | doença mista do tecido conjuntivo | hipertensão arterial pulmonar, artrite, miosite |
Capilaroscopia periungueal
- Observação dos capilares da prega ungueal ao microscópio. No Raynaud primário, ansas regulares e paralelas.
- Padrão de esclerodermia: megacapilares no padrão precoce; hemorragias e perda de capilares no ativo; áreas avasculares maciças, fibrose e neoangiogénese no tardio.
- É o exame que transforma um Raynaud indeterminado em secundário e permite o diagnóstico antes da fibrose.
Rastreio de órgão
| órgão | no diagnóstico | depois |
|---|---|---|
| pulmão | provas de função respiratória com capacidade de difusão do monóxido de carbono (DLCO); tomografia de alta resolução | provas de 6 em 6 meses nos de alto risco; a tomografia não se repete por rotina |
| circulação pulmonar | ecocardiograma, peptídeos natriuréticos, difusão | avaliação anual; confirmação por cateterismo direito |
| rim | pressão arterial, creatinina, sedimento | pressão medida em casa na difusa precoce; mais apertada se houver corticoide |
| coração | eletrocardiograma | investigar palpitações |
| tubo digestivo | dirigido aos sintomas | endoscopia se Barrett ou anemia |
- Na doença intersticial, as provas mostram padrão restritivo com difusão baixa. A difusão baixa desproporcionada aos volumes, com capacidade vital preservada, sugere hipertensão arterial pulmonar (ou anemia).
- A tomografia mostra reticulação subpleural e vidro despolido nas bases, muitas vezes com esófago dilatado.
- O ecocardiograma estima a pressão, mas pode enganar para os dois lados: o diagnóstico é hemodinâmico, com pressão média na artéria pulmonar acima de 20 mmHg, pressão de encravamento de 15 mmHg ou menos e resistência acima de 2 unidades Wood.
- Anti-RNA polimerase III: procurar neoplasia (mama, pulmão, ovário, linfoma) perto do diagnóstico, dirigida à idade e ao sexo.
Diagnóstico diferencial
| Raynaud primário | Raynaud secundário |
|---|---|
| até 5% da população; resposta exagerada ao frio | esclerose sistémica e outras doenças do tecido conjuntivo, fármacos (bloqueadores beta, cisplatina, bleomicina), vibração |
| início jovem, história familiar | início depois dos 30 anos |
| sem úlceras nem necrose | crises mais intensas e prolongadas, úlceras e perda de tecido |
| anticorpos antinucleares negativos | anticorpos positivos |
| capilaroscopia normal | capilaroscopia alterada |
| entidade | o que a distingue |
|---|---|
| Morfeia e esclerodermia linear (esclerodermia localizada) | placas ou faixas; sem Raynaud, sem órgão, sem anticorpos específicos; mais na criança |
| Fasceíte eosinofílica | endurecimento súbito em «casca de laranja», poupa os dedos, eosinofilia; fibrose da fáscia na biópsia |
| Escleromixedema | gamapatia monoclonal |
| Escleredema | nuca e ombros, poupa as mãos; diabetes |
| Fibrose sistémica nefrogénica | gadolínio na doença renal avançada; placas nos membros, poupa a face |
| Doença do enxerto contra o hospedeiro crónica, bleomicina, cloreto de vinilo | contexto |
| Doença mista do tecido conjuntivo | anti-U1-RNP em título alto sem anticorpos específicos de esclerose sistémica; traços de lúpus e miosite |
- As doenças esclerodermiformes não têm Raynaud, envolvimento visceral típico nem anticorpos específicos.
- A crise renal confunde-se com a púrpura trombocitopénica trombótica e outras microangiopatias trombóticas.
Referências
- Varga J. Systemic sclerosis (scleroderma) and related disorders. In: Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J, editors. Harrison's principles of internal medicine. 20th ed. New York: McGraw-Hill; 2018. Cap. 353.
- Papazoglou A, Domsic RT. Systemic sclerosis. In: Wing EJ, Schiffman FJ, editors. Cecil essentials of medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. Cap. 82, p. 794-800.
- van den Hoogen F, Khanna D, Fransen J, Johnson SR, Baron M, Tyndall A, et al. 2013 classification criteria for systemic sclerosis: an American College of Rheumatology/European League Against Rheumatism collaborative initiative. Arthritis Rheum. 2013;65(11):2737-47.
- Del Galdo F, Lescoat A, Conaghan PG, Bertoldo E, Colic J, Santiago T, et al. EULAR recommendations for the treatment of systemic sclerosis: 2023 update. Ann Rheum Dis. 2025;84(1):29-40.
- Humbert M, Kovacs G, Hoeper MM, Badagliacca R, Berger RMF, Brida M, et al. 2022 ESC/ERS guidelines for the diagnosis and treatment of pulmonary hypertension. Eur Heart J. 2022;43(38):3618-731.
11 perguntas sobre Esclerose sistémica (esclerodermia)
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