Doenças periarticulares (tendinopatias e ligamentosas)
Atualizado em 17 de julho de 2026 · 17 perguntas neste tema
As doenças periarticulares englobam a patologia dos tecidos moles em redor da articulação (tendões, bainhas sinoviais, bolsas serosas e ligamentos), sendo uma causa muito frequente de dor músculo-esquelética localizada na prática clínica e no PNA. A pista semiológica central é a dor reproduzida pelo movimento ativo e resistido, com amplitude passiva tipicamente preservada, o que as distingue da artrite. O diagnóstico é essencialmente clínico, apoiado pela ecografia, e o tratamento é sobretudo conservador.
A designação clássica de "tendinite" é enganadora: a tendinopatia crónica corresponde sobretudo a tendinose degenerativa, não a inflamação. Histologicamente observa-se desorganização e desnaturação do colagénio, aumento de matriz mucoide, neovascularização com neoinervação (fonte da dor) e escassez de células inflamatórias clássicas. O mecanismo é uma resposta de cicatrização falhada perante sobrecarga repetida que excede a capacidade de reparação do tendão.
Por entidade:
- Coifa dos rotadores: conflito subacromial e sobrecarga levam a tendinopatia do supraespinhoso, que pode progredir para rotura parcial ou completa. Contribuem fatores extrínsecos (impacto acromial) e intrínsecos (degenerescência, hipovascularização da zona crítica).
- Tendinite calcária: deposição de cristais de hidroxiapatite no tendão, com fase de reabsorção aguda muito dolorosa.
- Capsulite adesiva: fibrose e contratura da cápsula gleno-umeral, com espessamento do intervalo dos rotadores e do ligamento coraco-umeral, causando perda global de amplitude (ativa e passiva).
- Epicondilite lateral: tendinose da origem comum dos extensores, sobretudo do extensor radial curto do carpo.
- De Quervain: tenossinovite estenosante do primeiro compartimento dorsal (abdutor longo e extensor curto do polegar).
- Dedo em gatilho: tenossinovite estenosante ao nível da polia A1, com desproporção tendão-bainha e bloqueio.
- Síndrome do túnel cárpico: compressão do nervo mediano no túnel cárpico, frequentemente com tenossinovite dos flexores a reduzir o espaço.
- Fasceíte plantar: entesopatia degenerativa da fáscia plantar na inserção do calcâneo (não primariamente inflamatória).
Entre os fatores predisponentes sistémicos contam-se a diabetes (capsulite adesiva, dedo em gatilho), o hipotiroidismo, a gravidez (retenção de líquidos), e fármacos como as fluoroquinolonas (tendinopatia e rotura, sobretudo aquiliana). A presença de entesite em múltiplos locais, sobretudo em jovem com dor inflamatória, deve levantar a hipótese de espondiloartropatia e não de simples sobrecarga.
O diagnóstico é eminentemente clínico, através de manobras que põem em tensão a estrutura suspeita. A imagem confirma ou estadia, não substitui o exame.
Manobras por região:
- Coifa dos rotadores: teste de Jobe ("lata vazia") para o supraespinhoso, arco doloroso (60-120 graus), Hawkins e Neer para conflito, e drop arm (queda do braço) sugestivo de rotura completa.
- Capsulite adesiva: perda global da amplitude ativa E passiva, sobretudo da rotação externa. É a exceção que mimetiza artrite; a rotação externa passiva restrita é muito sugestiva.
- Epicondilite lateral: dor no epicôndilo à extensão resistida do punho (teste de Cozen); a medial dói à flexão/pronação resistida.
- De Quervain: teste de Finkelstein positivo (dor no estiloide radial ao desvio cubital com o polegar em preensão).
- Túnel cárpico: parestesias no território do mediano (polegar, indicador, médio e metade radial do anelar — primeiros 3,5 dedos radiais), Phalen e Tinel positivos, teste de compressão de Durkan; atrofia tenar em fase avançada.
- Bursite trocantérica: dor à palpação do grande trocânter, agravada em decúbito lateral homolateral e na abdução resistida.
- Fasceíte plantar: dor no calcâneo medial aos primeiros passos matinais, reproduzida pelo teste de windlass (dorsiflexão dos dedos).
A ecografia músculo-esquelética é o exame de primeira linha: acessível, dinâmica, permite ver espessamento tendinoso, roturas, derrame na bainha, bursite e calcificações, e guiar infiltrações. A RM reserva-se para caracterizar roturas da coifa e planeamento cirúrgico. A radiografia é útil na tendinite calcária e para excluir patologia óssea.
Deve fazer-se diagnóstico diferencial com artrite (dor passiva, tumefação, rigidez matinal prolongada), dor referida (cervical no ombro, radicular), e considerar sinais de alarme (febre, eritema e calor sobre a bolsa sugerem bursite sética; défice neurológico progressivo; história de neoplasia).
A abordagem é maioritariamente conservadora e escalonada, com prognóstico globalmente favorável.
Medidas de base:
- Repouso relativo e modificação da atividade: evitar o gesto agressor, não imobilização prolongada (que agrava a rigidez, sobretudo no ombro).
- Fisioterapia com carga progressiva: é o pilar do tratamento das tendinopatias. Os exercícios excêntricos e o reforço progressivo têm o melhor suporte de evidência (p. ex. tendinopatia aquiliana e rotuliana). No ombro congelado, o foco é a recuperação da amplitude.
- AINE: úteis para controlo sintomático de curta duração; não modificam a história natural da tendinose degenerativa.
- Ortóteses: tala do polegar na De Quervain, tala noturna neutra no túnel cárpico, ortótese/palmilha na fasceíte plantar, banda de contra-força na epicondilite.
- Infiltração seletiva de corticoide: proporciona alívio a curto prazo, mas o benefício não se mantém e pode piorar o resultado a longo prazo com maior recidiva (bem demonstrado na epicondilite lateral, ensaio de Coombes, JAMA 2013). Deve ser seletiva, ecoguiada e não repetida indiscriminadamente pelo risco de rotura tendinosa e atrofia. É particularmente útil no dedo em gatilho e no túnel cárpico ligeiro a moderado.
- Ondas de choque extracorporais: opção na tendinite calcária, fasceíte plantar e tendinopatia aquiliana refratárias.
Escalonamento por falência do conservador:
- Rotura sintomática da coifa em doente ativo, ou túnel cárpico com défice motor/atrofia tenar: referenciar para cirurgia (reparação da coifa; libertação do túnel cárpico). As guidelines AAOS de 2025 para a coifa dos rotadores reforçam a otimização do ambiente de cicatrização e as técnicas de reparação.
- Dedo em gatilho refratário à infiltração: libertação da polia A1.
- Capsulite adesiva: geralmente autolimitada em 1 a 3 anos; corticoide intra-articular precoce e fisioterapia aceleram a recuperação; casos rebeldes podem exigir mobilização sob anestesia ou capsulotomia artroscópica.
A educação do doente quanto à cronicidade e à necessidade de adesão à reabilitação é determinante para o sucesso.
Referências
- American Academy of Orthopaedic Surgeons. Management of Rotator Cuff Injuries: Evidence-Based Clinical Practice Guideline. AAOS; 2025 (atualização da guideline de 2019).
- Coombes BK, Bisset L, Vicenzino B. Effect of corticosteroid injection, physiotherapy, or both on clinical outcomes in patients with unilateral lateral epicondylalgia: a randomized controlled trial. JAMA. 2013;309(5):461-469.
- Millar NL, Silbernagel KG, Thorborg K, et al. Tendinopathy. Nature Reviews Disease Primers. 2021.
- Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al., eds. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21st ed. McGraw-Hill; 2022 (capítulo de doenças periarticulares e do tecido mole).
- Firestein GS, Budd RC, Gabriel SE, et al., eds. Firestein & Kelley's Textbook of Rheumatology. 11th ed. Elsevier; 2021.
17 perguntas sobre Doenças periarticulares (tendinopatias e ligamentosas)
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