Doença de Behçet
Atualizado em 17 de julho de 2026 · 8 perguntas neste tema
A doença de Behçet é uma vasculite sistémica recidivante de base clínica, marcada por aftose oral recorrente obrigatória, úlceras genitais, uveíte e lesões cutâneas. É o protótipo das vasculites de vaso variável, capaz de atingir veias e artérias de todos os calibres, com maior prevalência ao longo da antiga Rota da Seda e forte associação ao HLA-B51. O diagnóstico é clínico e a abordagem terapêutica escala conforme o órgão atingido.
O diagnóstico da doença de Behçet é clínico, assente no reconhecimento da constelação de manifestações e na exclusão de alternativas, apoiado por dois sistemas de critérios de classificação.
Manifestações e critérios:
- Aftose oral recorrente: úlceras aftosas dolorosas, tipicamente três ou mais episódios num ano. É o elemento obrigatório nos critérios do International Study Group (ISG), 1990.
- Critérios ISG 1990: aftose oral recorrente mais dois de: úlceras genitais recorrentes; lesões oculares (uveíte anterior/posterior, vasculite retiniana); lesões cutâneas (eritema nodoso, pseudofoliculite, lesões papulopustulosas); teste de patergia positivo.
- International Criteria for Behçet's Disease (ICBD), 2014: sistema por pontos, mais sensível. Lesões oculares, orais e genitais valem 2 pontos cada; lesões cutâneas, neurológicas e vasculares valem 1 ponto cada; a patergia (opcional) acrescenta 1 ponto. Um total igual ou superior a 4 pontos classifica como doença de Behçet.
Fenómeno de patergia:
- Hiper-reatividade cutânea inespecífica: surge uma pápula ou pústula estéril às 24-48 horas após picada com agulha estéril. É muito sugestivo quando positivo (mais frequente em populações da Rota da Seda), mas a negatividade não afasta o diagnóstico.
Manifestações oculares (examináveis e com peso prognóstico):
- Uveíte anterior com hipópion (nível de pus na câmara anterior), classicamente associada, mas a uveíte posterior e a vasculite retiniana são as que mais ameaçam a visão, com risco de cegueira.
Outras manifestações de apoio:
- Artralgia/artrite não erosiva (frequentemente oligoartrite de grandes articulações).
- Atingimento vascular, neurológico e gastrointestinal (ver secção de complicações).
Papel do laboratório e imagem: marcadores inflamatórios (VS, PCR) podem estar elevados em surto, mas são inespecíficos; servem sobretudo para monitorização e para excluir infeção. A imagem (angio-TC/RM, RM cerebral, ecoendoscopia/colonoscopia) orienta-se pelo órgão suspeito e é decisiva na doença vascular, neurológica e intestinal.
Diagnóstico diferencial: aftose oral simples/recorrente idiopática, doença inflamatória intestinal (aftas orais e uveíte), espondiloartrites, lúpus, síndrome de Reiter e infeções (sífilis, herpes). A recorrência, o padrão multissistémico e a patergia ajudam a distinguir.
Referências
- Jennette JC, Falk RJ, Bacon PA, et al. 2012 Revised International Chapel Hill Consensus Conference Nomenclature of Vasculitides. Arthritis Rheum. 2013;65(1):1-11.
- International Study Group for Behçet's Disease. Criteria for diagnosis of Behçet's disease. Lancet. 1990;335(8697):1078-1080.
- International Team for the Revision of the International Criteria for Behçet's Disease (ITR-ICBD). The International Criteria for Behçet's Disease (ICBD): a collaborative study of 27 countries on the sensitivity and specificity of the new criteria. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2014;28(3):338-347.
- Hatemi G, Christensen R, Bang D, et al. 2018 update of the EULAR recommendations for the management of Behçet's syndrome. Ann Rheum Dis. 2018;77(6):808-818.
- Hatemi G, Seyahi E, Fresko I, et al. EULAR recommendations for the management of Behçet's syndrome: 2025 update. Ann Rheum Dis. 2026;85(6):1010-1025.
- Yazici H, Seyahi E, Hatemi G, Yazici Y. Behçet syndrome: a contemporary view. Nat Rev Rheumatol. 2018;14(2):107-119.
8 perguntas sobre Doença de Behçet
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar