Doença de Behçet
Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 9 perguntas neste tema
A doença de Behçet é uma vasculite sistémica crónica, de causa desconhecida, que atinge vasos de qualquer calibre, artérias e veias, e evolui por surtos e remissões. Não tem autoanticorpo, análise nem histologia que a confirmem: o diagnóstico é clínico e assenta na combinação de manifestações ao longo do tempo, depois de afastadas as alternativas.
É mais prevalente ao longo da antiga Rota da Seda, com o máximo na Turquia, e começa no adulto jovem. Atinge homens e mulheres por igual, mas o homem jovem tem doença mais grave e pior prognóstico. A associação genética mais forte é ao HLA-B51, que não serve de teste diagnóstico.
A aftose oral recorrente está presente em praticamente todos os doentes e costuma ser a primeira manifestação. Juntam-se-lhe as úlceras genitais, as mais específicas, que deixam cicatriz; as lesões cutâneas, com eritema nodoso e lesões papulopustulosas; a uveíte, em cerca de metade dos doentes; e o fenómeno de patergia. Os critérios internacionais de 2014 somam pontos por estas manifestações e classificam a doença a partir de 4.
O prognóstico decide-se no atingimento de órgão: a uveíte posterior e a vasculite retiniana, que levam à cegueira; a trombose venosa, que nasce da inflamação da parede; os aneurismas da artéria pulmonar, que matam por hemoptise; o neuro-Behçet parenquimatoso do tronco cerebral; e as úlceras ileocecais, que perfuram.
O tratamento segue o órgão atingido. Na doença mucocutânea e articular usam-se a colquicina e o corticoide tópico, com apremilaste ou imunossupressor nos casos refratários. No atingimento de órgão junta-se corticoide em dose alta a um imunossupressor, e as recomendações europeias de 2025 preferem cedo os anticorpos contra o fator de necrose tumoral, sobretudo o infliximab. O que não se pode falhar: a trombose de Behçet trata-se com imunossupressão, e só se anticoagula depois de excluído um aneurisma da artéria pulmonar; a uveíte posterior nunca se trata com corticoide isolado; e no neuro-Behçet evita-se a ciclosporina.
- O diagnóstico é clínico: não há exame laboratorial, de imagem ou histológico específico. Assenta na combinação de manifestações, depois de afastadas outras causas.
- O quadro completo pode demorar meses ou anos a juntar-se, mas pode fazer-se um diagnóstico provisório antes disso.
Critérios de 1990 (Grupo Internacional de Estudo)
- Aftose oral recorrente, obrigatória: aftas pequenas, grandes ou herpetiformes, vistas pelo médico ou descritas com fiabilidade pelo doente, 3 ou mais vezes em 12 meses.
- Mais 2 dos seguintes, sem outra explicação clínica:
- úlceras genitais recorrentes, ou a sua cicatriz;
- lesões oculares: uveíte anterior ou posterior, células no vítreo à lâmpada de fenda ou vasculite retiniana vista por oftalmologista;
- lesões cutâneas: eritema nodoso, pseudofoliculite, lesões papulopustulosas ou nódulos acneiformes fora da adolescência e sem corticoterapia;
- teste de patergia positivo, lido pelo médico às 24 a 48 horas.
Critérios internacionais de 2014
| manifestação | pontos |
|---|---|
| Lesões oculares | 2 |
| Aftose oral | 2 |
| Aftose genital | 2 |
| Lesões cutâneas | 1 |
| Atingimento do sistema nervoso central | 1 |
| Manifestações vasculares | 1 |
| Teste de patergia, quando se faz | 1 |
- 4 pontos ou mais classificam a doença.
- A aftose oral deixa de ser obrigatória, e entram o atingimento neurológico e o vascular. Cerca de 3% dos doentes não têm aftas orais recorrentes, e alguns apresentam-se logo com aneurismas da artéria pulmonar: os critérios de 1990 deixavam-nos de fora.
- Na validação, sensibilidade de 94,8% e especificidade de 90,5%, contra 85,0% e 96,0% dos critérios de 1990: ganham sensibilidade e perdem alguma especificidade.
Teste de patergia
- Picada intradérmica com agulha estéril de calibre 20 G; é positivo se aparecer uma pápula ou pústula 24 a 48 horas depois.
- Positivo em cerca de metade dos doentes e bastante característico da doença. Negativo não afasta.
Laboratório
- Só marcadores inespecíficos: leucocitose, velocidade de sedimentação e proteína C reativa elevadas nos surtos. Servem para seguir a atividade, não para diagnosticar.
- O HLA-B51 não se pede para diagnosticar.
- A autoimunidade e as serologias servem para afastar as alternativas (lúpus, sífilis, infeção por vírus da imunodeficiência humana), não para confirmar a Behçet.
Avaliação do atingimento de órgão
| suspeita | exame |
|---|---|
| Todos os doentes, mesmo sem queixas visuais | observação oftalmológica com lâmpada de fenda e fundoscopia; angiografia fluoresceínica para a vasculite retiniana |
| Trombose venosa | eco-Doppler; antes de anticoagular, angiotomografia do tórax para excluir aneurisma da artéria pulmonar |
| Hemoptise, dispneia ou infiltrado pulmonar | angiotomografia do tórax |
| Neuro-Behçet | ressonância magnética cerebral, que é muito sensível |
| Trombose venosa cerebral | ressonância com venografia e procura de doença vascular fora do crânio |
| Queixas digestivas | endoscopia ou imagem, sempre com exclusão de úlceras por anti-inflamatórios, doença inflamatória intestinal e tuberculose |
Diagnóstico diferencial
| entidade | o que ajuda a distinguir |
|---|---|
| Aftose oral recorrente idiopática ou aftose complexa | muito mais comum; sem uveíte, sem lesão vascular nem neurológica |
| Doença de Crohn | fístulas, doença perianal, granulomas, úlceras longitudinais; na Behçet, úlceras poucas, redondas e ileocecais, reto poupado, úlceras genitais com cicatriz |
| Doença celíaca | aftas com diarreia ou má absorção; serologia |
| Artrite reativa e espondiloartrites | úlceras mucosas e uveíte anterior, mas com sacroiliíte, uretrite ou infeção prévia |
| Lúpus eritematoso sistémico | úlceras orais com autoanticorpos, citopenias e serosite |
| Infeções: herpes simples, citomegalovírus, sífilis | úlceras de outra natureza; serologia e pesquisa direta |
| Toxidermias, eritema multiforme, síndrome de Sweet | contexto de fármaco, lesões em alvo, febre com placas |
| Criança ou adulto jovem com febre recorrente | febre periódica com aftas, faringite e adenite; doenças autoinflamatórias monogénicas (haploinsuficiência de A20, défice de adenosina desaminase 2, défice de mevalonato cinase) |
Referências
- Yazici Y. Behçet syndrome. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. p. 2817-9.
- Moutsopoulos HM. Behçet's syndrome. In: Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J, editors. Harrison's principles of internal medicine. 20th ed. New York: McGraw Hill; 2018. cap. 357.
- Jennette JC, Falk RJ, Bacon PA, Basu N, Cid MC, Ferrario F, et al. 2012 revised International Chapel Hill Consensus Conference Nomenclature of Vasculitides. Arthritis Rheum. 2013;65(1):1-11.
- International Study Group for Behçet's Disease. Criteria for diagnosis of Behçet's disease. Lancet. 1990;335(8697):1078-80.
- International Team for the Revision of the International Criteria for Behçet's Disease (ITR-ICBD). The International Criteria for Behçet's Disease (ICBD): a collaborative study of 27 countries on the sensitivity and specificity of the new criteria. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2014;28(3):338-47.
- Hassan F, Jeries H, Naffaa ME. Challenges in the timely diagnosis of Behcet's disease. Life (Basel). 2023;13(5):1157.
- Hatemi G, Christensen R, Bang D, Bodaghi B, Celik AF, Fortune F, et al. 2018 update of the EULAR recommendations for the management of Behçet's syndrome. Ann Rheum Dis. 2018;77(6):808-18.
- Hatemi G, Ramiro S, Ozguler Y, Esatoglu SN, Tomasson G, Barete S, et al. EULAR recommendations for the management of Behçet's syndrome: 2025 update. Ann Rheum Dis. 2026;85(6):1010-25.
- Yurdakul S, Mat C, Tüzün Y, Ozyazgan Y, Hamuryudan V, Uysal O, et al. A double-blind trial of colchicine in Behçet's syndrome. Arthritis Rheum. 2001;44(11):2686-92.
- European Medicines Agency. Otezla (apremilast): EPAR, informação do medicamento. Amsterdão: EMA; consultado em 2026.
- Götestam Skorpen C, Hoeltzenbein M, Tincani A, Fischer-Betz R, Elefant E, Chambers C, et al. The EULAR points to consider for use of antirheumatic drugs before pregnancy, and during pregnancy and lactation. Ann Rheum Dis. 2016;75(5):795-810.
- Ucar D, Esatoglu SN. Behçet syndrome with eye involvement. Saudi J Ophthalmol. 2025;39(1):47-53.
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