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Artrite reumatoide

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 10 perguntas neste tema

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Em resumo

A artrite reumatoide (AR) é a poliartrite inflamatória crónica autoimune mais frequente, caracterizada por sinovite persistente simétrica das pequenas articulações, com potencial destrutivo e manifestações sistémicas. O diagnóstico e o início precoce de terapêutica modificadora (janela de oportunidade) são determinantes do prognóstico. Este capítulo cobre a fisiopatologia, os critérios de classificação ACR/EULAR 2010, a estratégia treat-to-target e o arsenal terapêutico atual.

A AR resulta da perda de tolerância imunológica a autoantigénios citrulinados, num indivíduo geneticamente suscetível (HLA-DRB1, shared epitope) exposto a fatores ambientais. O tabagismo e a inflamação de mucosas (periodontal, pulmonar) promovem a atividade da enzima peptidil-arginina-desiminase (PAD), que converte resíduos de arginina em citrulina nas proteínas. Estas proteínas citrulinadas tornam-se neoantigénios, desencadeando a produção de anticorpos anti-péptido citrulinado cíclico (anti-CCP/ACPA). Esta resposta autoimune pode preceder as manifestações articulares em vários anos (fase pré-clínica).

Na articulação, a resposta é orquestrada por linfócitos T CD4+, que ativam linfócitos B (produtores de autoanticorpos) e macrófagos. A membrana sinovial normal, fina, transforma-se num tecido hiperplásico e invasivo, o pannus, rico em células inflamatórias e neovascularização. Os sinoviócitos do tipo fibroblasto adquirem um fenótipo agressivo, com produção local de citocinas e proteases.

As citocinas pró-inflamatórias são o motor da doença e os alvos terapêuticos centrais:

  • TNF-alfa: amplifica a inflamação, a expressão de moléculas de adesão e a produção de outras citocinas.
  • IL-6: promove a resposta de fase aguda (proteína C-reativa), a anemia de doença crónica e a ativação de linfócitos.
  • IL-1: contribui para a inflamação e a degradação da cartilagem.

A destruição estrutural resulta de duas vias. A degradação da cartilagem é mediada por metaloproteínases da matriz (MMP) libertadas pelo pannus. A erosão óssea deve-se à ativação de osteoclastos através do eixo RANK/RANKL, estimulado por citocinas e pelos próprios ACPA. Os imunocomplexos contendo fator reumatoide (autoanticorpo dirigido à porção Fc da IgG) e ACPA amplificam a inflamação e explicam parte das manifestações sistémicas, como a vasculite. Este conhecimento fisiopatológico sustenta as terapêuticas dirigidas (anti-TNF, anti-IL-6, depleção de linfócitos B, bloqueio da coestimulação e inibição das vias JAK intracelulares).

O diagnóstico de AR é clínico, apoiado por serologia, provas de inflamação e imagem, e deve ser precoce para aproveitar a janela de oportunidade. Perante uma poliartrite simétrica das pequenas articulações com rigidez matinal prolongada, a avaliação estrutura-se em quatro eixos.

Exame objetivo: procurar sinovite (tumefação de consistência elástica, dor à palpação, calor) nas MCF, IFP e punhos, e o squeeze test (dor à compressão transversal das MCF ou MTF). Documentar o número de articulações tumefactas e dolorosas.

Serologia: o fator reumatoide (FR) é sensível mas pouco específico (positivo também em Sjögren, hepatite C, endocardite, idosos saudáveis). Os anti-CCP/ACPA são mais específicos e têm valor prognóstico, associando-se a doença erosiva e a manifestações extra-articulares. Cerca de 20 a 30% dos doentes são seronegativos (FR e anti-CCP negativos), pelo que a negatividade não afasta o diagnóstico.

Provas de fase aguda: VS e proteína C-reativa (PCR) apoiam a atividade inflamatória e servem de monitorização; podem estar normais em doença ligeira.

Imagem: a radiografia de mãos e pés pode mostrar osteopenia justa-articular, redução simétrica do espaço articular e erosões marginais (tardias). A ecografia e a ressonância magnética são mais sensíveis para sinovite e erosões precoces e para o edema ósseo (preditor de erosão).

Os critérios de classificação ACR/EULAR 2010 (aplicáveis a doentes com pelo menos uma articulação com sinovite clínica sem melhor explicação alternativa) pontuam quatro domínios, com score maior ou igual a 6/10 a classificar AR definida:

  • Envolvimento articular (número e tamanho): 0 a 5 pontos, com mais peso nas pequenas articulações.
  • Serologia (FR e ACPA): 0 a 3 pontos, com títulos altos a pontuar mais.
  • Provas de fase aguda (VS/PCR): 0 a 1 ponto.
  • Duração dos sintomas (maior ou igual a 6 semanas): 0 a 1 ponto.

O diagnóstico diferencial inclui osteoartrose (IFD, padrão mecânico), artrite psoriática (dactilite, IFD, entesite), lúpus, artrites virais e polimialgia reumática no idoso.

Artrite reumatoide vs osteoartrose: mãos, serologia e tratamento Artrite reumatoide poliartrite simétrica · poupa IFD Osteoartrose artrose · padrão mecânico IFD poupada IFP MCF punho IFD Heberden IFP Bouchard sinovite ativa articulação poupada Artrite reumatoide Osteoartrose Padrão Inflamatório (melhora com uso) Mecânico (agrava com uso) Articulações MCF, IFP, punhos; poupa IFD IFD (Heberden), grandes de carga Simetria Simétrica, aditiva Assimétrica Rigidez matinal Prolongada (maior que 60 min) Breve (menor que 30 min) Serologia FR e anti-CCP (ACPA) Negativa Radiografia Erosões, osteopenia justa-articular Osteófitos, esclerose Autoanticorpos Fator reumatoide (FR) Sensível, pouco específico (Sjögren, hepatite C, endocardite, idosos). Anti-CCP / ACPA Mais específico; valor prognóstico (erosivo); pode preceder a artrite anos. Critérios de classificação ACR/EULAR 2010 Score maior ou igual a 6/10; requer pelo menos 1 articulação com sinovite (sem melhor explicação). Articulações (0-5) · Serologia FR/ACPA (0-3) · VS/PCR (0-1) · Duração maior ou igual a 6 semanas (0-1) Tratamento: treat-to-target (T2T) Janela de oportunidade: iniciar cedo. Alvo = remissão (ou baixa atividade); reavaliar cada 1 a 3 meses. 1.a linha: metotrexato + ácido fólico (âncora). Alternativas: leflunomida, sulfassalazina. Corticoide apenas como ponte de curta duração, com desmame precoce. Falência do MTX (3 a 6 meses) + fatores de mau prognóstico: adicionar fármaco dirigido. bDMARD: anti-TNF · anti-IL-6 (tocilizumab) · abatacept · rituximab (anti-CD20) | tsDMARD: inibidores JAK. Antes de biológicos/JAK: rastrear tuberculose latente e hepatites B e C. O anti-CCP orienta o prognóstico; o metotrexato é a âncora.

O tratamento assenta em duas ideias-chave: iniciar precocemente um fármaco modificador (aproveitar a janela de oportunidade, idealmente nos primeiros meses) e tratar até ao alvo (treat-to-target, T2T), definido como remissão (ou, na doença estabelecida de longa duração, baixa atividade), com monitorização por índices compostos e ajuste terapêutico a cada 1 a 3 meses até atingir o objetivo.

Primeira linha: o metotrexato (MTX) é o DMARD convencional sintético (csDMARD) de eleição, âncora do tratamento, associado a suplementação de ácido fólico para reduzir a toxicidade (mucosite, citopenias, hepatotoxicidade). Requer vigilância de hemograma e função hepática. Alternativas quando o MTX está contraindicado incluem a leflunomida e a sulfassalazina. Os glucocorticoides em dose baixa são úteis como terapêutica de ponte de curta duração, devendo ser desmamados assim que possível pela toxicidade a longo prazo.

Resposta insuficiente: se, apesar de MTX otimizado, o alvo não é atingido em cerca de 3 a 6 meses, estratifica-se pela presença de fatores de mau prognóstico (ACPA/FR positivos em títulos altos, atividade elevada, erosões precoces). Adiciona-se então um fármaco dirigido, sem hierarquia obrigatória de eficácia entre as classes seguintes:

  • DMARD biológicos (bDMARD): anti-TNF (etanercept, adalimumab, infliximab, entre outros), anti-IL-6 (tocilizumab, sarilumab), abatacept (proteína de fusão CTLA-4-Ig; liga-se ao CD80/CD86 e bloqueia a coestimulação mediada pelo CD28) e rituximab (depleção de linfócitos B, dirigido ao CD20).
  • DMARD sintéticos dirigidos (tsDMARD): inibidores das cinases JAK (tofacitinib, baricitinib, upadacitinib), de administração oral.

Sempre que possível, os fármacos dirigidos combinam-se com MTX, que potencia a resposta e reduz a imunogenicidade dos biológicos. Perante falência, faz-se switch para outro alvo.

Antes de iniciar biológicos ou inibidores JAK: rastrear tuberculose latente (risco de reativação com anti-TNF) e hepatites B e C, e atualizar o plano de vacinação (evitando vacinas vivas sob imunossupressão). Os inibidores JAK exigem ponderação do risco cardiovascular e tromboembólico, sobretudo em idosos e doentes de risco. Uma vez em remissão sustentada, pode considerar-se o desmame gradual, começando pelos glucocorticoides.

Referências

  1. Smolen JS, Landewé RBM, Bijlsma JWJ, et al. EULAR recommendations for the management of rheumatoid arthritis with synthetic and biological disease-modifying antirheumatic drugs: 2022 update. Ann Rheum Dis. 2023;82(1):3-18.
  2. Aletaha D, Neogi T, Silman AJ, et al. 2010 Rheumatoid Arthritis Classification Criteria: an American College of Rheumatology/European League Against Rheumatism collaborative initiative. Ann Rheum Dis. 2010;69(9):1580-1588.
  3. Fraenkel L, Bathon JM, England BR, et al. 2021 American College of Rheumatology Guideline for the Treatment of Rheumatoid Arthritis. Arthritis Rheumatol. 2021;73(7):1108-1123.
  4. Smolen JS, Aletaha D, McInnes IB. Rheumatoid arthritis. Lancet. 2016;388(10055):2023-2038.
  5. Loscalzo J, Fauci AS, Kasper DL, et al. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022. Cap. Artrite reumatoide.

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