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Artrite reumatoide

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 16 perguntas neste tema

Em resumo

A artrite reumatoide é a artrite inflamatória crónica mais frequente: uma doença autoimune sistémica em que a membrana sinovial inflamada prolifera, forma pannus e erode a cartilagem e o osso. Atinge 0,5 a 1% dos adultos, duas a três vezes mais mulheres do que homens, e tem no tabagismo o fator ambiental mais consistente.

Apresenta-se como poliartrite simétrica e aditiva dos punhos, metacarpofalângicas, interfalângicas proximais e metatarsofalângicas, com rigidez matinal de mais de uma hora que alivia com o movimento; as interfalângicas distais ficam de fora. Pode atingir o pulmão, a pleura, o pericárdio, os olhos e os vasos, e a causa de morte mais frequente é cardiovascular.

O diagnóstico é clínico, apoiado pelo fator reumatoide, pelos anticorpos anti-péptido citrulinado cíclico, mais específicos e com valor prognóstico, pelas provas de fase aguda e pela imagem. Nenhum destes exames é obrigatoriamente positivo, e a serologia negativa não afasta a doença.

O tratamento começa logo ao diagnóstico, com metotrexato e corticoide de curta duração, numa estratégia dirigida a um alvo: a remissão ou a baixa atividade. Sem resposta, acrescenta-se um biológico ou, pesados os riscos, um inibidor das cinases Janus, depois de rastrear tuberculose latente e hepatites.

O que não se pode falhar é a monoartrite desproporcionada num doente imunodeprimido, que é artrite sética até prova em contrário, e a instabilidade atlanto-axial antes de uma intubação.

Genética

  • Hereditabilidade estimada em 40 a 50%; concordância de 9 a 15% em gémeos monozigóticos.
  • O maior risco está no complexo major de histocompatibilidade de classe II: alelos HLA-DRB1 que partilham uma sequência nas posições 70 a 74 da cadeia beta, o epítopo partilhado, associado a anticorpos anti-péptido citrulinado e a doença mais grave.
  • Fora do HLA, o PTPN22, que regula a ativação de linfócitos T e B, é o exemplo clássico; há mais de 100 loci descritos, cada um com efeito modesto.

Ambiente

  • Tabagismo: risco relativo de 1,5 a 3,5, quase só para a doença seropositiva; na mulher o excesso de risco persiste 15 anos depois de deixar de fumar.
  • Periodontite: a Porphyromonas gingivalis é a única bactéria oral com a enzima peptidil-arginina-desiminase, que citrulina proteínas.
  • Sílica e óleos minerais associam-se à doença com anticorpos anti-péptido citrulinado.

Da citrulinação à sinovite

  1. No pulmão do fumador e na mucosa periodontal, a peptidil-arginina-desiminase converte arginina em citrulina em proteínas como a filagrina, a vimentina e o fibrinogénio.
  2. Em quem tem o epítopo partilhado, as proteínas citrulinadas quebram a tolerância: surgem anticorpos anti-péptido citrulinado e fator reumatoide anos antes da artrite, numa fase pré-clínica.
  3. Na sinovial, os linfócitos T CD4 são ativados por células apresentadoras de antigénio (primeiro sinal, recetor do linfócito T com o HLA de classe II; segundo sinal, CD28 com CD80 e CD86), diferenciam-se em Th1 e Th17 e ativam linfócitos B, macrófagos e fibroblastos sinoviais.
  4. Os imunocomplexos com fator reumatoide e anticorpos anti-péptido citrulinado ativam o complemento e amplificam a inflamação.

Citocinas

citocinaefeito principalfármacos que a bloqueiam
Fator de necrose tumoral alfamoléculas de adesão, afluxo de leucócitos, ativação dos fibroblastos, angiogénese, osteoclastogéneseadalimumab, certolizumab, etanercept, golimumab, infliximab
Interleucina 6resposta de fase aguda, subida da proteína C reativa, anemia, ativação de osteoclastostocilizumab, sarilumab
Interleucina 1inflamação e degradação da cartilagemanacinra, hoje pouco usada

A sinalização intracelular destas citocinas passa pelas cinases Janus (JAK), alvo do tofacitinib, baricitinib, filgotinib e upadacitinib. A coestimulação pelo CD28 é bloqueada pelo abatacept, e os linfócitos B CD20 são depletados pelo rituximab.

Destruição articular

  • Pannus: sinovial hiperplásica, com fibroblastos sinoviais agressivos e tecido fibrovascular, que invade a cartilagem e o osso.
  • Cartilagem: degradada por metaloproteinases da matriz e outras proteases dos fibroblastos sinoviais.
  • Osso: erodido por osteoclastos ativados pelo ligando do recetor ativador do fator nuclear kappa B (RANKL), expresso por fibroblastos e linfócitos T e aumentado pelas citocinas; a osteoprotegerina é o seu recetor-isco. As erosões nascem na margem da articulação, onde a sinovial se insere no osso.
  • O fator de necrose tumoral também trava a formação óssea, ao induzir o dickkopf-1, inibidor da via Wnt: por isso as erosões não reparam.
  • O edema da medula óssea na ressonância é o precursor da erosão.

O diagnóstico é clínico: sinovite de pequenas articulações, simétrica e persistente, apoiada pela serologia, pelas provas de fase aguda e pela imagem. Nenhum exame isolado confirma ou exclui.

Exame objetivo

  • Sinovite: tumefação elástica, calor e dor à palpação, por vezes derrame.
  • Contam-se as articulações dolorosas e tumefactas, que alimentam os índices de atividade do seguimento.

Laboratório

exameo que vale
Fator reumatoide (FR), anticorpo IgM contra a porção Fc da IgGpositivo em 70 a 80%, especificidade de cerca de 86%. Também na síndrome de Sjögren, no lúpus, na crioglobulinemia, na endocardite, nas hepatites B e C, na sarcoidose e em 1 a 5% dos saudáveis. Títulos altos associam-se a doença erosiva e extra-articular
Anticorpos anti-péptido citrulinado cíclico (anti-CCP)sensibilidade semelhante (cerca de 67%), especificidade de cerca de 95%; presentes anos antes da artrite; o melhor preditor de doença erosiva
Velocidade de sedimentação (VS) e proteína C reativa (PCR)sobem com a atividade, mas podem ser normais com sinovite evidente; separam de doenças não inflamatórias
Hemogramaanemia de doença crónica e trombocitose
Líquido sinovialinflamatório, 5 000 a 50 000 leucócitos por µL com predomínio de neutrófilos; serve sobretudo para excluir infeção e cristais
  • Pedem-se os dois anticorpos, porque há doentes positivos para um e negativos para o outro.
  • Na avaliação inicial entram também anticorpos antinucleares, ácido úrico, função renal e hepática e serologias das hepatites B e C.

Imagem

  • Radiografia de mãos e pés: osteopenia justa-articular, edema das partes moles, redução simétrica da entrelinha e erosões marginais (punhos, metacarpofalângicas, interfalângicas proximais, face lateral da quinta metatarsofalângica). Muitas vezes normal no início, serve de base para seguir a progressão. Só cerca de 40% dos doentes têm hoje erosões radiográficas.
  • Ecografia com doppler: deteta sinovite, tenossinovite e mais erosões do que a radiografia; depende de quem a faz.
  • Ressonância: a mais sensível para sinovite e erosões precoces; o edema da medula óssea prediz erosões.

Critérios de classificação de 2010

Do colégio americano de reumatologia e da então liga europeia contra o reumatismo. Aplicam-se a quem tem pelo menos uma articulação com sinovite sem melhor explicação, e 6 ou mais pontos em 10 classificam como artrite reumatoide definida.

domíniocategoriapontos
Articulações1 grande0
2 a 10 grandes1
1 a 3 pequenas2
4 a 10 pequenas3
mais de 10, com pelo menos uma pequena5
SerologiaFR e anti-CCP negativos0
FR ou anti-CCP em título baixo, até 3 vezes o limite superior2
FR ou anti-CCP em título alto, mais de 3 vezes o limite superior3
Provas de fase agudaPCR e VS normais0
PCR ou VS anormais1
Duração dos sintomasmenos de 6 semanas0
6 semanas ou mais1

São critérios de classificação, feitos para reconhecer cedo quem vai ter doença persistente e erosiva; não são critérios de diagnóstico, e nódulos ou erosões não pontuam.

Diagnóstico diferencial

doençao que a distingue
Osteoartrosepadrão mecânico, rigidez de menos de 30 minutos, interfalângicas distais (Heberden) e proximais (Bouchard), osteófitos
Artrite psoriáticainterfalângicas distais, dactilite, entesite, psoríase, assimetria
Lúpusartrite não erosiva, atingimento multissistémico, anticorpos antinucleares
Artrites víricas (parvovírus B19, rubéola, hepatites B e C)início agudo, autolimitadas em semanas
Polimialgia reumáticaidoso, dor e rigidez das cinturas escapular e pélvica, resposta rápida ao corticoide em dose baixa
Gota crónica e doença por pirofosfato de cálciocristais no líquido sinovial
Outrasartrite reativa, sarcoidose, doença da tiroide, endocardite, febre reumática, fibromialgia
Artrite reumatoide e osteoartrose: mãos, serologia e tratamento Artrite reumatoide poliartrite simétrica · poupa IFD Osteoartrose artrose · padrão mecânico IFD poupada IFP MCF punho IFD Heberden IFP Bouchard sinovite ativa articulação poupada Artrite reumatoide Osteoartrose Padrão Inflamatório (melhora com uso) Mecânico (agrava com uso) Articulações MCF, IFP, punhos; poupa IFD IFD (Heberden), grandes de carga Simetria Simétrica, aditiva Assimétrica Rigidez matinal Prolongada (mais de 60 min) Breve (menos de 30 min) Serologia FR e anticorpos anti-CCP Negativa Radiografia Erosões, osteopenia justa-articular Osteófitos, esclerose Autoanticorpos Fator reumatoide (FR) Sensível, pouco específico (Sjögren, hepatite C, endocardite, idosos). Anticorpos anti-CCP Mais específico; valor prognóstico (erosivo); pode preceder a artrite anos. Critérios de classificação de 2010 6 ou mais pontos em 10; exige pelo menos 1 articulação com sinovite sem melhor explicação. Articulações (0 a 5) · Serologia FR ou anti-CCP (0 a 3) · VS ou PCR (0 a 1) · Duração de 6 semanas ou mais (0 a 1) Tratamento dirigido a um alvo Iniciar o fármaco modificador logo ao diagnóstico. Alvo: remissão ou baixa atividade; reavaliar a cada 1 a 3 meses. Primeira linha: metotrexato com ácido fólico. Alternativas: leflunomida, sulfassalazina. Corticoide só em ponte curta, desmamado e suspenso logo que possível. Sem melhoria aos 3 meses ou sem alvo aos 6: acrescentar um biológico (inibidor JAK só pesados os riscos). Biológicos: anti-TNF · anti-IL-6 (tocilizumab, sarilumab) · abatacept · rituximab (anti-CD20). Oral: inibidores JAK. Antes de biológico ou inibidor JAK: rastrear tuberculose latente e hepatites B e C.

Segue as recomendações de 2025 da EULAR (aliança europeia de associações de reumatologia), que substituíram as de 2022.

Estratégia dirigida a um alvo

  • Iniciar um fármaco modificador da doença logo que o diagnóstico é feito.
  • Alvo: remissão sustentada, ou baixa atividade quando a remissão não é realista, medida por índices compostos (articulações dolorosas e tumefactas, avaliação global, VS ou PCR).
  • Na doença ativa, reavaliar a cada 1 a 3 meses, e ajustar o tratamento se não houver melhoria aos 3 meses ou se o alvo não for atingido aos 6 meses.
  • Remissão booleana: número de articulações dolorosas, número de articulações tumefactas, PCR em mg/dL e avaliação global do doente (de 0 a 10), todos iguais ou inferiores a 1.

Primeira linha

  • Metotrexato semanal, 10 a 25 mg por via oral ou subcutânea, com ácido fólico para reduzir a toxicidade. É a âncora de quase todas as associações.
  • Se estiver contraindicado ou não for tolerado: leflunomida ou sulfassalazina. A hidroxicloroquina fica para a doença ligeira ou para associação.
  • Os fármacos modificadores convencionais demoram 6 a 12 semanas a atuar.
  • Corticoide de curta duração ao iniciar ou mudar o fármaco convencional, desmamado e suspenso tão depressa quanto possível. Não é tratamento de fundo: o preço é osteoporose, osteonecrose, diabetes, hipertensão e infeção.
  • Infiltração intra-articular de corticoide para uma ou poucas articulações ativas, depois de excluída infeção.
  • Anti-inflamatórios não esteroides só como adjuvantes sintomáticos.
fármacotoxicidade a vigiarantes de começar e no seguimento
Metotrexatohepatotoxicidade, mielossupressão, mucosite, pneumonite; teratogénicohemograma, função hepática e renal, hepatites, radiografia do tórax; controlo a cada 2 a 3 meses. Evita-se com creatinina acima de 2 mg/dL, doença hepática ou consumo excessivo de álcool
Leflunomidahepatotoxicidade, mielossupressão; teratogénicahemograma e função hepática; eliminação com colestiramina se houver toxicidade
Sulfassalazinaagranulocitose, hemólise no défice de glicose-6-fosfato desidrogenasehemograma, função hepática, doseamento da enzima
Hidroxicloroquinaretinopatia irreversívelexame oftalmológico com tomografia de coerência ótica

Resposta insuficiente

  • Sem o alvo com o metotrexato, acrescenta-se um biológico:
    • inibidor do fator de necrose tumoral (adalimumab, certolizumab, etanercept, golimumab, infliximab);
    • inibidor da interleucina 6 (tocilizumab, sarilumab);
    • abatacept, que bloqueia a coestimulação;
    • rituximab, anti-CD20, mais eficaz na doença seropositiva.
  • Um inibidor das cinases Janus (tofacitinib, baricitinib, filgotinib, upadacitinib, por via oral) só depois de pesar o risco de eventos cardiovasculares major, neoplasia e tromboembolismo.
  • O biológico ou o inibidor associa-se a um fármaco convencional, de preferência o metotrexato. Quando não é possível, os inibidores da interleucina 6 e das cinases Janus têm alguma vantagem em monoterapia.
  • Se o primeiro falhar, muda-se para outro biológico, da mesma ou de outra classe, ou para um inibidor das cinases Janus.
  • Nunca se associam dois biológicos, nem um biológico a um inibidor das cinases Janus, pelo risco de infeção.

Rastreio e vacinação antes de imunossuprimir

  • Tuberculose latente (prova tuberculínica ou teste de libertação de interferão gama) nos 12 meses antes do primeiro biológico; o risco de reativação é maior com os inibidores do fator de necrose tumoral.
  • Hepatites B e C antes de qualquer fármaco modificador.
  • Atualizar a vacinação, idealmente antes de iniciar e com a doença calma: vacinas inativadas em qualquer altura, vacinas vivas evitadas sob biológico.
  • Os inibidores do fator de necrose tumoral estão contraindicados na hepatite B crónica e na insuficiência cardíaca das classes III e IV.
  • Na infeção aguda suspendem-se o fármaco modificador e o biológico.

Remissão sustentada

  • Primeiro suspende-se o corticoide; depois pode reduzir-se a dose do fármaco modificador.
  • Parar tudo leva muitas vezes a novo surto.

Medidas não farmacológicas e comorbilidades

  • Exercício dinâmico e de fortalecimento, terapia ocupacional e ortóteses; talas de punho com moderação.
  • Deixar de fumar.
  • Controlo agressivo dos fatores de risco cardiovascular; avaliação da saúde óssea, com densitometria, e prevenção da osteoporose, sobretudo sob corticoide.
  • Cirurgia: artroplastia das grandes articulações na destruição avançada; artrodese ou artroplastia no punho e nas pequenas articulações.

Referências

  1. Smolen JS, Edwards CJ, Aletaha D, et al. EULAR recommendations for the management of rheumatoid arthritis with synthetic and biologic disease-modifying antirheumatic drugs: 2025 update. Ann Rheum Dis. 2026;85(6):991-1009.
  2. Aletaha D, Neogi T, Silman AJ, et al. 2010 rheumatoid arthritis classification criteria: an American College of Rheumatology/European League Against Rheumatism collaborative initiative. Arthritis Rheum. 2010;62(9):2569-2581.
  3. Rüegg L, Pluma A, Hamroun S, et al. EULAR recommendations for use of antirheumatic drugs in reproduction, pregnancy, and lactation: 2024 update. Ann Rheum Dis. 2025;84(6):910-926.
  4. European Medicines Agency. EMA confirms measures to minimise risk of serious side effects with Janus kinase inhibitors for chronic inflammatory disorders. Janus kinase inhibitors (JAKi) Article 20 procedure. Amesterdão: EMA; 2022.
  5. Shah A, St. Clair EW. Rheumatoid arthritis. In: Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, et al, editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 20.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2018. Capítulo 351.
  6. Moreland LW, June RR. Rheumatoid arthritis. In: Wing EJ, Schiffman FJ, editores. Cecil Essentials of Medicine. 10.ª ed. Filadélfia: Elsevier; 2022. p. 771-7.

16 perguntas sobre Artrite reumatoide

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