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Tuberculose

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 18 de julho de 2026 · 9 perguntas neste tema

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Em resumo

A tuberculose é causada pelo Mycobacterium tuberculosis, um bacilo álcool-ácido resistente de transmissão aérea (gotículas/núcleos de Wells), e distingue-se em dois estados que dominam toda a matéria: infeção tuberculosa latente (contida pelo granuloma, assintomática, não contagiosa, prova tuberculínica ou IGRA positivos com radiografia normal) e doença tuberculosa ativa (multiplicação bacilar com clínica, alterações imagiológicas e contagiosidade na forma pulmonar). A forma pulmonar clássica dá tosse com mais de duas ou três semanas, sudorese noturna, febre vespertina e emagrecimento, com cavitação apical no ápice pulmonar; as formas extrapulmonares mais examináveis são a ganglionar (a mais frequente), pleural, miliar, meníngea (a mais grave) e a espondilodiscite (mal de Pott). O diagnóstico da doença ativa assenta em baciloscopia (Ziehl-Neelsen), cultura (padrão de referência) e testes moleculares rápidos que detetam simultaneamente resistência à rifampicina (Xpert MTB/RIF Ultra, teste inicial recomendado pela OMS); o rastreio da infeção latente faz-se por IGRA ou prova tuberculínica (Mantoux). O tratamento da doença ativa sensível é o regime 2HRZE/4HR (dois meses de isoniazida, rifampicina, pirazinamida e etambutol seguidos de quatro meses de isoniazida e rifampicina), sob toma observada diretamente (TOD/DOT), com piridoxina para prevenir neuropatia pela isoniazida e vigilância de hepatotoxicidade. Na TB multirresistente a OMS recomenda hoje o regime oral de seis meses BPaLM (bedaquilina, pretomanida, linezolida, moxifloxacina). Na coinfeção VIH inicia-se terapêutica antirretroviral precocemente (nas primeiras duas semanas, exceto na meningite tuberculosa, onde se atrasa). A tuberculose é de notificação obrigatória e impõe rastreio de contactos, pilares do Programa Nacional para a Tuberculose (DGS).

Compreender a patogénese explica quase tudo o que se pergunta na tuberculose: a razão da transmissão aérea, a distribuição apical das lesões, o granuloma que contém o bacilo, a latência prolongada e a reativação na imunossupressão.

Agente e transmissão

O M. tuberculosis transmite-se por via aérea. Um doente com tuberculose pulmonar ou laríngea, ao tossir, falar ou espirrar, liberta gotículas que, ao evaporarem, deixam núcleos de gotícula (núcleos de Wells) com um a três bacilos, suficientemente pequenos (menos de 5 µm) para permanecerem em suspensão durante horas e atingirem os alvéolos. Não há transmissão por fómites nem por contacto de pele. A contagiosidade depende da carga bacilar (doentes com baciloscopia positiva e cavitação são os mais infectantes), da proximidade e da duração da exposição, e da ventilação do espaço. Daqui decorrem duas medidas-chave: isolamento respiratório do caso ativo (quarto com pressão negativa, máscara de proteção respiratória para os profissionais) e o rastreio de contactos.

Da inalação ao granuloma

Uma vez nos alvéolos, o bacilo é fagocitado pelos macrófagos alveolares, mas resiste à destruição porque bloqueia a fusão fagossoma-lisossoma e sobrevive dentro do macrófago. Multiplica-se localmente e drena para os gânglios hilares, podendo disseminar por via linfo-hematogénea antes de a imunidade adaptativa se instalar (o que semeia focos à distância, incluindo ápices pulmonares, rins, ossos e meninges).

Ao fim de duas a três semanas desenvolve-se a imunidade celular mediada por linfócitos T CD4 Th1, que produzem interferão gama e ativam os macrófagos. Forma-se então o granuloma: um agregado organizado de macrófagos ativados (células epitelioides e células gigantes multinucleadas de Langhans) rodeado por linfócitos, que isola e contém os bacilos. No centro surge frequentemente necrose caseosa, um ambiente hipóxico e ácido que restringe a multiplicação bacilar mas onde alguns bacilos sobrevivem dormentes. É este equilíbrio, bacilo contido mas vivo, que define a infeção latente. A hipersensibilidade tardia responsável por este mesmo mecanismo é o que torna positiva a prova tuberculínica.

O foco parenquimatoso primário (foco de Ghon) com o gânglio regional forma o complexo de Ghon/Ranke, que costuma calcificar e é visível como sequela na radiografia.

Latência e reativação

Enquanto a imunidade celular se mantém competente, o granuloma segura os bacilos e a pessoa permanece assintomática. Quando a imunidade celular falha, o granuloma degrada-se e os bacilos retomam a multiplicação: é a reativação, que explica a maioria da tuberculose do adulto em países de baixa incidência. Os principais fatores de risco de progressão ou reativação são:

  • Infeção VIH (o mais importante; risco proporcional à queda dos CD4).
  • Fármacos imunossupressores, com destaque para os antagonistas do TNF-alfa (a citocina que sustém o granuloma) e a corticoterapia prolongada.
  • Silicose, diabetes mellitus, insuficiência renal crónica em diálise, desnutrição.
  • Idades extremas, transplantação, neoplasias hematológicas, tabagismo e consumo de álcool.

Porquê os ápices e porquê a cavitação

A reativação predilige os segmentos apicais e posteriores dos lobos superiores porque aí a pressão parcial de oxigénio é mais alta e o M. tuberculosis, aeróbio estrito, prospera. À medida que a resposta imunitária e a carga bacilar aumentam, a necrose caseosa liquefaz e drena por um brônquio, criando uma cavidade. A cavitação é duplamente importante: contém enormes quantidades de bacilos em multiplicação ativa (logo, alta contagiosidade e maior risco de resistência) e comunica com a via aérea, tornando a baciloscopia da expetoração positiva.

O diagnóstico tem de responder a duas perguntas distintas, que não devem ser confundidas: há doença ativa? (pergunta microbiológica, respondida por baciloscopia, testes moleculares e cultura) e há infeção latente? (pergunta imunológica, respondida por IGRA ou prova tuberculínica, sempre após excluir doença ativa). Os testes imunológicos não distinguem infeção latente de doença e nunca chegam para diagnosticar tuberculose ativa.

Suspeita clínica

A tuberculose pulmonar deve ser considerada perante tosse com mais de duas a três semanas, sobretudo se acompanhada de sintomas constitucionais: febre (tipicamente vespertina), sudorese noturna, emagrecimento e astenia. A hemoptise, a dor pleurítica e a dispneia surgem em fases mais avançadas. Numa pessoa com estes sintomas, mais fatores de risco (contacto conhecido, país de alta incidência, VIH, imunossupressão, reclusão, sem-abrigo), a probabilidade pré-teste é alta e obriga a estudo microbiológico e imagiológico.

Imagem

A radiografia de tórax é o primeiro exame. Na tuberculose pós-primária (reativação) mostra tipicamente infiltrados e cavitação nos segmentos apicais e posteriores dos lobos superiores. Na tuberculose primária são mais comuns adenopatias hilares/mediastínicas e infiltrados nos campos médios e inferiores. A tuberculose miliar dá um padrão micronodular difuso ("grão de milho"). A TC é útil em dúvidas e nas formas extrapulmonares. Nenhuma imagem é diagnóstica por si só: confirma-se sempre por microbiologia.

Diagnóstico microbiológico da doença ativa

Colhem-se, em regra, amostras respiratórias (expetoração, de preferência matinal; se não houver, expetoração induzida, lavado gástrico na criança ou lavado broncoalveolar).

ExameO que dáPapel
Baciloscopia (Ziehl-Neelsen ou auramina)Deteta bacilos álcool-ácido resistentesRápida e barata, define contagiosidade; baixa sensibilidade (precisa de carga elevada) e não distingue M. tuberculosis de micobactérias não tuberculosas
Teste molecular rápido (Xpert MTB/RIF Ultra)Deteta ADN de M. tuberculosis e resistência à rifampicina em horasTeste inicial recomendado pela OMS; muito mais sensível que a baciloscopia e sinaliza logo possível multirresistência
Cultura (meio sólido de Löwenstein-Jensen ou líquido)Cresce o baciloPadrão de referência (gold standard); permite teste de sensibilidade aos antibacilares (TSA); lenta (semanas) pelo crescimento lento

Na prática atual, um teste molecular rápido é feito de imediato pela sua sensibilidade e pela deteção precoce de resistência, a baciloscopia estabelece a contagiosidade e a cultura confirma e fornece o antibiograma completo. A deteção de resistência à rifampicina no teste molecular é um marcador de alerta para TB multirresistente e mudança de estratégia terapêutica.

Formas extrapulmonares

O diagnóstico exige amostra do local envolvido. Achados clássicos:

  • Pleural: derrame exsudativo de predomínio linfocítico, adenosina desaminase (ADA) elevada no líquido; a biópsia pleural com granulomas aumenta o rendimento.
  • Meníngea: LCR com hiperproteinorráquia, hipoglicorráquia e pleocitose linfocítica; teste molecular e cultura do LCR; é a forma mais grave e urgente.
  • Ganglionar: aspiração/biópsia com granulomas necrosantes e microbiologia.
  • Miliar/disseminada: hemoculturas para micobactérias, biópsia de medula ou hepática; risco de envolvimento meníngeo associado.

Rastreio da infeção latente

Só se pesquisa infeção latente em quem beneficia de a tratar (contactos, candidatos a imunossupressão, VIH, entre outros) e sempre depois de excluir doença ativa (clínica e radiografia), sob pena de tratar uma doença ativa com monoterapia e gerar resistência.

TesteBaseVantagens/limitações
IGRA (ensaio de libertação de interferão gama)Sangue; mede interferão gama libertado por linfócitos face a antigénios específicos de M. tuberculosisNão sofre efeito da vacina BCG, uma só visita; preferível em vacinados com BCG
Prova tuberculínica (Mantoux)Injeção intradérmica de derivado proteico purificado (PPD); lê-se a induração às 48 a 72 horasBarata; falsos positivos com BCG e micobactérias ambientais; falsos negativos na imunossupressão (anergia)

Os limiares de positividade da prova tuberculínica dependem do risco:

InduraçãoConsidera-se positiva em
≥ 5 mmInfeção VIH, contacto próximo de caso bacilífero, imunossuprimidos (incluindo candidatos a anti-TNF), lesões fibróticas na radiografia
≥ 10 mmPopulações de maior risco: imigrantes de países de alta incidência, profissionais de saúde, reclusos, diabéticos, entre outros
≥ 15 mmPessoas sem fatores de risco conhecidos

Ambos os testes indicam infeção (contacto prévio com o bacilo), não doença, e podem estar negativos na imunossupressão grave. Um resultado positivo, com radiografia normal e sem sintomas, corresponde a infeção latente e coloca a indicação de tratamento preventivo.

Prova tuberculínica (Mantoux): limiares de positividade O corte de induração depende do risco individual Induração Considera-se positiva em... ≥ 5 mm Infeção VIH, contacto recente de caso bacilífero,imunossuprimidos (corticoides, anti-TNF, transplante), lesões fibróticas no Rx (TB antiga). ≥ 10 mm Imigrantes de áreas de alta incidência, profissionais de saúde, reclusos, crianças < 5 anos,comorbilidades (diabetes, insuficiência renal, silicose). ≥ 15 mm Pessoas sem qualquer fator de risco conhecido para tuberculose.
Esquema InovaQB.

A prevenção da tuberculose assenta em quatro eixos que se cruzam: interromper a transmissão a partir do caso ativo, encontrar e tratar quem já está infetado antes de adoecer (rastreio de contactos e tratamento da infeção latente), vacinar seletivamente com BCG e cumprir a notificação obrigatória que sustenta toda a vigilância epidemiológica.

Notificação obrigatória

A tuberculose é uma doença de notificação obrigatória em Portugal. Todo o caso confirmado ou em tratamento tem de ser declarado através do sistema nacional de vigilância (SINAVE) e registado no sistema específico do Programa Nacional para a Tuberculose (SVIG-TB). A notificação não é burocracia: é o que aciona o rastreio de contactos, permite monitorizar a adesão e os resultados do tratamento e detetar surtos. Notifica-se com base na suspeita clínica fundada, sem esperar pela confirmação por cultura.

Rastreio de contactos

Perante um caso de tuberculose pulmonar (o único contagioso), identificam-se e avaliam-se os contactos próximos (coabitantes e pessoas com exposição prolongada). O objetivo é duplo: encontrar casos secundários de doença ativa e identificar infeção latente com indicação para tratamento preventivo. Cada contacto é submetido a:

  1. Avaliação de sintomas e radiografia de tórax para excluir doença ativa.
  2. IGRA ou prova tuberculínica para pesquisar infeção.
  3. Se houver doença ativa, tratar como tal; se houver apenas infeção latente (teste positivo, radiografia normal, assintomático), propor tratamento da infeção latente.

Nos contactos com teste inicial negativo, sobretudo crianças e imunodeprimidos, pode repetir-se o teste após a janela de oito a doze semanas e ponderar-se quimioprofilaxia primária no intervalo em grupos de alto risco.

Tratamento da infeção tuberculosa latente

Tratar a infeção latente reduz drasticamente o risco de progressão para doença ativa e é uma das intervenções mais custo-efetivas em tuberculose. A condição obrigatória é ter excluído doença ativa antes de iniciar, porque estes regimes usam poucos fármacos e, aplicados a doença ativa, seleccionam resistências.

Priorizam-se para tratamento os infetados com maior risco de progressão: contactos recentes, pessoas com VIH, candidatos a terapêutica imunossupressora (nomeadamente anti-TNF-alfa), doentes com lesões fibróticas residuais não tratadas, transplantados e doentes em diálise.

Regimes atuais (as opções com rifamicinas, mais curtas, são hoje preferidas por melhor adesão):

RegimeDuraçãoNotas
3HP: isoniazida + rifapentina, semanal3 meses (12 tomas)Curto, boa adesão; atenção às interações da rifapentina
3HR: isoniazida + rifampicina, diário3 mesesAlternativa curta bem tolerada
4R: rifampicina, diário4 mesesÚtil se intolerância ou resistência à isoniazida
6H a 9H: isoniazida em monoterapia6 a 9 mesesRegime clássico, mais longo; adicionar piridoxina

Em qualquer regime com isoniazida associa-se piridoxina (vitamina B6) nos grupos de risco de neuropatia. Vigia-se hepatotoxicidade, sobretudo com isoniazida.

Vacinação BCG

A vacina BCG (bacilo de Calmette-Guérin), viva atenuada, protege sobretudo as crianças das formas graves e disseminadas (miliar e meníngea), mas tem eficácia limitada contra a tuberculose pulmonar do adulto e não previne a infeção. Em Portugal, a BCG deixou de ser universal: o Programa Nacional de Vacinação passou a uma estratégia de vacinação seletiva ao nascimento apenas dos recém-nascidos pertencentes a grupos de risco (por exemplo, filhos de pais de países de alta incidência ou com exposição prevista). Por ser uma vacina viva, está contraindicada na imunossupressão, incluindo o recém-nascido com infeção VIH. A BCG positiva a prova tuberculínica, o que reforça a preferência pelo IGRA no rastreio de vacinados.

Medidas de controlo de infeção

No caso ativo bacilífero, o controlo da transmissão faz-se por isolamento respiratório (quarto individual, idealmente com pressão negativa), máscara cirúrgica no doente quando sai do quarto e máscara de proteção respiratória (FFP2/FFP3) para os profissionais. O doente pulmonar deixa de ser considerado contagioso após resposta clínica e microbiológica ao tratamento eficaz (habitualmente cerca de duas semanas de terapêutica adequada com melhoria e queda da carga bacilar).

O tratamento da tuberculose ativa obedece a princípios que decorrem da biologia do bacilo: como se multiplica lentamente e coexistem populações em diferentes estados metabólicos, é preciso combinar vários fármacos (para prevenir resistência) durante muitos meses (para esterilizar os bacilos dormentes). Nunca se trata tuberculose ativa com um só fármaco.

Regime da tuberculose sensível

O esquema padrão da tuberculose sensível é o 2HRZE/4HR, com seis meses de duração e duas fases:

  • Fase intensiva (2 meses): Hisoniazida + Rifampicina + Zpirazinamida + Etambutol. Reduz rapidamente a carga bacilar e a contagiosidade.
  • Fase de manutenção (4 meses): Hisoniazida + Rifampicina. Esteriliza os bacilos persistentes e previne a recidiva.

Existe hoje, endossado pela OMS, um regime alternativo de 4 meses com rifapentina e moxifloxacina (mais isoniazida e pirazinamida) para tuberculose pulmonar sensível em maiores de doze anos, uma opção de encurtamento para casos selecionados. Algumas formas exigem prolongamento: a tuberculose do sistema nervoso central e a osteoarticular tratam-se habitualmente durante nove a doze meses.

Toma observada diretamente

A adesão é o principal determinante de sucesso e de prevenção de resistências. Por isso privilegia-se a toma observada diretamente (TOD, ou DOT), em que um profissional confirma cada toma, sobretudo em doentes com risco de má adesão. É um pilar da estratégia da OMS e do Programa Nacional para a Tuberculose.

Fármacos, efeitos adversos e monitorização

FármacoToxicidade a reterVigilância/notas
Isoniazida (H)Hepatotoxicidade; neuropatia periférica (por depleção de piridoxina)Associar piridoxina (vitamina B6) em grávidas, VIH, diabéticos, alcoólicos e desnutridos
Rifampicina (R)Hepatotoxicidade; indutor potente do citocromo P450; fluidos alaranjados (urina, lágrimas, suor)Muitas interações (antirretrovirais, contracetivos orais, anticoagulantes, imunossupressores); avisar o doente da coloração
Pirazinamida (Z)Hepatotoxicidade; hiperuricemia (pode precipitar gota); artralgiasVigiar transaminases e ácido úrico
Etambutol (E)Neurite óptica (perda de acuidade visual e da visão das cores)Avaliação da visão de base e ao longo do tratamento

A hepatotoxicidade é o efeito adverso central: as três primeiras (isoniazida, rifampicina e pirazinamida) são hepatotóxicas. Faz-se avaliação basal da função hepática e monitoriza-se; perante hepatite significativa (por exemplo, transaminases acima de três vezes o normal com sintomas ou acima de cinco vezes sem sintomas) suspendem-se os fármacos hepatotóxicos e reintroduzem-se de forma faseada após normalização. O etambutol e a moxifloxacina não são hepatotóxicos relevantes.

Resposta e seguimento

Monitoriza-se a resposta clínica e microbiológica, com baciloscopias/culturas de controlo (a conversão da cultura ao fim de dois meses é um marcador de boa resposta). A persistência de cultura positiva ou a deterioração levantam suspeita de má adesão ou de resistência.

Tuberculose resistente

A resistência define-se pela sensibilidade ao antibiograma. A TB multirresistente (TB-MDR) é resistente pelo menos à isoniazida e à rifampicina, os dois fármacos mais importantes; a TB extensivamente resistente (TB-XDR) acrescenta resistência às fluoroquinolonas e a outros fármacos-chave de segunda linha. A deteção precoce faz-se pelos testes moleculares (a resistência à rifampicina no Xpert é o primeiro alerta).

O paradigma mudou de forma marcante: os antigos regimes injetáveis de 18 a 24 meses foram substituídos por esquemas orais e curtos. A OMS recomenda hoje, como opção preferida para a maioria da TB-MDR/RR, o regime BPaLM de 6 meses, composto por bedaquilina, pretomanida, linezolida e moxifloxacina (usa-se BPaL, sem moxifloxacina, quando há resistência às fluoroquinolonas). Estes regimes exigem gestão especializada e vigilância de toxicidade (nomeadamente hematológica e neuropática da linezolida e prolongamento do QT com bedaquilina e moxifloxacina).

Coinfeção VIH

A coinfeção VIH exige tratar simultaneamente as duas infeções, mas com atenção ao timing da terapêutica antirretroviral (TAR) e às interações:

  • Inicia-se sempre o tratamento antibacilar primeiro; a TAR começa precocemente, dentro das primeiras duas semanas de tratamento antituberculoso na maioria dos doentes, sobretudo com CD4 baixos (risco de progressão elevado).
  • Excepção da meningite tuberculosa: adia-se o início da TAR (habitualmente para cerca de quatro a oito semanas) porque o início precoce aumenta o risco de síndrome inflamatória de reconstituição imunitária (IRIS) com desfecho neurológico grave.
  • Interação com a rifampicina: como indutor potente do P450, reduz os níveis de vários antirretrovirais. Pode substituir-se por rifabutina (indutor mais fraco) para compatibilizar com o esquema antirretroviral, conforme a norma vigente.
  • Mantém-se a piridoxina com a isoniazida e vigia-se o IRIS (agravamento paradoxal após início da TAR, que em geral se trata sem suspender os fármacos, com corticoide nas formas graves).

Referências

  1. Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al., editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2022 (tuberculose; infeção por micobactérias).
  2. Bennett JE, Dolin R, Blaser MJ, editores. Mandell, Douglas, and Bennett's Principles and Practice of Infectious Diseases. 9.ª ed. Filadélfia: Elsevier; 2020 (Mycobacterium tuberculosis).
  3. World Health Organization. WHO consolidated guidelines on tuberculosis. Module 4: Treatment - drug-susceptible tuberculosis treatment. Genebra: OMS; 2022.
  4. World Health Organization. WHO consolidated guidelines on tuberculosis. Module 4: Treatment - drug-resistant tuberculosis treatment, 2022 update (regime BPaLM/BPaL de 6 meses). Genebra: OMS; 2022.
  5. World Health Organization. WHO consolidated guidelines on tuberculosis. Module 3: Diagnosis - rapid diagnostics for tuberculosis detection, 2021 update (Xpert MTB/RIF Ultra como teste inicial). Genebra: OMS; 2021.
  6. World Health Organization. WHO consolidated guidelines on tuberculosis. Module 1: Prevention - tuberculosis preventive treatment. Genebra: OMS; 2020.
  7. World Health Organization. WHO consolidated guidelines on tuberculosis. Module 5: Management of tuberculosis in children and adolescents. Genebra: OMS; 2022.
  8. Nahid P, Dorman SE, Alipanah N, et al. Official ATS/CDC/IDSA Clinical Practice Guidelines: Treatment of Drug-Susceptible Tuberculosis. Clin Infect Dis. 2016;63(7):e147-e195.
  9. Sterling TR, Njie G, Zenner D, et al. Guidelines for the Treatment of Latent Tuberculosis Infection: Recommendations from the NTCA and CDC, 2020. MMWR Recomm Rep. 2020;69(1):1-11.
  10. Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional para a Tuberculose: orientações programáticas, diagnóstico e tratamento (incluindo tratamento da tuberculose latente e rastreio de contactos). Lisboa: DGS (consultado em 2026).
  11. Direção-Geral da Saúde. Norma sobre coinfeção VIH/tuberculose e Programa Nacional de Vacinação (vacinação seletiva com BCG). Lisboa: DGS (consultado em 2026).

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