Sífilis
Atualizado em 19 de julho de 2026 · 7 perguntas neste tema
A sífilis é a grande imitadora: uma infeção sistémica por espiroqueta capaz de mimetizar quase toda a medicina, com estádios que se sucedem e se interrompem espontaneamente, e cujo diagnóstico depende quase inteiramente de uma serologia com armadilhas próprias. Está em ressurgimento na Europa e em Portugal, sobretudo em homens que têm sexo com homens (HSH) e em pessoas que vivem com VIH, o que devolveu à prática clínica um diagnóstico que muitos médicos recém-licenciados nunca viram. Na PNA (relevância B) o rendimento concentra-se em quatro pontos: reconhecer o cancro duro e o exantema palmoplantar; interpretar testes treponémicos versus não treponémicos (incluindo prozona, falsos positivos e algoritmo reverso); escolher o regime de penicilina consoante o estádio — sabendo que a benzatina não trata neurossífilis; e prevenir a sífilis congénita através do rastreio pré-natal. Um quinto ponto, muito testado, é distinguir a reação de Jarisch-Herxheimer de alergia à penicilina. As restantes infeções sexualmente transmissíveis e a infeção por VIH têm capítulos próprios; aqui a sífilis desenvolve-se por completo.
Métodos diretos: quando a lesão está presente
Embora o diagnóstico seja predominantemente serológico, na presença de lesão húmida ativa (cancro, condiloma plano, placa mucosa) é possível demonstrar o agente:
- Microscopia de campo escuro: visualização direta das espiroquetas móveis no exsudado da lesão. Alta especificidade quando positiva, mas disponibilidade muito limitada, requer operador treinado e amostragem imediata. Não é válida em lesões orais ou anorretais por causa dos treponemas comensais.
- PCR para T. pallidum no exsudado da lesão: mais sensível e específica, cada vez mais disponível; é hoje o método direto de escolha quando existe.
- Imuno-histoquímica em biópsia (útil quando a apresentação é atípica e se biopsou por outro motivo).
Ponto-chave: um método direto positivo confirma o diagnóstico, mas um resultado negativo não o afasta — segue-se sempre para a serologia.
O núcleo técnico: dois tipos de teste serológico
Esta distinção é o que a PNA testa com mais frequência. Não é possível interpretar uma serologia de sífilis sem a dominar. O enquadramento seguido nesta secção — algoritmos tradicional e reverso, arbitragem das discordâncias e interpretação dos títulos — é o das recomendações laboratoriais dedicadas do CDC (Laboratory Recommendations for Syphilis Testing, United States, 2024, MMWR Recomm Rep 2024;73(1):1-32), que são hoje a fonte primária nesta matéria.
| Não treponémicos (VDRL, RPR) | Treponémicos (TPHA/TPPA, FTA-ABS, EIA/CLIA) | |
|---|---|---|
| O que detetam | Anticorpos contra cardiolipina (antigénio lipídico libertado pelo dano tecidual) — não específicos do treponema | Anticorpos dirigidos a antigénios do próprio T. pallidum |
| Resultado | Quantitativo (título: 1:2, 1:8, 1:64…) | Qualitativo (reativo / não reativo) |
| Utilidade | Avaliar atividade da doença e resposta ao tratamento; rastreio | Confirmar a infeção |
| Após tratamento eficaz | Descem e habitualmente negativam | Permanecem positivos para a vida na grande maioria |
| Falsos positivos | Relativamente frequentes (ver adiante) | Raros (outras treponematoses, algumas doenças autoimunes) |
Regra a fixar: o teste treponémico diz "esta pessoa teve contacto com o treponema"; o não treponémico diz "e a doença está — ou esteve — ativa neste momento e com esta intensidade". Só o não treponémico serve para seguir o doente.
Algoritmo tradicional versus algoritmo reverso
Algoritmo tradicional: começa com um teste não treponémico (VDRL ou RPR); se reativo, confirma com um teste treponémico. É barato e prático, mas perde sífilis muito precoce e sífilis tardia com título não treponémico já negativo.
Algoritmo reverso (hoje o mais usado nos laboratórios): começa com um teste treponémico automatizado (EIA/CLIA), de alto débito e fácil de automatizar; se reativo, faz-se um não treponémico quantitativo; se houver discordância, faz-se um segundo teste treponémico diferente (tipicamente TPPA) como árbitro.
Interpretar as combinações
| Treponémico | Não treponémico | Interpretação mais provável |
|---|---|---|
| Reativo | Reativo (título significativo) | Sífilis — determinar o estádio; tratar |
| Reativo | Não reativo | Sífilis tratada no passado, sífilis muito precoce, sífilis tardia com título negativado, ou falso positivo treponémico → arbitrar com 2.º teste treponémico e rever história de tratamento |
| Não reativo | Reativo | Falso positivo biológico do não treponémico (o mais provável) ou sífilis primaríssima → repetir em 2-4 semanas |
| Não reativo | Não reativo | Sem evidência de sífilis; se exposição de risco muito recente, repetir (janela) |
A situação clinicamente mais incómoda é a segunda linha: treponémico reativo com não treponémico não reativo. Se o segundo teste treponémico for também reativo e não houver história documentada de tratamento adequado, a conduta habitual é tratar como sífilis latente de duração indeterminada (três doses semanais).
As quatro armadilhas de alto rendimento
1. Efeito prozona
Quando existe excesso maciço de anticorpos — o cenário típico é a sífilis secundária, e também a grávida e a pessoa com VIH — a reação de floculação do teste não treponémico não ocorre no soro não diluído, porque os anticorpos em excesso saturam os antigénios e impedem a formação da rede de agregação. O resultado é um falso negativo num doente com doença exuberante.
Conduta: perante uma clínica muito sugestiva (exantema palmoplantar, condilomas planos) com VDRL/RPR negativo, pedir explicitamente ao laboratório que repita com diluições seriadas. É um clássico de exame.
2. Falsos positivos biológicos dos testes não treponémicos
Habitualmente com títulos baixos (≤ 1:8). Causas a memorizar:
- Gravidez
- Doenças autoimunes: lúpus eritematoso sistémico e, muito tipicamente, a síndrome antifosfolipídica (a mesma cardiolipina que dá o VDRL falso positivo é o alvo dos anticorpos anticardiolipina)
- Infeções agudas (víricas, incluindo mononucleose; endocardite; malária; lepra (doença de Hansen); tuberculose)
- Consumo de drogas por via endovenosa
- Idade avançada, neoplasias, vacinação recente
O teste treponémico resolve a dúvida.
3. Janela serológica na sífilis primária muito precoce
No cancro recente, a serologia pode ser negativa — os testes não treponémicos só se tornam reativos cerca de 1 a 4 semanas após o aparecimento da lesão. O FTA-ABS é, dos serológicos, o que positiva mais cedo.
Conduta: perante úlcera genital compatível com serologia negativa, não excluir — fazer método direto se disponível, considerar tratamento empírico e repetir a serologia em 2 a 4 semanas (e novamente às 6 semanas e aos 3 meses se a suspeita for elevada).
4. O treponémico positivo não distingue ativa de tratada
Como permanece reativo para a vida, um TPHA/EIA positivo isolado nunca deve ser lido como "tem sífilis agora". É preciso o título não treponémico e a história de tratamento. Este é o erro mais comum na prática de urgência.
Punção lombar: quando e como interpretar
Não se faz punção lombar a todos os doentes com sífilis. Indicações consensuais (CDC 2021; IUSTI 2020):
- Sintomas ou sinais neurológicos (cefaleia persistente, alterações cognitivas, paralisia de nervo craniano, sinais meníngeos, AVC inexplicado no jovem);
- Sintomas oculares ou óticos — embora, na prática, a suspeita de sífilis ocular ou ótica obrigue antes de tudo a observação urgente por Oftalmologia/ORL e a iniciar tratamento de neurossífilis, independentemente do resultado do líquido cefalorraquidiano (LCR);
- Suspeita de sífilis terciária (cardiovascular ou gomatosa);
- Falência serológica ao tratamento (ausência de descida adequada do título).
A infeção por VIH, por si só e com boa reconstituição imunitária, não é hoje indicação automática de punção lombar na ausência de sintomas — mas mantém um limiar de suspeita mais baixo.
Interpretação do LCR
- VDRL no LCR: muito específico, pouco sensível. Positivo → confirma neurossífilis. Negativo não a exclui. Esta assimetria é fortemente testada.
- Pleocitose linfocítica (habitualmente > 5 células/µL) e hiperproteinorráquia apoiam o diagnóstico; na pessoa com VIH não tratada, a pleocitose ligeira pode ser atribuível ao próprio vírus, o que dificulta a leitura (alguns adotam um limiar mais alto, ~20 células/µL).
- FTA-ABS no LCR: espelho do VDRL — muito sensível, pouco específico. Um FTA-ABS negativo no LCR torna a neurossífilis improvável; positivo, isoladamente, vale pouco.
Síntese prática: VDRL positivo no LCR fecha o diagnóstico; um FTA-ABS negativo no LCR torna a neurossífilis menos provável apenas no doente sem sintomas neurológicos, oculares ou óticos. Perante sintomas oculares, óticos ou neurológicos, nenhum resultado do LCR — incluindo um LCR inteiramente normal — permite excluir o diagnóstico nem justifica tratar com benzatina em vez de penicilina G aquosa endovenosa. Nestes doentes o LCR não decide o tratamento.
Rastrear coinfeções
Toda a pessoa com diagnóstico de sífilis deve ser testada para VIH (e repetir aos 3 meses se negativo, dado o risco partilhado) e rastreada para as restantes infeções sexualmente transmissíveis, incluindo hepatites B e C, gonorreia e clamídia — ver os capítulos respetivos.
Prevenção primária: o preservativo e o seu limite
O preservativo, usado de forma correta e consistente, reduz substancialmente o risco de transmissão da sífilis, mas — e este é o ponto que a PNA gosta de testar — a sua eficácia é menor do que nas infeções transmitidas por secreções (gonorreia, clamídia, VIH). A razão é fisiopatológica: a sífilis transmite-se por contacto direto com uma lesão húmida, e essas lesões podem localizar-se fora da área coberta pelo preservativo — base do pénis, escroto, região púbica, períneo, região perianal, lábios, cavidade oral. O mesmo se aplica ao herpes e ao HPV.
Mensagem a dar ao doente: o preservativo reduz, não elimina, o risco; a redução do número de parceiros, o conhecimento do estado serológico dos parceiros e o rastreio regular completam a estratégia.
Rastreio: quem, quando e com que periodicidade
O rastreio é a intervenção com maior retorno em sífilis, porque a doença é frequentemente assintomática (latente) ou tem sintomas que passam despercebidos (cancro indolor e oculto).
Grávidas — o rastreio não negociável
O rastreio serológico de sífilis na gravidez é universal e obrigatório em Portugal, integrado na vigilância pré-natal:
- Na primeira consulta de vigilância pré-natal (1.º trimestre) — a todas as grávidas, sem exceção e independentemente do risco percebido.
- Repetição no 3.º trimestre — a todas as grávidas, e não apenas às de risco: a Norma da DGS n.º 037/2011 integra a serologia de sífilis no calendário analítico da gravidez de baixo risco, com VDRL no 1.º e no 3.º trimestres; se o VDRL for reativo, a confirmação faz-se com um teste treponémico (TPHA ou FTA-abs) — ou seja, em Portugal o algoritmo mandatado na gravidez é o tradicional. A lógica da repetição é apanhar a seroconversão durante a gestação, que é precisamente a situação de maior risco de transmissão vertical.
- Rastreio adicional no momento do parto nas mulheres com fatores de risco (IST prévia ou concomitante, parceiro com comportamento de risco, múltiplos parceiros, consumo de substâncias, ausência de vigilância pré-natal, residência em contexto de alta prevalência).
- Nenhum recém-nascido deve ter alta sem que o estado serológico materno seja conhecido. Se a mãe não foi rastreada, rastreia-se no parto.
Esta é, sem margem para dúvida, a intervenção de saúde pública com maior impacto em sífilis: cada caso de sífilis congénita representa uma oportunidade perdida de rastreio ou de tratamento atempado.
Outros grupos com indicação de rastreio
| Grupo | Periodicidade orientadora |
|---|---|
| Dadores de sangue e de órgãos/tecidos | Em cada dádiva (obrigatório) |
| Pessoas que vivem com VIH | Pelo menos anual; cada 3-6 meses se exposição continuada |
| Pessoas sob PrEP | Cada 3 meses, integrado nas consultas de seguimento |
| HSH e pessoas com múltiplos parceiros | Anual; cada 3-6 meses se risco elevado |
| Contexto prisional | À entrada e periodicamente |
| Qualquer pessoa com outra IST diagnosticada | Ao diagnóstico e repetir a 3 meses |
| Trabalhadores do sexo | Periódico, ajustado ao risco |
| Contactos sexuais de caso confirmado | Ao diagnóstico + seguimento serológico |
Regra operacional simples: diagnosticar uma IST é indicação para rastrear todas as outras, sífilis incluída. O inverso também é verdade.
Notificação e tratamento dos parceiros
Doença de declaração obrigatória
A sífilis é, em Portugal, doença de declaração obrigatória, com notificação através do sistema nacional de vigilância epidemiológica (SINAVE). A sífilis congénita é notificada de forma autonomizada, por ser um indicador de qualidade do rastreio pré-natal. A notificação não é burocracia: alimenta a vigilância que identifica surtos e populações-alvo.
Rastreio e tratamento de contactos — a regra dos 90 dias
Esta é uma das regras mais testadas do capítulo:
- Contactos sexuais nos últimos 90 dias de um caso de sífilis primária, secundária ou latente precoce → tratar empiricamente, com penicilina G benzatina 2,4 milhões de unidades IM em dose única, mesmo que a serologia seja negativa. Racional: o contacto pode estar na janela serológica e ser já infecioso; o custo de tratar é uma injeção, o custo de não tratar é manter a cadeia de transmissão.
- Antes da injeção, em todos os contactos: colher serologia treponémica e não treponémica quantitativa — a colheita não deve atrasar o tratamento, mas sem título basal não há referência para o seguimento; examinar à procura de cancro, exantema ou condilomas planos; perguntar ativamente por alterações visuais, hipoacusia, acufenos, cefaleia ou alterações do comportamento; e determinar se está grávida. A dose única cobre a exposição recente — não cobre um contacto que já tenha sífilis de duração indeterminada (3 doses semanais), neurossífilis ou sífilis ocular/ótica (penicilina G aquosa EV). O contacto tratado empiricamente mantém seguimento serológico como qualquer doente tratado.
- Contactos há mais de 90 dias → tratar presuntivamente se a serologia não estiver imediatamente disponível ou se o seguimento for incerto; caso contrário, orientar pelo resultado.
- Janelas de rastreio de contactos a considerar consoante o estádio do caso índice: 3 meses + duração dos sintomas na primária; 6 meses + duração dos sintomas na secundária; 1 ano na latente precoce.
Na sífilis latente tardia, rastreiam-se os parceiros de longa duração e, quando aplicável, os filhos.
Doxi-PEP: profilaxia pós-exposição com doxiciclina
Estratégia recente e com evidência robusta: doxiciclina 200 mg por via oral, em toma única, até 72 horas após uma relação sexual desprotegida.
- O ensaio clínico DoxyPEP (Luetkemeyer et al., NEJM, 2023), em HSH e mulheres transgénero com VIH ou sob PrEP, demonstrou redução significativa da incidência de sífilis, clamídia e, em menor grau, gonorreia.
- O benefício está demonstrado nesta população específica; o benefício em mulheres cisgénero não foi confirmado nos estudos realizados até à data.
- Preocupações legítimas e que devem constar da decisão partilhada: pressão seletiva para resistência à tetraciclina (nomeadamente em Neisseria gonorrhoeae e em Staphylococcus aureus), impacto no microbiota e fotossensibilidade.
- Contraindicada na gravidez e não recomendada em idade pediátrica precoce.
O CDC publicou em 2024 uma guideline clínica autónoma sobre doxi-PEP (CDC Clinical Guidelines on the Use of Doxycycline Postexposure Prophylaxis for Bacterial Sexually Transmitted Infection Prevention, United States, 2024, MMWR Recomm Rep 2024;73(2):1-8), que o recomenda em populações selecionadas — HSH e mulheres transgénero com uma IST bacteriana no último ano; em Portugal não existe, até à data, norma ou orientação da DGS sobre doxi-PEP: a sua eventual utilização é decidida caso a caso, em consulta especializada de IST/PrEP, e não constitui conduta normalizada a nível nacional.
Prevenção da sífilis congénita
Merece ser tratada como um objetivo autónomo, porque é inteiramente evitável. A cadeia de prevenção tem três elos, e basta falhar um para haver um caso:
- Acesso e adesão à vigilância pré-natal — a maioria dos casos de sífilis congénita ocorre em grávidas sem vigilância ou com vigilância tardia. É aqui que se perdem mais casos.
- Rastreio serológico feito e resultado visto — não basta pedir; é preciso garantir que o resultado é lido e atuado.
- Tratamento com penicilina, completo e a tempo — o tratamento materno deve estar concluído pelo menos 30 dias antes do parto para se considerar adequado para o feto; abaixo disso, o recém-nascido é avaliado e tratado como potencialmente infetado.
A OMS mantém a eliminação da transmissão materno-infantil de sífilis (a par do VIH) como meta global — e o indicador usado é precisamente a cobertura do rastreio pré-natal e do tratamento.
Vacina e imunidade
Não existe vacina contra a sífilis. Como a infeção não confere imunidade protetora, uma pessoa tratada com sucesso pode reinfetar-se e voltar a apresentar sífilis primária. Este facto tem duas implicações práticas: (1) o aconselhamento deve ser repetido em cada episódio; (2) uma nova subida de quatro vezes do título não treponémico após resposta adequada deve fazer suspeitar de reinfeção (ver situações especiais).
Princípio geral: penicilina, sempre que possível
A penicilina G é o tratamento de eleição em todos os estádios e em todas as populações. Não há resistência clinicamente relevante. O que muda entre estádios é a formulação, a dose e a duração — e a lógica por trás dessas diferenças é farmacocinética: o treponema tem um tempo de duplicação lento (~30 horas), pelo que é preciso manter concentrações treponemicidas sustentadas durante tempo suficiente. Quanto mais antiga a infeção, mais lentos os organismos e mais prolongada tem de ser a exposição ao fármaco.
Regimes por estádio
| Estádio | Regime de primeira linha (adulto não grávido) |
|---|---|
| Sífilis precoce (primária, secundária, latente precoce < 1 ano) | Penicilina G benzatina 2,4 milhões U IM, dose única |
| Sífilis latente tardia, de duração indeterminada, ou terciária sem envolvimento neurológico | Penicilina G benzatina 2,4 milhões U IM, uma vez por semana, 3 doses (total 7,2 milhões U) |
| Neurossífilis, sífilis ocular, sífilis ótica | Penicilina G aquosa cristalina 18-24 milhões U/dia EV, em perfusão contínua ou 3-4 milhões U cada 4 horas, durante 10 a 14 dias |
Notas práticas:
- A administração da benzatina é intramuscular profunda, tipicamente no quadrante superoexterno da nádega, dividida por dois locais no adulto pelo volume. Nunca por via endovenosa — a injeção inadvertida em vaso pode causar embolia e reações graves. A administração só deve ser feita em local com adrenalina e material de reanimação imediatamente disponíveis, e o doente permanece em observação 15 a 30 minutos após a injeção — é nesta janela que ocorre tipicamente a anafilaxia. O mesmo se aplica à primeira administração depois de desrotular uma alergia à penicilina.
- Se o intervalo entre doses exceder 14 dias, reinicia-se o esquema completo de três doses. Na grávida a margem é menor: um intervalo superior a 7 dias — ou qualquer dose falhada — obriga a repetir o curso completo.
- Após a neurossífilis endovenosa, muitos protocolos (incluindo o CDC 2021, como opção) acrescentam benzatina 2,4 milhões U IM semanal durante até 3 semanas para cobrir a doença sistémica tardia concomitante.
A regra de segurança mais testada
A penicilina G benzatina NÃO atinge concentrações treponemicidas no sistema nervoso central. Se há neurossífilis, sífilis ocular ou sífilis ótica, o tratamento tem de ser penicilina G aquosa por via endovenosa. Tratar uma neurossífilis com benzatina é um erro grave — e é uma alínea distratora recorrente.
Alternativa aceite pelo CDC quando o acesso venoso ou o internamento não são viáveis: penicilina G procaína 2,4 milhões U IM/dia + probenecid 500 mg oral 4x/dia, durante 10-14 dias (o probenecid bloqueia a secreção tubular renal e a saída da penicilina do LCR, elevando as concentrações). É uma segunda escolha, não a preferida.
Nota de disponibilidade em Portugal: este esquema é praticamente inexequível no SNS — não existe apresentação isolada de penicilina G procaína (a única especialidade comercializada com procaínica é a associação fixa Lentocilin 6.3.3, com apenas 300 000 UI de procaínica por frasco) e o probenecid não tem medicamento comercializado em Portugal. Na prática, a neurossífilis, a sífilis ocular e a ótica tratam-se cá com penicilina G aquosa endovenosa em internamento ou hospital de dia; havendo alergia, a via é a dessensibilização ou a ceftriaxona.
Alergia à penicilina
Primeiro passo: caracterizar a alergia. Uma proporção muito grande dos doentes rotulados de "alérgicos à penicilina" não tem alergia mediada por IgE — a história é de intolerância digestiva, exantema tardio na infância ou rótulo herdado sem episódio documentado. A avaliação alergológica (história dirigida, testes cutâneos quando indicados) permite recuperar a penicilina na maioria dos casos.
Alternativas — apenas em situações selecionadas
| Situação | Alternativa | Duração |
|---|---|---|
| Sífilis precoce, não grávida, alergia confirmada | Doxiciclina 100 mg oral 2x/dia | 14 dias |
| Sífilis latente tardia/indeterminada, não grávida | Doxiciclina 100 mg oral 2x/dia | 28 dias |
| Sífilis precoce, alternativa adicional | Ceftriaxona 1 g IM/EV por dia (evidência mais limitada) | 10-14 dias |
| Neurossífilis / ocular / ótica, alergia confirmada sem dessensibilização exequível | Ceftriaxona 2 g IM/EV por dia (BASHH 2024; admitida pelo CDC) | 10-14 dias |
A azitromicina não deve ser usada: existe resistência disseminada de T. pallidum aos macrólidos (mutação 23S rRNA), com falências terapêuticas documentadas, incluindo em Portugal e restante Europa.
Quando a penicilina é insubstituível — dessensibilização
Numa situação não há alternativa aceitável à penicilina e noutra a alternativa é claramente inferior; em ambas a conduta preferível é a dessensibilização (protocolo oral ou endovenoso, com doses crescentes, em meio hospitalar com capacidade de reanimação), seguida de tratamento com penicilina:
- Grávida com sífilis, em qualquer estádio — porque a doxiciclina está contraindicada na gravidez e nenhum outro fármaco demonstrou tratar o feto.
- Neurossífilis (e sífilis ocular/ótica) — a penicilina G aquosa endovenosa mantém-se o tratamento de eleição e a dessensibilização é preferível sempre que exequível; existe, contudo, alternativa na alergia confirmada: ceftriaxona 2 g IM ou EV uma vez por dia durante 10-14 dias (BASHH 2024, também admitida pelo CDC), que atinge concentrações treponemicidas no LCR e tem risco baixo de reatividade cruzada com a penicilina.
A dessensibilização é temporária: a tolerância perde-se dias após a interrupção do fármaco, pelo que tem de ser repetida se for preciso novo curso.
Antes de tratar: o que fazer na consulta
- Determinar o estádio — é isto que define o regime. História de exposição, sintomas prévios, serologias anteriores.
- Obter um título não treponémico quantitativo basal — imprescindível, porque toda a monitorização se faz por comparação com este valor. Idealmente colhido no mesmo laboratório e com o mesmo teste (VDRL e RPR não são intermutáveis).
- Procurar sinais de neurossífilis, sífilis ocular e ótica — perguntar ativamente por alterações visuais, hipoacusia, acufenos, cefaleia, alterações cognitivas ou do comportamento. Um exame neurológico e uma pergunta sobre a visão mudam o regime.
- Testar VIH e rastrear as outras IST.
- Avisar da reação de Jarisch-Herxheimer (ver secção de complicações) — o doente deve saber que pode ter febre e agravamento do exantema nas primeiras horas e que isso não é alergia.
- Aconselhar abstinência sexual até resolução completa das lesões e até 7 dias após a dose única (ou após conclusão do esquema), e organizar a notificação e tratamento dos parceiros.
Seguimento serológico
O seguimento faz-se com títulos não treponémicos quantitativos, sempre com o mesmo teste e no mesmo laboratório.
Critério de resposta adequada: descida de quatro vezes o título (equivalente a duas diluições; por exemplo, de 1:32 para 1:8) em 6 a 12 meses na sífilis precoce, e em 12 a 24 meses na sífilis tardia.
Calendário orientador:
| População | Momentos de reavaliação serológica |
|---|---|
| Sífilis precoce, sem VIH | 6 e 12 meses |
| Sífilis latente tardia | 6, 12 e 24 meses |
| Pessoa com VIH | 3, 6, 9, 12 e 24 meses (seguimento mais apertado) |
| Grávida | Mensal ou pelo menos por trimestre, consoante o risco; e no parto |
| Neurossífilis | Serologia sérica + reavaliação clínica; punção lombar de controlo se a resposta clínica ou serológica for inadequada |
Falência serológica
Define-se por ausência da descida de quatro vezes no prazo esperado, ou por subida de quatro vezes do título após uma resposta inicial, ou por persistência/recorrência de sinais e sintomas.
Perante falência serológica, a abordagem tem três passos:
- Excluir reinfeção — é a causa mais frequente de subida do título. Reavaliar exposições e tratar os parceiros.
- Avaliar o sistema nervoso central — punção lombar para excluir neurossífilis não diagnosticada, que exigiria tratamento endovenoso.
- Retratar — se o LCR for normal, retratar com penicilina G benzatina 2,4 milhões U IM semanal, 3 doses; se houver neurossífilis, tratar como tal.
Atenção a uma nuance frequentemente mal compreendida: títulos baixos persistentes (habitualmente ≤ 1:8) que não negativam, na ausência de sinais de doença ativa e sem nova exposição, correspondem ao fenómeno serofast — não implicam falência nem obrigam necessariamente a retratamento (ver situações especiais).
Referências
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- Ghanem KG, Ram S, Rice PA. The Modern Epidemic of Syphilis. N Engl J Med. 2020;382(9):845-54.
- Peeling RW, Mabey D, Kamb ML, Chen XS, Radolf JD, Benzaken AS. Syphilis. Nat Rev Dis Primers. 2017;3:17073.
- Tuddenham S, Katz SS, Ghanem KG. Syphilis Laboratory Guidelines: Performance Characteristics of Nontreponemal Antibody Tests. Clin Infect Dis. 2020;71(Suppl 1):S21-S42.
- World Health Organization. Updated recommendations for the treatment of Neisseria gonorrhoeae, Chlamydia trachomatis and Treponema pallidum (syphilis), and new recommendations on syphilis testing and partner services. Genebra: WHO; 2024.
- European Centre for Disease Prevention and Control. Syphilis — Annual Epidemiological Report for 2024. Estocolmo: ECDC; 2026.
- Blaser MJ, Cohen JI, Holland SM, editores. Mandell, Douglas, and Bennett's Principles and Practice of Infectious Diseases. 10.ª ed. Filadélfia: Elsevier; 2025. Capítulos sobre Treponema pallidum (sífilis) e sífilis congénita.
- Loscalzo J, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Jameson JL, editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 22.ª ed. Nova Iorque: McGraw Hill; 2025. Capítulo Syphilis.
- Luetkemeyer AF, Donnell D, Dombrowski JC, Cohen S, Grabow C, Brown CE, et al. Postexposure Doxycycline to Prevent Bacterial Sexually Transmitted Infections. N Engl J Med. 2023;388(14):1296-306.
- Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional para a Vigilância da Gravidez de Baixo Risco. Lisboa: DGS; 2015.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 037/2011 — Exames laboratoriais na Gravidez de Baixo Risco. Lisboa: DGS; 2011.
7 perguntas sobre Sífilis
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar