Sífilis
Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 12 perguntas neste tema
A sífilis é a infeção pelo Treponema pallidum, uma espiroqueta que só infeta o ser humano, não se cultiva na prática clínica e não criou resistência à penicilina. Transmite-se quase sempre por contacto sexual com uma lesão húmida, mas também da mãe para o feto e, raramente, por transfusão ou transplante. Na Europa voltou a crescer e duplicou numa década, sobretudo em homens que têm sexo com homens.
A doença avança por estádios. A primária é o cancro duro, uma úlcera indolor e endurecida que cura sozinha em semanas; a secundária é a disseminação, com exantema que atinge as palmas e as plantas, lesões das mucosas e adenopatias; a latente só se vê na serologia; e a terciária, rara hoje, dá gomas e aortite anos depois. O sistema nervoso central pode ser invadido logo nas primeiras semanas, e por isso a neurossífilis, a sífilis ocular e a ótica aparecem em qualquer estádio.
O diagnóstico é serológico e assenta em dois tipos de teste: os não treponémicos, quantitativos, que medem a atividade e descem com a cura, e os treponémicos, que confirmam a infeção e ficam positivos para a vida. O tratamento é a penicilina G, com a dose e a via ditadas pelo estádio: uma injeção de benzatina na sífilis precoce, três semanais na tardia ou de duração indeterminada, e penicilina endovenosa quando há envolvimento neurológico, ocular ou ótico, porque a benzatina não atinge o líquido cefalorraquidiano em níveis que matem o treponema.
O que não se pode falhar: perguntar sempre por queixas neurológicas, visuais e auditivas, porque são elas que mudam a via do tratamento; rastrear todas as grávidas, porque a sífilis congénita é inteiramente evitável e só a penicilina trata o feto; e não confundir a reação de Jarisch-Herxheimer, uma febre nas primeiras horas depois da primeira dose, com alergia à penicilina.
Deteção direta
- A amplificação de ácidos nucleicos (PCR, reação em cadeia da polimerase) no exsudado do cancro ou das lesões húmidas é o método direto preferido, sobretudo em lesões orais e anais, onde há treponemas comensais.
- O campo escuro dá resultado imediato, mas é pouco sensível e já não se recomenda por rotina, e não serve na boca nem no ânus.
- Positivo confirma; negativo não exclui.
Os dois tipos de serologia
- Não treponémicos: o VDRL (Venereal Disease Research Laboratory, o nome do laboratório que o criou) e o RPR (rapid plasma reagin, reagina plasmática rápida). Detetam anticorpos contra um antigénio de cardiolipina, lecitina e colesterol.
- São quantitativos: dão um título (1:2, 1:8, 1:64) que acompanha a atividade da doença, é habitualmente alto na secundária (muitas vezes acima de 1:32) e desce com o tratamento.
- Servem para seguir a resposta, sempre com o mesmo teste e no mesmo laboratório, porque os títulos de VDRL e de RPR não são comparáveis entre si.
- Positivam 10 a 15 dias depois do cancro.
- Treponémicos: o TPHA (Treponema pallidum haemagglutination assay, hemaglutinação), o TPPA (T. pallidum particle agglutination, aglutinação de partículas), o FTA-ABS (fluorescent treponemal antibody absorption, imunofluorescência indireta com absorção prévia) e os imunoensaios automatizados, EIA (enzimático) e CLIA (por quimioluminescência).
- Detetam anticorpos contra antigénios do próprio treponema e confirmam a infeção.
- Ficam positivos para a vida na maioria dos doentes, mesmo depois da cura. Não distinguem infeção ativa de tratada, e o seu título não serve para seguir o tratamento.
- Positivam 5 a 15 dias depois do cancro, um pouco antes dos não treponémicos.
- Nenhuma serologia distingue a sífilis venérea das treponematoses endémicas (bouba, bejel, pinta).
Como se usam
- Algoritmo clássico: rastreio com não treponémico e confirmação com treponémico. É o da Norma 037/2011 da Direção-Geral da Saúde para a gravidez: VDRL no primeiro e no terceiro trimestres e, se positivo, confirmação com TPHA ou FTA-ABS.
- Algoritmo reverso: rastreio com um treponémico automatizado e, se positivo, não treponémico quantitativo no mesmo soro. É comum nos laboratórios europeus de grande volume. Como os imunoensaios têm falsos positivos, um resultado discordante confirma-se com um segundo treponémico de outro tipo (TPHA ou TPPA).
- O título não treponémico colhe-se no primeiro dia de tratamento, como base de comparação.
| treponémico | não treponémico | leitura |
|---|---|---|
| positivo | positivo | sífilis: definir o estádio e tratar |
| positivo | negativo | sífilis tratada, primária muito precoce, tardia antiga, ou falso positivo do treponémico. Confirmar com um segundo treponémico; sem tratamento prévio documentado, tratar como latente de duração indeterminada |
| negativo | positivo | falso positivo biológico, ou primária muito precoce: repetir os dois |
| negativo | negativo | sem infeção, ou janela serológica |
Armadilhas
- Janela: todos os testes são negativos antes do cancro e nos primeiros 5 a 15 dias dele. Perante um cancro suspeito com serologia negativa, trata-se logo e repete-se a serologia à 1.ª, 2.ª e 6.ª semanas.
- Prozona: com títulos muito altos, sobretudo na secundária, o excesso de anticorpos satura a reação e o não treponémico sai negativo no soro não diluído. Afasta-se com diluições do soro até pelo menos 1:8, de preferência 1:16.
- Falsos positivos biológicos dos não treponémicos, quase sempre com títulos baixos, até 1:8: agudos (gravidez, vacinação recente, enfarte, infeções febris como malária, hepatite, varicela ou sarampo) e crónicos (drogas injetáveis, doenças autoimunes como o lúpus e a síndrome antifosfolipídica, infeção pelo VIH, doença hepática crónica, idade avançada). Um treponémico negativo exclui a sífilis.
- Falsos positivos dos treponémicos, menos frequentes: doenças autoimunes, doença de Lyme e gravidez.
Avaliação neurológica, ocular e auditiva
- Todo o doente com serologia positiva faz exame neurológico, ocular e auditivo dirigido.
- Punção lombar está indicada se houver sinais neurológicos, qualquer que seja o estádio, e na sífilis terciária (cardiovascular ou gomosa). Na sífilis precoce sem sintomas não está indicada, com ou sem VIH.
- Alguns peritos pedem-na também sem sintomas na falência serológica, no doente com VIH e sífilis tardia com linfócitos CD4 até 350/µL ou título de RPR acima de 1:32, e depois de tratar sífilis tardia com doxiciclina.
- Na sífilis ocular isolada, sem défices de pares cranianos, e na ótica isolada com exame neurológico normal, a punção não é necessária antes de tratar: o tratamento é o da neurossífilis de qualquer forma. A fundoscopia faz-se antes da punção.
Líquido cefalorraquidiano
- Achados: pleocitose mononuclear (mais de 5 células/µL), proteínas acima de 45 mg/dL e VDRL reativo. Na neurossífilis parenquimatosa as células e as proteínas podem ser normais, e no VIH a pleocitose pode ser do próprio vírus.
- O VDRL no líquido é muito específico mas pouco sensível: é positivo em apenas um terço a metade das neurossífilis. Positivo confirma; negativo não exclui. O RPR não o substitui no líquido.
- O treponémico no líquido (FTA-ABS, TPHA ou TPPA) é o inverso: positivo não confirma, porque os anticorpos passam do soro, mas negativo torna a neurossífilis muito improvável.
Outros exames
- VIH: testar todos os doentes com sífilis, e rastrear as restantes infeções sexualmente transmissíveis. Hepatite C se houver fatores de risco; hepatite B com vacinação se não for imune.
- Rastrear sífilis em quem tem insuficiência aórtica ou aneurisma da aorta torácica, perda súbita de visão ou de audição sem explicação, ou meningite.
Diagnóstico diferencial
| situação | a considerar |
|---|---|
| Úlcera genital | herpes (vesículas agrupadas, dolorosas, múltiplas), cancro mole (úlcera mole e muito dolorosa, adenopatia supurativa), linfogranuloma venéreo (úlcera fugaz e indolor, adenopatia inguinal que supura), donovanose (úlcera indolor, vermelho-vivo, sem adenopatia verdadeira), trauma, doença de Behçet, neoplasia, toxidermia fixa |
| Exantema da secundária | pitiríase rosada, eritema multiforme, toxidermia, tinha, sarampo, dermatite seborreica, síndrome retroviral aguda |
| Condilomas planos | condiloma acuminado |
Rastreio
| a quem | quando |
|---|---|
| Grávidas | VDRL no primeiro e no terceiro trimestres (Norma 037/2011 da Direção-Geral da Saúde), com confirmação treponémica se positivo; repetir no parto se houver risco, e testar no parto quem não tiver serologia documentada |
| Dadores de sangue, de componentes e de órgãos | em cada dádiva |
| Pessoas com VIH, com hepatite B ou C, ou com outra infeção sexualmente transmissível | no diagnóstico e periodicamente |
| Homens que têm sexo com homens | pelo menos anual; cada 3 a 6 meses se houver múltiplos parceiros, parceiros anónimos ou outros fatores de risco |
| Quem faz profilaxia pré-exposição do VIH | cada 3 meses |
| Trabalhadores do sexo e outras pessoas com comportamentos de alto risco | periódico |
- Nenhum recém-nascido deve ter alta sem que se conheça o estado serológico da mãe em pelo menos um momento da gravidez.
Contactos sexuais
- Cerca de metade (46 a 60%) dos contactos rastreados de um caso precoce estão infetados, e cerca de 30% dos contactos sem sintomas observados no primeiro mês estão em incubação.
- Até que data se procuram: 3 meses mais a duração dos sintomas na primária; 6 meses mais a duração dos sintomas na secundária; 1 ano na latente precoce. Na secundária com recidivas e na latente precoce pode ser preciso recuar até 2 anos, e na tardia mais ainda, conforme a história.
- Regra dos 90 dias: quem teve contacto nos 90 dias anteriores ao diagnóstico de um caso precoce trata-se de imediato como sífilis precoce, mesmo com serologia negativa, porque pode estar em incubação. Com contacto há mais de 90 dias, trata-se já se a serologia não estiver disponível ou o seguimento for incerto; se não, trata-se conforme o resultado.
- Contactos não tratados fazem serologia na primeira visita, às 6 semanas e aos 3 a 6 meses.
Proteção individual
- O preservativo reduz o risco mas não o elimina, porque as lesões fora da área coberta também transmitem.
- Evitar relações sexuais até as lesões cicatrizarem e o tratamento estar feito, incluindo o dos parceiros.
- Não há vacina, e ter tido sífilis não protege de uma nova infeção.
Doxiciclina depois da exposição
- Doxiciclina 200 mg em toma única, o mais cedo possível e até 72 horas depois de sexo oral, vaginal ou anal, com o máximo de 200 mg em 24 horas. Reduziu em cerca de 70% as novas sífilis e clamídias, e em cerca de 50% as gonorreias.
- Recomendada nos Estados Unidos desde 2024 a homens que têm sexo com homens e mulheres transgénero com pelo menos uma infeção sexualmente transmissível bacteriana nos 12 meses anteriores. A orientação europeia de 2020 considerou a evidência insuficiente para a recomendar, pelo risco de resistência às tetraciclinas.
- Não se usa na gravidez.
Sífilis congénita
- É inteiramente evitável pelo rastreio universal e pelo tratamento com penicilina, e é a intervenção de saúde pública com mais impacto no tema.
Penicilina G, a dose ditada pelo estádio
| estádio | primeira linha | se não houver benzatina |
|---|---|---|
| Precoce: primária, secundária, latente com menos de 1 ano | benzatina 2,4 milhões de unidades IM, dose única | procaína 600 000 unidades IM por dia, 10 a 14 dias |
| Latente tardia, de duração indeterminada, cardiovascular, gomosa | benzatina 2,4 milhões de unidades IM, semanal, 3 doses (dias 1, 8 e 15) | procaína 600 000 unidades IM por dia, 17 a 21 dias |
| Neurossífilis, sífilis ocular e ótica | penicilina G cristalina 18 a 24 milhões de unidades por dia EV, 3 a 4 milhões de 4 em 4 horas ou em perfusão contínua, 10 a 14 dias | procaína 1,2 a 2,4 milhões de unidades IM por dia com probenecida 500 mg 4 vezes por dia, ambas 10 a 14 dias; ou ceftriaxona 1 a 2 g EV por dia, 10 a 14 dias |
- O treponema é muito sensível à penicilina e nunca se documentou resistência. Como se divide devagar, a penicilina tem de manter níveis treponemicidas durante pelo menos 7 a 10 dias, e mais nas infeções antigas: a benzatina fá-lo no sangue até cerca de 21 dias.
- A benzatina não atinge níveis treponemicidas no líquido cefalorraquidiano, e por isso nunca trata a neurossífilis, a sífilis ocular nem a ótica.
- A sífilis ocular e a ótica tratam-se como neurossífilis, sem esperar pela punção lombar.
- Na sífilis cardiovascular e na neurossífilis parenquimatosa, a penicilina trava a progressão mas não reverte a lesão instalada.
- A penicilina benzatínica existe em Portugal em apresentações de 1,2 e de 2,4 milhões de unidades; a dose de 2,4 milhões pode dar-se numa só injeção ou em duas de 1,2, uma em cada nádega. Já houve ruturas de fornecimento, como noutros países europeus, e é nessas alturas que entra a procaína.
Como se administra
- Por via intramuscular profunda, nunca por via endovenosa. Substituir parte do diluente por lidocaína a 1% sem adrenalina reduz a dor, quando a apresentação o permite.
- Num local com meios para tratar a anafilaxia, e o doente fica 30 minutos em observação.
- Doses falhadas no esquema de três semanas: o intervalo ideal é de 7 a 9 dias, e até 10 a 14 dias pode ser aceitável fora da gravidez. Na grávida, um intervalo acima de 9 dias obriga a recomeçar o esquema.
Alergia à penicilina
- Rever sempre o rótulo, porque muitos doentes rotulados como alérgicos toleram a penicilina.
- Sífilis precoce: doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas (ou 200 mg uma vez por dia), 14 dias. Alternativa: ceftriaxona 1 g por dia, 10 dias, que também serve para quem tem distúrbios da coagulação e não pode levar injeções intramusculares.
- Sífilis tardia: doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas, 28 dias. A evidência é fraca, e muitos preferem dessensibilizar.
- Neurossífilis, ocular e ótica: dessensibilizar e tratar com penicilina. A ceftriaxona 1 a 2 g por dia, 10 a 14 dias, é a alternativa.
- Grávida: dessensibilização obrigatória, em articulação com a imunoalergologia, porque nenhuma alternativa trata o feto de forma fiável.
- A ceftriaxona tem pouca reatividade cruzada com a penicilina, mas está contraindicada em quem teve anafilaxia à penicilina.
- Azitromicina não se usa em nenhum estádio: as estirpes com mutações de resistência aos macrólidos são a grande maioria nas cidades europeias, americanas e chinesas.
- Com doxiciclina, o seguimento serológico tem de estar garantido.
Seguimento
- Mesmo teste não treponémico, no mesmo laboratório, comparado com o título do dia 1.
- Sífilis precoce: aos 6 e aos 12 meses (a orientação europeia acrescenta 1 e 3 meses). Espera-se uma descida de quatro vezes, ou seja duas diluições (de 1:32 para 1:8), aos 6 meses; cerca de 15% ainda não desceu aos 6 meses e reavalia-se aos 12.
- Sífilis tardia: aos 6, 12 e 24 meses. Com títulos iniciais baixos, a descida de quatro vezes muitas vezes não acontece, e só se retrata se o título subir ou se aparecerem sinais.
- VIH: aos 3, 6, 9, 12 e 24 meses.
- Neurossífilis: a normalização do título sérico acompanha a do líquido; repetir a punção só em quem não responde ou tem imunodepressão sem terapêutica antirretroviral eficaz.
- O treponémico não serve para o seguimento, porque fica positivo.
| cenário | como se reconhece | o que fazer |
|---|---|---|
| Resposta adequada | descida de quatro vezes em 6 a 12 meses na precoce | vigiar até negativar ou estabilizar |
| Serofast | título baixo que estabiliza (até 1:4) depois da descida, sem sintomas nem nova exposição | considerar tratado e vigiar; não retratar |
| Falência serológica | sem descida de quatro vezes aos 6 a 12 meses na precoce, ou sinais que persistem | excluir reinfeção, testar VIH, exame neurológico; punção lombar se houver sinais neurológicos, a considerar nos restantes; retratar com benzatina 3 doses semanais, ou como neurossífilis se o líquido estiver alterado |
| Reinfeção ou recidiva | subida de quatro vezes ou mais, mantida para lá de 2 semanas | tratar conforme o estádio, rastrear de novo os parceiros |
Referências
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- Janier M, Unemo M, Dupin N, Tiplica GS, Potočnik M, Patel R. 2020 European guideline on the management of syphilis. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2021;35(3):574-88.
- Workowski KA, Bachmann LH, Chan PA, Johnston CM, Muzny CA, Park I, et al. Sexually transmitted infections treatment guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021;70(4):1-187.
- Bachmann LH, Barbee LA, Chan P, Reno H, Workowski KA, Hoover K, et al. CDC clinical guidelines on the use of doxycycline postexposure prophylaxis for bacterial sexually transmitted infection prevention, United States, 2024. MMWR Recomm Rep. 2024;73(2):1-8.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 037/2011, de 30 de setembro, atualizada a 20 de dezembro de 2013. Exames laboratoriais na gravidez de baixo risco. Lisboa: DGS; 2013.
- Gouveia AI, Borges-Costa J. Sífilis na gravidez. Rev Soc Port Dermatol Venereol. 2013;71(4):513-6.
- Despacho n.º 1150/2021, de 28 de janeiro. Doenças de notificação obrigatória. Diário da República, 2.ª série. 2021.
- European Centre for Disease Prevention and Control. Syphilis. Annual epidemiological report for 2023. Stockholm: ECDC; 2025.
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