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Sífilis

Matriz PNA:D · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 19 de julho de 2026 · 7 perguntas neste tema

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Em resumo

A sífilis é a grande imitadora: uma infeção sistémica por espiroqueta capaz de mimetizar quase toda a medicina, com estádios que se sucedem e se interrompem espontaneamente, e cujo diagnóstico depende quase inteiramente de uma serologia com armadilhas próprias. Está em ressurgimento na Europa e em Portugal, sobretudo em homens que têm sexo com homens (HSH) e em pessoas que vivem com VIH, o que devolveu à prática clínica um diagnóstico que muitos médicos recém-licenciados nunca viram. Na PNA (relevância B) o rendimento concentra-se em quatro pontos: reconhecer o cancro duro e o exantema palmoplantar; interpretar testes treponémicos versus não treponémicos (incluindo prozona, falsos positivos e algoritmo reverso); escolher o regime de penicilina consoante o estádio — sabendo que a benzatina não trata neurossífilis; e prevenir a sífilis congénita através do rastreio pré-natal. Um quinto ponto, muito testado, é distinguir a reação de Jarisch-Herxheimer de alergia à penicilina. As restantes infeções sexualmente transmissíveis e a infeção por VIH têm capítulos próprios; aqui a sífilis desenvolve-se por completo.

Métodos diretos: quando a lesão está presente

Embora o diagnóstico seja predominantemente serológico, na presença de lesão húmida ativa (cancro, condiloma plano, placa mucosa) é possível demonstrar o agente:

  • Microscopia de campo escuro: visualização direta das espiroquetas móveis no exsudado da lesão. Alta especificidade quando positiva, mas disponibilidade muito limitada, requer operador treinado e amostragem imediata. Não é válida em lesões orais ou anorretais por causa dos treponemas comensais.
  • PCR para T. pallidum no exsudado da lesão: mais sensível e específica, cada vez mais disponível; é hoje o método direto de escolha quando existe.
  • Imuno-histoquímica em biópsia (útil quando a apresentação é atípica e se biopsou por outro motivo).

Ponto-chave: um método direto positivo confirma o diagnóstico, mas um resultado negativo não o afasta — segue-se sempre para a serologia.


O núcleo técnico: dois tipos de teste serológico

Esta distinção é o que a PNA testa com mais frequência. Não é possível interpretar uma serologia de sífilis sem a dominar. O enquadramento seguido nesta secção — algoritmos tradicional e reverso, arbitragem das discordâncias e interpretação dos títulos — é o das recomendações laboratoriais dedicadas do CDC (Laboratory Recommendations for Syphilis Testing, United States, 2024, MMWR Recomm Rep 2024;73(1):1-32), que são hoje a fonte primária nesta matéria.

Não treponémicos (VDRL, RPR)Treponémicos (TPHA/TPPA, FTA-ABS, EIA/CLIA)
O que detetamAnticorpos contra cardiolipina (antigénio lipídico libertado pelo dano tecidual) — não específicos do treponemaAnticorpos dirigidos a antigénios do próprio T. pallidum
ResultadoQuantitativo (título: 1:2, 1:8, 1:64…)Qualitativo (reativo / não reativo)
UtilidadeAvaliar atividade da doença e resposta ao tratamento; rastreioConfirmar a infeção
Após tratamento eficazDescem e habitualmente negativamPermanecem positivos para a vida na grande maioria
Falsos positivosRelativamente frequentes (ver adiante)Raros (outras treponematoses, algumas doenças autoimunes)

Regra a fixar: o teste treponémico diz "esta pessoa teve contacto com o treponema"; o não treponémico diz "e a doença está — ou esteve — ativa neste momento e com esta intensidade". Só o não treponémico serve para seguir o doente.


Algoritmo tradicional versus algoritmo reverso

Algoritmo tradicional: começa com um teste não treponémico (VDRL ou RPR); se reativo, confirma com um teste treponémico. É barato e prático, mas perde sífilis muito precoce e sífilis tardia com título não treponémico já negativo.

Algoritmo reverso (hoje o mais usado nos laboratórios): começa com um teste treponémico automatizado (EIA/CLIA), de alto débito e fácil de automatizar; se reativo, faz-se um não treponémico quantitativo; se houver discordância, faz-se um segundo teste treponémico diferente (tipicamente TPPA) como árbitro.

Interpretar as combinações

TreponémicoNão treponémicoInterpretação mais provável
ReativoReativo (título significativo)Sífilis — determinar o estádio; tratar
ReativoNão reativoSífilis tratada no passado, sífilis muito precoce, sífilis tardia com título negativado, ou falso positivo treponémico → arbitrar com 2.º teste treponémico e rever história de tratamento
Não reativoReativoFalso positivo biológico do não treponémico (o mais provável) ou sífilis primaríssima → repetir em 2-4 semanas
Não reativoNão reativoSem evidência de sífilis; se exposição de risco muito recente, repetir (janela)

A situação clinicamente mais incómoda é a segunda linha: treponémico reativo com não treponémico não reativo. Se o segundo teste treponémico for também reativo e não houver história documentada de tratamento adequado, a conduta habitual é tratar como sífilis latente de duração indeterminada (três doses semanais).


As quatro armadilhas de alto rendimento

1. Efeito prozona

Quando existe excesso maciço de anticorpos — o cenário típico é a sífilis secundária, e também a grávida e a pessoa com VIH — a reação de floculação do teste não treponémico não ocorre no soro não diluído, porque os anticorpos em excesso saturam os antigénios e impedem a formação da rede de agregação. O resultado é um falso negativo num doente com doença exuberante.

Conduta: perante uma clínica muito sugestiva (exantema palmoplantar, condilomas planos) com VDRL/RPR negativo, pedir explicitamente ao laboratório que repita com diluições seriadas. É um clássico de exame.

2. Falsos positivos biológicos dos testes não treponémicos

Habitualmente com títulos baixos (≤ 1:8). Causas a memorizar:

  • Gravidez
  • Doenças autoimunes: lúpus eritematoso sistémico e, muito tipicamente, a síndrome antifosfolipídica (a mesma cardiolipina que dá o VDRL falso positivo é o alvo dos anticorpos anticardiolipina)
  • Infeções agudas (víricas, incluindo mononucleose; endocardite; malária; lepra (doença de Hansen); tuberculose)
  • Consumo de drogas por via endovenosa
  • Idade avançada, neoplasias, vacinação recente

O teste treponémico resolve a dúvida.

3. Janela serológica na sífilis primária muito precoce

No cancro recente, a serologia pode ser negativa — os testes não treponémicos só se tornam reativos cerca de 1 a 4 semanas após o aparecimento da lesão. O FTA-ABS é, dos serológicos, o que positiva mais cedo.

Conduta: perante úlcera genital compatível com serologia negativa, não excluir — fazer método direto se disponível, considerar tratamento empírico e repetir a serologia em 2 a 4 semanas (e novamente às 6 semanas e aos 3 meses se a suspeita for elevada).

4. O treponémico positivo não distingue ativa de tratada

Como permanece reativo para a vida, um TPHA/EIA positivo isolado nunca deve ser lido como "tem sífilis agora". É preciso o título não treponémico e a história de tratamento. Este é o erro mais comum na prática de urgência.


Punção lombar: quando e como interpretar

Não se faz punção lombar a todos os doentes com sífilis. Indicações consensuais (CDC 2021; IUSTI 2020):

  • Sintomas ou sinais neurológicos (cefaleia persistente, alterações cognitivas, paralisia de nervo craniano, sinais meníngeos, AVC inexplicado no jovem);
  • Sintomas oculares ou óticos — embora, na prática, a suspeita de sífilis ocular ou ótica obrigue antes de tudo a observação urgente por Oftalmologia/ORL e a iniciar tratamento de neurossífilis, independentemente do resultado do líquido cefalorraquidiano (LCR);
  • Suspeita de sífilis terciária (cardiovascular ou gomatosa);
  • Falência serológica ao tratamento (ausência de descida adequada do título).

A infeção por VIH, por si só e com boa reconstituição imunitária, não é hoje indicação automática de punção lombar na ausência de sintomas — mas mantém um limiar de suspeita mais baixo.

Interpretação do LCR

  • VDRL no LCR: muito específico, pouco sensível. Positivo → confirma neurossífilis. Negativo não a exclui. Esta assimetria é fortemente testada.
  • Pleocitose linfocítica (habitualmente > 5 células/µL) e hiperproteinorráquia apoiam o diagnóstico; na pessoa com VIH não tratada, a pleocitose ligeira pode ser atribuível ao próprio vírus, o que dificulta a leitura (alguns adotam um limiar mais alto, ~20 células/µL).
  • FTA-ABS no LCR: espelho do VDRL — muito sensível, pouco específico. Um FTA-ABS negativo no LCR torna a neurossífilis improvável; positivo, isoladamente, vale pouco.

Síntese prática: VDRL positivo no LCR fecha o diagnóstico; um FTA-ABS negativo no LCR torna a neurossífilis menos provável apenas no doente sem sintomas neurológicos, oculares ou óticos. Perante sintomas oculares, óticos ou neurológicos, nenhum resultado do LCR — incluindo um LCR inteiramente normal — permite excluir o diagnóstico nem justifica tratar com benzatina em vez de penicilina G aquosa endovenosa. Nestes doentes o LCR não decide o tratamento.


Rastrear coinfeções

Toda a pessoa com diagnóstico de sífilis deve ser testada para VIH (e repetir aos 3 meses se negativo, dado o risco partilhado) e rastreada para as restantes infeções sexualmente transmissíveis, incluindo hepatites B e C, gonorreia e clamídia — ver os capítulos respetivos.

Serologia da sífilis: treponémico vs não treponémico Dois tipos de teste com finalidades diferentes — a distinção central da serologia NÃO TREPONÉMICOS VDRL · RPR Detetam anticorpos anticardiolipina QUANTITATIVOS — título 1:2, 1:8, 1:64… Medem ATIVIDADE da doença Seguem a resposta ao tratamento NEGATIVAM com a cura Falsos positivos biológicos (≤ 1:8): gravidez, LES, síndrome antifosfolipídica, infeções agudas, drogas endovenosas TREPONÉMICOS TPHA/TPPA · FTA-ABS · EIA/CLIA Anticorpos anti-T. pallidum (específicos) Qualitativos (reativo / não reativo) CONFIRMAM a infeção POSITIVOS PARA A VIDA Não distinguem ativa de tratada Um treponémico positivo isolado nunca significa «tem sífilis agora» Falsos positivos raros ALGORITMO REVERSO — o mais usado hoje nos laboratórios 1. Treponémico automatizado EIA / CLIA (rastreio) 2. Não treponémico quantitativo (VDRL/RPR) 3. Se discordância: 2.º treponémico (TPPA) árbitro Leitura: treponémico / não treponémico + / + sífilis — determinar o estádio e tratar + / − tratada, muito precoce, tardia ou falso positivo → 2.º treponémico sem tratamento documentado → tratar como latente indeterminada (3 doses) − / + falso positivo biológico (ou primaríssima) → repetir a 2-4 semanas ! DUAS ARMADILHAS DE ALTO RENDIMENTO EFEITO PROZONA Excesso maciço de anticorpos (típico da sífilis secundária; também grávida e VIH) torna o não treponémico FALSAMENTE NEGATIVO → pedir diluições seriadas. JANELA SEROLÓGICA (primária muito precoce) A serologia pode ser negativa no cancro recente (positiva 1-4 semanas depois). Não excluir: método direto, tratamento empírico e REPETIR a 2-4 semanas. TRATAMENTO — penicilina G em todos os estádios Precoce (primária, secundária, latente < 1 ano): benzatina 2,4 MU IM — dose única Latente tardia / indeterminada / terciária sem SNC: benzatina 2,4 MU IM semanal × 3 Neurossífilis, ocular e ótica: penicilina G aquosa 18-24 MU/dia EV, 10-14 dias A benzatina NÃO penetra o SNC · na grávida a única conduta é DESSENSIBILIZAR

Prevenção primária: o preservativo e o seu limite

O preservativo, usado de forma correta e consistente, reduz substancialmente o risco de transmissão da sífilis, mas — e este é o ponto que a PNA gosta de testar — a sua eficácia é menor do que nas infeções transmitidas por secreções (gonorreia, clamídia, VIH). A razão é fisiopatológica: a sífilis transmite-se por contacto direto com uma lesão húmida, e essas lesões podem localizar-se fora da área coberta pelo preservativo — base do pénis, escroto, região púbica, períneo, região perianal, lábios, cavidade oral. O mesmo se aplica ao herpes e ao HPV.

Mensagem a dar ao doente: o preservativo reduz, não elimina, o risco; a redução do número de parceiros, o conhecimento do estado serológico dos parceiros e o rastreio regular completam a estratégia.


Rastreio: quem, quando e com que periodicidade

O rastreio é a intervenção com maior retorno em sífilis, porque a doença é frequentemente assintomática (latente) ou tem sintomas que passam despercebidos (cancro indolor e oculto).

Grávidas — o rastreio não negociável

O rastreio serológico de sífilis na gravidez é universal e obrigatório em Portugal, integrado na vigilância pré-natal:

  • Na primeira consulta de vigilância pré-natal (1.º trimestre) — a todas as grávidas, sem exceção e independentemente do risco percebido.
  • Repetição no 3.º trimestre — a todas as grávidas, e não apenas às de risco: a Norma da DGS n.º 037/2011 integra a serologia de sífilis no calendário analítico da gravidez de baixo risco, com VDRL no 1.º e no 3.º trimestres; se o VDRL for reativo, a confirmação faz-se com um teste treponémico (TPHA ou FTA-abs) — ou seja, em Portugal o algoritmo mandatado na gravidez é o tradicional. A lógica da repetição é apanhar a seroconversão durante a gestação, que é precisamente a situação de maior risco de transmissão vertical.
  • Rastreio adicional no momento do parto nas mulheres com fatores de risco (IST prévia ou concomitante, parceiro com comportamento de risco, múltiplos parceiros, consumo de substâncias, ausência de vigilância pré-natal, residência em contexto de alta prevalência).
  • Nenhum recém-nascido deve ter alta sem que o estado serológico materno seja conhecido. Se a mãe não foi rastreada, rastreia-se no parto.

Esta é, sem margem para dúvida, a intervenção de saúde pública com maior impacto em sífilis: cada caso de sífilis congénita representa uma oportunidade perdida de rastreio ou de tratamento atempado.

Outros grupos com indicação de rastreio

GrupoPeriodicidade orientadora
Dadores de sangue e de órgãos/tecidosEm cada dádiva (obrigatório)
Pessoas que vivem com VIHPelo menos anual; cada 3-6 meses se exposição continuada
Pessoas sob PrEPCada 3 meses, integrado nas consultas de seguimento
HSH e pessoas com múltiplos parceirosAnual; cada 3-6 meses se risco elevado
Contexto prisionalÀ entrada e periodicamente
Qualquer pessoa com outra IST diagnosticadaAo diagnóstico e repetir a 3 meses
Trabalhadores do sexoPeriódico, ajustado ao risco
Contactos sexuais de caso confirmadoAo diagnóstico + seguimento serológico

Regra operacional simples: diagnosticar uma IST é indicação para rastrear todas as outras, sífilis incluída. O inverso também é verdade.


Notificação e tratamento dos parceiros

Doença de declaração obrigatória

A sífilis é, em Portugal, doença de declaração obrigatória, com notificação através do sistema nacional de vigilância epidemiológica (SINAVE). A sífilis congénita é notificada de forma autonomizada, por ser um indicador de qualidade do rastreio pré-natal. A notificação não é burocracia: alimenta a vigilância que identifica surtos e populações-alvo.

Rastreio e tratamento de contactos — a regra dos 90 dias

Esta é uma das regras mais testadas do capítulo:

  • Contactos sexuais nos últimos 90 dias de um caso de sífilis primária, secundária ou latente precoce → tratar empiricamente, com penicilina G benzatina 2,4 milhões de unidades IM em dose única, mesmo que a serologia seja negativa. Racional: o contacto pode estar na janela serológica e ser já infecioso; o custo de tratar é uma injeção, o custo de não tratar é manter a cadeia de transmissão.
    • Antes da injeção, em todos os contactos: colher serologia treponémica e não treponémica quantitativa — a colheita não deve atrasar o tratamento, mas sem título basal não há referência para o seguimento; examinar à procura de cancro, exantema ou condilomas planos; perguntar ativamente por alterações visuais, hipoacusia, acufenos, cefaleia ou alterações do comportamento; e determinar se está grávida. A dose única cobre a exposição recente — não cobre um contacto que já tenha sífilis de duração indeterminada (3 doses semanais), neurossífilis ou sífilis ocular/ótica (penicilina G aquosa EV). O contacto tratado empiricamente mantém seguimento serológico como qualquer doente tratado.
  • Contactos há mais de 90 dias → tratar presuntivamente se a serologia não estiver imediatamente disponível ou se o seguimento for incerto; caso contrário, orientar pelo resultado.
  • Janelas de rastreio de contactos a considerar consoante o estádio do caso índice: 3 meses + duração dos sintomas na primária; 6 meses + duração dos sintomas na secundária; 1 ano na latente precoce.

Na sífilis latente tardia, rastreiam-se os parceiros de longa duração e, quando aplicável, os filhos.


Doxi-PEP: profilaxia pós-exposição com doxiciclina

Estratégia recente e com evidência robusta: doxiciclina 200 mg por via oral, em toma única, até 72 horas após uma relação sexual desprotegida.

  • O ensaio clínico DoxyPEP (Luetkemeyer et al., NEJM, 2023), em HSH e mulheres transgénero com VIH ou sob PrEP, demonstrou redução significativa da incidência de sífilis, clamídia e, em menor grau, gonorreia.
  • O benefício está demonstrado nesta população específica; o benefício em mulheres cisgénero não foi confirmado nos estudos realizados até à data.
  • Preocupações legítimas e que devem constar da decisão partilhada: pressão seletiva para resistência à tetraciclina (nomeadamente em Neisseria gonorrhoeae e em Staphylococcus aureus), impacto no microbiota e fotossensibilidade.
  • Contraindicada na gravidez e não recomendada em idade pediátrica precoce.

O CDC publicou em 2024 uma guideline clínica autónoma sobre doxi-PEP (CDC Clinical Guidelines on the Use of Doxycycline Postexposure Prophylaxis for Bacterial Sexually Transmitted Infection Prevention, United States, 2024, MMWR Recomm Rep 2024;73(2):1-8), que o recomenda em populações selecionadas — HSH e mulheres transgénero com uma IST bacteriana no último ano; em Portugal não existe, até à data, norma ou orientação da DGS sobre doxi-PEP: a sua eventual utilização é decidida caso a caso, em consulta especializada de IST/PrEP, e não constitui conduta normalizada a nível nacional.


Prevenção da sífilis congénita

Merece ser tratada como um objetivo autónomo, porque é inteiramente evitável. A cadeia de prevenção tem três elos, e basta falhar um para haver um caso:

  1. Acesso e adesão à vigilância pré-natal — a maioria dos casos de sífilis congénita ocorre em grávidas sem vigilância ou com vigilância tardia. É aqui que se perdem mais casos.
  2. Rastreio serológico feito e resultado visto — não basta pedir; é preciso garantir que o resultado é lido e atuado.
  3. Tratamento com penicilina, completo e a tempo — o tratamento materno deve estar concluído pelo menos 30 dias antes do parto para se considerar adequado para o feto; abaixo disso, o recém-nascido é avaliado e tratado como potencialmente infetado.

A OMS mantém a eliminação da transmissão materno-infantil de sífilis (a par do VIH) como meta global — e o indicador usado é precisamente a cobertura do rastreio pré-natal e do tratamento.


Vacina e imunidade

Não existe vacina contra a sífilis. Como a infeção não confere imunidade protetora, uma pessoa tratada com sucesso pode reinfetar-se e voltar a apresentar sífilis primária. Este facto tem duas implicações práticas: (1) o aconselhamento deve ser repetido em cada episódio; (2) uma nova subida de quatro vezes do título não treponémico após resposta adequada deve fazer suspeitar de reinfeção (ver situações especiais).

Princípio geral: penicilina, sempre que possível

A penicilina G é o tratamento de eleição em todos os estádios e em todas as populações. Não há resistência clinicamente relevante. O que muda entre estádios é a formulação, a dose e a duração — e a lógica por trás dessas diferenças é farmacocinética: o treponema tem um tempo de duplicação lento (~30 horas), pelo que é preciso manter concentrações treponemicidas sustentadas durante tempo suficiente. Quanto mais antiga a infeção, mais lentos os organismos e mais prolongada tem de ser a exposição ao fármaco.


Regimes por estádio

EstádioRegime de primeira linha (adulto não grávido)
Sífilis precoce (primária, secundária, latente precoce < 1 ano)Penicilina G benzatina 2,4 milhões U IM, dose única
Sífilis latente tardia, de duração indeterminada, ou terciária sem envolvimento neurológicoPenicilina G benzatina 2,4 milhões U IM, uma vez por semana, 3 doses (total 7,2 milhões U)
Neurossífilis, sífilis ocular, sífilis óticaPenicilina G aquosa cristalina 18-24 milhões U/dia EV, em perfusão contínua ou 3-4 milhões U cada 4 horas, durante 10 a 14 dias

Notas práticas:

  • A administração da benzatina é intramuscular profunda, tipicamente no quadrante superoexterno da nádega, dividida por dois locais no adulto pelo volume. Nunca por via endovenosa — a injeção inadvertida em vaso pode causar embolia e reações graves. A administração só deve ser feita em local com adrenalina e material de reanimação imediatamente disponíveis, e o doente permanece em observação 15 a 30 minutos após a injeção — é nesta janela que ocorre tipicamente a anafilaxia. O mesmo se aplica à primeira administração depois de desrotular uma alergia à penicilina.
  • Se o intervalo entre doses exceder 14 dias, reinicia-se o esquema completo de três doses. Na grávida a margem é menor: um intervalo superior a 7 dias — ou qualquer dose falhada — obriga a repetir o curso completo.
  • Após a neurossífilis endovenosa, muitos protocolos (incluindo o CDC 2021, como opção) acrescentam benzatina 2,4 milhões U IM semanal durante até 3 semanas para cobrir a doença sistémica tardia concomitante.

A regra de segurança mais testada

A penicilina G benzatina NÃO atinge concentrações treponemicidas no sistema nervoso central. Se há neurossífilis, sífilis ocular ou sífilis ótica, o tratamento tem de ser penicilina G aquosa por via endovenosa. Tratar uma neurossífilis com benzatina é um erro grave — e é uma alínea distratora recorrente.

Alternativa aceite pelo CDC quando o acesso venoso ou o internamento não são viáveis: penicilina G procaína 2,4 milhões U IM/dia + probenecid 500 mg oral 4x/dia, durante 10-14 dias (o probenecid bloqueia a secreção tubular renal e a saída da penicilina do LCR, elevando as concentrações). É uma segunda escolha, não a preferida.

Nota de disponibilidade em Portugal: este esquema é praticamente inexequível no SNS — não existe apresentação isolada de penicilina G procaína (a única especialidade comercializada com procaínica é a associação fixa Lentocilin 6.3.3, com apenas 300 000 UI de procaínica por frasco) e o probenecid não tem medicamento comercializado em Portugal. Na prática, a neurossífilis, a sífilis ocular e a ótica tratam-se cá com penicilina G aquosa endovenosa em internamento ou hospital de dia; havendo alergia, a via é a dessensibilização ou a ceftriaxona.


Alergia à penicilina

Primeiro passo: caracterizar a alergia. Uma proporção muito grande dos doentes rotulados de "alérgicos à penicilina" não tem alergia mediada por IgE — a história é de intolerância digestiva, exantema tardio na infância ou rótulo herdado sem episódio documentado. A avaliação alergológica (história dirigida, testes cutâneos quando indicados) permite recuperar a penicilina na maioria dos casos.

Alternativas — apenas em situações selecionadas

SituaçãoAlternativaDuração
Sífilis precoce, não grávida, alergia confirmadaDoxiciclina 100 mg oral 2x/dia14 dias
Sífilis latente tardia/indeterminada, não grávidaDoxiciclina 100 mg oral 2x/dia28 dias
Sífilis precoce, alternativa adicionalCeftriaxona 1 g IM/EV por dia (evidência mais limitada)10-14 dias
Neurossífilis / ocular / ótica, alergia confirmada sem dessensibilização exequívelCeftriaxona 2 g IM/EV por dia (BASHH 2024; admitida pelo CDC)10-14 dias

A azitromicina não deve ser usada: existe resistência disseminada de T. pallidum aos macrólidos (mutação 23S rRNA), com falências terapêuticas documentadas, incluindo em Portugal e restante Europa.

Quando a penicilina é insubstituível — dessensibilização

Numa situação não há alternativa aceitável à penicilina e noutra a alternativa é claramente inferior; em ambas a conduta preferível é a dessensibilização (protocolo oral ou endovenoso, com doses crescentes, em meio hospitalar com capacidade de reanimação), seguida de tratamento com penicilina:

  1. Grávida com sífilis, em qualquer estádio — porque a doxiciclina está contraindicada na gravidez e nenhum outro fármaco demonstrou tratar o feto.
  2. Neurossífilis (e sífilis ocular/ótica) — a penicilina G aquosa endovenosa mantém-se o tratamento de eleição e a dessensibilização é preferível sempre que exequível; existe, contudo, alternativa na alergia confirmada: ceftriaxona 2 g IM ou EV uma vez por dia durante 10-14 dias (BASHH 2024, também admitida pelo CDC), que atinge concentrações treponemicidas no LCR e tem risco baixo de reatividade cruzada com a penicilina.

A dessensibilização é temporária: a tolerância perde-se dias após a interrupção do fármaco, pelo que tem de ser repetida se for preciso novo curso.


Antes de tratar: o que fazer na consulta

  1. Determinar o estádio — é isto que define o regime. História de exposição, sintomas prévios, serologias anteriores.
  2. Obter um título não treponémico quantitativo basalimprescindível, porque toda a monitorização se faz por comparação com este valor. Idealmente colhido no mesmo laboratório e com o mesmo teste (VDRL e RPR não são intermutáveis).
  3. Procurar sinais de neurossífilis, sífilis ocular e ótica — perguntar ativamente por alterações visuais, hipoacusia, acufenos, cefaleia, alterações cognitivas ou do comportamento. Um exame neurológico e uma pergunta sobre a visão mudam o regime.
  4. Testar VIH e rastrear as outras IST.
  5. Avisar da reação de Jarisch-Herxheimer (ver secção de complicações) — o doente deve saber que pode ter febre e agravamento do exantema nas primeiras horas e que isso não é alergia.
  6. Aconselhar abstinência sexual até resolução completa das lesões e até 7 dias após a dose única (ou após conclusão do esquema), e organizar a notificação e tratamento dos parceiros.

Seguimento serológico

O seguimento faz-se com títulos não treponémicos quantitativos, sempre com o mesmo teste e no mesmo laboratório.

Critério de resposta adequada: descida de quatro vezes o título (equivalente a duas diluições; por exemplo, de 1:32 para 1:8) em 6 a 12 meses na sífilis precoce, e em 12 a 24 meses na sífilis tardia.

Calendário orientador:

PopulaçãoMomentos de reavaliação serológica
Sífilis precoce, sem VIH6 e 12 meses
Sífilis latente tardia6, 12 e 24 meses
Pessoa com VIH3, 6, 9, 12 e 24 meses (seguimento mais apertado)
GrávidaMensal ou pelo menos por trimestre, consoante o risco; e no parto
NeurossífilisSerologia sérica + reavaliação clínica; punção lombar de controlo se a resposta clínica ou serológica for inadequada

Falência serológica

Define-se por ausência da descida de quatro vezes no prazo esperado, ou por subida de quatro vezes do título após uma resposta inicial, ou por persistência/recorrência de sinais e sintomas.

Perante falência serológica, a abordagem tem três passos:

  1. Excluir reinfeção — é a causa mais frequente de subida do título. Reavaliar exposições e tratar os parceiros.
  2. Avaliar o sistema nervoso centralpunção lombar para excluir neurossífilis não diagnosticada, que exigiria tratamento endovenoso.
  3. Retratar — se o LCR for normal, retratar com penicilina G benzatina 2,4 milhões U IM semanal, 3 doses; se houver neurossífilis, tratar como tal.

Atenção a uma nuance frequentemente mal compreendida: títulos baixos persistentes (habitualmente ≤ 1:8) que não negativam, na ausência de sinais de doença ativa e sem nova exposição, correspondem ao fenómeno serofast — não implicam falência nem obrigam necessariamente a retratamento (ver situações especiais).

Referências

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  8. Blaser MJ, Cohen JI, Holland SM, editores. Mandell, Douglas, and Bennett's Principles and Practice of Infectious Diseases. 10.ª ed. Filadélfia: Elsevier; 2025. Capítulos sobre Treponema pallidum (sífilis) e sífilis congénita.
  9. Loscalzo J, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Jameson JL, editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 22.ª ed. Nova Iorque: McGraw Hill; 2025. Capítulo Syphilis.
  10. Luetkemeyer AF, Donnell D, Dombrowski JC, Cohen S, Grabow C, Brown CE, et al. Postexposure Doxycycline to Prevent Bacterial Sexually Transmitted Infections. N Engl J Med. 2023;388(14):1296-306.
  11. Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional para a Vigilância da Gravidez de Baixo Risco. Lisboa: DGS; 2015.
  12. Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 037/2011 — Exames laboratoriais na Gravidez de Baixo Risco. Lisboa: DGS; 2011.

7 perguntas sobre Sífilis

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