Sépsis e choque sético
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 12 perguntas neste tema
A sépsis é a disfunção de órgão ameaçadora da vida causada por uma resposta desregulada do hospedeiro a uma infeção. Não é sinónimo de bacteriemia nem de infeção grave: o que a define é o órgão que falha, medido por um aumento de 2 ou mais pontos no score SOFA. O choque sético é a sépsis em que, apesar de fluidos adequados, é preciso vasopressor para manter a pressão arterial média em 65 mmHg e o lactato fica acima de 2 mmol/L. O termo sépsis grave foi abolido.
Atinge sobretudo os extremos da idade, os doentes com doença crónica e os imunodeprimidos, e nasce mais vezes de uma pneumonia, depois de infeções abdominais e urinárias. O mecanismo é duplo: uma inflamação que lesa o endotélio, a coagulação e a mitocôndria, e uma imunossupressão que explica as infeções secundárias e as mortes tardias.
Não há teste que a confirme. Reconhece-se procurando ativamente disfunção de órgão em quem tem infeção suspeita, com escalas de alerta precoce e não com o qSOFA isolado; em Portugal, os serviços de urgência organizam isto na Via Verde Sépsis.
O tratamento é uma emergência com tempos marcados: hemoculturas e antibiótico de largo espectro na primeira hora, 30 mL/kg de cristaloide equilibrado na hipoperfusão, noradrenalina para uma pressão média de 65 mmHg, controlo do foco nas primeiras 6 horas e hidrocortisona no choque que continua a pedir vasopressor. Depois, desescalar e encurtar o antibiótico.
O que não se pode falhar é o antibiótico atrasado no doente em choque, o foco por drenar e o doente neutropénico ou asplénico com febre, que pode morrer em horas.
A resposta desregulada do hospedeiro é o centro da doença: o que lesa os órgãos é tanto o agente como a reação do organismo, e muitos doentes morriam mesmo depois de eliminado o microrganismo.
O gatilho
- As células da imunidade inata reconhecem, por recetores de reconhecimento de padrões (os Toll-like e outros), estruturas microbianas conservadas: o lípido A do lipopolissacárido dos Gram-negativos é o exemplo clássico, que sinaliza pelo recetor Toll-like 4 e liberta fator de necrose tumoral e interleucina 1.
- Os mesmos recetores reconhecem moléculas libertadas pelas células lesadas (a proteína HMGB1, as S100, ADN e histonas extracelulares). Por isso a inflamação pode perpetuar-se depois de controlado o agente.
- Os neutrófilos aderem ao endotélio, migram para o foco e libertam mediadores que causam vasodilatação e aumento da permeabilidade. A sépsis começa quando esta resposta local se generaliza.
O que lesa os órgãos
| processo | consequência |
|---|---|
| Libertação descontrolada de óxido nítrico | colapso vasomotor, resistência vascular baixa, shunts arteriovenosos |
| Disfunção endotelial e rotura do glicocálix | perda de barreira, edema e hipovolemia relativa sem perda de sangue |
| Ativação da coagulação pelo fator tecidual, com consumo da proteína C e da antitrombina e inibição da fibrinólise | microtrombose e coagulação intravascular disseminada, sobretudo nas infeções de predomínio endotelial como a meningococcemia |
| Lesão mitocondrial | a célula extrai e usa menos oxigénio; a energia passa a vir da glicólise, com produção de lactato |
| Alterações da microcirculação | tecidos mal perfundidos mesmo com a pressão arterial restaurada |
- Alguns órgãos falham com poucas alterações estruturais: o rim pode ter lesão funcional das células tubulares sem necrose extensa, o que explica que a função se recupere muitas vezes.
- O intestino participa, pela translocação bacteriana através de uma mucosa lesada.
Fase de imunossupressão
- Pró e anti-inflamação coexistem desde cedo. Há apoptose de linfócitos B, T CD4 e células dendríticas, e menor resposta dos leucócitos aos agentes.
- Os doentes que sobrevivem à fase inicial mas continuam em cuidados intensivos fazem infeções secundárias (em cerca de 14% numa coorte de mais de mil doentes), sobretudo de cateter, associadas ao ventilador e abdominais, e reativações de vírus latentes.
O eixo suprarrenal
- A disfunção suprarrenal da sépsis deve-se mais a disfunção reversível do eixo hipotálamo-hipófise e a resistência tecidular aos glicocorticoides do que a lesão da glândula. Não se recomenda o teste de estimulação com corticotropina nem o cortisol plasmático para a diagnosticar.
Não há teste nem padrão de referência para a sépsis. O diagnóstico é clínico: infeção suspeita ou documentada com disfunção aguda de órgão. Nenhum biomarcador isolado a confirma ou exclui.
Rastreio
- A Surviving Sepsis Campaign (orientações internacionais das sociedades de medicina intensiva) recomenda fortemente, desde 2021 e de novo em 2026, usar NEWS ou NEWS2, MEWS ou os critérios de resposta inflamatória sistémica em vez do qSOFA como ferramenta única de rastreio no doente agudo. NEWS2 é a escala nacional britânica de alerta precoce, MEWS a escala de alerta precoce modificada.
- O qSOFA (SOFA rápido) dá 1 ponto a cada: pressão sistólica de 100 mmHg ou menos, frequência respiratória de 22/min ou mais, alteração do estado mental. Com 2 ou mais, prevê mau prognóstico, mas é pouco sensível para rastrear.
- Critérios de resposta inflamatória sistémica: temperatura acima de 38 °C ou abaixo de 36 °C, frequência cardíaca acima de 90/min, frequência respiratória acima de 20/min, leucócitos acima de 12 000/µL ou abaixo de 4 000/µL ou mais de 10% de formas em banda.
Via Verde Sépsis (Norma DGS 010/2016)
| passo | critérios |
|---|---|
| Caso suspeito, na triagem | alteração da temperatura (auricular abaixo de 35 °C ou acima de 38 °C) com um sintoma de foco (cefaleias, confusão, dispneia, tosse, dor abdominal, icterícia, disúria, dor lombar, sinais inflamatórios cutâneos extensos), e pelo menos um de: confusão ou alteração da consciência, frequência cardíaca acima de 90/min com preenchimento capilar aumentado, frequência respiratória acima de 22/min |
| Caso confirmado, pela equipa de sépsis | um critério de gravidade: lactato acima de 2 mmol/L, sistólica abaixo de 90 mmHg, ou PaO2 abaixo de 60 mmHg em ar ambiente ou relação PaO2/FiO2 abaixo de 300 |
| Exclusões | doença cerebrovascular aguda, estado de mal asmático, gravidez, hemorragia digestiva ativa, insuficiência cardíaca descompensada ou síndrome coronária aguda, politrauma ou grande queimado, doente sem reserva para medidas avançadas |
Laboratório e microbiologia
- Hemoculturas o mais cedo possível e antes do antibiótico, sem o atrasar: duas, de locais diferentes, pelo menos uma por punção venosa e uma por cada cateter venoso central com mais de 48 horas. Culturas do foco provável.
- Lactato em todos os doentes com sépsis possível. Pode subir também por intoxicação alcoólica, doença hepática, diabetes, nutrição parentérica ou antirretrovirais: interpreta-se com os restantes sinais.
- Gasimetria arterial, hemograma com plaquetas, coagulação, ionograma, ureia, creatinina, glicose e bilirrubinas.
- A procalcitonina não decide começar antibiótico: a decisão é clínica. Serve, com a clínica, para decidir quando parar.
- Os testes rápidos dirigidos a agentes usam-se caso a caso. Os biomarcadores de Candida não decidem iniciar antifúngico.
Imagem
- Orienta-se pelo foco suspeito e serve para encontrar o que é preciso drenar. A ecografia cardíaca focada ajuda quando o mecanismo do choque não é claro.
Diagnóstico diferencial do choque distributivo
- Anafilaxia, insuficiência suprarrenal, pancreatite aguda grave, choque neurogénico, grande queimado.
- Disfunção de órgão sem infeção: tromboembolismo pulmonar, síndrome coronária aguda, hemorragia digestiva, intoxicações.
A sépsis previne-se evitando a infeção, tratando-a antes de haver disfunção de órgão e reduzindo as infeções associadas aos cuidados de saúde.
Vacinação
- A vacinação contra a gripe e contra o pneumococo reduz as infeções que mais levam à sépsis. Pela Norma DGS 013/2024, a vacina conjugada de 20 serotipos está no Programa Nacional de Vacinação aos 2, 4 e 12 meses; os adultos de grupos de risco (asplenia, défice do complemento, imunossupressão, doença crónica cardíaca, respiratória, hepática ou renal, diabetes) fazem a conjugada de 20 e, 6 a 12 meses depois, a polissacárida de 23; a pessoa com 65 ou mais anos sem outro risco faz a polissacárida de 23.
- Na esplenectomia eletiva vacina-se idealmente 2 semanas antes; na não programada, 2 semanas depois.
Infeções associadas aos cuidados de saúde
A higiene das mãos é a medida isolada mais eficaz. Para o cateter venoso central há um feixe de intervenções obrigatório (Norma DGS 022/2015):
| momento | intervenções |
|---|---|
| Colocação | avaliar a necessidade e usar o menor número de lúmenes; operador treinado; higiene das mãos; barreira máxima (bata e luvas estéreis, touca, máscara, campo grande); antissepsia com clorexidina a 2% em álcool; evitar o acesso femoral, preferindo a jugular interna ou a subclávia |
| Manutenção | avaliar todos os dias se o cateter ainda é necessário; higiene das mãos; fricção dos pontos de acesso com clorexidina alcoólica ou álcool a 70% durante 15 segundos; técnica assética no penso (com compressa até 48 horas, transparente 7 dias, ou antes se sujo ou descolado); treino de quem manipula |
Há feixes equivalentes para a algália e para o local cirúrgico.
Uso racional de antibióticos
- A Norma DGS 006/2014 fixa como regra cursos não superiores a 7 dias, e suspensão quando a infeção bacteriana não se confirma, sem cumprir a duração prevista. Nem a gravidade nem a multirresistência, por si, justificam prolongar.
- O asplénico deve saber que a febre é uma emergência e que começa antibiótico de imediato.
A sépsis e o choque sético são emergências médicas e o tratamento começa no momento do reconhecimento. Cada hora de atraso no antibiótico aumenta em 3 a 7% a probabilidade de morte hospitalar.
A primeira hora (Via Verde Sépsis)
| até 15 minutos | até 60 minutos |
|---|---|
| iniciar 20 a 30 mL/kg de cristaloide; oxigénio; gasimetria arterial com lactato | hemoculturas; outras culturas do foco; antibiótico; análises; identificar o foco; transferir para hospital com medicina intensiva se necessário |
Antibiótico
| situação | quando |
|---|---|
| Choque sético possível, provável ou definitivo | de imediato, idealmente na primeira hora |
| Sépsis provável ou definitiva sem choque | de imediato, idealmente na primeira hora |
| Sépsis possível sem choque | investigação rápida e, se a suspeita se mantém, antibiótico até 3 horas |
| Infeção pouco provável, sem choque | adiar e vigiar de perto |
- A escolha depende do foco, do local de aquisição (comunidade, lar, hospital), da história do doente e da resistência local. Sem foco evidente, no adulto imunocompetente em choque, são opções piperacilina-tazobactam 4,5 g de 6 em 6 horas, cefepima 2 g de 8 em 8 horas ou meropenem 1 g de 8 em 8 horas, com vancomicina (carga de 25 a 30 mg/kg).
- Cobrir multirresistentes só com risco para esse agente; anaeróbios só com risco de infeção anaeróbia; antifúngico empírico não por rotina, só com alto risco de candidíase invasiva.
- Perfusão prolongada dos betalactâmicos, depois de uma dose de carga, em vez de bólus.
- Desescalar quando há agente e antibiograma, e também quando as culturas finais são negativas. Parar se se confirmar outra causa.
Duração (Norma DGS 006/2014)
| situação | duração |
|---|---|
| Regra geral | até 7 dias |
| Pneumonia da comunidade | 3 a 7 dias (7 se Staphylococcus aureus ou Pseudomonas aeruginosa) |
| Pneumonia hospitalar; pielonefrite, mesmo com bacteriemia | 7 dias |
| Infeção intra-abdominal com controlo adequado do foco | 1 a 5 dias |
| Bacteriemia por bacilos Gram-negativos com controlo do foco | 7 dias |
| Bacteriemia de cateter central, com remoção do cateter | 5 a 7 dias |
| Meningite por meningococo ou Haemophilus | 7 dias |
| Meningite pneumocócica | 10 a 14 dias |
| Bacteriemia por Staphylococcus aureus | 14 dias a 6 semanas; 14 só se não complicada |
| Endocardite de válvula nativa; de prótese | 2 a 6 semanas; 6 semanas |
- A bacteriemia por S. aureus é não complicada quando não há endocardite nem material protésico, as hemoculturas de controlo são negativas, há apirexia em 72 horas e não há infeção metastática.
- Nem a gravidade nem a multirresistência justificam, por si, prolongar. Com controlo adequado do foco, preferem-se cursos mais curtos, e a procalcitonina com a clínica ajuda a decidir quando parar.
Controlo do foco
- Procurar sem demora o foco que precisa de drenagem, desbridamento ou remoção: abcesso, empiema, colangite ou pielonefrite obstrutivas, perfuração, tecido necrosado, cateter infetado. Mais de 30% dos doentes precisam dele.
- Fazê-lo idealmente nas primeiras 6 horas. Sem controlo do foco, o antibiótico, mesmo prolongado, tem eficácia limitada.
Fluidos
- Pelo menos 30 mL/kg de cristaloide nas primeiras 3 horas na hipoperfusão ou no choque; na hipotensão, bólus inicial e vasopressor se persistir. A Via Verde Sépsis não ultrapassa os 30 mL/kg sem iniciar vasopressor.
- Cristaloides equilibrados (lactato de Ringer, soluções polieletrolíticas) em vez de soro fisiológico a 0,9%. Cristaloides sozinhos em vez de cristaloides com albumina. Contra amidos (recomendação forte) e contra gelatinas.
- Depois do bólus inicial, guiar por medidas dinâmicas (elevação passiva das pernas, variação do volume sistólico), lactatos seriados e tempo de preenchimento capilar, e não por bólus às cegas. Passada a fase aguda, sugere-se remoção ativa de fluido.
Vasopressores e inotrópicos
- Noradrenalina em primeira linha. Pode começar em veia periférica, sem esperar pelo acesso central.
- Alvo inicial de pressão arterial média de 65 mmHg; no doente com 65 ou mais anos sugere-se 60 a 65 mmHg.
- Com doses crescentes de noradrenalina, acrescentar vasopressina (até 0,03 U/min): a maioria dos peritos começa-a com a noradrenalina perto de 0,25 a 0,5 µg/kg/min. Se a pressão continua baixa, acrescentar adrenalina.
- Dopamina, selepressina e terlipressina não. Com disfunção cardíaca e hipoperfusão persistente apesar de volume e pressão adequados, dobutamina com noradrenalina, ou adrenalina isolada; levosimendano não.
Corticoides
- No choque sético sugere-se hidrocortisona endovenosa, 200 mg por dia, habitualmente 50 mg de 6 em 6 horas ou em perfusão contínua. Em 2021 a indicação era a noradrenalina ou adrenalina de 0,25 µg/kg/min ou mais, pelo menos 4 horas depois de a iniciar; em 2026 a recomendação passou a abranger o choque sético em geral.
- Na sépsis sem choque não há benefício.
Suporte de órgão
- Transfusão restritiva: concentrado eritrocitário com hemoglobina abaixo de 7 g/dL, sem enfarte agudo, hipoxemia grave nem hemorragia aguda.
- Insulina a partir de 180 mg/dL, com alvo de 144 a 180 mg/dL.
- Na síndrome de dificuldade respiratória aguda: volume corrente de 6 mL/kg de peso ideal, pressão de plateau até 30 cm H2O, pressão positiva no fim da expiração (PEEP) mais alta e decúbito ventral mais de 12 horas por dia na forma moderada a grave. Na insuficiência respiratória hipoxémica, oxigénio de alto fluxo por cânula nasal antes da ventilação não invasiva.
- Profilaxia do tromboembolismo com heparina de baixo peso molecular; inibidor da bomba de protões só com risco de hemorragia digestiva; nutrição entérica nas primeiras 72 horas.
- Bicarbonato só com pH de 7,2 ou menos e lesão renal aguda moderada a grave. Técnica dialítica só com indicação definitiva. Sem vitamina C, imunoglobulinas nem técnicas de purificação do sangue.
- Discutir os objetivos de cuidados com o doente e a família nas primeiras 72 horas.
Referências
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- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 006/2014, de 08/05/2014, atualizada a 17/11/2022: Duração de terapêutica antibiótica em patologia infeciosa. Lisboa: DGS; 2022.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 022/2015, de 16/12/2015, atualizada a 29/08/2022: Feixe de intervenções para a prevenção de infeção relacionada com o cateter vascular central. Lisboa: DGS; 2022.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 013/2024, de 19/12/2024: Atualização da estratégia de vacinação pneumocócica, Programa Nacional de Vacinação e grupos de risco. Lisboa: DGS; 2024.
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