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Pneumonia aguda

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 14 de julho de 2026 · 11 perguntas neste tema

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Em resumo

A pneumonia é infeção do parênquima pulmonar que exige, para o diagnóstico, clínica compatível mais um infiltrado novo na radiografia do tórax (é isto que a separa da bronquite aguda, viral e sem antibiótico). Classifica-se por contexto: PAC (comunidade ou < 48 h de internamento), nosocomial (≥ 48 h) e associada ao ventilador. O agente mais comum e mais letal da PAC é o S. pneumoniae; os atípicos (Mycoplasma, Chlamydophila, Legionella com hiponatremia, diarreia e ↑ transaminases) e os vírus completam o quadro. A gravidade decide o local de tratamento pelo CURB-65 (Confusão, Ureia > 7 mmol/L, Respiratória ≥ 30, BP baixa, idade ≥ 65: 0-1 ambulatório, ≥ 3 internar), enquanto a UCI se decide por critérios ATS/IDSA 2019 (1 major — choque com vasopressores ou ventilação mecânica — ou ≥ 3 minor). Mudança de paradigma central: o conceito HCAP foi abandonado (2019), pelo que o doente de lar se trata como PAC e só se cobre MRSA/Pseudomonas com fatores de risco individuais (sobretudo isolamento prévio). Empírico por gravidade: ambulatório com amoxicilina/doxiciclina/macrólido, internado com beta-lactâmico + macrólido ou fluoroquinolona respiratória, e na PAC grave combinação obrigatória. Duração mínima 5 dias até estabilidade clínica; a radiografia melhora mais devagar que a clínica. Na doença grave em UCI, o ensaio CAPE COD (2023) trouxe benefício de mortalidade com hidrocortisona. Na aspiração, ATS/IDSA 2019 diz para não cobrir anaeróbios por rotina (só em abcesso/empiema). Prevenção: vacina antipneumocócica conjugada e antigripal anual segundo o PNV/DGS.

A pneumonia resulta da chegada de microrganismos às vias aéreas distais em número ou virulência que ultrapassa as defesas locais. A via dominante é a microaspiração de secreções orofaríngeas colonizadas, sobretudo durante o sono; menos comuns são a inalação de aerossóis (Legionella, vírus, Mycobacterium tuberculosis), a disseminação hematogénica (endocardite direita, S. aureus) e a extensão por contiguidade. Instala-se pneumonia quando o inóculo vence os mecanismos de defesa: filtro nasal, reflexo da tosse, clearance mucociliar, macrófagos alveolares e imunidade humoral e celular. Compreende-se assim porque a aspiração, a doença pulmonar crónica, o tabagismo, a imunossupressão e a idade avançada são os grandes fatores predisponentes.

Fisiopatologia da consolidação

O agente que chega ao alvéolo desencadeia uma resposta inflamatória: os macrófagos alveolares libertam citocinas que recrutam neutrófilos, aumentam a permeabilidade capilar e enchem o espaço alveolar de exsudado. É esse preenchimento (o alvéolo deixa de ter ar e passa a ter líquido, fibrina e células) que produz a consolidação radiológica e os sinais clássicos: crepitações, aumento das vibrações vocais, macicez e sopro tubário. Como o alvéolo consolidado continua perfundido mas deixa de ventilar, gera-se shunt intrapulmonar e hipoxemia, tipicamente pouco corrigível só com oxigénio suplementar. A libertação sistémica de mediadores explica a febre, a taquicardia e, nos casos graves, a progressão para sépsis e falência orgânica.

Agentes por contexto (o ponto de exame)

A etiologia depende do hospedeiro e do contexto, e essa correspondência é o que o exame testa. Em muitos casos de PAC nenhum agente é identificado, e o mais frequente permanece o S. pneumoniae.

Contexto / hospedeiroAgentes a lembrar
PAC típica, qualquer idadeStreptococcus pneumoniae (o mais comum e o mais mortal em ambulatório)
Jovem, adulto, surtos, tosse arrastadaMycoplasma pneumoniae, Chlamydophila pneumoniae
DPOC, fumadorHaemophilus influenzae, Moraxella catarrhalis, pneumococo
Água/ar condicionado, hotéis, cruzeiros, hiponatremia, diarreia, ↑ transaminasesLegionella pneumophila
Pós-influenza, necrosante, cavitação, empiemaStaphylococcus aureus (incluindo MRSA da comunidade)
Aspiração, má higiene oral, alcoolismo, abcessoFlora oral mista, anaeróbios (menos central hoje, ver Gestão)
Alcoolismo, diabetes, "geleia de groselha"Klebsiella pneumoniae
Aves, ornitólogosChlamydophila psittaci (psitacose)
Sazonal, epidémicoVírus influenza, SARS-CoV-2, VSR
VIH avançado (CD4 < 200), infiltrado bilateral, LDH ↑Pneumocystis jirovecii

Pistas etiológicas frequentes

  • Legionella: a mais rica em pistas de exame, hiponatremia, diarreia, elevação das transaminases, bradicardia relativa e má resposta aos beta-lactâmicos (agente intracelular).
  • Mycoplasma: anemia hemolítica por aglutininas frias, miringite bolhosa, eritema multiforme; comum em jovens e coortes fechadas.
  • S. aureus pós-gripe: pneumonia necrosante com cavitação e derrame, deterioração rápida dias após um quadro gripal.
  • Klebsiella: no alcoólico ou diabético, expetoração hemoptoica espessa e tendência a necrose do lobo superior.

O diagnóstico de pneumonia tem três tarefas encadeadas: confirmar que existe pneumonia (clínica mais infiltrado radiológico), estratificar a gravidade para decidir o local de tratamento (ambulatório, enfermaria ou UCI), e, de forma dirigida, identificar o agente. A ordem importa: a decisão sobre onde tratar, guiada por scores validados, condiciona a intensidade da investigação microbiológica e do tratamento empírico.

Confirmar a pneumonia

O diagnóstico exige clínica compatível mais um infiltrado novo na radiografia do tórax. Nenhum dos dois isolado basta: a clínica sem infiltrado aponta para bronquite; um infiltrado sem clínica infeciosa pode ser edema, enfarte ou neoplasia.

  • Clínica: tosse, expetoração, dispneia, dor pleurítica, febre; ao exame, crepitações, macicez, aumento das vibrações vocais, sopro tubário. Nos idosos a apresentação é frequentemente frustre (confusão, quedas, descompensação de comorbilidade, sem febre).
  • Radiografia do tórax (póstero-anterior e perfil): exame de primeira linha. Confirma o infiltrado, define o padrão (lobar, broncopneumónico, intersticial), deteta complicações (derrame, cavitação, multilobar). Pode ser normal nas primeiras horas ou no doente desidratado/neutropénico, sem que isso exclua pneumonia se a clínica for forte.
  • TC do tórax: não é rotina; reserva-se para dúvida diagnóstica, suspeita de complicação (empiema, abcesso) ou má evolução.

A oximetria de pulso faz parte da avaliação inicial de todos, e a gasometria pede-se se houver hipoxemia ou sinais de gravidade.

Estratificar a gravidade: onde tratar

Esta é a decisão central e o cerne das perguntas de exame. Usa-se um score validado, sempre complementado pelo julgamento clínico (fatores sociais, comorbilidades descompensadas, tolerância oral, hipoxemia).

CURB-65

O CURB-65 é o instrumento mais usado na PAC. Um ponto por cada critério presente:

LetraCritérioLimiar
C (Confusion)Confusão de novoDesorientação
U (Urea)Ureia elevada> 7 mmol/L (≈ BUN > 19 mg/dL)
R (Respiratory rate)Taquipneia≥ 30 ciclos/min
B (Blood pressure)HipotensãoPAS < 90 ou PAD ≤ 60 mmHg
65Idade≥ 65 anos

Interpretação e destino:

PontuaçãoMortalidade aproximadaConduta sugerida
0 a 1BaixaAmbulatório
2IntermédiaInternamento curto ou vigilância apertada
≥ 3ElevadaInternamento; ponderar UCI se 4 a 5

A variante CRB-65 dispensa a ureia e serve para decidir em ambulatório, sem análises. O CURB-65 avalia sobretudo o risco de morte; não substitui a avaliação da necessidade de UCI, que tem critérios próprios (abaixo). O PSI/PORT é uma alternativa mais complexa (20 variáveis), mais sensível para identificar doentes de baixo risco, favorecido pelas normas ATS/IDSA 2019 mas menos prático à cabeceira.

Critérios de UCI (ATS/IDSA 2019)

A admissão em cuidados intensivos decide-se por critérios major e minor, e não pelo CURB-65:

  • Critérios major (basta 1):
    • Choque séptico com necessidade de vasopressores.
    • Insuficiência respiratória com necessidade de ventilação mecânica.
  • Critérios minor (≥ 3 indicam UCI):
    • Frequência respiratória ≥ 30/min
    • PaO₂/FiO₂ ≤ 250
    • Infiltrados multilobares
    • Confusão/desorientação
    • Ureia elevada (BUN ≥ 20 mg/dL)
    • Leucopenia (< 4000/µL)
    • Trombocitopenia (< 100 000/µL)
    • Hipotermia (< 36 °C)
    • Hipotensão exigindo ressuscitação agressiva com fluidos

Qualquer critério major, ou pelo menos três minor, coloca o doente em pneumonia grave, com indicação para nível de cuidados diferenciado.

Identificar o agente (de forma dirigida)

A intensidade da investigação microbiológica escala com a gravidade. Nas normas ATS/IDSA 2019, na PAC ligeira tratada em ambulatório não se recomendam culturas nem testes de rotina (o tratamento empírico resolve a esmagadora maioria). A investigação reserva-se para a doença grave ou para fatores de risco específicos.

Antigenúrias: pneumococo e Legionella

Os testes de antigénio na urina são rápidos, mantêm-se positivos mesmo após início do antibiótico e são particularmente úteis na doença grave:

  • Antigenúria pneumocócica: deteta antigénio de S. pneumoniae; boa especificidade, permite dirigir e estreitar a terapêutica.
  • Antigenúria de Legionella: deteta apenas o serogrupo 1 de L. pneumophila (a esmagadora maioria dos casos humanos), mantém-se positiva durante semanas; um resultado negativo não exclui outros serogrupos.

As normas recomendam antigenúrias de pneumococo e Legionella sobretudo na PAC grave (e a de Legionella perante fatores epidemiológicos, surtos ou viagem recente).

Outros exames microbiológicos

  • Hemoculturas e culturas de expetoração/aspirado: recomendadas na PAC grave e quando se cobre empiricamente MRSA ou Pseudomonas (para permitir descalonar).
  • Painel viral respiratório (PCR para influenza, SARS-CoV-2, outros): útil na época sazonal; a deteção de influenza permite antiviral e ajuda a evitar antibiótico desnecessário.
  • Procalcitonina: não deve ser usada para decidir iniciar antibiótico (não distingue com fiabilidade pneumonia bacteriana de viral no início); pode ajudar a encurtar a duração em reavaliação.
  • Em imunodeprimidos ou má evolução: lavado broncoalveolar, pesquisa de Pneumocystis, fungos, micobactérias.

Distinguir da bronquite aguda

Ponto de exame recorrente. A bronquite aguda é uma inflamação das vias aéreas de grande calibre, quase sempre viral, com tosse (por vezes semanas) sem consolidação. A diferença decisiva é radiológica:

AspetoBronquite agudaPneumonia
Radiografia do tóraxSem infiltradoInfiltrado novo
EtiologiaViral na quase totalidadeBacteriana ou viral
Exame objetivoAuscultação limpa ou roncos difusosCrepitações focais, macicez, sopro tubário
AntibióticoNão indicadoIndicado

Perante tosse aguda com sinais vitais e auscultação normais, num doente sem gravidade, não se pede radiografia por rotina nem se prescreve antibiótico: presume-se bronquite viral.

CURB-65 — gravidade e destino na pneumonia da comunidade 1 ponto por cada critério presente C Confusão de novo U Ureia > 7 mmol/L (BUN > 20 mg/dL) R Respiratória: FR ≥ 30/min B Blood pressure: PAS < 90 ou PAD ≤ 60 mmHg 65 Idade ≥ 65 anos Score → destino: 0 - 1ambulatório 2internamento 3 - 5grave, ponderar UCI
Esquema InovaQB.

A prevenção da pneumonia assenta em dois pilares vacinais (antipneumocócica e antigripal) e em medidas gerais de redução do risco. Em Portugal, as recomendações seguem o Programa Nacional de Vacinação (PNV) e as normas da DGS, que devem prevalecer sobre esquemas de outros países.

Vacina antipneumocócica

Existem dois tipos de vacina contra Streptococcus pneumoniae, com lógicas imunológicas distintas:

  • Conjugadas (PCV: PCV13, PCV15, PCV20): o polissacárido está conjugado a uma proteína transportadora, o que induz memória imunológica e resposta T-dependente, eficaz mesmo nos extremos etários. São as preferidas para a proteção duradoura.
  • Polissacárida 23-valente (PPV23/Pneumo23): cobre mais serotipos mas gera resposta T-independente, sem memória robusta e com menor eficácia contra doença não invasiva; usa-se como complemento das conjugadas em adultos de risco.

Crianças (PNV)

A vacina conjugada contra o pneumococo está incluída no PNV infantil, administrada no primeiro ano de vida com reforço, sendo esta vacinação universal a principal responsável pela queda da doença pneumocócica invasiva (incluindo por imunidade de grupo).

Adultos

A vacinação antipneumocócica no adulto dirige-se aos ≥ 65 anos e a grupos de risco (imunodepressão, asplenia, doença crónica cardíaca, pulmonar, hepática ou renal, diabetes, fístula de LCR, implante coclear). A tendência atual, refletida nas recomendações internacionais e nas normas da DGS, é a simplificação com uma vacina conjugada de valência alargada (PCV20 em dose única, ou esquema sequencial conjugada seguida de polissacárida quando indicado). O esquema exato e a comparticipação devem ser confirmados na norma da DGS vigente à data.

Vacina antigripal (influenza)

A vacinação anual contra a gripe é a intervenção mais custo-efetiva para reduzir a pneumonia associada à influenza e as suas complicações. A DGS emite todos os anos uma norma de campanha, com vacinação gratuita para os grupos prioritários: ≥ 65 anos, grávidas, doentes crónicos, imunodeprimidos, residentes em lares e profissionais de saúde. A vacinação antigripal é particularmente relevante porque a gripe predispõe à pneumonia bacteriana secundária, com destaque para S. pneumoniae e S. aureus.

Vacina antipneumocócica e antigripal podem ser administradas no mesmo ato, em locais diferentes, e são complementares.

Outras medidas

  • Cessação tabágica: o tabaco é fator de risco independente de pneumonia (e de doença pneumocócica invasiva); parar de fumar reduz o risco.
  • Higiene oral e prevenção da aspiração nos doentes com disfagia ou dependência (elevação da cabeceira, avaliação da deglutição, cuidados de boca), para reduzir a pneumonia de aspiração.
  • Controlo das comorbilidades (DPOC, insuficiência cardíaca, diabetes) e vacinação contra outros agentes respiratórios relevantes (SARS-CoV-2 conforme recomendação vigente).
  • Medidas gerais de controlo de infeção (higiene das mãos, etiqueta respiratória) na comunidade e no hospital, e pacotes de prevenção da PAV nos doentes ventilados (elevação da cabeceira, higiene oral com clorexidina, avaliação diária da possibilidade de extubação).

O tratamento da PAC é empírico, escolhido pelo local de tratamento (que reflete a gravidade) e por fatores de risco individuais. As normas ATS/IDSA 2019 organizam a antibioterapia por três cenários (ambulatório, internamento não grave, internamento grave) e, ao abandonarem o conceito HCAP, deixaram de recomendar largo espetro por rotina em doentes vindos da comunidade. O antibiótico deve iniciar-se precocemente, logo após o diagnóstico, sem esperar por resultados microbiológicos.

PAC em ambulatório

Depende de haver ou não comorbilidades (doença cardíaca, pulmonar, hepática ou renal crónica, diabetes, alcoolismo, imunossupressão) e de fatores de risco para resistência.

SituaçãoEsquema empírico
Saudável, sem comorbilidadesAmoxicilina em dose alta, ou doxiciclina, ou macrólido (só onde a resistência local do pneumococo ao macrólido for < 25 %)
Com comorbilidadesBeta-lactâmico + macrólido (ex.: amoxicilina/ácido clavulânico ou cefuroxima + azitromicina), ou fluoroquinolona respiratória em monoterapia (levofloxacina, moxifloxacina)

O uso isolado do macrólido caiu de favor pela crescente resistência do pneumococo; por isso, no doente saudável, a amoxicilina ou a doxiciclina são preferíveis onde essa resistência é elevada.

PAC internada (não grave)

Dois esquemas equivalentes:

  • Beta-lactâmico + macrólido (ex.: ampicilina/sulbactam, ceftriaxona ou cefotaxima + azitromicina), ou
  • Fluoroquinolona respiratória em monoterapia (levofloxacina ou moxifloxacina).

A combinação beta-lactâmico com macrólido cobre o pneumococo e os atípicos, e há dados de benefício da associação de macrólido (efeito imunomodulador) na doença mais grave.

PAC grave (UCI)

Cobertura obrigatória de pneumococo e atípicos, com terapêutica combinada (a monoterapia com fluoroquinolona não é suficiente na doença grave):

  • Beta-lactâmico + macrólido, ou
  • Beta-lactâmico + fluoroquinolona respiratória.

MRSA e Pseudomonas: só com fatores de risco

Aqui está a grande mudança de 2019. Não se cobre MRSA nem Pseudomonas por rotina (nem pelo antigo rótulo HCAP). Acrescenta-se cobertura apenas perante fatores de risco validados localmente, sobretudo:

  • Isolamento prévio de MRSA ou Pseudomonas nas vias respiratórias.
  • Hospitalização recente com antibióticos endovenosos (nos últimos 90 dias), sobretudo se combinada com validação local do risco.

Quando indicada:

  • MRSA: acrescentar vancomicina ou linezolida.
  • Pseudomonas: usar beta-lactâmico antipseudomonas (piperacilina/tazobactam, cefepima, meropenem, ceftazidima).

Colhem-se culturas para poder descalonar e suspender esta cobertura se os agentes não se confirmarem em 48 h.

Duração, via e resposta

  • Duração: mínimo de 5 dias, e só se suspende quando o doente está clinicamente estável (afebril 48 a 72 h, hemodinamicamente estável, a tolerar via oral, com melhoria respiratória). A maioria das PAC não complicadas trata-se em 5 a 7 dias; cursos mais longos reservam-se para complicações (empiema, abcesso), Legionella grave, S. aureus ou Pseudomonas.
  • Switch oral (step-down): passar de endovenoso a oral assim que houver estabilidade clínica e tolerância digestiva, o que encurta o internamento sem perda de eficácia.
  • Antiviral: na pneumonia por influenza confirmada ou muito provável em época sazonal, iniciar oseltamivir precocemente, sobretudo nos internados e nos grupos de risco.
  • Medidas de suporte: oxigénio para SpO₂ alvo, fluidos, analgesia/antipiréticos, e ventilação (não invasiva ou invasiva) conforme a insuficiência respiratória.

Corticoides na PAC grave

As normas de 2019 não recomendavam corticoides por rotina na PAC. Desde então, o ensaio CAPE COD (2023) mostrou redução da mortalidade com hidrocortisona endovenosa precoce na PAC grave admitida em UCI (sem choque séptico refratário como pré-requisito). É uma atualização de paradigma relevante: em pneumonia grave em cuidados intensivos, a corticoterapia passou a ser opção com suporte de evidência, embora se deva evitar na suspeita de gripe grave (onde os corticoides podem ser deletérios).

Resposta e falência terapêutica

Espera-se melhoria clínica em 48 a 72 horas (febre, frequência respiratória, oxigenação, estado geral). Pontos práticos:

  • Não mudar o antibiótico antes das 48 a 72 h só por manter febre; a defervescência é gradual e a radiografia melhora mais devagar que a clínica (semanas), pelo que não se repete a radiografia de rotina nem se troca terapêutica pela imagem que "não limpou".
  • Falência terapêutica (ausência de melhoria ou deterioração após 72 h) obriga a reavaliar em três direções:
    • Complicação: derrame parapneumónico/empiema, abcesso, pneumonia obstrutiva (neoplasia).
    • Agente não coberto ou resistente: Legionella, MRSA, Pseudomonas, tuberculose, fungos, Pneumocystis.
    • Diagnóstico alternativo (o "pseudopneumonia"): edema pulmonar, tromboembolismo, hemorragia alveolar, pneumonite de hipersensibilidade, neoplasia, vasculite.
  • A investigação da falência inclui TC do tórax, novas culturas, ecografia torácica/toracocentese se houver derrame, e ponderar broncofibroscopia.

Referências

  1. Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. Diagnosis and Treatment of Adults with Community-acquired Pneumonia. An Official Clinical Practice Guideline of the American Thoracic Society and Infectious Diseases Society of America. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45-e67.
  2. Kalil AC, Metersky ML, Klompas M, et al. Management of Adults With Hospital-acquired and Ventilator-associated Pneumonia: 2016 Clinical Practice Guidelines by the Infectious Diseases Society of America and the American Thoracic Society. Clin Infect Dis. 2016;63(5):e61-e111.
  3. Dequin PF, Meziani F, Quenot JP, et al. Hydrocortisone in Severe Community-Acquired Pneumonia (CAPE COD). N Engl J Med. 2023;388(21):1931-1941.
  4. Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al., editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21.ª ed. Nova Iorque: McGraw-Hill; 2022 (pneumonia, cap. de infeções do trato respiratório inferior).
  5. Bennett JE, Dolin R, Blaser MJ, editores. Mandell, Douglas, and Bennett's Principles and Practice of Infectious Diseases. 9.ª ed. Filadélfia: Elsevier; 2020 (pneumonia adquirida na comunidade e nosocomial).
  6. Lim WS, van der Eerden MM, Laing R, et al. Defining community acquired pneumonia severity on presentation to hospital: an international derivation and validation study (CURB-65). Thorax. 2003;58(5):377-382.
  7. Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional de Vacinação (PNV) e Norma sobre vacinação antipneumocócica em adultos com patologia de risco. Lisboa: DGS (edição vigente).
  8. Direção-Geral da Saúde. Norma da campanha de vacinação contra a gripe sazonal. Lisboa: DGS (edição anual vigente).

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