Osteomielite e artrite infeciosa
Atualizado em 19 de julho de 2026 · 10 perguntas neste tema
A infeção osteoarticular do adulto vive de uma assimetria cruel: o diagnóstico é maioritariamente clínico e simples de suspeitar, mas o prognóstico depende de horas (na artrite sética) ou de uma biópsia bem colhida (na espondilodiscite e na prótese). Na PNA, com relevância C, o tema entra sobretudo como cenário de decisão: monoartrite aguda febril, lombalgia noturna com VS elevada, ou prótese dolorosa meses após a cirurgia. Há três reflexos que valem quase todas as perguntas: artrocentese antes do antibiótico, biópsia guiada por imagem antes do antibiótico na osteomielite vertebral e drenagem obrigatória na artrite sética. Um quarto, mais subtil, distingue quem estudou: a presença de cristais não afasta infeção, e o antibiótico isolado nunca esteriliza um biofilme sobre implante. Este capítulo é o ângulo do adulto; a osteomielite hematogénea da criança tem capítulo próprio em Pediatria.
Artrite sética: a artrocentese manda
A regra operacional
Perante monoartrite aguda, artrocentese antes do antibiótico. A única exceção é o doente em sépsis ou choque sético, em que a colheita de hemoculturas e o início imediato de antimicrobiano não podem ser adiados; nesse caso o líquido é colhido logo que possível, mesmo já sob antibiótico (a contagem celular, o predomínio de neutrófilos e a pesquisa de cristais mantêm-se informativos, ainda que a cultura perca sensibilidade).
Se a articulação é de difícil acesso (anca, sacroilíaca, esternoclavicular), a punção é guiada por ecografia ou tomografia computorizada, não abandonada.
Nunca puncionar através de celulite, pústula ou pele infetada sobrejacente: a agulha arrasta o inóculo para dentro da articulação e pode criar uma artrite sética (ou uma infeção de prótese) onde havia apenas infeção de partes moles. Nesse caso, escolher um trajeto por pele íntegra, guiar por imagem, ou entregar a colheita ao bloco operatório. A anticoagulação e a coagulopatia não são contraindicação absoluta, mas exigem ponderação caso a caso e hemostase cuidada.
O que pedir no líquido sinovial
| Exame | Resultado sugestivo de infeção | Armadilha |
|---|---|---|
| Contagem celular | Habitualmente > 50 000 leucócitos/µL com > 90 % de neutrófilos | Valores mais baixos não afastam infeção, sobretudo na prótese, no imunodeprimido, no gonococo e sob antibiótico prévio |
| Gram | Positivo em cerca de metade dos casos por S. aureus | Gram negativo é frequente e não exclui |
| Cultura | Padrão de referência | Rendimento cai muito se colhida após antibiótico |
| Pesquisa de cristais (luz polarizada) | Urato monossódico (gota) ou pirofosfato de cálcio (pseudogota) | A presença de cristais não exclui artrite sética: podem coexistir |
| Glicose e proteínas | Pouco discriminantes | Não decidir com base nelas |
Um bloco de números orientadores para o líquido sinovial:
- Normal: < 200 leucócitos/µL, predomínio mononuclear.
- Não inflamatório (osteoartrose): < 2 000/µL.
- Inflamatório (artrite reumatoide, gota, espondiloartrites): 2 000 a 50 000/µL.
- Sético: tipicamente > 50 000/µL, muitas vezes > 100 000/µL.
Estes intervalos sobrepõem-se. A gota e a pseudogota são os grandes imitadores, podendo cursar com febre, PCR elevada e líquido francamente purulento. O erro de segurança que a PNA gosta de testar é o inverso do esperado: encontrar cristais e dispensar a cultura. Nunca o faça; a coexistência está descrita e é justamente o cenário em que o doente é subtratado.
Exames complementares
- Hemoculturas (duas séries) antes do antibiótico: positivas numa proporção substancial dos casos, e por vezes o único meio de identificar o agente. Numa artrite sética com hemoculturas positivas a S. aureus, pense em endocardite e peça ecocardiograma.
- PCR e VS: sensíveis, inespecíficas; úteis sobretudo para seguir a resposta ao tratamento. Uma PCR normal torna improvável (mas não exclui) a artrite sética.
- Radiografia: habitualmente normal no início. Serve para excluir fratura, corpo estranho e documentar doença articular prévia. A destruição da entrelinha articular já é sinal tardio.
- Ecografia: confirma e quantifica o derrame, guia a punção, é o exame de escolha para a anca.
- RM: reservada para articulações profundas, suspeita de osteomielite associada, abcesso de partes moles ou piomiosite.
- Colheitas dirigidas conforme o contexto: exsudado uretral/endocervical/faríngeo/retal com teste de amplificação de ácidos nucleicos para gonococo no jovem sexualmente ativo.
Diagnóstico diferencial da monoartrite aguda
| Entidade | Pistas a favor | Pistas contra infeção |
|---|---|---|
| Gota | Podagra, hiperuricemia, episódios prévios autolimitados | Cristais de urato, mas cultura obrigatória |
| Pseudogota | Idoso, punho/joelho, condrocalcinose na radiografia | Cristais romboides fracamente birrefringentes positivos |
| Artrite reativa | Uretrite/diarreia 1 a 4 semanas antes, oligoartrite assimétrica | Culturas do líquido negativas |
| Surto de artrite reumatoide | Poliarticular, simétrico, doença conhecida | Cuidado: monoartrite "desproporcionada" na AR é infeção até prova em contrário |
| Hemartrose | Trauma, anticoagulação, hemofilia | Líquido hemático, poucos leucócitos |
| Artrite de Lyme | Exposição a carraças, monoartrite do joelho, curso subagudo | Serologia com confirmação, líquido menos purulento |
| Piomiosite | Dor muscular profunda, febre, tumefação sem derrame articular | Amplitude articular relativamente preservada; RM é diagnóstica |
| Infeção necrosante de partes moles | Dor desproporcionada e para além da articulação, crepitação, bolhas hemorrágicas, anestesia cutânea, progressão em horas | Não é intra-articular: exploração cirúrgica imediata; artrocentese pouco celular não afasta |
Osteomielite vertebral: imagem primeiro, biópsia antes do antibiótico
Passos
- Suspeitar. Dor axial de repouso ou noturna com VS/PCR elevadas, sobretudo se há bacteriémia recente, cateter, hemodiálise, endocardite ou toxicodependência endovenosa.
- Hemoculturas (duas séries) antes de qualquer antibiótico. Se crescerem S. aureus, muitas orientações consideram desnecessária a biópsia, e obriga a ecocardiograma.
- RM da coluna com contraste: é o exame de eleição, com elevada sensibilidade precoce. Mostra edema das placas terminais e do disco, realce, abcesso paravertebral e, sobretudo, abcesso epidural. Se a RM estiver contraindicada ou indisponível (dispositivo cardíaco implantável, implante coclear, claustrofobia), as alternativas são a cintigrafia combinada gálio/Tc-99m, a tomografia computorizada ou a PET-FDG. A cintigrafia com leucócitos marcados não deve ser usada para estabelecer o diagnóstico na coluna: tem baixa sensibilidade na osteomielite vertebral nativa, onde a lesão é frequentemente fotopénica (IDSA 2015).
- Biópsia percutânea guiada por imagem para microbiologia e histologia, antes do antibiótico, sempre que as hemoculturas sejam negativas. Enviar para bacteriológico aeróbio e anaeróbio, micobactérias e fungos, conforme contexto, e pedir histologia (útil para tuberculose e para excluir neoplasia).
- Serologias e testes dirigidos quando o contexto o sugerir: Brucella, Coxiella burnetii, IGRA/exame direto e cultura para micobactérias.
As exceções à regra "biópsia antes do antibiótico"
Trata-se empiricamente sem esperar quando existe:
- Sépsis ou instabilidade hemodinâmica;
- Défice neurológico progressivo ou suspeita de abcesso epidural com compressão;
- Agente já identificado em hemoculturas.
Se o doente já iniciou antibiótico e está estável, a atitude preferível é suspender e rebiopsar, porque tratar 6 semanas às cegas um agente desconhecido é uma decisão pior do que uma janela curta sem antibiótico.
Armadilha de exame: radiografia da coluna normal nas primeiras 2 a 3 semanas. É preciso perder cerca de metade da matriz óssea mineral para a lesão se tornar visível na radiografia simples. Radiografia normal não afasta espondilodiscite.
Osteomielite periférica e do pé diabético
- Radiografia como primeiro exame (barata, útil em série), mas com atraso de semanas.
- RM é o exame com melhor rendimento para distinguir osteomielite de infeção de partes moles e para delimitar a extensão cirúrgica.
- Teste da sonda ao osso (probe-to-bone): numa úlcera do pé diabético, tocar osso ou articulação com sonda romba aumenta substancialmente a probabilidade de osteomielite; num doente de alto risco e úlcera profunda, um teste positivo tem elevado valor preditivo positivo, e um teste negativo torna o diagnóstico improvável.
- A zaragatoa da úlcera ou do trajeto fistuloso não serve para identificar o agente: reflete colonização. A exceção parcial é o isolamento de S. aureus em fístula, que tem alguma correlação. O padrão é a biópsia óssea (percutânea ou intraoperatória), preferencialmente após janela sem antibiótico.
Infeção de prótese articular
O diagnóstico é composto, por critérios (MSIS/ICM, EBJIS), e não por um único teste:
Critérios major (confirmam por si)
- Fístula comunicando com a prótese ou visualização direta do implante;
- Dois isolamentos do mesmo microrganismo em amostras periprotésicas distintas.
Critérios minor (somados)
- PCR e VS elevadas (nas formas crónicas usam-se limiares baixos, da ordem de PCR > 10 mg/L e VS > 30 mm/h): boa sensibilidade de rastreio, fracas para C. acnes;
- Contagem de leucócitos no líquido sinovial e % de neutrófilos, com limiares muito mais baixos do que na artrite sética nativa: na infeção crónica, valores da ordem de alguns milhares de leucócitos/µL com predomínio neutrofílico já são suspeitos, enquanto nas infeções agudas se usam limiares mais altos. Confirme sempre o limiar do critério que está a aplicar;
- Biomarcadores sinoviais: alfa-defensina e esterase leucocitária;
- Histologia periprotésica com neutrófilos por campo de grande ampliação;
- Purulência intraoperatória.
Regras de colheita que valem pontos
- Colher múltiplas amostras de tecido periprotésico (habitualmente 3 a 6), não zaragatoas.
- Suspender antibiótico pelo menos duas semanas antes da colheita programada, quando clinicamente possível.
- Culturas prolongadas até 14 dias para apanhar C. acnes e outros agentes indolentes.
- Sonicação do implante explantado: as ondas ultrassónicas desagregam o biofilme e libertam bactérias aderentes, aumentando o rendimento das culturas face à cultura convencional de tecido, sobretudo em doentes que receberam antibiótico.
- A radiografia seriada pode mostrar descolamento (loosening) precoce, osteólise periprotésica ou reação periosteal. Descolamento antes de 2 anos deve levantar a hipótese de infeção, não apenas de falência mecânica.
Artrite sética: drenar e dirigir
O tratamento assenta em dois pilares que não se substituem: drenagem articular e antibioterapia. A pergunta clássica de exame é exatamente esta, e a alínea errada é sempre "antibiótico endovenoso isolado".
Porque é que a drenagem é obrigatória
O pus intra-articular sob pressão contém uma carga bacteriana elevada em fase estacionária, enzimas proteolíticas e produtos dos neutrófilos que degradam ativamente o colagénio e os proteoglicanos. O aumento da pressão compromete ainda a perfusão sinovial. Nenhum destes mecanismos é revertido pelo antibiótico. Descomprimir e lavar reduz a carga e interrompe a degradação.
Modalidades:
| Modalidade | Indicação típica |
|---|---|
| Artrocentese de repetição (diária, com agulha) | Articulações superficiais e acessíveis (joelho), diagnóstico precoce, doente a responder |
| Lavagem artroscópica | Joelho e ombro; boa visualização, desbridamento sinovial, drenagem eficaz |
| Artrotomia aberta | Anca (sobretudo), articulações de difícil acesso, loculação, falência das anteriores, corpos estranhos |
Repetir a punção diariamente e monitorizar a contagem celular, que deve descer de forma consistente a cada colheita. Regra de paragem: se ao fim de 5 a 7 dias de drenagem por agulha o derrame continua a reacumular-se, o líquido se mantém francamente purulento, a celularidade não desce ou a febre e a PCR não melhoram, escalar para lavagem artroscópica ou artrotomia sem esperar mais um dia. Reavaliar diariamente e documentar a decisão. Escalar de imediato, sem sequer tentar a via da agulha, se a articulação é a anca, se há loculação, corpo estranho ou prótese, ou se o doente está em sépsis. Persistência ou reacumulação de derrame purulento é indicação para escalar para lavagem cirúrgica.
Antibioterapia
Empírica, após colheitas, guiada pelo Gram e pelo contexto epidemiológico local:
- Gram positivo em cocos ou Gram sem informação em adulto sem fatores de risco especiais: cobertura anti-estafilocócica. Em Portugal, onde a proporção de MRSA entre os isolados invasivos de S. aureus é das mais altas da UE/EEE, a cobertura empírica de MRSA (vancomicina, ou daptomicina em alternativa) deve ser considerada por defeito nos quadros graves, no doente com contacto recente com cuidados de saúde (internamento, institucionalização, hemodiálise, cirurgia recente, prótese) e na colonização prévia conhecida, desescalando logo que o antibiograma o permita. Confirmar sempre o padrão de resistência local do hospital.
- Gram negativo em bacilos, ou idoso/imunodeprimido/toxicodependente endovenoso: cefalosporina de 3.ª geração; se risco de Pseudomonas, um betalactâmico antipseudomonas.
- Suspeita de gonococo: ceftriaxona (na infeção gonocócica disseminada em dose e duração superiores às da infeção não complicada). As STI Treatment Guidelines dos CDC (2021) abandonaram a terapêutica dupla sistemática: a ceftriaxona passou a ser usada em monoterapia para o gonococo, e só se acrescenta doxiciclina 100 mg 2x/dia durante 7 dias se a coinfeção por Chlamydia trachomatis não tiver sido excluída. Na Europa, a referência é a guideline IUSTI 2020, que recomenda ceftriaxona 1 g IM (dose superior à norte-americana), com associação de azitromicina 2 g quando a suscetibilidade é desconhecida, reservando a monoterapia a contextos com vigilância de resistências consolidada, e que preconiza teste de cura em todos os casos. Rastrear as restantes infeções sexualmente transmissíveis. A infeção gonocócica é doença de notificação obrigatória em Portugal (SINAVE).
Desescalar assim que houver identificação e antibiograma. A duração habitual na articulação nativa situa-se em torno de 4 a 6 semanas (SANJO 2023: 1 a 2 semanas por via endovenosa seguidas de 2 a 4 semanas por via oral), sendo mais curta apenas na infeção gonocócica e mais prolongada (6 semanas) no S. aureus de articulação axial ou quando há osteomielite adjacente; durações inferiores a 4 semanas associam-se a maior risco de recidiva na infeção com cultura positiva; a transição para via oral é feita quando há melhoria clínica sustentada, drenagem controlada, agente sensível a um fármaco oral com boa biodisponibilidade e adesão assegurada. O ensaio OVIVA (NEJM, 2019) mostrou que, na infeção osteoarticular complexa, a terapêutica oral após uma fase inicial curta endovenosa não é inferior à endovenosa prolongada, desde que o agente e o fármaco sejam adequados; esta é a base da desescalada moderna.
Medidas associadas
- Analgesia eficaz e mobilização precoce assim que a dor o permita: a imobilização prolongada favorece a rigidez e a anquilose. Evitar imobilização rígida para além do estritamente necessário ao controlo da dor.
- Fisioterapia precoce, inicialmente passiva.
- Controlo do foco à distância (cateter, endocardite, foco urinário).
- Os corticosteroides adjuvantes não fazem parte do tratamento standard do adulto.
Osteomielite vertebral
Antibioterapia
Sempre que possível, dirigida ao agente isolado por hemocultura ou biópsia. A duração de referência é de 6 semanas: o ensaio randomizado francês de Bernard e colaboradores (Lancet, 2015) demonstrou não inferioridade de 6 semanas face a 12 semanas na espondilodiscite piogénica. Prolonga-se para além disso em situações particulares: abcesso não drenado, material de instrumentação retido, infeção por micobactérias ou Brucella, ou má resposta.
Esquemas orientadores (a ajustar ao antibiograma):
| Agente | Opções |
|---|---|
| S. aureus meticilino-sensível | Flucloxacilina ou cefazolina |
| S. aureus meticilino-resistente | Vancomicina, alternativa daptomicina |
| Estreptococos | Penicilina ou ceftriaxona |
| Enterobacterales | Cefalosporina de 3.ª geração, fluoroquinolona conforme sensibilidade |
| Pseudomonas aeruginosa | Betalactâmico antipseudomonas, associado conforme gravidade |
| Tuberculose | Esquema antibacilar de 6 a 9 meses na forma osteoarticular e vertebral (base 2HRZE/4HR), prolongado apenas em casos selecionados ou em resistência. Em Portugal, referenciar ao Centro de Diagnóstico Pneumológico da área, no âmbito do Programa Nacional para a Tuberculose (tratamento observado e antibacilares gratuitos, rastreio de contactos), com notificação obrigatória (SINAVE) e articulação com Infeciologia/Ortopedia |
| Brucella | Terapêutica combinada prolongada, tipicamente com doxiciclina associada a rifampicina e/ou aminoglicosídeo. Na grávida: rifampicina isolada ou associada a cotrimoxazol (evitar no 1.º trimestre e perto do termo) |
Gravidez: a doxiciclina (deposição no osso e no esmalte dentário fetais, a evitar após as 15 semanas), os aminoglicosídeos (ototoxicidade fetal irreversível por lesão do VIII par) e as fluoroquinolonas (toxicidade articular experimental) não são a escolha na grávida — e estes tratamentos duram semanas a meses, pelo que a exposição nunca é pontual. Privilegiar betalactâmicos (flucloxacilina, cefazolina, ceftriaxona), que têm o melhor perfil de segurança; na brucelose da grávida usa-se habitualmente rifampicina, isolada ou associada a cotrimoxazol (a evitar no 1.º trimestre e perto do termo), sempre em articulação com Infeciologia e Obstetrícia.
A resposta é monitorizada clinicamente e pela descida da PCR e da VS. Não repetir a RM de rotina apenas para "ver se melhorou": as alterações imagiológicas persistem meses e podem até agravar-se no início do tratamento apesar da boa resposta clínica. Repetir a RM quando há agravamento clínico, dor persistente ou novo défice neurológico.
Cirurgia na espondilodiscite
A maioria dos doentes é tratada apenas com antibiótico. As indicações cirúrgicas são:
- Abcesso epidural com compressão medular ou défice neurológico (emergência neurocirúrgica);
- Instabilidade ou deformidade vertebral significativa, destruição extensa do corpo vertebral;
- Abcesso paravertebral ou do psoas volumoso, que pode ser drenado por via percutânea;
- Falência do tratamento médico com agente adequado;
- Necessidade de material para diagnóstico quando a biópsia percutânea foi repetidamente não diagnóstica.
Osteomielite crónica de osso longo e por contiguidade
A equação é simples: onde há osso morto, é preciso removê-lo. O antibiótico não penetra no sequestro nem no biofilme aderente ao osso necrótico.
Princípios cirúrgicos:
- Desbridamento radical até osso sangrante (o "sinal da páprica"), com remoção de sequestros e de material de osteossíntese quando este já não é necessário à estabilidade.
- Gestão do espaço morto: cimento com antibiótico, esponjosa impregnada, retalhos musculares locais ou livres para trazer vascularização.
- Cobertura de partes moles e, se necessário, revascularização prévia no membro isquémico.
- Estabilização do foco (fixador externo, se aplicável).
- Antibioterapia dirigida por algumas semanas após o desbridamento, com desescalada oral quando possível.
Sem desbridamento, o melhor que se consegue é supressão antibiótica crónica, estratégia legítima apenas em doentes não candidatos a cirurgia.
Infeção de prótese articular: a decisão cirúrgica é o tratamento
A escolha da estratégia manda mais no prognóstico do que a escolha do antibiótico.
| Estratégia | Quando | Nota |
|---|---|---|
| DAIR (desbridamento, antibióticos e retenção do implante, com substituição das componentes móveis) | Infeção precoce ou hematogénea aguda, sintomas de curta duração (poucas semanas), implante estável e bem fixo, partes moles em bom estado, agente sensível com fármaco ativo sobre biofilme | Conserva o implante; taxa de sucesso cai muito se qualquer condição falhar |
| Revisão em um tempo | Agente conhecido e sensível, partes moles boas, osso adequado, ausência de trajeto fistuloso complexo | Menor morbilidade, um só ato cirúrgico; requer experiência do centro |
| Revisão em dois tempos | Infeção crónica, agentes difíceis ou resistentes, fístula, má qualidade de partes moles, falência de DAIR | Explantação + espaçador com antibiótico + antibioterapia + reimplantação diferida após várias semanas. É a estratégia com maior taxa de erradicação |
| Artroplastia de ressecção, artrodese, amputação | Falência repetida, perda óssea maciça, doente sem condições | Salvação funcional limitada |
| Supressão antibiótica crónica | Doente não operável, implante funcionante | Objetivo é controlo sintomático, não cura |
Rifampicina e biofilme
Nas infeções estafilocócicas com implante retido (DAIR ou revisão em um tempo), a rifampicina é o fármaco com atividade demonstrada sobre bactérias em biofilme. O ensaio de Zimmerli e colaboradores (JAMA, 1998) mostrou benefício da associação de rifampicina a uma fluoroquinolona neste cenário. Três regras práticas:
- Nunca em monoterapia (emergência rápida de resistência).
- Iniciar após controlo cirúrgico e com a ferida seca e a bacteriémia resolvida.
- Atenção às interações (indutor potente do citocromo P450: varfarina, anticoncecionais, antirretrovirais, imunossupressores) e à hepatotoxicidade. Avisar o doente da coloração alaranjada de urina, suor e lágrimas, e do risco para lentes de contacto.
As fluoroquinolonas têm excelente biodisponibilidade e penetração óssea, e são o parceiro habitual da rifampicina, mas exigem ponderação do risco de tendinopatia, disseção da aorta e disglicemia, sobretudo no idoso e no doente sob corticosteroide.
A duração total nas PJI varia com a estratégia e a articulação, tipicamente algumas semanas a alguns meses; siga o protocolo do centro e as orientações da IDSA (2013), que diferenciam anca e joelho e implante retido ou substituído.
Referências
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- Trampuz A, Piper KE, Jacobson MJ, Hanssen AD, Unni KK, Osmon DR, et al. Sonication of removed hip and knee prostheses for diagnosis of infection. N Engl J Med. 2007;357(7):654-663.
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- Workowski KA, Bachmann LH, Chan PA, Johnston CM, Muzny CA, Park I, et al. Sexually transmitted infections treatment guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021;70(4):1-187.
10 perguntas sobre Osteomielite e artrite infeciosa
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar