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Infeções das vias respiratórias superiores

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 14 de julho de 2026 · 9 perguntas neste tema

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Em resumo

As infeções das vias respiratórias superiores (IVRS) são maioritariamente víricas e autolimitadas e, na esmagadora maioria, não precisam de antibiótico: constipação comum (rinovírus), a maior parte das faringites, rinossinusites e laringites. O trabalho clínico é sobretudo separar o pequeno subgrupo bacteriano que beneficia de antibiótico. Na faringoamigdalite, o alvo é o Streptococcus pyogenes (estreptococo do grupo A, GAS): usa-se o score de Centor/McIsaac (febre, exsudado amigdalino, adenopatias cervicais anteriores dolorosas, ausência de tosse, idade) para decidir a quem fazer teste rápido de antigénio ou cultura, e só se trata com penicilina ou amoxicilina o GAS confirmado, para prevenir febre reumática e complicações supurativas (abcesso periamigdalino). A glomerulonefrite pós-estreptocócica não é prevenida pelo antibiótico. Na otite média aguda, a decisão é entre vigilância expectante e amoxicilina em alta dose, conforme idade e gravidade. Na rinossinusite, antibiótico só quando há sintomas mais de 10 dias sem melhoria, agravamento em duas fases, ou apresentação grave. A epiglotite é a emergência da via aérea (classicamente Haemophilus influenzae tipo b): não examinar a orofaringe, garantir a via aérea primeiro. Prevenção assenta em vacinação (Hib, pneumococo, gripe) e higiene das mãos, com uso racional de antibióticos como fio condutor.

Agentes e patogénese

Constipação comum

O agente mais frequente é o rinovírus (mais de uma centena de serótipos, o que explica as reinfeções repetidas ao longo da vida), seguido de coronavírus sazonais, vírus sincicial respiratório (VSR), parainfluenza, adenovírus e metapneumovírus. O vírus infeta o epitélio respiratório e desencadeia libertação de mediadores inflamatórios (bradicinina, prostaglandinas, citocinas), que causam vasodilatação, edema da mucosa e hipersecreção. Grande parte dos sintomas resulta desta resposta inflamatória do hospedeiro, não de lesão citopática direta. A rinorreia pode tornar-se mucopurulenta (amarela ou esverdeada) ao fim de alguns dias no decurso normal da doença vírica, pela presença de neutrófilos e restos celulares; cor da secreção não indica infeção bacteriana nem justifica antibiótico.

Faringoamigdalite

A maioria é vírica (rinovírus, adenovírus, vírus Epstein-Barr na mononucleose, vírus influenza, enterovírus, e o quadro inicial da primo-infeção por VIH). A bactéria clinicamente decisiva é o Streptococcus pyogenes, ou estreptococo beta-hemolítico do grupo A (GAS), responsável por cerca de 5 a 15% das faringites do adulto e até 20 a 30% na criança em idade escolar. É raro antes dos 3 anos.

A patogénese das complicações do GAS assenta em dois eixos:

  • Toxinas e invasão local: a escarlatina deve-se a exotoxinas pirogénicas (superantigénios) que produzem o exantema; a extensão local origina complicações supurativas (abcesso periamigdalino, adenite cervical, otite, sinusite).
  • Fenómenos imunomediados pós-infeciosos: a febre reumática aguda resulta de mimetismo molecular entre proteína M do estreptococo e antigénios do miocárdio/articulações; a glomerulonefrite pós-estreptocócica resulta de deposição de imunocomplexos no glomérulo. Ponto de exame: o antibiótico previne a febre reumática mas não previne a glomerulonefrite.

Rinossinusite

A rinossinusite aguda é quase sempre a extensão de uma infeção vírica das vias respiratórias altas. O edema da mucosa obstrui o complexo osteomeatal, retém secreções e prejudica a depuração mucociliar; nesse meio, pode instalar-se sobreinfeção bacteriana em cerca de 0,5 a 2% dos casos. As bactérias mais frequentes são Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae não tipável e Moraxella catarrhalis.

Otite média aguda

Nasce da disfunção da trompa de Eustáquio, geralmente após uma IVRS vírica: a pressão negativa e a retenção de secreções no ouvido médio favorecem crescimento bacteriano. A trompa mais curta e horizontal da criança pequena explica a incidência máxima nos primeiros anos. Agentes: S. pneumoniae, H. influenzae não tipável, Moraxella catarrhalis, com contribuição vírica frequente.

Laringite e epiglotite

A laringite aguda é quase sempre vírica, por inflamação das cordas vocais, com disfonia como sintoma dominante. A epiglotite é uma celulite bacteriana da epiglote e estruturas supraglóticas, historicamente causada por Haemophilus influenzae tipo b (Hib). Com a vacinação universal anti-Hib, tornou-se rara na criança e desviou-se para o adulto, hoje com etiologia mais variada (estreptococos, S. aureus, outros). O edema supraglótico progride rapidamente e pode causar obstrução total da via aérea, o que domina toda a abordagem.

Avaliação e diagnóstico

O diagnóstico das IVRS é clínico na maioria dos casos. O esforço diagnóstico concentra-se em dois pontos: reconhecer os sinais de alarme que mudam a abordagem (epiglotite, abcesso, complicações orbitárias) e, na faringoamigdalite, estimar a probabilidade de GAS para decidir a quem testar.

Constipação comum

Diagnóstico clínico, sem exames. Rinorreia, obstrução nasal, espirros, odinofagia ligeira e tosse, com evolução benigna ao longo de 7 a 10 dias. A febre alta persistente, a dor facial localizada ou a dispneia devem fazer reconsiderar o diagnóstico.

Faringoamigdalite: score de Centor/McIsaac

O objetivo do score não é diagnosticar GAS clinicamente (é impossível distinguir com fiabilidade vírica de estreptocócica só pela observação), mas estratificar quem deve fazer teste. O sistema mais usado é o McIsaac (Centor modificado), que acrescenta a idade ao Centor original:

CritérioPontos
Febre (temperatura > 38 ºC por história)+1
Ausência de tosse+1
Adenopatias cervicais anteriores dolorosas+1
Exsudado ou tumefação amigdalina+1
Idade 3 a 14 anos+1
Idade 15 a 44 anos0
Idade ≥ 45 anos−1

Interpretação e conduta (alinhada com a IDSA):

PontuaçãoProbabilidade aproximada de GASConduta
≤ 1~1 a 10%Não testar, não tratar; sintomático
2 a 3~11 a 35%Testar (TDAR/cultura); tratar só se positivo
≥ 4~50%Testar; alguns protocolos aceitam iniciar antibiótico enquanto se aguarda

Pistas a favor de etiologia vírica (e que reduzem a probabilidade de GAS): tosse, rinorreia, disfonia, conjuntivite, úlceras orais, diarreia. A sua presença deve fazer descer o limiar para não testar.

Confirmação microbiológica no GAS

  • Teste rápido de deteção de antigénio (TDAR): alta especificidade; resultado imediato. Se positivo, confirma GAS.
  • Cultura do exsudado orofaríngeo: padrão de referência, mais sensível. Nas crianças e adolescentes, um TDAR negativo deve ser confirmado por cultura (a febre reumática, alvo da prevenção, é uma preocupação pediátrica); no adulto, com baixíssima incidência de febre reumática, um TDAR negativo geralmente dispensa cultura.
  • Não pesquisar GAS em crianças com menos de 3 anos de forma rotineira, nem em quadros claramente víricos: a portação assintomática é frequente e um teste positivo nesse contexto conduz a tratamento desnecessário.
  • A serologia (ASO, anti-DNase B) documenta infeção prévia e serve para o diagnóstico retrospetivo de febre reumática ou glomerulonefrite, não para o diagnóstico da faringite aguda.

Considerar mononucleose infeciosa (EBV) perante faringite exsudativa com adenopatias generalizadas, esplenomegalia e linfocitose atípica, sobretudo no adolescente; nesse contexto, a amoxicilina provoca exantema e é um erro clássico.

Rinossinusite: vírica vs bacteriana

A distinção é temporal e evolutiva, não imagiológica. Não pedir TC nem radiografia dos seios perinasais na rinossinusite aguda não complicada; a imagem reserva-se para suspeita de complicação. Critérios que sugerem etiologia bacteriana:

  1. Sintomas persistentes ≥ 10 dias sem melhoria; ou
  2. Sintomas graves no início (febre ≥ 39 ºC e secreção nasal purulenta ou dor facial por 3 a 4 dias consecutivos); ou
  3. Agravamento em duas fases (double worsening): melhoria inicial de uma IVRS vírica seguida de recrudescimento (nova febre, cefaleia ou aumento da rinorreia).

Otite média aguda

Diagnóstico por otoscopia: exige derrame no ouvido médio (abaulamento da membrana timpânica, mobilidade reduzida na otoscopia pneumática, ou otorreia não atribuível a otite externa) com sinais de inflamação aguda (eritema marcado ou otalgia). O simples eritema timpânico, sem abaulamento, não basta. A otorreia recente com perfuração é diagnóstica.

Epiglotite

Suspeita clínica: início rápido de febre alta, odinofagia intensa desproporcionada ao observado, disfagia, sialorreia (não consegue engolir a saliva), voz "abafada" e posição de tripé, sem a tosse ladrante da laringotraqueíte. Não instrumentar nem examinar a orofaringe com espátula, e não deitar o doente: qualquer estímulo pode precipitar laringospasmo e obstrução total. O diagnóstico confirma-se por laringoscopia em ambiente controlado (bloco/UCI, com via aérea preparada); a radiografia cervical de perfil pode mostrar o sinal do polegar mas não deve atrasar a proteção da via aérea.

Score de Centor/McIsaac na faringoamigdalite Estratifica quem deve fazer teste para estreptococo do grupo A (GAS); não diagnostica GAS por si só. Critério (McIsaac = Centor modificado) Pontos Temperatura > 38 ºC (por história) +1 Exsudato ou tumefação amigdalina +1 Adenopatia cervical anterior dolorosa +1 Ausência de tosse +1 Idade 3–14 anos +1 Idade 15–44 anos 0 Idade ≥ 45 anos −1 Conduta segundo a pontuação total 0–1 ponto Sem teste nem antibiótico. Só sintomático. 2–3 pontos Teste rápido de antigénio (TDAR). Tratar só se positivo. 4–5 pontos TDAR (alta probabilidade de GAS). Tratar se confirmado. Antibiótico só no GAS confirmado. 1.ª linha: amoxicilina ou penicilina V oral, 10 dias. Previne a febre reumática, mas NÃO a glomerulonefrite pós-estreptocócica.
Esquema original InovaQB, baseado no score de Centor/McIsaac e nas guidelines IDSA da faringite estreptocócica.

Prevenção

A prevenção das IVRS assenta em três pilares: vacinação, medidas de higiene e uso racional de antibióticos (prevenir dano iatrogénico e resistências é, também, prevenção).

Vacinação

Várias das complicações bacterianas graves foram praticamente eliminadas pela vacinação incluída no Programa Nacional de Vacinação (PNV):

  • Vacina anti-Haemophilus influenzae tipo b (Hib): praticamente eliminou a epiglotite por Hib na criança e a doença invasiva associada. É a razão pela qual a epiglotite hoje é rara em pediatria e relativamente mais frequente no adulto.
  • Vacina antipneumocócica conjugada (PCV): reduz a otite média aguda por serótipos vacinais e a doença pneumocócica invasiva; contribui para menos otites e sinusites bacterianas.
  • Vacina contra a gripe (influenza): reduz a incidência de síndromes respiratórias e das suas sobreinfeções bacterianas. Recomendada anualmente pela DGS aos grupos de risco (idade ≥ 65 anos, doença crónica, grávidas, profissionais de saúde), sendo a época e os grupos-alvo definidos a cada ano.

Não existe vacina para o rinovírus (a constipação comum), pela enorme diversidade de serótipos; a prevenção da constipação é comportamental.

Higiene e medidas de contenção

  • Higiene das mãos (lavagem com água e sabão ou solução alcoólica) é a medida isolada mais eficaz para reduzir a transmissão de vírus respiratórios.
  • Etiqueta respiratória: cobrir a boca e o nariz ao tossir/espirrar, uso de lenços descartáveis.
  • Evitar contacto próximo com doentes e não partilhar utensílios; arejar espaços.
  • Em contexto de faringite estreptocócica, o doente deixa de ser contagioso cerca de 24 horas após início de antibiótico eficaz, período habitual de afastamento escolar/laboral.

Uso racional de antibióticos como prevenção

A DGS tem norteado o Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos. Prescrever antibiótico apenas quando há indicação (GAS confirmado, rinossinusite/otite que cumprem critérios) é prevenção primária de resistências, de efeitos adversos (diarreia, reações, Clostridioides difficile) e de medicalização. As estratégias de prescrição diferida (dar receita com instrução de só a usar se não houver melhoria em 48 a 72 horas) reduzem o consumo mantendo a segurança em quadros de baixa probabilidade bacteriana.

Abordagem terapêutica

O princípio transversal é claro: sintomático por defeito, antibiótico só nas indicações definidas. A analgesia e o controlo da febre (paracetamol ou ibuprofeno) aplicam-se a praticamente todos os quadros, independentemente da etiologia.

Constipação comum

Nunca antibiótico. Tratamento sintomático: hidratação, repouso, analgésico/antipirético, lavagem nasal com soro fisiológico. Descongestionantes tópicos por curtos períodos (risco de rinite medicamentosa se usados mais de 3 a 5 dias). Explicar ao doente a evolução natural (7 a 10 dias, com secreção que pode mudar de cor) evita prescrições desnecessárias.

Faringoamigdalite estreptocócica (GAS)

Antibiótico apenas com GAS confirmado por TDAR ou cultura (ou score muito alto em protocolo que o permita). Objetivos: encurtar sintomas, reduzir transmissão e, sobretudo, prevenir a febre reumática e as complicações supurativas.

  • Primeira linha: amoxicilina oral (ou penicilina V oral) durante 10 dias. É o tratamento de eleição do GAS confirmado (IDSA 2012; norma da DGS). A penicilina G benzatínica em toma única intramuscular é opção reservada aos casos de má adesão ou intolerância à via oral (garante a toma completa numa única administração), não a primeira escolha de rotina. O GAS mantém-se universalmente sensível à penicilina (não há resistência descrita), pelo que não se justificam antibióticos de largo espectro.
  • Alergia à penicilina: macrólido (azitromicina, claritromicina) ou uma cefalosporina de primeira geração se a alergia não for do tipo anafilático. Atenção às resistências crescentes dos macrólidos.
  • Duração: 10 dias (exceto benzatínica em dose única e azitromicina em curso curto) para erradicação e prevenção de febre reumática.
  • Evitar amoxicilina/ampicilina se houver suspeita de mononucleose (EBV) pelo exantema associado.

Otite média aguda (OMA)

A decisão central é entre vigilância expectante (watchful waiting, 48 a 72 horas com reavaliação e antibiótico só se não melhorar) e antibiótico imediato:

SituaçãoConduta
< 6 mesesAntibiótico sempre
6 meses a 2 anos, OMA bilateral ou com otorreia, ou sintomas gravesAntibiótico
6 meses a 2 anos, unilateral sem gravidadeAntibiótico ou vigilância expectante
≥ 2 anos, sem gravidadeVigilância expectante razoável
Otorreia, otalgia intensa, febre ≥ 39 ºCAntibiótico (quadro grave)

Antibiótico de escolha: amoxicilina em alta dose (80 a 90 mg/kg/dia). Usar amoxicilina-clavulanato se houve antibiótico nos últimos 30 dias, se coexiste conjuntivite purulenta (sugere H. influenzae) ou se falha da amoxicilina às 48-72 h. Analgesia sempre.

Rinossinusite

Sintomático (lavagem nasal salina, analgesia, corticoide nasal na componente inflamatória). Antibiótico só quando cumpre critérios de provável etiologia bacteriana (≥ 10 dias sem melhoria, início grave ou dupla fase). Escolha: amoxicilina-clavulanato (a IDSA prefere o clavulanato pela cobertura de H. influenzae produtor de betalactamase); amoxicilina isolada é aceitável em muitos contextos de baixo risco. Duração habitual 5 a 10 dias.

Laringite

Quase sempre vírica: repouso vocal, hidratação, evitar irritantes, analgesia. Antibiótico não indicado. Disfonia > 2 a 3 semanas obriga a observação da laringe (excluir outras causas, incluindo neoplásicas).

Epiglotite: emergência

Prioridade absoluta: proteção da via aérea. Manter o doente calmo e sentado, oxigénio, não instrumentar a orofaringe, e transferir para ambiente controlado (bloco/UCI) para intubação ou via aérea cirúrgica por equipa preparada. Só depois de assegurada a via aérea se colhem análises e se inicia antibiótico endovenoso com cefalosporina de terceira geração (ceftriaxona ou cefotaxima), com cobertura de S. aureus (incluindo MRSA) conforme o contexto. Corticoide e adrenalina são adjuvantes possíveis. Não atrasar a proteção da via aérea para fazer exames.

Referências

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