Infeções da pele e tecidos moles
Atualizado em 19 de julho de 2026 · 9 perguntas neste tema
As infeções da pele e tecidos moles do adulto estão entre os motivos mais frequentes de recurso ao serviço de urgência e de prescrição antibiótica, e a aparente banalidade é a armadilha: dentro do mesmo quadro de perna vermelha e dolorosa cabe uma erisipela que resolve com penicilina e uma fasceíte necrosante que mata em horas sem desbridamento. Na matriz PNA o tema tem relevância B e competências MD, D e GD, pelo que as perguntas testam sobretudo o raciocínio fisiopatológico e a capacidade de estratificar antes de tratar. Este capítulo cobre exclusivamente o adulto — impetigo, escabiose, pediculose e restantes infestações estão desenvolvidos no capítulo pediátrico de Infeções e infestações da pele e tecidos moles, para o qual se remete. Há três pontos a dominar: a classificação por profundidade anatómica, que decide se o problema é médico ou cirúrgico; a dicotomia purulenta versus não purulenta, que decide entre drenar e prescrever antibiótico dirigido a estreptococo; e os mecanismos de virulência que explicam por que razão o Streptococcus pyogenes difunde sem pus e o Staphylococcus aureus tende a abcedar.
A barreira cutânea e as portas de entrada
A pele intacta é uma barreira notavelmente eficaz. O estrato córneo oferece uma barreira física seca e descamativa que arrasta bactérias aderentes; o pH ácido do manto hidrolipídico e os ácidos gordos livres inibem o crescimento bacteriano; os queratinócitos produzem péptidos antimicrobianos (defensinas, catelicidina LL-37) que lisam membranas bacterianas; e a microbiota comensal, dominada por estafilococos coagulase-negativos e corinebactérias, ocupa nicho e compete por nutrientes.
Daqui decorre o princípio operacional: a infeção começa quase sempre numa solução de continuidade. Procurar a porta de entrada é parte obrigatória do exame objetivo, e não uma curiosidade académica, porque tratá-la é o que evita a recidiva.
- Fissura interdigital com tinha do pé — a porta clássica da celulite do membro inferior. O intertrigo micótico macera a pele entre os dedos, e a fissura resultante permite a entrada de estreptococos. Estudos de fatores de risco para celulite do membro inferior identificam a rutura da barreira interdigital como um dos fatores mais consistentes (Bjornsdottir et al., Clin Infect Dis 2005). Um doente com celulite de repetição a quem nunca se examinaram os espaços interdigitais é um doente sub-tratado.
- Úlceras venosas, arteriais e de pé diabético, feridas cirúrgicas, escoriações, picadas de artrópode, mordeduras, eczema fissurado.
- Cateteres vasculares e uso de drogas endovenosas, com inoculação direta.
- Antecedente de safenectomia ou esvaziamento ganglionar, que compromete a drenagem linfática do membro.
Porque é que um difunde e o outro abceda
A diferença entre a placa difusa da erisipela e a coleção do abcesso não é acaso clínico: está inscrita no arsenal de virulência de cada agente.
Streptococcus pyogenes — o organismo que dissolve o caminho. O seu programa é a propagação:
- Hialuronidase, ou fator de difusão, degrada o ácido hialurónico da matriz extracelular, liquefazendo a substância fundamental que deveria conter o processo.
- Estreptoquinase ativa o plasminogénio do hospedeiro em plasmina, que lisa a fibrina. O hospedeiro tenta murar a infeção com fibrina; o estreptococo desfaz a muralha à medida que ela é construída. É esta a razão mecanística para a celulite estreptocócica ser tipicamente sem pus.
- DNases degradam as redes extracelulares de neutrófilos (NET), libertando bactérias aprisionadas.
- Proteína M confere resistência à fagocitose ao ligar fibrinogénio e reguladores do complemento; a peptidase de C5a degrada a anafilatoxina C5a e trava o recrutamento de neutrófilos.
- Estreptolisinas O e S lisam eritrócitos e leucócitos.
- Exotoxinas pirogénicas SpeA e SpeC funcionam como superantigénios: ligam diretamente o complexo MHC II ao recetor da célula T fora da fenda peptídica, ativando proporções muito elevadas de linfócitos T e desencadeando uma tempestade de citocinas — o substrato da síndrome de choque tóxico estreptocócico que acompanha as formas invasivas.
Staphylococcus aureus — o organismo que constrói paredes. O seu programa é a localização:
- A coagulase converte fibrinogénio em fibrina, e a estafilocoagulase ativa a protrombina; o resultado é uma cápsula de fibrina que isola o foco. Daí o abcesso.
- A proteína A liga a porção Fc das imunoglobulinas ao contrário, dificultando a opsonização.
- Alfa-hemolisina e leucocidinas perfuram membranas de leucócitos e células do hospedeiro; a lise de neutrófilos gera o pus.
A consequência terapêutica é imediata: no abcesso, o antibiótico penetra mal numa cavidade avascular, hipóxica e ácida, e o gesto que resolve é a drenagem. Na celulite difusa, não há o que drenar e o antibiótico é o tratamento.
MRSA comunitário e a leucocidina de Panton-Valentine
O MRSA adquirido na comunidade difere epidemiológica e geneticamente das estirpes hospitalares. A resistência decorre do gene mecA, que codifica a proteína de ligação à penicilina alterada PBP2a, com baixa afinidade para os beta-lactâmicos — o que anula a atividade de praticamente toda a classe, com exceção das cefalosporinas com atividade anti-MRSA, como a ceftarolina. A cassete cromossómica das estirpes comunitárias é mais pequena e mais móvel, o que se traduz num perfil de resistência mais estreito e em maior capacidade de disseminação em comunidades fechadas.
Muitas destas estirpes produzem a leucocidina de Panton-Valentine (PVL), uma toxina bicomponente que se insere na membrana dos neutrófilos e forma poros, provocando lise e necrose tecidual local. A associação entre PVL e infeções cutâneas primárias, nomeadamente furunculose recorrente e abcessos, e ainda pneumonia necrosante, foi documentada por Lina et al. (Clin Infect Dis 1999). Clinicamente, a suspeita levanta-se perante abcessos de repetição em pessoa jovem e saudável, por vezes com agregação familiar ou em contexto de contacto próximo (desporto de contacto, instituições).
Linfedema, estase venosa e o ciclo vicioso da recorrência
A celulite de repetição do membro inferior não é apenas azar. É um ciclo de retroalimentação positiva:
- O episódio agudo, sobretudo estreptocócico, inflama e destrói vasos linfáticos dérmicos.
- A obliteração linfática gera linfostase e edema crónico.
- A linfa estagnada é um meio rico em proteínas, e a drenagem deficiente reduz a chegada de células apresentadoras de antigénio e de imunoglobulinas ao gânglio — ou seja, compromete a vigilância imunológica local.
- Nova infeção instala-se com menor inóculo, e cada episódio agrava a lesão linfática.
A insuficiência venosa crónica contribui pelo mesmo lado: o edema, a hipoxia dérmica e a fragilidade cutânea da dermatite de estase criam simultaneamente o meio e a porta de entrada. A obesidade agrava ambos os mecanismos.
Daqui decorrem as intervenções que verdadeiramente quebram o ciclo e que as perguntas gostam de testar: tratar a tinha interdigital, cuidar da pele e da hidratação, compressão elástica e controlo do edema, e ponderar profilaxia antibiótica nos casos com episódios repetidos. O ensaio PATCH (Thomas et al., N Engl J Med 2013) mostrou que a penicilina profilática reduz a recorrência de celulite do membro inferior enquanto está a ser tomada, com atenuação do benefício após a suspensão — argumento forte para não abandonar as medidas dirigidas à porta de entrada e ao edema.
A necrose na fasceíte: trombose, anestesia e dissociação clínica
A fisiopatologia da fasceíte necrosante explica a totalidade da sua apresentação enganadora.
A infeção instala-se no plano da fáscia superficial, um tecido com vascularização própria escassa e sem barreiras transversais. A propagação faz-se com rapidez ao longo desse plano, muito para além dos limites visíveis do eritema — motivo pelo qual a extensão real da doença é sempre maior do que a marcada na pele.
O passo decisivo é vascular. A resposta inflamatória, amplificada por toxinas bacterianas e pela ativação da cascata da coagulação, provoca trombose dos vasos perfurantes que atravessam a fáscia para irrigar a derme e a epiderme suprajacentes. Deste evento decorre tudo o resto:
- Isquemia cutânea progressiva, que só tardiamente se manifesta como palidez, tonalidade acinzentada, bolhas hemorrágicas, equimose e necrose franca. Nas primeiras horas a pele pode estar apenas eritematosa ou quase normal.
- Destruição dos nervos cutâneos que acompanham esses perfurantes, produzindo o achado mais característico e mais frequentemente ignorado: anestesia cutânea sobre uma área intensamente dolorosa pouco antes.
- A célebre dissociação entre a dor e o aspeto da pele: dor desproporcionada, por vezes descrita como insuportável, sobre um tegumento pouco impressionante. Quando a pele finalmente parece tão má como o doente se queixa, já se perderam horas críticas.
A hipoxia do tecido tem ainda duas consequências práticas. Primeiro, favorece o crescimento de anaeróbios e a produção de gás nas formas polimicrobianas, dando origem à crepitação e ao gás visível na imagem. Segundo, impede a chegada do antibiótico ao tecido desvitalizado — razão pela qual nenhum esquema antibiótico substitui o desbridamento cirúrgico, que remove o tecido necrosado e restabelece a perfusão da margem viável.
Na mionecrose clostridial, o mesmo princípio opera um nível mais fundo: a alfa-toxina de Clostridium perfringens, uma fosfolipase C, hidrolisa fosfolípidos das membranas celulares e provoca lise de miócitos, eritrócitos e plaquetas, enquanto agrega leucócitos nos capilares e agrava a trombose local. O músculo torna-se pálido, não contrátil e não sangra ao corte, e a produção de gás pelo metabolismo anaeróbio completa o quadro de gangrena gasosa.
O diagnóstico é clínico — e o exame que mais rende é a observação atenta
Na celulite e na erisipela do adulto não existe teste confirmatório. O diagnóstico faz-se pela tétrade inflamatória — eritema, calor, edema e dor — numa área de pele com progressão ao longo de horas a dias, habitualmente unilateral, frequentemente acompanhada de febre, arrepios e mal-estar. A avaliação inicial tem de responder a quatro perguntas, por esta ordem:
- Isto é infeção ou é pseudocelulite?
- Há pus (abcesso, furúnculo, carbúnculo) ou não há?
- Que profundidade está atingida — epiderme, derme, tecido celular subcutâneo, fáscia ou músculo?
- Há critérios de gravidade ou sinais de necrose que obriguem a chamar a cirurgia agora?
A distinção entre erisipela e celulite é morfológica e faz-se à cabeceira: a erisipela envolve a derme superficial e os linfáticos, pelo que a placa é bem delimitada, elevada, com bordo palpável — passa-se o dedo e sente-se o degrau; a celulite atinge a derme profunda e o tecido celular subcutâneo e por isso tem limites mal definidos, esbatidos, sem bordo palpável. Na prática há sobreposição e a orientação empírica inicial pode ser a mesma, mas a morfologia orienta o agente provável (erisipela → Streptococcus pyogenes; celulite com pus → Staphylococcus aureus).
Dois gestos de rotina que os candidatos esquecem: procurar a porta de entrada — sobretudo a fissura interdigital com tinha do pé no membro inferior, mas também úlcera, ferida, picada, ponto de punção ou cateter — e marcar o bordo do eritema com caneta e data/hora, para que a reavaliação às 24–48 h seja objetiva e não uma impressão. Deve avaliar-se ainda o estado do linfedema e da estase venosa subjacentes, que explicam a celulite de repetição.
Exames complementares: pouco rendimento, indicações precisas
Hemoculturas. Na celulite típica, não complicada, do doente imunocompetente, o rendimento é muito baixo (uma pequena minoria de casos, tipicamente abaixo de 5%) e não altera a atitude. As IDSA Practice Guidelines for the Diagnosis and Management of Skin and Soft Tissue Infections (2014) nomeiam explicitamente a neoplasia sob quimioterapia, a neutropenia, a imunodeficiência celular grave, as lesões por imersão e as mordeduras animais; as restantes situações do quadro seguinte não constam da recomendação e valem como critérios de bom senso clínico:
| Pedir hemoculturas quando | Racional |
|---|---|
| Sinais de toxicidade sistémica / critérios de sépsis, hipotensão | Probabilidade de bacteriémia e necessidade de dirigir o antibiótico |
| Imunodepressão — neutropenia, transplantado, quimioterapia | Agentes atípicos, incluindo Gram-negativo e fungos |
| Mordedura animal ou humana | Flora polimicrobiana (Pasteurella, Capnocytophaga, anaeróbios) |
| Exposição aquática — água salgada, água doce, manipulação de peixe | Vibrio vulnificus, Aeromonas, Mycobacterium marinum, Erysipelothrix |
| Infeção extensa ou rapidamente progressiva | Gravidade e risco de fasceíte |
| Celulite associada a linfangite ascendente franca, ou a corpo estranho/prótese | Risco de sementeira |
Exsudado do abcesso drenado. Aqui o rendimento é alto e o exame é útil: a cultura do material obtido por incisão e drenagem identifica o agente e, sobretudo, permite saber se se trata de MRSA da comunidade, o que é decisivo em quem não melhora ou em quem faz abcessos de repetição. Já a zaragatoa da superfície da pele íntegra ou a punção aspirativa do bordo da celulite não purulenta têm rendimento baixo e não devem ser rotina. Colhe-se material antes de iniciar antibiótico sempre que possível.
Análises. Hemograma, PCR e função renal ajudam a estratificar gravidade e a ajustar doses, mas não fazem nem excluem o diagnóstico: há celulites francas com PCR modesta e há dermatites de estase com PCR elevada por outra razão.
Ecografia de partes moles. É o exame de imagem de primeira linha e a sua indicação principal é distinguir celulite de abcesso oculto — a coleção anecogénica/hipoecogénica com detritos e a manobra de compressão que mostra movimento do conteúdo identificam pus que o exame físico não detetou, sobretudo em doentes obesos ou com edema. Muda a atitude, porque abcesso trata-se por drenagem. A ecografia também orienta o local da incisão e ajuda a ver corpos estranhos.
Diagnóstico diferencial: a pseudocelulite é onde mais se erra
Uma proporção substancial dos doentes internados com o rótulo de "celulite" tem, afinal, outra coisa — e recebe antibiótico desnecessário. A regra prática de exame é simples e vale ouro:
Eritema bilateral e simétrico dos membros inferiores é quase sempre pseudocelulite. A celulite bacteriana é, na esmagadora maioria, unilateral.
| Entidade | Pistas que a tornam mais provável |
|---|---|
| Dermatite de estase (a causa nº 1 de erro) | Bilateral, crónica, insidiosa, sem febre; hiperpigmentação hemossiderínica, descamação, prurido > dor; insuficiência venosa, varizes, lipodermatosclerose |
| Trombose venosa profunda | Edema de todo o membro, dor à palpação profunda do gémeo, fatores de risco; eritema pouco marcado — pedir eco-Doppler |
| Dermatite de contacto | Prurido dominante, limites geométricos que decalcam o alergénio, vesículas; exposição recente (pensos, iodopovidona, neomicina) |
| Eritema migrans (Lyme) | Placa anular com clareamento central, indolor, sem calor marcado; picada de carraça, contexto epidemiológico |
| Febre escaro-nodular (Rickettsia conorii) | Escara de inoculação (mancha negra) no local da picada de carraça, com halo inflamatório e adenopatia satélite, febre alta e exantema maculopapular com atingimento palmoplantar; contexto rural/canídeos, primavera-verão. Trata-se com doxiciclina — não responde ao esquema anti-estreptocócico/anti-estafilocócico — e é doença de declaração obrigatória |
| Gota / artrite microcristalina | Eritema centrado numa articulação (1.ª metatarsofalângica), dor exuberante ao mínimo toque, episódios prévios |
| Paniculite | Nódulos subcutâneos profundos e dolorosos, evolução em surtos |
| Vasculite leucocitoclástica | Púrpura palpável, lesões múltiplas e simétricas |
| Síndrome de Sweet | Placas dolorosas infiltradas, febre, neutrofilia, resposta a corticoide; associação a neoplasia/fármacos |
| Celulite eosinofílica (síndrome de Wells) | Recorrente, prurido, eosinofilia, ausência de resposta a antibiótico |
Outras armadilhas: linfedema inflamado, rotura de quisto de Baker, reação a picada de inseto, tromboflebite superficial, carcinoma inflamatório da mama e radiodermite. A febre ausente, o caráter bilateral, a cronicidade e a ausência de resposta a 48–72 h de antibiótico adequado são os quatro sinais que devem fazer reabrir o diagnóstico em vez de escalar o antibiótico.
Fasceíte necrosante: reconhecer é uma competência de segurança
O erro fatal é tratar como celulite aquilo que é uma emergência cirúrgica. O sinal mais precoce e mais fiável é a dor desproporcionada ao aspeto cutâneo — o doente está em sofrimento intenso e a pele parece pouco alterada. Sinais de alarme, do mais precoce ao mais tardio:
- Dor desproporcionada e edema tenso que ultrapassa a área de eritema
- Progressão rápida, em horas, apesar de antibiótico
- Toxicidade sistémica — febre alta ou hipotermia, taquicardia, hipotensão, confusão
- Anestesia cutânea (destruição dos nervos superficiais) — sinal tardio e ominoso
- Bolhas hemorrágicas, equimoses, coloração acinzentada/violácea
- Crepitação (sugere anaeróbios produtores de gás)
- Necrose cutânea franca
Tipo I — polimicrobiana (aeróbios + anaeróbios): doente com diabetes, doença vascular periférica, obesidade, pós-operatório abdominal ou perineal, imunodepressão. Inclui a gangrena de Fournier, no períneo e genitais. Tipo II — monomicrobiana, por Streptococcus pyogenes (por vezes com S. aureus): tipicamente jovem previamente saudável, após trauma minor, laceração, esforço muscular ou varicela, e pode complicar-se de síndrome de choque tóxico estreptocócico.
Ponto de segurança — o LRINEC. O Laboratory Risk Indicator for Necrotizing Fasciitis combina PCR, leucócitos, hemoglobina, sódio, creatinina e glicémia. É apenas um auxiliar de estratificação: um valor baixo não torna o diagnóstico afastado e nunca deve tranquilizar perante uma clínica sugestiva. O LRINEC não deve atrasar nem substituir a exploração cirúrgica. Da mesma forma, a imagem não pode atrasar o bloco: a TC ou a RM podem mostrar gás e espessamento fascial e são úteis quando a suspeita é intermédia e o doente está estável, mas perante clínica sugestiva com instabilidade a decisão é levar ao bloco. O diagnóstico definitivo é cirúrgico — a exploração mostra fáscia acinzentada, sem resistência à disseção digital, com exsudado turvo tipo "água suja de lavar loiça" e ausência de hemorragia, e permite colher tecido para exame bacteriológico e histológico. Perante dúvida, o erro seguro é explorar.
Nota de âmbito
O impetigo, a escabiose, a pediculose e as restantes infestações estão desenvolvidos no capítulo pediátrico de Infeções e infestações da pele e tecidos moles — consulte-o para essas entidades. Aqui o eixo é o adulto, a estratificação por profundidade e a identificação da emergência cirúrgica.
A gestão das infeções da pele e tecidos moles no adulto decide-se em três perguntas encadeadas, por esta ordem: há necrose? (se sim, é bloco operatório, não é antibiótico); há pus? (se sim, o tratamento é drenagem); se não há pus, o alvo é o estreptococo. Tudo o resto — via de administração, duração, internamento — é modulação. As infestações e o impetigo em idade pediátrica são tratados no capítulo de Pediatria (Infeções e infestações da pele e tecidos moles); aqui o eixo é o adulto.
1. Não purulenta: erisipela e celulite
Sem coleção, sem exsudado purulento, sem ferida drenante. O agente presumido é o Streptococcus pyogenes (e outros β-hemolíticos, dos grupos C e G). A IDSA (Practice Guidelines for the Diagnosis and Management of Skin and Soft Tissue Infections, 2014) recomenda antibioterapia dirigida a estreptococo, sem cobertura sistemática de MRSA na celulite não purulenta típica.
| Cenário | Opção oral | Notas |
|---|---|---|
| Erisipela/celulite ligeira | Amoxicilina | O mais dirigido quando o quadro é claramente estreptocócico; a fenoximetilpenicilina (penicilina V) oral não está comercializada em Portugal, pelo que a alternativa parentérica é a benzilpenicilina |
| Dúvida sobre S. aureus meticilina-sensível | Flucloxacilina ou uma cefalosporina de 1.ª geração (cefalexina, cefradina) | Cobre estreptococo e MSSA |
| Alergia à penicilina | Clindamicina | Alternativa com cobertura de ambos; atenção à Clostridioides difficile |
A via endovenosa e/ou o internamento justificam-se quando existe: sinais de infeção sistémica ou instabilidade hemodinâmica; progressão rápida apesar de terapêutica oral bem cumprida; imunossupressão, neutropenia, cirrose, asplenia; incapacidade de terapêutica oral ou de adesão; envolvimento da face ou de região periorbitária; ou suspeita de infeção profunda. Nesse contexto, penicilina G endovenosa, flucloxacilina ou uma cefalosporina de 1.ª geração são as escolhas habituais, com descalação para via oral logo que haja apirexia sustentada e regressão franca do eritema.
Celulite da face e da região periorbitária: distinguir sempre pré-septal de orbitária antes de tratar. A celulite pré-septal fica anterior ao septo orbitário e trata-se com antibiótico; a celulite orbitária (pós-septal) é uma emergência que ameaça a visão. São sinais de envolvimento pós-septal a proptose, a dor ou limitação dos movimentos oculares, a oftalmoplegia, a diplopia, a quimose e qualquer queda da acuidade visual ou defeito pupilar aferente. Perante qualquer um deles: TC das órbitas e dos seios perinasais com contraste, antibioterapia endovenosa de largo espectro com cobertura de MRSA e de anaeróbios, e observação por oftalmologia e ORL no próprio turno, sem esperar pela manhã seguinte — o risco é de abcesso subperiósteo, trombose do seio cavernoso e extensão intracraniana.
A duração recomendada pela IDSA para a celulite não complicada é de 5 dias, prolongando-se apenas se não houver melhoria clínica ao fim desse período. É armadilha de exame assumir que "celulite = 10 a 14 dias": a evidência aponta para cursos curtos na doença não complicada.
2. Purulenta: o antibiótico é o adjuvante
Abcesso cutâneo, furúnculo e carbúnculo (carbúnculo = coalescência de furúnculos por S. aureus; não confundir com o antraz por Bacillus anthracis, designado em alguns textos por carbúnculo hemático) têm um tratamento principal: incisão e drenagem. Nenhum antibiótico substitui a evacuação da coleção. A ecografia de partes moles ajuda quando a flutuação não é evidente e a distinção entre celulite e abcesso está em dúvida.
Os ensaios controlados por placebo publicados depois da guideline de 2014 (Talan, N Engl J Med 2016; Daum, N Engl J Med 2017, este restrito a abcessos ≤ 5 cm) mostraram aumento significativo da taxa de cura com cotrimoxazol ou clindamicina mesmo em abcessos pequenos e não complicados, pelo que associar um antibiótico anti-S. aureus após a drenagem é hoje prática corrente e não medida de exceção. A indicação é ainda mais firme quando existe:
- celulite circundante extensa ou múltiplos focos;
- sinais sistémicos (febre, taquicardia, leucocitose) ou critérios de resposta inflamatória sistémica;
- imunossupressão, idade avançada ou comorbilidade significativa;
- abcesso em zona de difícil drenagem (face, mão, região genital);
- falência da drenagem isolada;
- dispositivo protésico ou risco de endocardite.
Aqui o alvo é o Staphylococcus aureus. Quando há fatores de risco para MRSA comunitário (colonização ou infeção prévia, abcessos de repetição, contexto de contacto próximo/desportos de contacto, hospitalização recente, utilizadores de drogas endovenosas, falência de β-lactâmico), as opções orais são cotrimoxazol, doxiciclina ou clindamicina; por via endovenosa, vancomicina, daptomicina ou linezolida. Antes de prescrever: a doxiciclina está contraindicada na gravidez e na criança com menos de 8 anos; o cotrimoxazol deve evitar-se no 1.º trimestre (antifolato) e no termo da gravidez (kernicterus), exige ajuste e vigilância do potássio e da função renal no insuficiente renal e no doente sob IECA/ARA ou diurético poupador de potássio, e potencia acentuadamente a varfarina — na grávida com necessidade de cobertura de MRSA, preferir clindamicina (oral) ou vancomicina (endovenosa). A linezolida é inibidora da monoaminoxidase: verificar ISRS, IRSN, tramadol ou triptanos pelo risco de síndrome serotoninérgica, e vigiar o hemograma se o curso ultrapassar 10-14 dias, pela mielossupressão, sobretudo trombocitopenia. Nota fisiopatológica com tradução prática: as estirpes produtoras de leucocidina de Panton-Valentine cursam com abcessos recidivantes e necrose central — reforçam a indicação de drenagem e podem beneficiar de um inibidor da síntese proteica.
3. As medidas que decidem a recorrência
São as mais esquecidas e as que mais pesam no prognóstico a médio prazo.
- Elevação do membro acima do plano do coração — acelera a drenagem do edema inflamatório e é, na prática, tão determinante para a velocidade de resposta como o antibiótico.
- Tratamento do edema: compressão elástica após controlo da fase aguda, diuréticos quando o edema é de causa cardíaca, tratamento da insuficiência venosa crónica. O linfedema e a estase venosa alimentam o ciclo vicioso: cada episódio lesa mais os linfáticos e aumenta o risco do seguinte.
- Tratamento da porta de entrada — o ponto de maior rendimento. A fissura interdigital com tinha do pé é a porta clássica da celulite do membro inferior: exige antifúngico tópico (e sistémico se houver onicomicose associada), secagem cuidadosa dos espaços interdigitais e hidratação da pele xerótica. Tratar a celulite e não tratar a tinha é preparar a recidiva. Do mesmo modo: úlceras, feridas traumáticas, picadas, eczema fissurado e cateteres.
- Marcar o bordo do eritema com caneta dermográfica e datar. É o instrumento mais simples de monitorização.
- O eritema pode agravar nas primeiras 24-48 h apesar de antibiótico eficaz — a lise bacteriana liberta antigénios e amplifica a resposta inflamatória local. Isto não é, por si só, falência terapêutica. O que obriga a reavaliar é a deterioração sistémica, a dor desproporcionada, o aparecimento de bolhas hemorrágicas ou de crepitação, e não o simples alargamento do eritema num doente que está apirético e clinicamente melhor. Trocar o antibiótico às 24 h por "não melhorou o eritema" é erro frequente.
4. Fasceíte necrosante: a cirurgia é o tratamento
Esta é a mensagem que não pode falhar: o desbridamento cirúrgico urgente e repetido é a única intervenção que altera a mortalidade. A antibioterapia isolada não salva o doente — a necrose da fáscia cria um território sem perfusão onde o fármaco não chega em concentração útil.
Sequência obrigatória: suspeita clínica → bloco operatório, sem esperar por imagem. A TC ou a RM podem apoiar em casos duvidosos e estáveis, mas não devem atrasar a exploração cirúrgica; um exame de imagem sem alterações não torna a hipótese suficientemente improvável para dispensar a observação direta dos planos. Escalas como o LRINEC são auxiliares e não excluem o diagnóstico quando a clínica é sugestiva. A exploração cirúrgica é simultaneamente diagnóstica e terapêutica: fáscia acinzentada, sem resistência à disseção romba, exsudado turvo, ausência de hemorragia dos tecidos.
Re-exploração programada às 12-24 h e depois de forma seriada até não haver mais tecido desvitalizado — a necrose progride para além do que se via na primeira intervenção.
A antibioterapia é adjuvante, mas deve ser correta e precoce:
- Largo espectro empírico cobrindo Gram-positivos (incluindo MRSA), Gram-negativos e anaeróbios — tipicamente um carbapenemo ou piperacilina/tazobactam associado a vancomicina ou linezolida.
- Inibidor da síntese proteica — clindamicina ou linezolida — pelo efeito antitoxínico: suprime a produção de exotoxinas superantigénicas e da proteína M pelo S. pyogenes, um efeito que os β-lactâmicos não têm (e que estes perdem ainda mais em inóculo elevado, pelo chamado efeito Eagle, com bactérias em fase estacionária e menor expressão de PBP).
- Imunoglobulina endovenosa — a considerar em casos selecionados de choque tóxico estreptocócico, pela neutralização de superantigénios. A evidência é limitada e a indicação não é universal; é decisão de cuidados intensivos, nunca substituto da cirurgia.
Suporte em unidade de cuidados intensivos, ressuscitação volémica, correção da disfunção de órgão e reconstrução diferida completam a abordagem. A mionecrose/gangrena gasosa por Clostridium perfringens segue a mesma lógica, com penicilina associada a clindamicina e desbridamento radical, podendo exigir amputação.
5. Profilaxia antibiótica prolongada na celulite de repetição
Deve ser considerada quando, apesar de corrigidos os fatores predisponentes (tinha interdigital, linfedema, obesidade, insuficiência venosa, xerose), o doente mantém episódios recorrentes — a IDSA sugere ponderá-la a partir de 3 a 4 episódios por ano. O regime praticável em Portugal é a penicilina benzatínica intramuscular em intervalos regulares — a penicilina V oral usada no ensaio PATCH não está comercializada em Portugal; a amoxicilina oral é alternativa e a eritromicina fica para a alergia. O benefício é real mas dependente da manutenção — a taxa de recidiva regressa aos valores basais depois de suspender a profilaxia, o que reforça que a intervenção estrutural sobre o edema e a porta de entrada é o que produz ganho duradouro.
Referências
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9 perguntas sobre Infeções da pele e tecidos moles
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