InfeciosaInfeções da pele e tecidos molesPublicado (Premium)

Infeções da pele e tecidos moles

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 19 de julho de 2026 · 9 perguntas neste tema

Fazer perguntas deste tema
Em resumo

As infeções da pele e tecidos moles do adulto estão entre os motivos mais frequentes de recurso ao serviço de urgência e de prescrição antibiótica, e a aparente banalidade é a armadilha: dentro do mesmo quadro de perna vermelha e dolorosa cabe uma erisipela que resolve com penicilina e uma fasceíte necrosante que mata em horas sem desbridamento. Na matriz PNA o tema tem relevância B e competências MD, D e GD, pelo que as perguntas testam sobretudo o raciocínio fisiopatológico e a capacidade de estratificar antes de tratar. Este capítulo cobre exclusivamente o adulto — impetigo, escabiose, pediculose e restantes infestações estão desenvolvidos no capítulo pediátrico de Infeções e infestações da pele e tecidos moles, para o qual se remete. Há três pontos a dominar: a classificação por profundidade anatómica, que decide se o problema é médico ou cirúrgico; a dicotomia purulenta versus não purulenta, que decide entre drenar e prescrever antibiótico dirigido a estreptococo; e os mecanismos de virulência que explicam por que razão o Streptococcus pyogenes difunde sem pus e o Staphylococcus aureus tende a abcedar.

A barreira cutânea e as portas de entrada

A pele intacta é uma barreira notavelmente eficaz. O estrato córneo oferece uma barreira física seca e descamativa que arrasta bactérias aderentes; o pH ácido do manto hidrolipídico e os ácidos gordos livres inibem o crescimento bacteriano; os queratinócitos produzem péptidos antimicrobianos (defensinas, catelicidina LL-37) que lisam membranas bacterianas; e a microbiota comensal, dominada por estafilococos coagulase-negativos e corinebactérias, ocupa nicho e compete por nutrientes.

Daqui decorre o princípio operacional: a infeção começa quase sempre numa solução de continuidade. Procurar a porta de entrada é parte obrigatória do exame objetivo, e não uma curiosidade académica, porque tratá-la é o que evita a recidiva.

  • Fissura interdigital com tinha do pé — a porta clássica da celulite do membro inferior. O intertrigo micótico macera a pele entre os dedos, e a fissura resultante permite a entrada de estreptococos. Estudos de fatores de risco para celulite do membro inferior identificam a rutura da barreira interdigital como um dos fatores mais consistentes (Bjornsdottir et al., Clin Infect Dis 2005). Um doente com celulite de repetição a quem nunca se examinaram os espaços interdigitais é um doente sub-tratado.
  • Úlceras venosas, arteriais e de pé diabético, feridas cirúrgicas, escoriações, picadas de artrópode, mordeduras, eczema fissurado.
  • Cateteres vasculares e uso de drogas endovenosas, com inoculação direta.
  • Antecedente de safenectomia ou esvaziamento ganglionar, que compromete a drenagem linfática do membro.

Porque é que um difunde e o outro abceda

A diferença entre a placa difusa da erisipela e a coleção do abcesso não é acaso clínico: está inscrita no arsenal de virulência de cada agente.

Streptococcus pyogenes — o organismo que dissolve o caminho. O seu programa é a propagação:

  • Hialuronidase, ou fator de difusão, degrada o ácido hialurónico da matriz extracelular, liquefazendo a substância fundamental que deveria conter o processo.
  • Estreptoquinase ativa o plasminogénio do hospedeiro em plasmina, que lisa a fibrina. O hospedeiro tenta murar a infeção com fibrina; o estreptococo desfaz a muralha à medida que ela é construída. É esta a razão mecanística para a celulite estreptocócica ser tipicamente sem pus.
  • DNases degradam as redes extracelulares de neutrófilos (NET), libertando bactérias aprisionadas.
  • Proteína M confere resistência à fagocitose ao ligar fibrinogénio e reguladores do complemento; a peptidase de C5a degrada a anafilatoxina C5a e trava o recrutamento de neutrófilos.
  • Estreptolisinas O e S lisam eritrócitos e leucócitos.
  • Exotoxinas pirogénicas SpeA e SpeC funcionam como superantigénios: ligam diretamente o complexo MHC II ao recetor da célula T fora da fenda peptídica, ativando proporções muito elevadas de linfócitos T e desencadeando uma tempestade de citocinas — o substrato da síndrome de choque tóxico estreptocócico que acompanha as formas invasivas.

Staphylococcus aureus — o organismo que constrói paredes. O seu programa é a localização:

  • A coagulase converte fibrinogénio em fibrina, e a estafilocoagulase ativa a protrombina; o resultado é uma cápsula de fibrina que isola o foco. Daí o abcesso.
  • A proteína A liga a porção Fc das imunoglobulinas ao contrário, dificultando a opsonização.
  • Alfa-hemolisina e leucocidinas perfuram membranas de leucócitos e células do hospedeiro; a lise de neutrófilos gera o pus.

A consequência terapêutica é imediata: no abcesso, o antibiótico penetra mal numa cavidade avascular, hipóxica e ácida, e o gesto que resolve é a drenagem. Na celulite difusa, não há o que drenar e o antibiótico é o tratamento.


MRSA comunitário e a leucocidina de Panton-Valentine

O MRSA adquirido na comunidade difere epidemiológica e geneticamente das estirpes hospitalares. A resistência decorre do gene mecA, que codifica a proteína de ligação à penicilina alterada PBP2a, com baixa afinidade para os beta-lactâmicos — o que anula a atividade de praticamente toda a classe, com exceção das cefalosporinas com atividade anti-MRSA, como a ceftarolina. A cassete cromossómica das estirpes comunitárias é mais pequena e mais móvel, o que se traduz num perfil de resistência mais estreito e em maior capacidade de disseminação em comunidades fechadas.

Muitas destas estirpes produzem a leucocidina de Panton-Valentine (PVL), uma toxina bicomponente que se insere na membrana dos neutrófilos e forma poros, provocando lise e necrose tecidual local. A associação entre PVL e infeções cutâneas primárias, nomeadamente furunculose recorrente e abcessos, e ainda pneumonia necrosante, foi documentada por Lina et al. (Clin Infect Dis 1999). Clinicamente, a suspeita levanta-se perante abcessos de repetição em pessoa jovem e saudável, por vezes com agregação familiar ou em contexto de contacto próximo (desporto de contacto, instituições).


Linfedema, estase venosa e o ciclo vicioso da recorrência

A celulite de repetição do membro inferior não é apenas azar. É um ciclo de retroalimentação positiva:

  1. O episódio agudo, sobretudo estreptocócico, inflama e destrói vasos linfáticos dérmicos.
  2. A obliteração linfática gera linfostase e edema crónico.
  3. A linfa estagnada é um meio rico em proteínas, e a drenagem deficiente reduz a chegada de células apresentadoras de antigénio e de imunoglobulinas ao gânglio — ou seja, compromete a vigilância imunológica local.
  4. Nova infeção instala-se com menor inóculo, e cada episódio agrava a lesão linfática.

A insuficiência venosa crónica contribui pelo mesmo lado: o edema, a hipoxia dérmica e a fragilidade cutânea da dermatite de estase criam simultaneamente o meio e a porta de entrada. A obesidade agrava ambos os mecanismos.

Daqui decorrem as intervenções que verdadeiramente quebram o ciclo e que as perguntas gostam de testar: tratar a tinha interdigital, cuidar da pele e da hidratação, compressão elástica e controlo do edema, e ponderar profilaxia antibiótica nos casos com episódios repetidos. O ensaio PATCH (Thomas et al., N Engl J Med 2013) mostrou que a penicilina profilática reduz a recorrência de celulite do membro inferior enquanto está a ser tomada, com atenuação do benefício após a suspensão — argumento forte para não abandonar as medidas dirigidas à porta de entrada e ao edema.


A necrose na fasceíte: trombose, anestesia e dissociação clínica

A fisiopatologia da fasceíte necrosante explica a totalidade da sua apresentação enganadora.

A infeção instala-se no plano da fáscia superficial, um tecido com vascularização própria escassa e sem barreiras transversais. A propagação faz-se com rapidez ao longo desse plano, muito para além dos limites visíveis do eritema — motivo pelo qual a extensão real da doença é sempre maior do que a marcada na pele.

O passo decisivo é vascular. A resposta inflamatória, amplificada por toxinas bacterianas e pela ativação da cascata da coagulação, provoca trombose dos vasos perfurantes que atravessam a fáscia para irrigar a derme e a epiderme suprajacentes. Deste evento decorre tudo o resto:

  • Isquemia cutânea progressiva, que só tardiamente se manifesta como palidez, tonalidade acinzentada, bolhas hemorrágicas, equimose e necrose franca. Nas primeiras horas a pele pode estar apenas eritematosa ou quase normal.
  • Destruição dos nervos cutâneos que acompanham esses perfurantes, produzindo o achado mais característico e mais frequentemente ignorado: anestesia cutânea sobre uma área intensamente dolorosa pouco antes.
  • A célebre dissociação entre a dor e o aspeto da pele: dor desproporcionada, por vezes descrita como insuportável, sobre um tegumento pouco impressionante. Quando a pele finalmente parece tão má como o doente se queixa, já se perderam horas críticas.

A hipoxia do tecido tem ainda duas consequências práticas. Primeiro, favorece o crescimento de anaeróbios e a produção de gás nas formas polimicrobianas, dando origem à crepitação e ao gás visível na imagem. Segundo, impede a chegada do antibiótico ao tecido desvitalizado — razão pela qual nenhum esquema antibiótico substitui o desbridamento cirúrgico, que remove o tecido necrosado e restabelece a perfusão da margem viável.

Na mionecrose clostridial, o mesmo princípio opera um nível mais fundo: a alfa-toxina de Clostridium perfringens, uma fosfolipase C, hidrolisa fosfolípidos das membranas celulares e provoca lise de miócitos, eritrócitos e plaquetas, enquanto agrega leucócitos nos capilares e agrava a trombose local. O músculo torna-se pálido, não contrátil e não sangra ao corte, e a produção de gás pelo metabolismo anaeróbio completa o quadro de gangrena gasosa.

O diagnóstico é clínico — e o exame que mais rende é a observação atenta

Na celulite e na erisipela do adulto não existe teste confirmatório. O diagnóstico faz-se pela tétrade inflamatória — eritema, calor, edema e dor — numa área de pele com progressão ao longo de horas a dias, habitualmente unilateral, frequentemente acompanhada de febre, arrepios e mal-estar. A avaliação inicial tem de responder a quatro perguntas, por esta ordem:

  1. Isto é infeção ou é pseudocelulite?
  2. Há pus (abcesso, furúnculo, carbúnculo) ou não há?
  3. Que profundidade está atingida — epiderme, derme, tecido celular subcutâneo, fáscia ou músculo?
  4. Há critérios de gravidade ou sinais de necrose que obriguem a chamar a cirurgia agora?

A distinção entre erisipela e celulite é morfológica e faz-se à cabeceira: a erisipela envolve a derme superficial e os linfáticos, pelo que a placa é bem delimitada, elevada, com bordo palpável — passa-se o dedo e sente-se o degrau; a celulite atinge a derme profunda e o tecido celular subcutâneo e por isso tem limites mal definidos, esbatidos, sem bordo palpável. Na prática há sobreposição e a orientação empírica inicial pode ser a mesma, mas a morfologia orienta o agente provável (erisipela → Streptococcus pyogenes; celulite com pus → Staphylococcus aureus).

Dois gestos de rotina que os candidatos esquecem: procurar a porta de entrada — sobretudo a fissura interdigital com tinha do pé no membro inferior, mas também úlcera, ferida, picada, ponto de punção ou cateter — e marcar o bordo do eritema com caneta e data/hora, para que a reavaliação às 24–48 h seja objetiva e não uma impressão. Deve avaliar-se ainda o estado do linfedema e da estase venosa subjacentes, que explicam a celulite de repetição.


Exames complementares: pouco rendimento, indicações precisas

Hemoculturas. Na celulite típica, não complicada, do doente imunocompetente, o rendimento é muito baixo (uma pequena minoria de casos, tipicamente abaixo de 5%) e não altera a atitude. As IDSA Practice Guidelines for the Diagnosis and Management of Skin and Soft Tissue Infections (2014) nomeiam explicitamente a neoplasia sob quimioterapia, a neutropenia, a imunodeficiência celular grave, as lesões por imersão e as mordeduras animais; as restantes situações do quadro seguinte não constam da recomendação e valem como critérios de bom senso clínico:

Pedir hemoculturas quandoRacional
Sinais de toxicidade sistémica / critérios de sépsis, hipotensãoProbabilidade de bacteriémia e necessidade de dirigir o antibiótico
Imunodepressão — neutropenia, transplantado, quimioterapiaAgentes atípicos, incluindo Gram-negativo e fungos
Mordedura animal ou humanaFlora polimicrobiana (Pasteurella, Capnocytophaga, anaeróbios)
Exposição aquática — água salgada, água doce, manipulação de peixeVibrio vulnificus, Aeromonas, Mycobacterium marinum, Erysipelothrix
Infeção extensa ou rapidamente progressivaGravidade e risco de fasceíte
Celulite associada a linfangite ascendente franca, ou a corpo estranho/próteseRisco de sementeira

Exsudado do abcesso drenado. Aqui o rendimento é alto e o exame é útil: a cultura do material obtido por incisão e drenagem identifica o agente e, sobretudo, permite saber se se trata de MRSA da comunidade, o que é decisivo em quem não melhora ou em quem faz abcessos de repetição. Já a zaragatoa da superfície da pele íntegra ou a punção aspirativa do bordo da celulite não purulenta têm rendimento baixo e não devem ser rotina. Colhe-se material antes de iniciar antibiótico sempre que possível.

Análises. Hemograma, PCR e função renal ajudam a estratificar gravidade e a ajustar doses, mas não fazem nem excluem o diagnóstico: há celulites francas com PCR modesta e há dermatites de estase com PCR elevada por outra razão.

Ecografia de partes moles. É o exame de imagem de primeira linha e a sua indicação principal é distinguir celulite de abcesso oculto — a coleção anecogénica/hipoecogénica com detritos e a manobra de compressão que mostra movimento do conteúdo identificam pus que o exame físico não detetou, sobretudo em doentes obesos ou com edema. Muda a atitude, porque abcesso trata-se por drenagem. A ecografia também orienta o local da incisão e ajuda a ver corpos estranhos.


Diagnóstico diferencial: a pseudocelulite é onde mais se erra

Uma proporção substancial dos doentes internados com o rótulo de "celulite" tem, afinal, outra coisa — e recebe antibiótico desnecessário. A regra prática de exame é simples e vale ouro:

Eritema bilateral e simétrico dos membros inferiores é quase sempre pseudocelulite. A celulite bacteriana é, na esmagadora maioria, unilateral.

EntidadePistas que a tornam mais provável
Dermatite de estase (a causa nº 1 de erro)Bilateral, crónica, insidiosa, sem febre; hiperpigmentação hemossiderínica, descamação, prurido > dor; insuficiência venosa, varizes, lipodermatosclerose
Trombose venosa profundaEdema de todo o membro, dor à palpação profunda do gémeo, fatores de risco; eritema pouco marcado — pedir eco-Doppler
Dermatite de contactoPrurido dominante, limites geométricos que decalcam o alergénio, vesículas; exposição recente (pensos, iodopovidona, neomicina)
Eritema migrans (Lyme)Placa anular com clareamento central, indolor, sem calor marcado; picada de carraça, contexto epidemiológico
Febre escaro-nodular (Rickettsia conorii)Escara de inoculação (mancha negra) no local da picada de carraça, com halo inflamatório e adenopatia satélite, febre alta e exantema maculopapular com atingimento palmoplantar; contexto rural/canídeos, primavera-verão. Trata-se com doxiciclina — não responde ao esquema anti-estreptocócico/anti-estafilocócico — e é doença de declaração obrigatória
Gota / artrite microcristalinaEritema centrado numa articulação (1.ª metatarsofalângica), dor exuberante ao mínimo toque, episódios prévios
PaniculiteNódulos subcutâneos profundos e dolorosos, evolução em surtos
Vasculite leucocitoclásticaPúrpura palpável, lesões múltiplas e simétricas
Síndrome de SweetPlacas dolorosas infiltradas, febre, neutrofilia, resposta a corticoide; associação a neoplasia/fármacos
Celulite eosinofílica (síndrome de Wells)Recorrente, prurido, eosinofilia, ausência de resposta a antibiótico

Outras armadilhas: linfedema inflamado, rotura de quisto de Baker, reação a picada de inseto, tromboflebite superficial, carcinoma inflamatório da mama e radiodermite. A febre ausente, o caráter bilateral, a cronicidade e a ausência de resposta a 48–72 h de antibiótico adequado são os quatro sinais que devem fazer reabrir o diagnóstico em vez de escalar o antibiótico.


Fasceíte necrosante: reconhecer é uma competência de segurança

O erro fatal é tratar como celulite aquilo que é uma emergência cirúrgica. O sinal mais precoce e mais fiável é a dor desproporcionada ao aspeto cutâneo — o doente está em sofrimento intenso e a pele parece pouco alterada. Sinais de alarme, do mais precoce ao mais tardio:

  • Dor desproporcionada e edema tenso que ultrapassa a área de eritema
  • Progressão rápida, em horas, apesar de antibiótico
  • Toxicidade sistémica — febre alta ou hipotermia, taquicardia, hipotensão, confusão
  • Anestesia cutânea (destruição dos nervos superficiais) — sinal tardio e ominoso
  • Bolhas hemorrágicas, equimoses, coloração acinzentada/violácea
  • Crepitação (sugere anaeróbios produtores de gás)
  • Necrose cutânea franca

Tipo I — polimicrobiana (aeróbios + anaeróbios): doente com diabetes, doença vascular periférica, obesidade, pós-operatório abdominal ou perineal, imunodepressão. Inclui a gangrena de Fournier, no períneo e genitais. Tipo II — monomicrobiana, por Streptococcus pyogenes (por vezes com S. aureus): tipicamente jovem previamente saudável, após trauma minor, laceração, esforço muscular ou varicela, e pode complicar-se de síndrome de choque tóxico estreptocócico.

Ponto de segurança — o LRINEC. O Laboratory Risk Indicator for Necrotizing Fasciitis combina PCR, leucócitos, hemoglobina, sódio, creatinina e glicémia. É apenas um auxiliar de estratificação: um valor baixo não torna o diagnóstico afastado e nunca deve tranquilizar perante uma clínica sugestiva. O LRINEC não deve atrasar nem substituir a exploração cirúrgica. Da mesma forma, a imagem não pode atrasar o bloco: a TC ou a RM podem mostrar gás e espessamento fascial e são úteis quando a suspeita é intermédia e o doente está estável, mas perante clínica sugestiva com instabilidade a decisão é levar ao bloco. O diagnóstico definitivo é cirúrgico — a exploração mostra fáscia acinzentada, sem resistência à disseção digital, com exsudado turvo tipo "água suja de lavar loiça" e ausência de hemorragia, e permite colher tecido para exame bacteriológico e histológico. Perante dúvida, o erro seguro é explorar.


Nota de âmbito

O impetigo, a escabiose, a pediculose e as restantes infestações estão desenvolvidos no capítulo pediátrico de Infeções e infestações da pele e tecidos moles — consulte-o para essas entidades. Aqui o eixo é o adulto, a estratificação por profundidade e a identificação da emergência cirúrgica.

Infeção de pele e tecidos moles: a profundidade decide médico ou cirúrgicoCada camada tem a sua entidade. A linha grossa separa antibiótico de bisturi.EpidermeDerme superficial(linfáticos dérmicos)Derme profunda +tecido celularsubcutâneo1IMPETIGO · epiderme · crostas melicéricas2ERISIPELA · placa bem delimitada, bordo palpávelStreptococcus pyogenes · febre precede a pele3CELULITE · limites mal definidos, placa planaS. aureus se purulenta · derme profunda e subcutâneoacima: doença de antibiótico · abaixo: doença de bloco operatórioFásciaMúsculo4FASCEÍTE NECROSANTE · emergência cirúrgicaTipo I polimicrobiana · Tipo II Streptococcus pyogenes5MIONECROSE / gangrena gasosa · músculoClostridium spp. · crepitação, gás, choque!Sinais de alarme de necrose — chamar a cirurgia agoraDor desproporcionada ao aspeto da pele — o sinal mais precoceProgressão em horas apesar de antibiótico · toxicidade sistémicaAnestesia cutânea · bolhas hemorrágicas · crepitação · necroseO score LRINEC apoia mas não exclui — valor baixo não afastaA imagem não pode atrasar o bloco — o diagnóstico é cirúrgico!Armadilha: a pseudoceluliteEritema bilateral e simétrico das pernas, crónico e sem febre, é quasesempre dermatite de estase, não celulite. A celulite é unilateral.

A gestão das infeções da pele e tecidos moles no adulto decide-se em três perguntas encadeadas, por esta ordem: há necrose? (se sim, é bloco operatório, não é antibiótico); há pus? (se sim, o tratamento é drenagem); se não há pus, o alvo é o estreptococo. Tudo o resto — via de administração, duração, internamento — é modulação. As infestações e o impetigo em idade pediátrica são tratados no capítulo de Pediatria (Infeções e infestações da pele e tecidos moles); aqui o eixo é o adulto.


1. Não purulenta: erisipela e celulite

Sem coleção, sem exsudado purulento, sem ferida drenante. O agente presumido é o Streptococcus pyogenes (e outros β-hemolíticos, dos grupos C e G). A IDSA (Practice Guidelines for the Diagnosis and Management of Skin and Soft Tissue Infections, 2014) recomenda antibioterapia dirigida a estreptococo, sem cobertura sistemática de MRSA na celulite não purulenta típica.

CenárioOpção oralNotas
Erisipela/celulite ligeiraAmoxicilinaO mais dirigido quando o quadro é claramente estreptocócico; a fenoximetilpenicilina (penicilina V) oral não está comercializada em Portugal, pelo que a alternativa parentérica é a benzilpenicilina
Dúvida sobre S. aureus meticilina-sensívelFlucloxacilina ou uma cefalosporina de 1.ª geração (cefalexina, cefradina)Cobre estreptococo e MSSA
Alergia à penicilinaClindamicinaAlternativa com cobertura de ambos; atenção à Clostridioides difficile

A via endovenosa e/ou o internamento justificam-se quando existe: sinais de infeção sistémica ou instabilidade hemodinâmica; progressão rápida apesar de terapêutica oral bem cumprida; imunossupressão, neutropenia, cirrose, asplenia; incapacidade de terapêutica oral ou de adesão; envolvimento da face ou de região periorbitária; ou suspeita de infeção profunda. Nesse contexto, penicilina G endovenosa, flucloxacilina ou uma cefalosporina de 1.ª geração são as escolhas habituais, com descalação para via oral logo que haja apirexia sustentada e regressão franca do eritema.

Celulite da face e da região periorbitária: distinguir sempre pré-septal de orbitária antes de tratar. A celulite pré-septal fica anterior ao septo orbitário e trata-se com antibiótico; a celulite orbitária (pós-septal) é uma emergência que ameaça a visão. São sinais de envolvimento pós-septal a proptose, a dor ou limitação dos movimentos oculares, a oftalmoplegia, a diplopia, a quimose e qualquer queda da acuidade visual ou defeito pupilar aferente. Perante qualquer um deles: TC das órbitas e dos seios perinasais com contraste, antibioterapia endovenosa de largo espectro com cobertura de MRSA e de anaeróbios, e observação por oftalmologia e ORL no próprio turno, sem esperar pela manhã seguinte — o risco é de abcesso subperiósteo, trombose do seio cavernoso e extensão intracraniana.

A duração recomendada pela IDSA para a celulite não complicada é de 5 dias, prolongando-se apenas se não houver melhoria clínica ao fim desse período. É armadilha de exame assumir que "celulite = 10 a 14 dias": a evidência aponta para cursos curtos na doença não complicada.


2. Purulenta: o antibiótico é o adjuvante

Abcesso cutâneo, furúnculo e carbúnculo (carbúnculo = coalescência de furúnculos por S. aureus; não confundir com o antraz por Bacillus anthracis, designado em alguns textos por carbúnculo hemático) têm um tratamento principal: incisão e drenagem. Nenhum antibiótico substitui a evacuação da coleção. A ecografia de partes moles ajuda quando a flutuação não é evidente e a distinção entre celulite e abcesso está em dúvida.

Os ensaios controlados por placebo publicados depois da guideline de 2014 (Talan, N Engl J Med 2016; Daum, N Engl J Med 2017, este restrito a abcessos ≤ 5 cm) mostraram aumento significativo da taxa de cura com cotrimoxazol ou clindamicina mesmo em abcessos pequenos e não complicados, pelo que associar um antibiótico anti-S. aureus após a drenagem é hoje prática corrente e não medida de exceção. A indicação é ainda mais firme quando existe:

  • celulite circundante extensa ou múltiplos focos;
  • sinais sistémicos (febre, taquicardia, leucocitose) ou critérios de resposta inflamatória sistémica;
  • imunossupressão, idade avançada ou comorbilidade significativa;
  • abcesso em zona de difícil drenagem (face, mão, região genital);
  • falência da drenagem isolada;
  • dispositivo protésico ou risco de endocardite.

Aqui o alvo é o Staphylococcus aureus. Quando há fatores de risco para MRSA comunitário (colonização ou infeção prévia, abcessos de repetição, contexto de contacto próximo/desportos de contacto, hospitalização recente, utilizadores de drogas endovenosas, falência de β-lactâmico), as opções orais são cotrimoxazol, doxiciclina ou clindamicina; por via endovenosa, vancomicina, daptomicina ou linezolida. Antes de prescrever: a doxiciclina está contraindicada na gravidez e na criança com menos de 8 anos; o cotrimoxazol deve evitar-se no 1.º trimestre (antifolato) e no termo da gravidez (kernicterus), exige ajuste e vigilância do potássio e da função renal no insuficiente renal e no doente sob IECA/ARA ou diurético poupador de potássio, e potencia acentuadamente a varfarina — na grávida com necessidade de cobertura de MRSA, preferir clindamicina (oral) ou vancomicina (endovenosa). A linezolida é inibidora da monoaminoxidase: verificar ISRS, IRSN, tramadol ou triptanos pelo risco de síndrome serotoninérgica, e vigiar o hemograma se o curso ultrapassar 10-14 dias, pela mielossupressão, sobretudo trombocitopenia. Nota fisiopatológica com tradução prática: as estirpes produtoras de leucocidina de Panton-Valentine cursam com abcessos recidivantes e necrose central — reforçam a indicação de drenagem e podem beneficiar de um inibidor da síntese proteica.


3. As medidas que decidem a recorrência

São as mais esquecidas e as que mais pesam no prognóstico a médio prazo.

  • Elevação do membro acima do plano do coração — acelera a drenagem do edema inflamatório e é, na prática, tão determinante para a velocidade de resposta como o antibiótico.
  • Tratamento do edema: compressão elástica após controlo da fase aguda, diuréticos quando o edema é de causa cardíaca, tratamento da insuficiência venosa crónica. O linfedema e a estase venosa alimentam o ciclo vicioso: cada episódio lesa mais os linfáticos e aumenta o risco do seguinte.
  • Tratamento da porta de entrada — o ponto de maior rendimento. A fissura interdigital com tinha do pé é a porta clássica da celulite do membro inferior: exige antifúngico tópico (e sistémico se houver onicomicose associada), secagem cuidadosa dos espaços interdigitais e hidratação da pele xerótica. Tratar a celulite e não tratar a tinha é preparar a recidiva. Do mesmo modo: úlceras, feridas traumáticas, picadas, eczema fissurado e cateteres.
  • Marcar o bordo do eritema com caneta dermográfica e datar. É o instrumento mais simples de monitorização.
  • O eritema pode agravar nas primeiras 24-48 h apesar de antibiótico eficaz — a lise bacteriana liberta antigénios e amplifica a resposta inflamatória local. Isto não é, por si só, falência terapêutica. O que obriga a reavaliar é a deterioração sistémica, a dor desproporcionada, o aparecimento de bolhas hemorrágicas ou de crepitação, e não o simples alargamento do eritema num doente que está apirético e clinicamente melhor. Trocar o antibiótico às 24 h por "não melhorou o eritema" é erro frequente.

4. Fasceíte necrosante: a cirurgia é o tratamento

Esta é a mensagem que não pode falhar: o desbridamento cirúrgico urgente e repetido é a única intervenção que altera a mortalidade. A antibioterapia isolada não salva o doente — a necrose da fáscia cria um território sem perfusão onde o fármaco não chega em concentração útil.

Sequência obrigatória: suspeita clínica → bloco operatório, sem esperar por imagem. A TC ou a RM podem apoiar em casos duvidosos e estáveis, mas não devem atrasar a exploração cirúrgica; um exame de imagem sem alterações não torna a hipótese suficientemente improvável para dispensar a observação direta dos planos. Escalas como o LRINEC são auxiliares e não excluem o diagnóstico quando a clínica é sugestiva. A exploração cirúrgica é simultaneamente diagnóstica e terapêutica: fáscia acinzentada, sem resistência à disseção romba, exsudado turvo, ausência de hemorragia dos tecidos.

Re-exploração programada às 12-24 h e depois de forma seriada até não haver mais tecido desvitalizado — a necrose progride para além do que se via na primeira intervenção.

A antibioterapia é adjuvante, mas deve ser correta e precoce:

  1. Largo espectro empírico cobrindo Gram-positivos (incluindo MRSA), Gram-negativos e anaeróbios — tipicamente um carbapenemo ou piperacilina/tazobactam associado a vancomicina ou linezolida.
  2. Inibidor da síntese proteicaclindamicina ou linezolida — pelo efeito antitoxínico: suprime a produção de exotoxinas superantigénicas e da proteína M pelo S. pyogenes, um efeito que os β-lactâmicos não têm (e que estes perdem ainda mais em inóculo elevado, pelo chamado efeito Eagle, com bactérias em fase estacionária e menor expressão de PBP).
  3. Imunoglobulina endovenosa — a considerar em casos selecionados de choque tóxico estreptocócico, pela neutralização de superantigénios. A evidência é limitada e a indicação não é universal; é decisão de cuidados intensivos, nunca substituto da cirurgia.

Suporte em unidade de cuidados intensivos, ressuscitação volémica, correção da disfunção de órgão e reconstrução diferida completam a abordagem. A mionecrose/gangrena gasosa por Clostridium perfringens segue a mesma lógica, com penicilina associada a clindamicina e desbridamento radical, podendo exigir amputação.


5. Profilaxia antibiótica prolongada na celulite de repetição

Deve ser considerada quando, apesar de corrigidos os fatores predisponentes (tinha interdigital, linfedema, obesidade, insuficiência venosa, xerose), o doente mantém episódios recorrentes — a IDSA sugere ponderá-la a partir de 3 a 4 episódios por ano. O regime praticável em Portugal é a penicilina benzatínica intramuscular em intervalos regulares — a penicilina V oral usada no ensaio PATCH não está comercializada em Portugal; a amoxicilina oral é alternativa e a eritromicina fica para a alergia. O benefício é real mas dependente da manutenção — a taxa de recidiva regressa aos valores basais depois de suspender a profilaxia, o que reforça que a intervenção estrutural sobre o edema e a porta de entrada é o que produz ganho duradouro.

Referências

  1. Stevens DL, Bisno AL, Chambers HF, Dellinger EP, Goldstein EJC, Gorbach SL, et al. Practice guidelines for the diagnosis and management of skin and soft tissue infections: 2014 update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2014;59(2):e10-52.
  2. Sartelli M, Coccolini F, Kluger Y, Agastra E, Abu-Zidan FM, Abbas AES, et al. WSES/GAIS/WSIS/SIS-E/AAST global clinical pathways for patients with skin and soft tissue infections. World J Emerg Surg. 2022;17(1):3.
  3. Stevens DL, Bryant AE. Necrotizing soft-tissue infections. N Engl J Med. 2017;377(23):2253-65.
  4. Raff AB, Kroshinsky D. Cellulitis: a review. JAMA. 2016;316(3):325-37.
  5. Bjornsdottir S, Gottfredsson M, Thorisdottir AS, Gunnarsson GB, Rikardsdottir H, Kristjansson M, et al. Risk factors for acute cellulitis of the lower limb: a prospective case-control study. Clin Infect Dis. 2005;41(10):1416-22.
  6. Wong CH, Khin LW, Heng KS, Tan KC, Low CO. The LRINEC (Laboratory Risk Indicator for Necrotizing Fasciitis) score: a tool for distinguishing necrotizing fasciitis from other soft tissue infections. Crit Care Med. 2004;32(7):1535-41.
  7. Thomas KS, Crook AM, Nunn AJ, Foster KA, Mason JM, Chalmers JR, et al. Penicillin to prevent recurrent leg cellulitis. N Engl J Med. 2013;368(18):1695-703.
  8. Lina G, Piemont Y, Godail-Gamot F, Bes M, Peter MO, Gauduchon V, et al. Involvement of Panton-Valentine leukocidin-producing Staphylococcus aureus in primary skin infections and pneumonia. Clin Infect Dis. 1999;29(5):1128-32.
  9. Blaser MJ, Cohen JI, Holland SM, editores. Mandell, Douglas, and Bennett's Principles and Practice of Infectious Diseases. 10.ª ed. Filadélfia: Elsevier; 2025.
  10. Eron LJ, Lipsky BA, Low DE, Nathwani D, Tice AD, Volturo GA. Managing skin and soft tissue infections: expert panel recommendations on key decision points. J Antimicrob Chemother. 2003;52 Suppl 1:i3-17.

9 perguntas sobre Infeções da pele e tecidos moles

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

Criar conta e treinar