InfeciosaInfeções associadas aos cuidados de saúdePublicado (Premium)

Infeções associadas aos cuidados de saúde

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 14 de julho de 2026 · 10 perguntas neste tema

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Em resumo

As infeções associadas aos cuidados de saúde (IACS) são infeções adquiridas durante a prestação de cuidados, ausentes e sem incubação à admissão (convencionalmente manifestam-se após 48 h de internamento, ou até 30 dias, ou até 90 dias nas categorias de procedimento aplicáveis (incluindo prótese/implante), no caso de infeção de local cirúrgico). As quatro âncoras examináveis são a ITU associada a cateter (CAUTI), a pneumonia associada ao ventilador (PAV), a infeção da corrente sanguínea associada a cateter central (CLABSI) e a infeção do local cirúrgico (ILC), todas prevenidas por feixes (bundles) cujo denominador comum é evitar e remover precocemente o dispositivo invasivo. A prevenção transversal assenta na higiene das mãos (medida mais custo-efetiva, os 5 momentos da OMS), precauções baseadas na via de transmissão (contacto, gotícula, via aérea) e uso racional de antibióticos (antimicrobial stewardship) para conter agentes multirresistentes: MRSA, Enterobacterales produtores de ESBL, CRE/carbapenemases, VRE. A infeção mais relevante ligada ao antibiótico é a colite por Clostridioides difficile, hoje tratada em 1ª linha com fidaxomicina (ou vancomicina oral) e, na recorrência, com transplante de microbiota fecal. Em Portugal a resposta é coordenada pelo PPCIRA (DGS), com vigilância epidemiológica e notificação obrigatórias.

Agentes e mecanismos de infeção

Como o dispositivo gera infeção

A patogénese das IACS ligadas a dispositivos gira quase sempre em torno do biofilme e da rutura das barreiras naturais:

  • CAUTI: o cateter vesical curto-circuita os mecanismos de defesa (fluxo urinário, esfíncter). Os microrganismos ascendem por via extraluminal (ao longo da superfície externa, a partir da flora perineal, mais frequente) ou intraluminal (refluxo do saco coletor), formando biofilme na superfície do cateter. A bacteriúria é praticamente universal ao fim de dias de algaliação e, por si só, não significa infeção.
  • CLABSI: as vias são a migração de flora cutânea pela superfície externa do cateter (principal nos cateteres de curta duração), a contaminação das conexões/hubs (principal nos de longa duração), a sementeira hematogénica a partir de outro foco e, raramente, o líquido de perfusão contaminado. A colonização progride para biofilme e bacteriemia.
  • PAV: o tubo endotraqueal anula o reflexo de tosse e o clearance mucociliar e permite a microaspiração de secreções orofaríngeas contaminadas que se acumulam acima do cuff. A colonização orofaríngea por flora hospitalar e o biofilme intraluminal do tubo são o elo determinante.
  • ILC: contaminação da ferida a partir da flora endógena do doente (pele, ou víscera aberta) no intraoperatório, favorecida por hematoma, tecido desvitalizado, corpo estranho e má perfusão/oxigenação tecidular.

Agentes típicos por foco

FocoAgentes mais frequentes
CAUTIE. coli e outras Enterobacterales, Enterococcus, Pseudomonas aeruginosa, Candida (colonização vs. infeção)
CLABSIStaphylococcus coagulase-negativo (ex.: S. epidermidis), S. aureus, Enterococcus, bacilos Gram-negativo, Candida
PAV precoce (< 5 dias)Flora comunitária: S. pneumoniae, H. influenzae, S. aureus sensível
PAV tardia (≥ 5 dias)Multirresistentes: P. aeruginosa, Acinetobacter baumannii, Enterobacterales-ESBL/CRE, MRSA
ILCS. aureus (incl. MRSA), estafilococos coagulase-negativo; se cirurgia de víscera oca, flora polimicrobiana com Gram-negativo e anaeróbios

Clostridioides difficile: o mecanismo a dominar

Bacilo anaeróbio, Gram-positivo, esporulado. O elo patogénico é a disrupção do microbioma intestinal pelos antibióticos, que remove a resistência à colonização e permite a germinação dos esporos e a proliferação. A doença é mediada por toxinas: toxina A (enterotoxina) e toxina B (citotoxina), responsáveis pela inflamação e pela colite pseudomembranosa. Os esporos são resistentes ao álcool, o que tem consequências práticas diretas (ver Prevenção). Quase qualquer antibiótico pode precipitar, mas os classicamente mais implicados são clindamicina, cefalosporinas de largo espetro, fluoroquinolonas e carbapenemes.

Multirresistência: os mecanismos-chave

  • MRSA — resistência à meticilina/todos os beta-lactâmicos convencionais por PBP2a codificada pelo gene mecA (cassete SCC_mec_). Tratado com vancomicina, daptomicina, linezolida.
  • Enterobacterales produtoras de ESBLbeta-lactamases de espetro alargado que hidrolisam penicilinas e cefalosporinas (incluindo 3ª geração) e monobactâmicos; poupam carbapenemes. Opção de referência: carbapeneme.
  • CRE / carbapenemases — Enterobacterales resistentes aos carbapenemes, frequentemente por produção de carbapenemases (KPC, OXA-48, metalo-beta-lactamases como NDM/VIM). São a maior ameaça atual; obrigam a antibióticos de reserva (ceftazidima-avibactam, meropenem-vaborbactam, etc., consoante o mecanismo).
  • VRE (Enterococcus resistente à vancomicina) — resistência por operões vanA/vanB que alteram o alvo da parede (D-Ala-D-Ala → D-Ala-D-Lac). Opções: linezolida, daptomicina.

Estes agentes concentram-se onde há maior pressão de seleção antibiótica (UCI, doentes complexos), o que fecha o círculo entre uso de antibióticos e emergência de resistências e justifica o stewardship como pilar preventivo, não meramente terapêutico.

Avaliação e diagnóstico

O princípio orientador é distinguir colonização de infeção verdadeira, porque tratar colonização gera sobrediagnóstico, antibióticos desnecessários e resistências. Cada foco tem critérios próprios.

CAUTI

A bacteriúria assintomática é a regra no doente algaliado e não se pesquisa nem trata (exceto na grávida e antes de procedimento urológico invasivo com previsão de hemorragia mucosa). O diagnóstico de CAUTI exige:

  • Cateter vesical presente > 2 dias (ou removido nas últimas 48 h), e
  • Sinais/sintomas compatíveis sem outra causa: febre, dor suprapúbica ou no ângulo costovertebral, agravamento do estado geral/confusão, e após remoção, disúria/urgência, e
  • Urocultura com contagem significativa (tipicamente ≥ 10³ UFC/mL de um uropatogénio).

A piúria isolada não distingue colonização de infeção no algaliado e não deve, por si, motivar antibiótico. Colher a urina do cateter (porta de amostragem), não do saco coletor; idealmente após substituição do cateter se este estiver há muito tempo colocado.

CLABSI

Suspeita perante febre/bacteriemia num doente com cateter central sem outro foco. A confirmação microbiológica assenta em:

  • Hemoculturas pareadas, colhidas simultaneamente do cateter e de veia periférica, antes de antibiótico sempre que possível.
  • Critérios de origem no cateter: crescimento diferencial de tempo (DTP) — a hemocultura do cateter positiva ≥ 2 h antes da periférica — ou contagem de colónias do cateter muito superior à da periférica.
  • Isolamento do mesmo microrganismo na ponta do cateter (cultura semiquantitativa) e no sangue reforça o diagnóstico.

Distinguir de contaminação: um único frasco positivo para estafilococo coagulase-negativo pode ser contaminante; S. aureus, Candida ou Gram-negativo no sangue devem sempre ser valorizados.

PAV

Diagnóstico clínico-radiológico, notoriamente inespecífico. Suspeita perante, em doente ventilado > 48 h: infiltrado novo/progressivo na radiografia, com febre, leucocitose, secreções purulentas e deterioração da oxigenação (queda da PaO₂/FiO₂). A confirmação faz-se por cultura das secreções respiratórias, preferindo-se amostras quantitativas (aspirado traqueal quantitativo, ou lavado broncoalveolar) para separar infeção de colonização das vias aéreas. A vigilância epidemiológica moderna (NHSN) usa antes o conceito objetivo de evento associado ao ventilador (VAE), ancorado em piora sustentada da oxigenação, para reduzir a subjetividade.

ILC

Diagnóstico essencialmente clínico: sinais inflamatórios locais (rubor, calor, dor, tumefação), drenagem purulenta, deiscência, com ou sem febre. A vigilância CDC/NHSN classifica em:

  • Superficial (pele e tecido celular subcutâneo),
  • Profunda (fáscia e músculo),
  • Órgão/espaço (qualquer estrutura manipulada na cirurgia).

Janela de vigilância: 30 dias, estendida a 90 dias quando há implante/prótese. Colher exsudado/pus para cultura antes de iniciar antibiótico; imagem (ecografia, TC) para coleções profundas ou de órgão/espaço.

Clostridioides difficile

Testar apenas doentes com diarreia clinicamente significativa (≥ 3 dejeções não formadas em 24 h) e não repetir teste de cura nem testar fezes formadas (o portador assintomático não se trata). O algoritmo laboratorial recomendado é em dois passos:

  1. Teste muito sensível de rastreio: GDH (glutamato desidrogenase) e/ou NAAT/PCR para o gene da toxina;
  2. Teste específico de confirmação: deteção das toxinas A/B por imunoensaio (EIA).

A discordância (NAAT+ / toxina−) sugere colonização e deve ser interpretada com o quadro clínico, evitando tratar portadores. Na doença grave/fulminante, o íleo pode cursar sem diarreia; a TC abdominal mostra espessamento/megacólon e a colonoscopia revela pseudomembranas. Marcadores de gravidade: leucocitose > 15 000/µL e creatinina > 1,5 mg/dL.

Prevenção

A prevenção das IACS combina medidas transversais (aplicáveis a todos os doentes) com feixes (bundles) específicos de cada dispositivo. O conceito de bundle é central: um conjunto pequeno de intervenções baseadas em evidência que, aplicadas em conjunto e de forma consistente, produzem um efeito superior à soma das partes. A referência atual são as estratégias do Compêndio SHEA/IDSA/APIC/AHA (atualização 2022) e, em Portugal, as normas do PPCIRA (DGS).

Medidas transversais (precauções básicas)

  • Higiene das mãos — a medida isolada mais custo-efetiva. Solução alcoólica (SABA) como método preferencial na maioria das situações, mais eficaz e melhor tolerada que água e sabão. Seguir os 5 momentos da OMS: (1) antes de contactar o doente, (2) antes de procedimento asséptico, (3) após risco de exposição a fluidos, (4) após contacto com o doente, (5) após contacto com o ambiente do doente. Exceção crítica: perante C. difficile (ou norovírus), a fricção alcoólica não elimina esporos e deve preferir-se lavagem com água e sabão (ação mecânica).
  • Precauções baseadas na via de transmissão, sobre as precauções-padrão:
    • Contacto (MRSA, VRE, CRE, C. difficile): bata e luvas, quarto individual/coorte, equipamento dedicado.
    • Gotícula (gripe, tosse convulsa, meningococo): máscara cirúrgica a < 1–2 m.
    • Via aérea/aerossol (tuberculose, sarampo, varicela): quarto de pressão negativa e respirador FFP2/N95.
  • Uso racional de antibióticos (antimicrobial stewardship) — descrito em detalhe na secção de abordagem; enquanto medida preventiva, reduz a pressão de seleção de MDR e a incidência de C. difficile.
  • Higiene ambiental e descontaminação de superfícies e dispositivos; para C. difficile usar agentes esporicidas (hipoclorito).

Feixe da CAUTI

O feixe é dominado por uma ideia: o melhor cateter é o que não se coloca, e o segundo melhor é o que se remove hoje.

  • Evitar a algaliação: usar apenas com indicação apropriada (retenção urinária, monitorização rigorosa do débito em doente crítico, cirurgia selecionada, feridas sacras em incontinência). Não usar por conveniência ou incontinência simples; preferir alternativas (cateter externo/preservativo, algaliação intermitente).
  • Inserção asséptica com técnica estéril e sistema de drenagem fechado, mantido abaixo do nível da bexiga.
  • Remoção precoce: reavaliação diária da necessidade, idealmente com lembretes automáticos/stop orders. Cada dia de cateter aumenta o risco.

Feixe da CLABSI (bundle de inserção e manutenção)

Feixe clássico e de altíssimo rendimento em exame:

Na inserção:

  • Higiene das mãos e barreira máxima estéril (touca, máscara, bata estéril, luvas estéreis e campo estéril grande).
  • Antissepsia da pele com clorexidina alcoólica > 0,5% (preferível à povidona iodada).
  • Escolha do local: preferir a subclávia para minimizar infeção nos cateteres não tunelizados de curta duração; evitar a femoral no adulto (maior risco). Ponderar sempre risco de infeção vs. mecânico.
  • Checklist de inserção com poder de suspender o procedimento se houver quebra de assepsia.

Na manutenção:

  • Antissepsia dos hubs/conexões antes de cada acesso.
  • Penso adequado (clorexidina) e inspeção regular.
  • Remoção precoce: rever diariamente a necessidade e retirar assim que possível.

Feixe da PAV

Combina posição, higiene oral e libertação precoce do ventilador:

  • Cabeceira elevada 30–45° (posição semi-sentada) para reduzir a microaspiração.
  • Higiene oral regular (a evidência atual desaconselha a clorexidina oral por rotina em alguns contextos, valorizando a higiene oral mecânica com escovagem; segue o protocolo institucional).
  • Avaliação diária da possibilidade de extubação, com interrupção diária da sedação («despertar diário») e testes de respiração espontânea para minimizar os dias de ventilação.
  • Preferir ventilação não invasiva quando indicada, evitando a entubação.
  • Profilaxia da úlcera de stress e da trombose conforme protocolo; aspiração subglótica em tubos apropriados.

Feixe da ILC

  • Profilaxia antibiótica no timing correto: administrar dentro de 60 minutos antes da incisão (até 120 min para vancomicina/fluoroquinolonas pela infusão prolongada), garantindo concentração tecidular no momento do corte; redosear em cirurgias longas ou com grande perda hemática; suspender habitualmente ≤ 24 h após o fim da cirurgia (prolongar não reduz ILC e aumenta resistências e C. difficile).
  • Normotermia perioperatória (evitar hipotermia).
  • Controlo glicémico perioperatório (evitar hiperglicemia, incluindo em não diabéticos).
  • Preparação da pele com clorexidina alcoólica; não remover pelo por rotina, e se necessário usar máquina de corte (clipper), nunca lâmina.
  • Descolonização nasal de S. aureus (mupirocina ± banho de clorexidina) em cirurgia cardíaca/ortopédica com implante.
  • Otimização de oxigenação e perfusão tecidular; assepsia rigorosa e boa técnica cirúrgica.

Vigilância e notificação (Portugal)

A prevenção só é sustentável com vigilância epidemiológica ativa das taxas de IACS e do consumo/resistências antimicrobianas, coordenada pelo PPCIRA (Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos, DGS) e articulada com o ECDC. Cada instituição tem Grupo/Comissão de Controlo de Infeção (GCL-PPCIRA). Microrganismos-problema e surtos são de notificação e desencadeiam investigação epidemiológica e medidas de contenção.

IACS associadas a dispositivos: agente e medida-chave de prevenção IACS Dispositivo Medida-chave de prevenção (bundle) ITU associada aalgalia (CAUTI) Algalia vesical Evitar e retirar precocemente a algalia;só com indicação; técnica assética esistema de drenagem fechado. Pneumoniaassociada aventilação (PAV) Ventilaçãomecânica Cabeceira a 30-45°; higiene oral comclorexidina; despertar diário e pausa dasedação; teste de respiração espontânea. Bacteriémia decateter central(CLABSI) Cateter venosocentral (CVC) Bundle de inserção: clorexidina alcoólica,barreira estéril máxima, preferir subclávia;rever a necessidade diariamente. Infeção de localcirúrgico (ILC) Cirurgia Antibioprofilaxia 60 min antes da incisão;normotermia e normoglicémia; tricotomiacom máquina de corte, nunca lâmina. Bacteriúria assintomática NÃO se trata. Exceções: gravidez e pré-procedimento urológico invasivo.
Esquema original InovaQB, baseado nas recomendações IDSA/SHEA e nos bundles NHSN/CDC de prevenção de IACS.

Abordagem terapêutica

O princípio geral repete-se em todos os focos: controlar a fonte (remover ou tratar o dispositivo/foco) e dirigir o antibiótico o mais cedo possível pelo microbiológico, começando empiricamente ajustado à epidemiologia local e ao risco de multirresistência.

Controlo da fonte, foco a foco

  • CLABSI: a decisão central é retirar o cateter. Remover sempre perante sépsis grave, instabilidade, infeção do trajeto/porta, tromboflébite séptica, endocardite, ou isolamento de S. aureus, Pseudomonas, Candida ou fungos/micobactérias. Em cateter de longa duração com agente menos virulento e sem complicações, pode ponderar-se preservar o cateter com antibiotic lock therapy associado a terapêutica sistémica. Antibioterapia empírica cobre estafilococos (incluindo MRSA → vancomicina) e, no doente crítico/neutropénico, Gram-negativo incluindo Pseudomonas; juntar equinocandina se suspeita de candidémia. Duração conta-se a partir da primeira hemocultura negativa.
  • CAUTI: remover ou substituir o cateter e dirigir o antibiótico pela urocultura; a algaliação prolongada colonizada mantém o biofilme e perpetua a infeção. Duração habitual 7 dias se boa resposta.
  • PAV: antibioterapia empírica precoce guiada pelo risco de MDR (fatores de risco, PAV tardia, epidemiologia da unidade); descalar logo que haja antibiograma. A duração recomendada é 7 dias na maioria dos casos com boa evolução (não prolongar sem motivo). Drenar empiema/coleção se existir.
  • ILC: a base é o controlo cirúrgico — abrir/drenar a ferida, desbridar tecido desvitalizado, remover material infetado. O antibiótico é adjuvante, não substitui a drenagem; dirigido ao agente (cobrir MRSA e, em cirurgia de víscera oca, Gram-negativo e anaeróbios).

Clostridioides difficile: esquema atual (IDSA/SHEA 2021)

Paradigma que mudou: a fidaxomicina passou a ser preferida e o metronidazol deixou de ser 1ª linha na maioria dos contextos (reservado a indisponibilidade das alternativas ou doença não grave sem acesso a elas).

CenárioTerapêutica preferidaAlternativa
Episódio inicial (não fulminante)Fidaxomicina 200 mg 2×/dia, 10 diasVancomicina oral 125 mg 4×/dia, 10 dias
1ª recorrênciaFidaxomicina (padrão ou extended-pulsed)Vancomicina em esquema taper e pulsado
Recorrências múltiplasVancomicina taper/pulsada, ou vancomicina seguida de rifaximina, ou fidaxomicina, ou transplante de microbiota fecal (FMT)
Adjuvante para prevenir recorrência (recorrência nos últimos 6 meses, alto risco)Bezlotoxumab (anticorpo anti-toxina B) + antibiótico standard
Doença fulminante (hipotensão/choque, íleo, megacólon)Vancomicina oral 500 mg 4×/dia (+ vancomicina em enema se íleo) + metronidazol IVColectomia de urgência se refratário/perfuração

Pontos-chave adicionais: suspender o antibiótico precipitante sempre que possível; evitar antimotilidade (loperamida) na fase aguda; o metronidazol oral só como recurso na doença não grave quando não há vancomicina/fidaxomicina. O FMT é a intervenção decisiva na doença recorrente/refratária, restaurando o microbioma.

Terapêutica dos multirresistentes

  • MRSA: vancomicina (com monitorização de níveis/AUC), daptomicina (não usar na pneumonia, é inativada pelo surfactante), linezolida (boa penetração pulmonar), ceftarolina.
  • Enterobacterales-ESBL: carbapeneme é o fármaco de referência na infeção invasiva.
  • CRE: dirigir ao mecanismo — ceftazidima-avibactam (KPC, OXA-48), meropenem-vaborbactam (KPC), cefiderocol e associações com aztreonam para metalo-beta-lactamases (NDM/VIM). Envolver Infeciologia.
  • VRE: linezolida ou daptomicina (dose alta).

Antimicrobial stewardship como terapêutica e prevenção

O uso racional de antibióticos é simultaneamente tratamento otimizado e prevenção de futuras IACS/MDR. Os seus eixos:

  • Indicação correta, espetro mais estreito possível, dose e duração adequadas; muitas infeções têm hoje cursos mais curtos validados (ex.: PAV 7 dias).
  • Descalação guiada pela cultura e switch IV→oral quando apropriado.
  • Rever às 48–72 h ("antibiotic time-out") e reavaliar a necessidade de continuar.
  • Preferir marcadores e clínica a manter antibióticos "por segurança"; usar culturas antes de iniciar.
  • Programas institucionais liderados por Infeciologia/Farmácia/Microbiologia, no âmbito do PPCIRA, reduzem consumo, resistências e incidência de C. difficile.

Referências

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