Hepatites virais
Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 17 perguntas neste tema
As hepatites virais são infeções sistémicas que atingem sobretudo o fígado, e quase todas se devem a cinco vírus, designados pelas letras A a E. Dão quadros agudos parecidos entre si, com um pródromo inespecífico, icterícia e aminotransferases nos milhares, e separam-se por duas perguntas: como se transmitem e se podem cronificar.
O A e o E transmitem-se por via fecal-oral, causam hepatite aguda autolimitada e não cronificam no imunocompetente; o E tem duas exceções que se perguntam, a gravidade no terceiro trimestre da gravidez e a cronicidade no transplantado. O B, o C e o D transmitem-se pelo sangue, pela via sexual e, no caso do B, sobretudo da mãe para o filho; podem cronificar e levar, ao fim de décadas, a cirrose e a carcinoma hepatocelular. O D é um vírus incompleto que só infeta quem já tem o B.
No vírus B, a probabilidade de cronificar depende da idade em que se adquire: cerca de 90% no recém-nascido e menos de 5% no adulto. Por isso a peça central é a prevenção, com a vacina universal desde o nascimento, o rastreio de todas as grávidas e a imunoglobulina ao filho de mãe portadora. A serologia deduz-se: o anticorpo contra o core só aparece depois de contacto com o vírus, nunca com a vacina.
No vírus C, o anticorpo serve de rastreio mas continua positivo depois da cura, e a infeção ativa confirma-se sempre com o ácido ribonucleico viral. Em Portugal testam-se todos os adultos pelo menos uma vez na vida, independentemente do risco, e o tratamento oral de 8 ou 12 semanas curou 97% dos doentes tratados no país.
O vírus B suprime-se com tenofovir ou entecavir, mas não se cura, porque o seu genoma fica guardado no núcleo do hepatócito. O que não se pode falhar é a hepatite fulminante, reconhecida pela coagulopatia com encefalopatia, a reativação do vírus B em quem é imunossuprimido sem rastreio prévio, e a vigilância do carcinoma em quem se curou já com fibrose avançada ou cirrose.
Hepatite viral aguda é uma infeção sistémica com lesão predominantemente hepática causada por um vírus hepatotrópico. Quase todos os casos se devem a cinco vírus: os das hepatites A, B, C, D e E (VHA, VHB, VHC, VHD e VHE). Todos são de ácido ribonucleico (ARN), exceto o VHB, que é de ácido desoxirribonucleico (ADN). A hepatite crónica define-se pela persistência da infeção para além de seis meses.
Os cinco vírus
| VHA | VHB | VHC | VHD | VHE | |
|---|---|---|---|---|---|
| Genoma | ARN | ADN | ARN | ARN defetivo | ARN |
| Transmissão principal | fecal-oral | percutânea, sexual, perinatal | percutânea | percutânea, sexual | fecal-oral; zoonótica na Europa |
| Incubação em dias (média) | 15 a 45 (30) | 30 a 180 (60 a 90) | 15 a 160 (50) | 30 a 180 (60 a 90) | 14 a 60 (40) |
| Cronifica | não | sim, sobretudo se adquirido à nascença | sim, na maioria | sim, sobretudo na superinfeção | só no imunodeprimido |
| Vacina disponível em Portugal | sim | sim, universal | não | a do VHB | não |
Epidemiologia
- No mundo há 250 a 290 milhões de pessoas com infeção crónica pelo VHB; 4 a 5% delas têm também VHD.
- Portugal é país de baixa prevalência do VHB, com cerca de 1% de portadores estimados, mais em migrantes e em quem injeta drogas.
- A prevalência de anticorpo contra o VHC em adultos que desconheciam ter doença hepática foi de 0,3% no Inquérito Serológico Nacional de 2015 e 2016. Estima-se que cerca de 80% das infeções pelo VHC no mundo estejam por diagnosticar.
- O VHE, que se julgava próprio de países com mau saneamento, circula na Europa ocidental por via alimentar: na Alemanha a prevalência de anticorpo em adultos é de 17%, e em França 22% dos dadores de sangue têm anticorpo.
Outros vírus, como o Epstein-Barr, o citomegalovírus e o herpes simples, podem elevar as aminotransferases, mas não são hepatotrópicos primários.
Os cinco vírus dão doenças agudas clinicamente semelhantes, que vão da infeção inaparente à hepatite fulminante. Muitos doentes nunca chegam a ficar ictéricos.
Fases
| fase | o que se vê |
|---|---|
| Incubação | assintomática; no A e no E o vírus já é excretado nas fezes |
| Pródromo, 1 a 2 semanas antes da icterícia | anorexia, náuseas, vómitos, astenia, artralgias, mialgias, cefaleias, fotofobia, faringite, tosse e coriza; alteração do olfato e do paladar; febre baixa, de 38 a 39 °C, mais frequente no A e no E |
| Ictérica | colúria e acolia 1 a 5 dias antes da icterícia; com a icterícia o pródromo costuma atenuar; hepatomegalia dolorosa, esplenomegalia e adenopatias cervicais em 10 a 20%; perda de peso de 2,5 a 5 kg |
| Convalescença | 2 a 12 semanas, mais longa no B e no C |
A recuperação clínica e bioquímica completa espera-se 1 a 2 meses depois do início no A e no E, e 3 a 4 meses depois da icterícia em três quartos dos casos autolimitados de B e de C.
Sinais de gravidade
- Ascite, edema periférico e sinais de encefalopatia hepática.
- Tempo de protrombina prolongado, albumina baixa, hipoglicemia e bilirrubina muito elevada.
Laboratório
- As aminotransferases sobem já no pródromo e atingem picos de cerca de 400 a 4000 UI/L ou mais, habitualmente quando o doente fica ictérico. O nível não se correlaciona bem com a extensão da necrose.
- Nas hepatites virais, a alanina aminotransferase (ALT) é superior ou igual à aspartato aminotransferase (AST); na doença hepática alcoólica a razão inverte-se.
- A icterícia vê-se acima de 2,5 mg/dL de bilirrubina, que costuma subir até 5 a 20 mg/dL; a bilirrubina pode continuar a subir enquanto as aminotransferases descem.
- Neutropenia e linfopenia transitórias, seguidas de linfocitose relativa com linfócitos atípicos.
- O tempo de protrombina é o exame de prognóstico.
Os quatro testes
Perante uma hepatite aguda pedem-se quatro testes: antigénio de superfície do VHB (AgHBs), imunoglobulina M (IgM) contra o VHA, IgM contra o core do VHB (anti-HBc) e anticorpo contra o VHC (anti-VHC).
| AgHBs | IgM anti-VHA | IgM anti-HBc | anti-VHC | interpretação |
|---|---|---|---|---|
| positivo | negativo | positivo | negativo | hepatite B aguda |
| positivo | negativo | negativo | negativo | hepatite B crónica |
| positivo | positivo | negativo | negativo | hepatite A aguda sobre hepatite B crónica |
| positivo | positivo | positivo | negativo | hepatites A e B agudas |
| negativo | positivo | negativo | negativo | hepatite A aguda |
| negativo | negativo | positivo | negativo | hepatite B aguda com AgHBs abaixo do limiar de deteção |
| negativo | negativo | negativo | positivo | hepatite C, que se confirma com o ARN do VHC |
Com os quatro negativos, pesquisa-se o VHE (IgM e ARN), os vírus não hepatotrópicos e as causas não infeciosas. A biópsia hepática raramente é necessária na hepatite aguda.
Diagnóstico diferencial
| situação | o que ajuda a separar |
|---|---|
| Isquemia hepática (choque, hipotensão, insuficiência cardíaca) | contexto hemodinâmico; com a lesão por paracetamol e a hepatite viral, é das causas de aminotransferases acima de 1000 UI/L |
| Lesão hepática por fármacos, sobretudo paracetamol | história farmacológica completa |
| Obstrução biliar aguda, colecistite, colangite | dor, febre e dilatação das vias biliares na ecografia |
| Hepatite alcoólica | aminotransferases menos elevadas e AST superior à ALT |
| Mononucleose, citomegalovírus, herpes simples, toxoplasmose | serologias próprias quando os quatro testes são negativos |
| Hepatite autoimune, doença de Wilson, défice de alfa-1-antitripsina | episódios repetidos de hepatite aguda sugerem doença crónica |
| Gravidez: fígado gordo agudo, colestase gravídica, eclâmpsia, síndrome HELLP (hemólise, enzimas hepáticas elevadas e plaquetas baixas) | idade gestacional, tensão arterial, plaquetas |
| Budd-Chiari e congestão hepática | clínica cardiovascular e imagem |
A maioria dos doentes com hepatite aguda, sobretudo A, B e E, recupera espontaneamente e não precisa de antivírico.
Medidas gerais
- Internamento só na doença grave; o repouso forçado não é necessário.
- Dieta hipercalórica, com a maior parte da ingestão de manhã, quando a náusea é menor; via endovenosa se os vómitos impedirem a via oral.
- Evitar fármacos hepatotóxicos, colestáticos ou de metabolismo hepático; colestiramina para o prurido intenso.
- Glucocorticoides não têm lugar, mesmo nas formas graves, e podem aumentar o risco de cronicidade da hepatite B.
- Isolamento raramente necessário: luvas ao manusear fezes no A e no E, precauções com o sangue no B e no C, e lavagem das mãos.
- Alta quando há melhoria sintomática, descida das aminotransferases e da bilirrubina e normalização do tempo de protrombina.
Tratamento antivírico da hepatite aguda
| vírus | quando |
|---|---|
| VHB | só com função de síntese comprometida: análogo (entecavir ou tenofovir), em articulação com um centro de transplante |
| VHC | sempre, com os mesmos esquemas da infeção crónica |
| VHE | ribavirina na forma grave ou na insuficiência hepática sobre doença crónica, fora da gravidez |
Hepatite fulminante
- Suporte intensivo: equilíbrio hídrico, circulação e ventilação, controlo da hemorragia, correção da hipoglicemia, restrição proteica e lactulose oral.
- A cobertura antibiótica profilática faz parte dos cuidados intensivos que melhoram a sobrevida; glucocorticoides e técnicas de depuração extracorporal não mostraram benefício.
- Transplante hepático: referenciação precoce a um centro de transplante.
Hepatite fulminante
É a necrose hepática maciça, felizmente rara. Vê-se sobretudo no B, no D e no E; no A é rara e atinge sobretudo idosos e doentes com hepatopatia crónica; no C quase não existe. O B responde por mais de metade dos casos virais, uma parte deles com VHD associado.
- Apresenta-se com encefalopatia que pode evoluir para coma profundo.
- O fígado diminui de tamanho, a bilirrubina sobe e o tempo de protrombina alonga-se enquanto as aminotransferases descem.
- Edema cerebral frequente; hemorragia digestiva, sépsis e insuficiência respiratória, circulatória e renal são os eventos terminais.
- Mortalidade acima de 80% no coma profundo; quem sobrevive pode recuperar por completo.
Mortalidade e evolução
- Mortalidade da hepatite A e da B de cerca de 0,1%, que sobe para 1% nos doentes com hepatite B aguda internados; aumenta com a idade e as comorbilidades.
- A evolução para a cronicidade só acontece no B, no C e no D, e no E do imunodeprimido.
- Complicações raras: pancreatite, miocardite, pneumonia atípica, anemia aplástica, mielite transversa e neuropatia periférica. Uma hepatite aguda A, B ou C pode desencadear hepatite autoimune.
O VHA é um picornavírus de ARN, sem invólucro, resistente ao calor, ao ácido e ao éter. Transmite-se quase só por via fecal-oral: contacto próximo, alimentos e água contaminados, surtos em comunidades e também o contexto sexual, razão pela qual a vacinação de pré-exposição se dirige a pessoas com práticas sexuais de maior risco. Afeta sobretudo crianças e adultos jovens.
- Incubação de 15 a 45 dias, em média cerca de 4 semanas.
- Em Portugal, a vacinação dirige-se a grupos com risco acrescido de exposição ou de gravidade e ao controlo de surtos.
- O VHA replica-se só no fígado, mas está no fígado, na bílis, nas fezes e no sangue no fim da incubação e na fase pré-ictérica.
- A excreção fecal, a virémia e a infecciosidade caem depressa quando surge a icterícia, pelo que o doente contagia sobretudo antes de estar doente.
- A lesão não é causada pelo vírus: a excreção viral precede a lesão hepática, e o dano resulta dos linfócitos T CD8 citotóxicos.
- A IgG que se forma confere imunidade duradoura.
- A criança com menos de 6 anos é habitualmente assintomática, e só 10% fazem icterícia; no adulto a doença é sintomática com mais frequência.
- Febre baixa mais comum do que no B e no C.
- Duas variantes benignas: a recidivante, com nova subida das aminotransferases, sintomas e excreção fecal do vírus depois de uma aparente cura; e a colestática, com icterícia e prurido prolongados. As alterações bioquímicas podem durar até um ano.
- Nunca evolui para doença crónica.
- IgM anti-VHA faz o diagnóstico de infeção aguda: está presente na doença e persiste cerca de 3 meses, raramente 6 a 12.
- A IgG anti-VHA predomina na convalescença e mantém-se, marcando imunidade por infeção ou vacina.
| IgM anti-VHA | IgG anti-VHA | interpretação | vacinar |
|---|---|---|---|
| positiva | positiva ou negativa | infeção aguda ou convalescença | não |
| negativa | positiva | imunidade por infeção passada ou vacina | não |
| negativa | negativa | sem infeção nem imunidade | sim |
Vacina de vírus inativado. A vacinação é gratuita na pré-exposição a grupos de risco, na pós-exposição, no controlo de surtos e nas situações especiais do Programa Nacional de Vacinação; ao viajante é recomendada mas paga.
Estado imunitário
- Imunes: infeção prévia documentada; uma dose de vacina há 12 meses ou menos; ou duas doses, independentemente da data.
- Imunidade desconhecida, em que se faz serologia antes de vacinar: uma dose há mais de 12 meses; ou sem registo de vacina e nascidos antes de 1967, com história de icterícia de causa desconhecida, ou que viveram mais de um ano em país de alta endemicidade.
Quem se vacina e com quantas doses
| contexto | quem | esquema |
|---|---|---|
| Pré-exposição | não imunes com múltiplos parceiros ou parceiros anónimos, sexo em grupo, uso de substâncias psicoativas no sexo, sexo comercial, infeção sexualmente transmissível nos últimos 6 meses, profilaxia pré-exposição do VIH; profissionais de saúde com contacto direto e continuado com casos agudos, ou que colhem e processam amostras de casos suspeitos ou confirmados; saneamento inadequado; setor das águas e resíduos | 1 dose, no contexto epidemiológico atual |
| Pós-exposição e surto | contactos próximos, assintomáticos e não imunes, de casos confirmados | 1 dose, o mais cedo possível, idealmente até 14 dias após a exposição e com caráter prioritário |
| Situações especiais do Programa Nacional de Vacinação | doença hepática crónica seronegativa, candidatos a transplante hepático, tratamento com fatores da coagulação derivados do plasma | 2 doses |
| Viajantes para países de alta endemicidade | recomendada, com prescrição e sem gratuitidade | 2 doses |
Quando há 2 doses, a segunda faz-se 6 a 12 ou 6 a 18 meses depois da primeira, conforme a vacina; o intervalo é flexível e não se repetem doses se for excedido. A vacina combinada contra A e B usa-se quando há indicação para as duas.
Imunoglobulina
A imunoglobulina humana normal pondera-se quando a vacina está indisponível ou contraindicada, e em pós-exposição dá-se até 14 dias após o contacto. Considera-se como alternativa ou complemento à vacina no imunodeprimido, no doente com hepatopatia crónica e na criança com menos de 12 meses.
Suporte, sem antivírico específico. Na forma fulminante, rara, faz-se o suporte intensivo e a referenciação a um centro de transplante. Perante um caso, a autoridade de saúde identifica no inquérito epidemiológico os contactos próximos a vacinar.
Praticamente todos os doentes previamente saudáveis recuperam por completo e sem sequelas. A hepatite fulminante é rara e concentra-se nos idosos e nos doentes com hepatopatia crónica. Mesmo nas formas recidivante e colestática, a doença não passa a crónica.
O VHB é um hepadnavírus de ADN circular parcialmente de cadeia dupla. A infeção crónica define-se por AgHBs positivo durante mais de seis meses.
Transmissão
- Percutânea: partilha de material de injeção, exposição profissional, hemodiálise, tatuagens e piercings.
- Sexual: sémen e saliva são infecciosos, embora menos do que o soro.
- Perinatal: sobretudo à volta do parto, a partir de mãe com infeção crónica; cerca de 10% das infeções serão adquiridas no útero. É a via que mantém a doença nas regiões endémicas.
- O aleitamento não transmite a infeção de forma relevante e não está contraindicado.
Quem tem mais risco
Pessoas de países de prevalência intermédia ou elevada, contactos sexuais e domiciliários de portadores, filhos de mães com AgHBs, quem injeta drogas, homens que têm sexo com homens, pessoas com vários parceiros, doentes em hemodiálise, reclusos e profissionais de saúde expostos a sangue.
Estrutura e marcadores
| componente | o que é | no sangue |
|---|---|---|
| AgHBs | proteína do invólucro | circula; o anticorpo (anti-HBs) é protetor |
| AgHBc | proteína da nucleocápside | não circula; o anticorpo (anti-HBc) marca contacto com o vírus |
| AgHBe | proteína solúvel do mesmo gene do core | circula; marca replicação e infecciosidade |
| Polimerase | ADN polimerase com atividade de transcriptase reversa | alvo dos análogos nucleósidos e nucleótidos |
- O VHB entra no hepatócito pelo polipeptídeo cotransportador de taurocolato de sódio, o mesmo recetor que usa o VHD.
- No núcleo, o genoma fica como ADN circular covalentemente fechado, um reservatório estável que os antivíricos não eliminam. É por isso que o tratamento suprime mas não erradica.
- Parte do ADN viral integra-se no genoma do hepatócito, sobretudo na fase pouco replicativa, e é o mecanismo pelo qual o VHB pode causar carcinoma hepatocelular sem cirrose.
- O vírus é pouco citopático: o dano resulta da resposta dos linfócitos T citotóxicos contra os hepatócitos infetados.
A idade decide a cronicidade
Infetado à nascença, o recém-nascido desenvolve tolerância imunológica ao vírus: não faz hepatite aguda mas fica com infeção crónica em cerca de 90% dos casos. No adulto imunocompetente, a hepatite aguda é clinicamente evidente e a cronicidade fica abaixo de 5%. Também cronificam mais os doentes em hemodiálise, os imunodeprimidos, incluindo os com VIH, e as pessoas com trissomia 21.
Mutantes
Os mutantes pré-core não produzem AgHBe, mas replicam: dão hepatite crónica AgHBe negativa com ADN detetável, que é hoje a forma mais frequente de hepatite B nos países mediterrânicos e na Europa.
Hepatite B aguda
- No pródromo, 5 a 10% fazem uma síndrome tipo doença do soro, por imunocomplexos AgHBs e anti-HBs: artralgias ou artrite, exantema, angioedema e, raramente, hematúria e proteinúria. Surge antes da icterícia e é muitas vezes tomada por doença reumática.
- No adulto previamente saudável, 95 a 99% recuperam por completo.
- Na criança, pode manifestar-se por acrodermatite papular (síndrome de Gianotti-Crosti), com pápulas não pruriginosas na face, nádegas e membros.
Infeção crónica
Muitas vezes silenciosa durante anos; a fadiga é o sintoma mais comum, e pode haver exacerbações que imitam uma hepatite aguda. As fases definem-se pelo AgHBe, pelo ADN do VHB e pela ALT:
| fase | AgHBe | ADN do VHB | ALT | fígado |
|---|---|---|---|---|
| Infeção crónica AgHBe positiva | positivo | muito elevado | normal | lesão mínima |
| Hepatite crónica AgHBe positiva | positivo | elevado | elevada | inflamação e fibrose |
| Infeção crónica AgHBe negativa | negativo, com anti-HBe | abaixo de 2000 UI/mL | normal | sem fibrose significativa |
| Hepatite crónica AgHBe negativa | negativo, com anti-HBe | de 2000 UI/mL ou mais, flutuante | elevada ou flutuante | inflamação e fibrose |
| Fase AgHBs negativa | negativo | habitualmente indetetável | normal | risco de reativação com imunossupressão |
A seroconversão de AgHBe para anti-HBe acontece a cerca de 10% por ano.
Manifestações extra-hepáticas
São mediadas por imunocomplexos: artralgias e artrite, púrpura por vasculite leucocitoclástica, glomerulonefrite membranosa e poliarterite nodosa. A poliarterite atinge menos de 1% dos portadores crónicos, mas 20 a 30% dos doentes com poliarterite nodosa têm AgHBs.
O rastreio inicial da infeção faz-se com AgHBs e anti-HBc; o anti-HBs serve para conhecer o estado imunitário de quem tem AgHBs negativo.
Cinética na infeção aguda
- O AgHBs é o primeiro marcador: surge 1 a 12 semanas depois da exposição, habitualmente às 8 a 12, e precede os sintomas em 2 a 6 semanas.
- A IgM anti-HBc marca a infeção aguda; em 1 a 5% o AgHBs é indetetável e é ela que faz o diagnóstico.
- O AgHBe aparece com o AgHBs e desaparece na resolução; a persistência para além de 3 meses prevê cronicidade.
- A cura traduz-se pela perda do AgHBs e pelo aparecimento do anti-HBs, o anticorpo protetor.
- A IgM anti-HBc também reaparece, em títulos mais baixos, nas exacerbações e reativações da infeção crónica; a quantificação ajuda a distinguir.
Ler o painel
O anti-HBc é a chave: só existe depois de contacto com o vírus, nunca com a vacina, e separa o vacinado, que só tem anti-HBs, do curado, que tem os dois.
O anti-HBc isolado, com AgHBs e anti-HBs negativos, pode ser infeção resolvida antiga com anti-HBs já indetetável, janela entre a perda do AgHBs e o aparecimento do anti-HBs, falso positivo ou infeção oculta com AgHBs abaixo do limiar. Pede-se o ADN do VHB, e sempre antes de imunossuprimir.
Avaliação de quem tem AgHBs positivo
- ADN do VHB quantitativo, o marcador prognóstico mais importante e o que decide o tratamento.
- AgHBe e anti-HBe, AgHBs quantitativo e ALT; é geralmente considerada elevada uma ALT de 40 U/L ou mais.
- Avaliação da fibrose por métodos não invasivos, como a elastografia, e ecografia abdominal ao diagnóstico; biópsia só na dúvida ou com resultados discordantes.
- Anti-VHD, anti-VHC e anti-VIH em todos; IgG anti-VHA, para vacinar se negativa.
- Vigilância de ALT e ADN a cada 3 a 6 meses no primeiro ano, depois a cada 6 a 12 meses conforme a fase.
Prevenir o VHB previne também o VHD.
Vacina
- Vacina recombinante de AgHBs, universal no Programa Nacional de Vacinação: à nascença, aos 2 e aos 6 meses, as duas últimas na hexavalente.
- Título protetor de anti-HBs de 10 UI/L ou mais. A vacina protege acima de 95% das crianças e adolescentes e acima de 90% dos adultos saudáveis com menos de 40 anos, pelo que o título não se verifica por rotina.
- Verifica-se 1 a 2 meses após a última dose em quem tem risco profissional ou resposta menor esperada, como os imunodeprimidos, os doentes em diálise e os candidatos a transplante; estes recebem doses reforçadas ou vacinas de nova geração.
- Sem resposta, faz-se nova série; quem continua com anti-HBs abaixo de 10 UI/L depois de duas séries é não respondedor.
- Vacinam-se também os adultos com risco: contactos de portadores, múltiplos parceiros, quem injeta drogas, reclusos, doentes com hepatopatia ou doença renal crónica, imunodeprimidos e profissionais expostos.
Transmissão vertical
- AgHBs em todas as grávidas no primeiro trimestre, mesmo vacinadas; as não vacinadas com resultado negativo repetem no terceiro trimestre.
- O risco de transmissão depende da replicação: cerca de 90% das mães com AgHBe positivo transmitem o vírus sem profilaxia, contra 10 a 15% das que têm anti-HBe.
- Recém-nascido de mãe com AgHBs positivo: vacina e imunoglobulina específica nas primeiras 12 horas, esquema de 0, 1 e 6 meses; com menos de 2000 g, quatro doses (0, 1, 2 e 6 meses). Mãe com estado desconhecido: investigar logo; sem resultado às 12 horas, procede-se como se fosse positiva.
- Grávida com ADN do VHB de 200 000 UI/mL ou mais: tenofovir (disoproxil ou alafenamida), idealmente iniciado antes do terceiro trimestre.
- AgHBs e anti-HBs na criança entre os 9 e os 12 meses; antes dos 9 meses pode medir-se o anticorpo passivo da imunoglobulina, e o anti-HBc não se pede, porque o materno persiste até aos 24 meses.
- O aleitamento materno é permitido, também sob tenofovir.
Profilaxia pós-exposição
Vacina e imunoglobulina específica o mais cedo possível; a vacina protege se dada nas primeiras 24 horas.
| pessoa exposta | fonte com AgHBs positivo |
|---|---|
| Não vacinada ou com esquema incompleto | iniciar ou completar as 3 doses de vacina, com 1 dose de imunoglobulina com a primeira |
| Vacinada com anti-HBs de 10 UI/L ou mais | nada |
| Não respondedora depois de 3 doses | 1 dose de vacina com 1 de imunoglobulina; anti-HBs 4 a 6 meses depois |
| Não respondedora depois de 6 doses | 2 doses de imunoglobulina, com um mês de intervalo |
| Vacinada com resposta desconhecida | anti-HBs de imediato e atuar conforme o resultado |
Fonte de estado desconhecido de grupo de risco trata-se como positiva.
O objetivo é suprimir o ADN do VHB de forma persistente, idealmente até ficar indetetável, para travar a progressão para cirrose e carcinoma. A perda confirmada do AgHBs, a chamada cura funcional, é o objetivo último e raramente se atinge.
Quem trata
- Hepatite crónica, AgHBe positiva ou negativa, com ADN de 2000 UI/mL ou mais e ALT elevada ou fibrose significativa.
- Cirrose com ADN detetável, seja qual for a carga viral e a ALT; na cirrose descompensada trata-se mesmo com ADN indetetável.
- Fibrose avançada, com rigidez hepática acima de 8 kPa, com ADN detetável, pode tratar-se seja qual for a ALT.
- Na infeção crónica sem hepatite, trata-se quem tem risco alto de carcinoma, manifestações extra-hepáticas, imunossupressão prevista ou em curso, e VIH; na grávida, o limiar próprio é o da prevenção da transmissão vertical.
- Carcinoma hepatocelular com AgHBs positivo: análogo, seja qual for o ADN.
O jovem com menos de 30 anos, AgHBe positivo, ALT persistentemente normal, sem fibrose, sem história familiar de carcinoma e sem imunossupressão não precisa de tratamento imediato, mas mantém vigilância.
Fármacos
| opção | características |
|---|---|
| Entecavir, tenofovir disoproxil ou tenofovir alafenamida | primeira linha; orais, uma vez por dia, alta barreira à resistência, tratamento longo e muitas vezes indefinido |
| Interferão peguilado alfa-2a | 180 µg por semana, subcutâneo, habitualmente 48 semanas; duração finita, mais efeitos adversos; nunca na cirrose descompensada |
- Escolhe-se pelo rim, pelo osso, pela gravidez e por tratamentos prévios. O tenofovir disoproxil troca-se por entecavir ou tenofovir alafenamida se a filtração glomerular cair, surgir tubulopatia, hipofosfatemia ou osteoporose.
- ALT e ADN a cada 3 a 6 meses até à resposta, depois a cada 6 a 12 meses; AgHBs anual; função renal regular; fibrose a cada 12 a 24 meses.
- Sem resposta, verifica-se primeiro a adesão.
Parar
- Pára-se depois da perda confirmada do AgHBs.
- Sem doença avançada, pode ponderar-se parar 12 meses após a seroconversão para anti-HBe com ADN indetetável, ou, em doentes AgHBe negativos selecionados, após 3 a 4 anos de ADN indetetável e AgHBs baixo, sempre com vigilância apertada.
- A recaída virológica surge sobretudo nos primeiros 6 a 12 meses, e mais cedo depois do tenofovir.
- Cirrose, com risco de descompensação e de insuficiência hepática aguda sobre crónica.
- Carcinoma hepatocelular, com ou sem cirrose; o risco sobe com o nível de replicação, com o AgHBe positivo e com a infeção adquirida na infância.
- A vigilância faz-se com ecografia abdominal a cada 6 meses, por operador experiente, em todos os doentes em risco, a que se pode juntar a alfafetoproteína. Intervalos de 3 a 4 meses não trazem benefício e intervalos de 9 a 12 meses atrasam o diagnóstico.
- A vigilância mantém-se mesmo com supressão viral eficaz ou perda do AgHBs.
- Com análogos, o ADN fica indetetável em mais de 85% dos doentes aos 5 anos.
Grávida
- Se já está a ser tratada, mantém o tenofovir; o entecavir troca-se por tenofovir e o interferão suspende-se e passa-se a tenofovir.
- O tenofovir dado para prevenir a transmissão pode manter-se depois do parto para não perder a supressão viral.
Imunossupressão e reativação
O ADN circular fechado persiste no núcleo mesmo depois da cura aparente, e a imunossupressão pode reativá-lo, com hepatite grave e por vezes fatal. Rastreia-se AgHBs e anti-HBc antes de qualquer imunossupressão; quem tem AgHBs negativo e anti-HBc positivo faz ADN do VHB.
| perfil | conduta |
|---|---|
| AgHBs positivo, risco de reativação alto ou moderado | profilaxia com análogo |
| AgHBs positivo, risco baixo | ADN a cada 3 meses ou profilaxia se a vigilância não for garantida |
| AgHBs negativo, anti-HBc positivo, ADN detetável | como AgHBs positivo |
| AgHBs negativo, anti-HBc positivo, ADN negativo, risco alto (depleção de linfócitos B, como o rituximab) | profilaxia com análogo |
| AgHBs negativo, anti-HBc positivo, ADN negativo, risco moderado ou baixo | AgHBs ou ADN a cada 3 meses |
A profilaxia faz-se com entecavir ou tenofovir e mantém-se pelo menos 6 a 12 meses depois de acabar a imunossupressão, e pelo menos 18 meses depois das terapêuticas que depletam linfócitos B. Tratar a reativação depois de ela acontecer é menos eficaz do que preveni-la.
VIH
- Todo o doente com VIH e AgHBs positivo trata o VHB, seja qual for a ALT ou o ADN.
- O esquema antirretroviral tem de conter tenofovir, e não se suspende, pelo risco de reativação do VHB.
Criança
Entecavir e tenofovir disoproxil estão aprovados a partir dos 2 anos; tenofovir alafenamida a partir dos 12 anos ou dos 35 kg.
O VHC é um hepacivírus de ARN, transmitido sobretudo pelo sangue.
Transmissão
- Hoje, sobretudo pela partilha de material de consumo de drogas, injetadas ou inaladas.
- Transfusão ou transplante antes de julho de 1992, concentrados de fatores da coagulação antes de 1987, hemodiálise, tatuagens e piercings com material partilhado.
- Picada acidental com sangue infetado: cerca de 3%.
- As vias sexual e perinatal são ineficientes, com risco estimado de cerca de 5%, e de apenas 1% entre parceiros monogâmicos; o risco sexual concentra-se em quem tem vários parceiros, práticas traumáticas, uso de substâncias no sexo ou infeção por VIH.
Em Portugal
- Prevalência de anti-VHC de 0,3% em adultos sem doença hepática conhecida.
- Mais de 36 mil tratamentos autorizados desde 2015, com cura em 97%.
- A hepatite C é doença de notificação obrigatória.
- O VHC replica-se sem intermediário de ADN e não se integra no genoma: ao contrário do VHB, pode ser erradicado.
- A polimerase comete erros sem os corrigir e o vírus circula como quase-espécies, que escapam à resposta humoral e celular. É o que explica a cronicidade elevada e a ausência de vacina.
- Entra no hepatócito pelo CD81 e pela claudina-1, entre outros recetores.
- Há 8 genótipos e mais de 90 subtipos; alguns subtipos de África e da Ásia resistem aos inibidores da NS5A.
- A reatividade cruzada entre proteínas virais e o citocromo P450 2D6 explica a associação com hepatite autoimune com anticorpo anti-LKM1 (microssomas de fígado e rim).
Onde atuam os antivíricos de ação direta
| alvo | fármacos |
|---|---|
| Protease NS3/4A | glecaprevir, grazoprevir, voxilaprevir |
| Proteína NS5A | pibrentasvir, velpatasvir, elbasvir, ledipasvir |
| Polimerase NS5B | sofosbuvir |
Hepatite C aguda
Menos grave do que a B e muitas vezes anictérica ou subclínica; a forma fulminante quase não existe. Cerca de 30% eliminam o vírus nos primeiros 6 meses e cerca de 70% (55 a 85% conforme as séries) ficam com infeção crónica.
Hepatite C crónica
- Muitas vezes assintomática; as aminotransferases flutuam e podem ser normais.
- 5 a 25% desenvolvem cirrose em 10 a 20 anos.
- Aceleram a progressão: aquisição em idade avançada, duração longa, álcool, esteatose, coinfeção pelo VIH ou pelo VHB e imunossupressão.
Manifestações extra-hepáticas
- Crioglobulinemia mista: púrpura palpável por vasculite, artrite e glomerulonefrite membranoproliferativa; faz parte de um espectro linfoproliferativo que pode evoluir para linfoma de células B.
- Porfíria cutânea tarda, líquen plano e síndrome de Sjögren.
- Resistência à insulina, diabetes tipo 2 e esteatose.
- A resposta virológica sustentada melhora várias destas manifestações.
Quem se testa
Em Portugal, todos os adultos pelo menos uma vez na vida, de forma oportunística e independentemente do risco. O estudo reforça-se, e repete-se enquanto o risco se mantiver, em quem tem:
- doença hepática de causa não esclarecida, incluindo ALT elevada, fibrose, cirrose ou carcinoma hepatocelular;
- consumo atual ou passado de substâncias psicoativas por via inalada ou injetada, mesmo que único;
- práticas sexuais de maior risco, parceiros com VHC ou que injetam drogas;
- infeção por VIH, VHB ou outra infeção sexualmente transmissível, ou indicação para profilaxia do VIH;
- diálise (e sempre antes de a iniciar), exposição profissional, privação de liberdade;
- transfusão ou transplante antes de julho de 1992, fatores da coagulação antes de 1987;
- tatuagens, piercings ou objetos cortantes com material partilhado;
- origem em países de endemicidade intermédia ou elevada.
Também se testam os dadores de sangue, células, tecidos e órgãos.
Como se testa
| situação | teste |
|---|---|
| Avaliação inicial | anti-VHC por teste imunoenzimático ou teste rápido; o rápido pode fazer-se em farmácias e laboratórios, sem prescrição |
| Anti-VHC positivo pela primeira vez | ARN do VHC, de preferência por teste reflexo na mesma amostra |
| Anti-VHC negativo | não se repete, salvo exposição de risco há menos de 6 meses: ARN 6 meses depois da exposição |
| Anti-VHC positivo já documentado | não se repete o anticorpo |
| Suspeita de reinfeção após cura ou eliminação espontânea | ARN diretamente |
| Imunocomprometido | ARN diretamente, porque o anticorpo pode ser falso negativo |
Um anti-VHC positivo pode ser infeção ativa, infeção resolvida ou, raramente, falso positivo. Só o ARN confirma infeção ativa. Com ARN negativo, não há infeção ativa, salvo exposição há menos de 6 meses.
Depois da confirmação
Informar o doente, notificar no Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica, referenciar a consulta especializada e, quando indicado, a consulta de comportamentos aditivos ou de psiquiatria. Antes de tratar, avaliam-se fibrose, cirrose e carcinoma hepatocelular por critérios clínicos, laboratoriais, imagiológicos ou métodos não invasivos.
Genótipo
Os antivíricos pangenotípicos dispensam-no. Só se determina na cirrose com descompensação atual ou prévia, depois de tratamento prévio, para separar reinfeção de persistência, e em doentes de regiões de África e da Ásia com subtipos resistentes aos inibidores da NS5A.
- Não há vacina nem profilaxia pós-exposição eficaz.
- Depois de uma picada acidental vigiam-se ALT e ARN; uma hepatite C aguda detetada trata-se.
- Tratar é prevenir: curar cada doente interrompe cadeias de transmissão, e por isso o tratamento começa o mais cedo possível.
- Redução de riscos: material de consumo individual, programas de troca de seringas, material cortante descartável, rastreio das dádivas.
- Preservativo em quem tem vários parceiros ou infeções sexualmente transmissíveis.
- Curar não imuniza: quem mantém consumo injetado ou práticas sexuais de risco pesquisa reinfeção a cada 6 meses ou pelo menos uma vez por ano.
Propõe-se tratamento a todos com infeção ativa, incluindo a hepatite C aguda, e independentemente de tratamentos prévios.
- Não são contraindicação o consumo de álcool ou de substâncias psicoativas nem a doença psiquiátrica, e não há idade limite.
- Não se trata, por falta de benefício, quem tem comorbilidades graves não hepáticas com sobrevivência esperada inferior a 12 meses, ou carcinoma hepatocelular em estadio paliativo.
- O início deve ser o mais breve possível.
Estratégia simplificada
Dispensa o genótipo, pode dispensar a elastografia e inclui sempre a avaliação da resposta. Não se usa se houver pelo menos um destes: cirrose com descompensação atual ou prévia; tratamento prévio; taxa de filtração glomerular estimada abaixo de 30 mL/min/1,73 m²; AgHBs positivo; gravidez; carcinoma hepatocelular confirmado ou suspeito; transplante hepático prévio.
Esquemas
Uma toma diária por via oral.
| situação | opções |
|---|---|
| Estratégia simplificada e genótipos 1a, 2, 3, 4, 5 e 6 | glecaprevir com pibrentasvir, 8 semanas, ou sofosbuvir com velpatasvir, 12 semanas |
| Genótipo 1b | as mesmas, ou grazoprevir com elbasvir, 12 semanas |
| Cirrose descompensada (Child-Pugh de 7 ou mais) | sem inibidores da protease; sofosbuvir com velpatasvir e ribavirina, 12 semanas, ou sem ribavirina, 24 semanas; nos genótipos 1, 4, 5 e 6 também sofosbuvir com ledipasvir |
| Recidiva após transplante hepático, sem descompensação | sofosbuvir com velpatasvir ou glecaprevir com pibrentasvir, 12 semanas |
- Na cirrose descompensada sem carcinoma, com pontuação MELD abaixo de 20, trata-se antes do transplante; com 20 ou mais, depois do transplante, exceto se a espera prevista passar de 6 meses. A pontuação MELD calcula-se a partir da bilirrubina, da creatinina e do INR.
- Verificar sempre as interações medicamentosas; o sofosbuvir não se associa à amiodarona, pelo risco de bradicardia grave.
Resposta
- Resposta virológica sustentada: ARN indetetável ou abaixo de 15 UI/mL 12 ou 24 semanas depois do fim do tratamento; equivale à cura.
- Sem resposta, pondera-se retratamento; se não for possível, vigia-se a doença hepática a cada 6 a 12 meses.
- ARN detetável depois da resposta é reinfeção ou recorrência e obriga a avaliar retratamento.
- Na cirrose, a descompensação ocorre a cerca de 4% ao ano e o carcinoma hepatocelular a 1 a 4% ao ano; o carcinoma quase só surge sobre cirrose, ao fim de décadas.
- A resposta virológica sustentada reduz o risco de carcinoma em mais de 70% e a morte hepática e a necessidade de transplante em 90%, e pode fazer regredir a fibrose.
Depois da cura
O seguimento decide-se pela fibrose antes do tratamento, medida por elastografia hepática transitória ou pelo índice FIB-4 (calculado com a idade, a AST, a ALT e as plaquetas).
| fibrose antes do tratamento | conduta depois da resposta |
|---|---|
| Elastografia abaixo de 8 kPa ou FIB-4 abaixo de 1,45, sem outros fatores | alta da consulta especializada, sem monitorização específica |
| Elastografia de 8 a 10 kPa ou FIB-4 de 1,45 a 3,25, com esteatose metabólica ou álcool diário (20 g ou mais na mulher, 30 g ou mais no homem) | seguimento, mudança do estilo de vida e nova avaliação da fibrose aos 12 meses |
| Elastografia de 10 kPa ou mais, ou FIB-4 de 3,25 ou mais | ecografia e alfafetoproteína a cada 6 meses e abordagem da hipertensão portal |
O relatório de alta explica que o anti-VHC continua positivo.
Grávida
- Testa-se em contexto pré-concecional ou, não tendo sido feito, durante a gravidez, idealmente no primeiro trimestre, seja qual for a idade.
- O tratamento não está indicado na gravidez, por falta de dados de segurança e eficácia; só em casos muito pontuais, com decisão fundamentada e multidisciplinar. Propõe-se depois do parto.
- A transmissão vertical é ineficiente; o recém-nascido não precisa de precauções especiais e o aleitamento não está contraindicado.
Coinfeção pelo VHB
Os esquemas são os da monoinfeção, mas o tratamento do VHC pode reativar o VHB. Com AgHBs positivo e cirrose, dá-se um análogo durante o tratamento, mesmo com ADN indetetável; sem cirrose e sem indicação própria para tratar o VHB, pode dar-se como profilaxia.
Coinfeção pelo VIH
Os mesmos esquemas da monoinfeção, com atenção às interações com os antirretrovirais; a coinfeção acelera a doença hepática.
Doença renal crónica
- Os antivíricos de ação direta não precisam de ajuste de dose.
- A ribavirina ajusta-se com filtração glomerular abaixo de 60 mL/min/1,73 m², reduz-se em 200 mg com hemoglobina abaixo de 10 g/dL e suspende-se abaixo de 8,5 g/dL.
- Com filtração abaixo de 30, diálise ou cirrose descompensada, o doente vai a equipa multidisciplinar especializada.
Quem consome drogas
Trata-se como qualquer outro doente, de preferência articulado com a consulta de comportamentos aditivos, e vigia-se a reinfeção.
O VHD, ou agente delta, é um vírus de ARN defetivo, único do seu género, que precisa do AgHBs do VHB como invólucro para entrar e sair do hepatócito. Só existe infeção pelo VHD em quem tem VHB, e a sua duração não ultrapassa a da infeção pelo VHB.
- Cerca de 4 a 5% dos portadores crónicos de VHB no mundo têm também VHD; há zonas de prevalência alta em África, na Ásia e no Mediterrâneo, e muitas coinfeções estão por diagnosticar.
- Transmite-se por via parentérica, sobretudo por sangue contaminado e consumo de drogas, e por via sexual.
- A hepatite D crónica é a forma mais grave de hepatite viral crónica.
- A nucleocápside tem o antigénio delta; o invólucro é o AgHBs.
- Entra pelo mesmo recetor que o VHB, o polipeptídeo cotransportador de taurocolato de sódio, que é o alvo do bulevirtide.
- Suprime a replicação do VHB, pelo que estes doentes costumam ter ADN do VHB baixo.
Coinfeção e superinfeção
| coinfeção | superinfeção | |
|---|---|---|
| O que é | VHB e VHD adquiridos ao mesmo tempo | VHD num portador crónico de VHB |
| Hepatite aguda | habitualmente como a hepatite B isolada; fulminante em até 5% | fulminante em até 20% |
| Cronicidade | a do VHB, baixa no adulto | quase sempre |
| Anti-HBc | IgM | IgG |
A superinfeção transforma uma infeção B inativa ou ligeira numa hepatite crónica grave e progressiva, e acelera a cirrose e o carcinoma.
- Anti-VHD em todos os doentes com AgHBs positivo, pelo menos uma vez; repete-se se o risco persistir ou se a ALT subir sem explicação.
- A infeção ativa confirma-se com o ARN do VHD.
- Na infeção aguda o anti-VHD pode demorar 30 a 40 dias a aparecer; na crónica circula em título alto, IgM e IgG.
- Pensa-se nela sobretudo na hepatite B grave ou fulminante, na hepatite crónica grave, nas exacerbações e em quem vem de zonas endémicas ou tem exposições percutâneas frequentes.
A vacina contra o VHB previne também o VHD, porque sem VHB não há VHD. No portador crónico de VHB, que já não beneficia da vacina, a prevenção é evitar a exposição: material de consumo individual, preservativo e rastreio do sangue.
- Todos os doentes com coinfeção VHB e VHD e doença hepática compensada, com ou sem cirrose, devem ponderar tratamento com bulevirtide ou interferão peguilado alfa.
- O bulevirtide bloqueia o recetor de entrada comum aos dois vírus; suprime o ARN do VHD, mas a duração ótima e os critérios para parar não estão definidos, e o ARN tende a voltar a subir quando se suspende.
- Na cirrose descompensada o bulevirtide não está aprovado; usa-se caso a caso, sobretudo na classe B de Child-Pugh, em centros com transplante hepático.
- As indicações para tratar o VHB são as da monoinfeção.
- A hepatite D crónica evolui para cirrose a cerca de 4% ao ano.
- Nos doentes com cirrose, o carcinoma hepatocelular surge a cerca de 3% ao ano.
- A superinfeção pode causar hepatite fulminante; em alguns doentes, depois dos primeiros anos, a doença torna-se indolente.
O VHE é um vírus de ARN sem invólucro, de transmissão entérica, com dois padrões epidemiológicos.
| genótipos 1 e 2 | genótipos 3 e 4 | |
|---|---|---|
| Hospedeiro | só humano | animais, sobretudo o porco; zoonose |
| Transmissão | água contaminada, surtos | carne de porco ou de caça crua ou mal cozinhada |
| Onde | Ásia, África, Médio Oriente, América Central | também Europa ocidental |
| Quem | adultos jovens, 20 a 40 anos, em epidemias | casos esporádicos, sobretudo acima dos 60 anos |
Incubação de 14 a 60 dias, em média cerca de 40.
- Como no VHA, a excreção fecal antecede a lesão hepática, que é imunomediada por linfócitos T citotóxicos; o VHE interfere também com a sinalização do interferão.
- No imunocompetente não cronifica. No imunodeprimido (transplantado, sob quimioterapia, com VIH) pode cronificar e evoluir para cirrose, doença hepática terminal e até carcinoma hepatocelular.
- Manifestações extra-hepáticas raras, neurológicas (incluindo síndrome de Guillain-Barré), renais, pancreáticas e hematológicas, por mecanismos imunológicos ou infeção direta desses tecidos.
- Quadro semelhante ao da hepatite A, com febre baixa frequente.
- Nos surtos por água, a mortalidade é de 1 a 2%.
- Sobre doença hepática crónica pode causar insuficiência hepática aguda sobre crónica.
- IgM anti-VHE na fase aguda, dominante nos primeiros cerca de 3 meses; depois IgG duradoura.
- Recomenda-se juntar serologia e pesquisa do ARN do VHE.
- No imunodeprimido a serologia pode falhar: o diagnóstico faz-se pelo ARN.
- Hepatite E crónica: ARN detetável durante pelo menos 3 meses.
- Pensa-se no VHE perante uma hepatite aguda com os quatro testes clássicos negativos, sobretudo no idoso e no transplantado com aminotransferases elevadas.
- Água potável e saneamento nas regiões endémicas.
- Cozinhar bem a carne de porco e de caça, sobretudo para grávidas, imunodeprimidos e doentes com hepatopatia crónica.
- Há uma vacina aprovada na China desde 2011 e, mais tarde, no Paquistão, para adultos a partir dos 16 anos, em 3 doses; não está disponível na Europa.
- A imunoglobulina não previne a hepatite E.
- Hepatite E aguda: suporte. Na forma grave ou na insuficiência hepática sobre doença crónica, a ribavirina tem sido usada com sucesso.
- Hepatite E crónica no transplantado: primeiro reduzir a imunossupressão, o que muitas vezes basta para eliminar o vírus; se não chegar, ribavirina durante 3 meses, que dá resposta virológica sustentada em cerca de 78%.
- A ribavirina é teratogénica e está contraindicada na gravidez.
Grávida
Com os genótipos 1 e 2, a mortalidade materna no terceiro trimestre pode chegar a 20 a 25%, por hepatite fulminante, e a ribavirina não pode ser usada.
Imunodeprimido
O transplantado de órgão sólido pode ficar com hepatite E crónica, que progride para cirrose; a aminotransferase elevada sem explicação neste doente pede ARN do VHE.
Referências
- Dienstag JL. Acute viral hepatitis. In: Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. cap. 339.
- Dienstag JL. Chronic hepatitis. In: Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. cap. 341.
- Laboratory tests in liver diseases. In: Cecil essentials of medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. cap. 40, p. 417-9.
- European Association for the Study of the Liver. EASL Clinical Practice Guidelines on the management of hepatitis B virus infection. J Hepatol. 2025;83(2):502-83.
- European Association for the Study of the Liver. EASL Clinical Practice Guidelines on hepatitis E virus infection. J Hepatol. 2018;68(6):1256-71.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 003/2026 de 27/07/2026: Diagnóstico e tratamento da hepatite C em adultos. Lisboa: DGS; 2026.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 007/2025 de 31/07/2025, atualizada a 15/10/2025: Estratégia de imunização contra a hepatite A. Lisboa: DGS; 2025.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 018/2020 de 27/09/2020: Programa Nacional de Vacinação 2020. Lisboa: DGS; 2020.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 037/2011 de 30/09/2011: Exames laboratoriais na gravidez de baixo risco. Lisboa: DGS; 2011.
- World Health Organization. Hepatitis A, B, C and E: fact sheets. Genebra: WHO; 2025.
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