Gripe
Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 10 perguntas neste tema
A gripe é uma infeção respiratória aguda pelos vírus influenza A e B, que em Portugal, como no resto do hemisfério norte, chega em epidemias de inverno. Distingue-se das outras viroses respiratórias pelo início súbito e pelo peso dos sintomas sistémicos: febre, arrepios, mialgias, cefaleia e prostração, com uma tosse que se arrasta durante semanas.
A variabilidade antigénica explica o comportamento da doença. A deriva, com mutações pontuais da hemaglutinina e da neuraminidase nos vírus A e B, gera as epidemias anuais e obriga a reformular a vacina todos os anos; o salto, um rearranjo de segmentos entre estirpes humanas e animais, só acontece no influenza A e é o que gera as pandemias.
Em época epidémica o diagnóstico é clínico. Quando o resultado muda a conduta, sobretudo no internado e no imunodeprimido, testa-se por amplificação de ácidos nucleicos; o teste rápido de antigénio falha muitos casos e um negativo não exclui.
O antiviral, habitualmente o oseltamivir durante 5 dias, dá mais benefício nas primeiras 48 horas, mas na doença grave ou progressiva, no internado e nos grupos de risco dá-se sempre, seja qual for o tempo de evolução. A prevenção assenta na vacina trivalente inativada anual, gratuita em Portugal aos 60 ou mais anos, às crianças dos 6 meses aos 4 anos, às grávidas, aos doentes com patologia de risco e a quem vive ou trabalha em instituições.
O que não se pode falhar é a pneumonia bacteriana secundária, que aparece quando o doente parecia estar a melhorar, o ácido acetilsalicílico dado a uma criança, pelo risco de síndrome de Reye, e o antiviral adiado à espera de um teste.
O vírus
- Família Orthomyxoviridae: vírus com invólucro lipídico e genoma de RNA de cadeia simples e sentido negativo, dividido em oito segmentos.
- Três tipos no homem:
- Influenza A: infeta o homem, outros mamíferos e as aves, que são o principal reservatório. Conhecem-se 18 hemaglutininas e 11 neuraminidases: 16 e 9 nas aves; as H17, H18, N10 e N11 só se encontraram em morcegos. Classifica-se em subtipos pelas duas glicoproteínas; as epidemias dos últimos 50 anos foram por A(H1N1) e A(H3N2).
- Influenza B: quase só humano, geneticamente mais estável, sem subtipos; tem duas linhagens, Victoria e Yamagata.
- Influenza C: doença ligeira e esporádica.
As duas glicoproteínas de superfície
| Hemaglutinina (H) | Neuraminidase (N) | |
|---|---|---|
| função | liga-se aos recetores de ácido siálico do epitélio respiratório e permite a fusão e a entrada | cliva o ácido siálico e liberta os novos viriões da célula |
| importância | alvo principal dos anticorpos neutralizantes; os anticorpos inibidores da hemaglutinação medem a proteção | alvo do oseltamivir e do zanamivir |
| o que a vacina procura | induzir imunidade contra ela | o conteúdo não é padronizado |
Patogénese
- O vírus entra por endocitose; no endossoma, a clivagem da hemaglutinina expõe o domínio de fusão. A protease que a cliva existe no meio respiratório, o que confina a replicação ao epitélio.
- Infeta sobretudo as células ciliadas. A descamação do epitélio superficial e a perda da função ciliar explicam os sintomas e abrem caminho à infeção bacteriana secundária.
- A febre, o mal-estar e as mialgias são mediados por citocinas; o excesso de citocinas explica a gravidade das estirpes altamente patogénicas, como a de 1918 e a H5N1.
Deriva e salto antigénicos
| Deriva antigénica | Salto antigénico | |
|---|---|---|
| mecanismo | acumulação de mutações pontuais, sob pressão da imunidade da população | rearranjo de segmentos entre estirpes que infetam a mesma célula |
| resultado | alterações graduais dos epítopos, sobretudo da hemaglutinina | hemaglutinina ou neuraminidase novas, para as quais não há imunidade |
| vírus | influenza A e B | só influenza A |
| consequência | epidemias anuais e reformulação da vacina todos os anos | pandemia |
- Pandemias por salto: 1918 (H1N1), 1957 (H2N2), 1968 (H3N2), 1977 (H1N1) e 2009 (H1N1pdm). À de 1918 atribuem-se cerca de 50 milhões de mortes, com atingimento invulgar de adultos jovens saudáveis.
- O porco serve de recipiente de mistura: o homem tem sobretudo recetores de ácido siálico em ligação alfa-2,6, as aves em alfa-2,3, e o porco tem os dois. O vírus de 2009 tinha genes de origem aviária, suína e humana.
Diagnóstico clínico
- Em época de circulação alta, um quadro respiratório febril agudo típico permite o diagnóstico clínico.
- Fora da época, ou com apresentação menos típica, o diagnóstico só pelos sintomas falha com frequência.
Quando testar
- Quando o resultado muda a conduta: doente de alto risco com sintomas respiratórios, doente internado, imunodeprimido, e controlo de infeção em hospitais e lares.
- Todos os doentes internados com doença respiratória aguda em época gripal são testados à entrada.
- Não se atrasa o antiviral à espera do resultado: em época gripal, o início do tratamento não depende da confirmação laboratorial.
Testes
| teste | o que dá | uso |
|---|---|---|
| Amplificação de ácidos nucleicos, incluindo os testes moleculares rápidos | o mais sensível e específico; identifica tipo e subtipo; painéis múltiplos com vírus sincicial respiratório e SARS-CoV-2 | preferido no ambulatório e no internado |
| Teste rápido de antigénio | especificidade de cerca de 98%, sensibilidade de apenas 62%, pior para o influenza B | um positivo é fiável; um negativo não exclui |
| Cultura viral | resultado tardio | vigilância e caracterização de estirpes, não a decisão aguda |
| Serologia | exige soros emparelhados, o segundo 2 semanas depois | só retrospetiva |
- Colheita: zaragatoa nasofaríngea, idealmente de ponta flocada. Sem ela, juntam-se zaragatoas nasal e faríngea numa só amostra.
- Analiticamente, leucopenia ligeira. Leucócitos acima de 15 000/µL num doente com pneumonia gripal sugerem componente bacteriano.
Diagnóstico diferencial
| característica | Gripe | Constipação |
|---|---|---|
| início | súbito, em horas | gradual |
| sintomas sistémicos | dominantes: febre, arrepios, mialgias, prostração | discretos ou ausentes |
| queixas nasais | ligeiras | dominam: rinorreia e obstrução nasal |
| agentes | influenza A e B | sobretudo rinovírus, em mais de metade dos casos |
- COVID-19: sobreposição quase total de sintomas; a anosmia e a ageusia apontam para ela, mas só numa minoria. Quando os dois vírus circulam, testam-se ambos e admite-se a coinfeção.
- Vírus sincicial respiratório: circula ao mesmo tempo; dá bronquiolite no lactente e, no idoso, um quadro parecido com gripe, com perda de autonomia.
A vacina
- É a melhor forma de prevenir a gripe, e dá-se todos os anos, pela deriva antigénica e porque a proteção é sobretudo específica da estirpe.
- A composição é decidida pela OMS cerca de 10 meses antes do pico, o que pode dar desajuste com as estirpes que acabam por circular.
- Passou a trivalente: para 2026-2027 no hemisfério norte, A(H1N1)pdm09, A(H3N2) e B da linhagem Victoria. A B/Yamagata saiu da vacina porque não há deteções confirmadas desde março de 2020.
- Em Portugal usam-se vacinas inativadas, por via intramuscular, de dose padrão ou de dose elevada.
- Eficácia agrupada de 59% dos 18 aos 65 anos; efetividade de 40 a 60% nas épocas em que a vacina coincide com as estirpes em circulação, menor quando não coincide. Mesmo quando não evita a infeção, reduz a gravidade.
Vacinação gratuita em Portugal (Norma DGS 006/2026)
Campanha de 30 de setembro de 2026 a 31 de março de 2027.
| critério | quem | vacina e esquema |
|---|---|---|
| idade | crianças dos 6 meses aos 4 anos | dose padrão; dos 6 aos 23 meses, duas doses se nunca vacinadas |
| idade | 60 a 84 anos | dose padrão, uma dose |
| idade | 85 ou mais anos | dose elevada |
| condição | grávidas | dose padrão |
| condição | 5 a 59 anos com patologia de risco | dose padrão |
| contexto | residentes em lares, estruturas residenciais para idosos, cuidados continuados e instituições similares, a partir dos 5 anos | dose padrão abaixo dos 60 anos; dose elevada aos 60 ou mais |
| contexto | apoio domiciliário, internados no SNS com doença crónica, reclusos, pessoas em situação de sem-abrigo | dose padrão |
| profissão | profissionais do SNS e estudantes em estágio clínico; profissionais de cuidados diretos do setor privado e social; lares; bombeiros em contacto direto com pessoas de alto risco; farmacêuticos das farmácias aderentes à campanha; expostos a animais com suspeita de gripe zoonótica | dose padrão |
- Patologias de risco: doença respiratória crónica (DPOC, asma sob corticoide inalado contínuo, bronquiectasias, fibrose quística), doença cardiovascular aterosclerótica, insuficiência cardíaca e cardiopatias estruturais, doença renal crónica com taxa de filtração glomerular abaixo de 60 mL/min/1,73 m², hepatite crónica e cirrose, doença neurológica que comprometa a função respiratória ou a eliminação de secreções, drepanocitose, diabetes, obesidade de grau III (IMC de 40 kg/m² ou mais no adulto), trissomia 21, imunossupressão (incluindo VIH em qualquer estadio, asplenia, neoplasia ativa e corticoterapia de 20 mg/dia de prednisolona ou mais durante mais de um mês), transplante, e crianças e adolescentes dos 6 meses aos 18 anos sob salicilatos prolongados.
- Na primeira vacinação, as crianças dos 24 meses aos 8 anos com patologia de risco, em contextos vulneráveis ou que convivem com pessoas de alto risco fazem duas doses com 4 semanas de intervalo.
- As farmácias aderentes vacinam gratuitamente os 60 a 84 anos e os 18 a 59 anos com patologia de risco.
- A vacina da gripe pode ser dada no mesmo dia que a da COVID-19 ou que as do Programa Nacional de Vacinação, em locais anatómicos diferentes.
Contraindicações e precauções
- Contraindicação: reação alérgica grave a uma dose anterior ou a um componente da vacina.
- Precauções: doença aguda moderada a grave, com ou sem febre, e síndrome de Guillain-Barré nas 6 semanas seguintes a uma vacina anterior.
- A alergia ao ovo não contraindica, seja qual for a gravidade da reação ao ovo, e não obriga a cuidados além dos de qualquer vacina.
- A vacina inativada não causa gripe; a reação local é o efeito adverso mais frequente.
Quimioprofilaxia
- Não substitui a vacina, reduz o risco mas não o elimina, e a suscetibilidade volta quando se para.
- Não há indicação para profilaxia pré-exposição nem para contactos saudáveis na comunidade.
- Pós-exposição, decidida caso a caso, em pessoas de grupos de risco ou em surtos em instituições: oseltamivir 75 mg uma vez por dia durante 10 dias no adulto; se aparecer síndrome gripal, passa-se à dose de tratamento.
- Eficácia estimada de 70 a 90%.
Medidas não farmacológicas
- Etiqueta respiratória, higiene das mãos, ficar em casa enquanto há sintomas, e isolamento respiratório do doente internado segundo as regras do hospital.
Medidas gerais
- Hidratação e equilíbrio eletrolítico, antipiréticos e analgésicos (paracetamol ou anti-inflamatórios não esteroides), oxigénio se houver hipoxemia.
- Ácido acetilsalicílico nunca abaixo dos 18 anos, pelo risco de síndrome de Reye.
- Antibiótico só quando há infeção bacteriana.
- Corticoides não estão indicados no tratamento da gripe, a não ser por outra razão clínica.
Quem tratar com antiviral
| situação | antiviral |
|---|---|
| doença grave ou progressiva | sempre, o mais cedo possível, seja qual for o tempo de evolução |
| doente internado, qualquer que seja o motivo do internamento | sempre, seja qual for o tempo de evolução |
| grupo de risco, mesmo com doença ligeira | sempre, seja qual for o tempo de evolução |
| profissional de saúde com gripe em contacto com doentes | recomendado, pelo risco de transmissão |
| adulto saudável com doença ligeira | decisão individual; considera-se se estiver nas primeiras 48 horas |
Grupos de risco para tratamento (Orientação DGS 007/2015): 65 ou mais anos; doença crónica pulmonar (incluindo asma sob corticoide inalado diário), cardiovascular (exceto hipertensão isolada), renal, hepática, hematológica (incluindo drepanocitose), neurológica ou neuromuscular, metabólica ou oncológica; imunodepressão, incluindo a causada por fármacos e o VIH; obesidade mórbida (IMC acima de 40 no adulto); salicilatos prolongados até aos 18 anos; grávidas e puérperas até 15 dias após o parto ou a interrupção da gravidez. As recomendações americanas incluem ainda as crianças com menos de 2 anos.
- A vacinação na época não é razão para não tratar.
Fármacos
| fármaco | mecanismo | via e esquema no adulto | notas |
|---|---|---|---|
| Oseltamivir | inibidor da neuraminidase | oral, 75 mg de 12 em 12 horas durante 5 dias | o de escolha no internado, no doente grave e na grávida; náuseas e vómitos, menores com alimentos; ajustar à função renal; pode dar-se por sonda |
| Zanamivir | inibidor da neuraminidase | inalado, 10 mg de 12 em 12 horas durante 5 dias | pode causar broncospasmo: evitar na asma e na DPOC; mais ativo contra o influenza B e contra estirpes resistentes ao oseltamivir |
| Peramivir | inibidor da neuraminidase | endovenoso, dose única | alternativa quando a via oral não é possível, onde existe |
| Baloxavir marboxil | inibidor da endonuclease dependente de cap | oral, dose única | só na gripe não complicada; não na grávida, na amamentação, no imunodeprimido grave, no internado nem na doença grave ou progressiva; resistência em 2 a 10% dos tratados |
- Iniciado nas primeiras 48 horas, o antiviral encurta os sintomas em cerca de 1 dia e reduz as complicações; no internado pode reduzir o risco de complicações e de morte.
- A OMS (2024) prefere o baloxavir no doente de alto risco sem doença grave e o oseltamivir na doença grave.
- Doença grave com replicação persistente: em meio hospitalar, pode prolongar-se o oseltamivir até 10 dias.
- Imunodeprimido: oseltamivir seja qual for a duração dos sintomas. Se piora sob oseltamivir, ou se a fonte tinha vírus resistente, pondera-se zanamivir endovenoso, que em Portugal existe em reserva estratégica nacional para uso excecional.
Sobreinfeção bacteriana
- Investiga-se e trata-se empiricamente a coinfeção bacteriana em quem se apresenta logo com doença grave e em quem piora depois de uma melhoria inicial.
- A antibioterapia cobre Streptococcus pneumoniae e Staphylococcus aureus, incluindo o resistente à meticilina, e o Streptococcus pyogenes.
Referências
- Neuzil KM, Wright PF. Influenza. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. cap. 200.
- Common viral respiratory infections, including COVID-19. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. cap. 199.
- Antiviral chemotherapy, excluding antiretroviral drugs. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. cap. 191, tabela 191-2.
- Cecil essentials of medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. Secção de doenças infeciosas: abordagem à febre, infeções das vias respiratórias superiores e pneumonia.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 006/2026, de 17/09/2026, atualizada a 23/09/2026: Campanha de vacinação sazonal contra a gripe, outono-inverno 2026-2027. Lisboa: DGS; 2026.
- Direção-Geral da Saúde. Orientação n.º 007/2015, de 26/01/2015, atualizada a 04/01/2018: Terapêutica e quimioprofilaxia da gripe sazonal. Lisboa: DGS; 2018.
- Despacho n.º 1150/2021, de 28 de janeiro. Doenças de notificação obrigatória. Diário da República, 2.ª série. 2021.
- World Health Organization. Recommended composition of influenza virus vaccines for use in the 2026-2027 northern hemisphere influenza season. Genebra: WHO; 2026.
- Uyeki TM, Bernstein HH, Bradley JS, Englund JA, File TM, Fry AM, et al. Clinical practice guidelines by the Infectious Diseases Society of America: 2018 update on diagnosis, treatment, chemoprophylaxis, and institutional outbreak management of seasonal influenza. Clin Infect Dis. 2019;68(6):e1-e47.
- World Health Organization. Clinical practice guidelines for influenza. Genebra: WHO; 2024.
- Grohskopf LA, Blanton LH, Ferdinands JM, et al. Prevention and control of seasonal influenza with vaccines: recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices, United States, 2025-26 influenza season. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2025;74(32):500-7.
- Centers for Disease Control and Prevention. How flu spreads [Internet]. Atlanta: CDC [consultado em setembro de 2026].
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