Endocardite infeciosa
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 21 perguntas neste tema
A endocardite infeciosa é a infeção do endocárdio, quase sempre de uma válvula, e a sua lesão é a vegetação: uma massa de plaquetas, fibrina e microrganismos, sem vasos, que destrói a válvula, se desfaz em êmbolos e lança bactérias no sangue de forma contínua. É rara, com cerca de 14 casos por 100 000 habitantes por ano, mas mata 15 a 30% dos doentes durante o internamento, uma proporção que pouco mudou em vinte anos.
O doente típico já não é o jovem com cardiopatia reumática. Hoje são o idoso com valvulopatia degenerativa, o portador de prótese valvular ou de pacemaker, o doente em hemodiálise ou com cateter venoso e o utilizador de drogas endovenosas, e o Staphylococcus aureus passou a ser o agente mais frequente, à frente dos estreptococos orais.
Apresenta-se como febre, quase sempre com sopro, às vezes só como sépsis sem foco ou como uma complicação à distância, em particular um acidente vascular cerebral. O diagnóstico junta hemoculturas colhidas antes de qualquer antibiótico e imagem, primeiro o ecocardiograma, transtorácico e depois transesofágico, e, quando este não chega, a tomografia computorizada cardíaca e a tomografia por emissão de positrões; os critérios de Duke revistos em 2023 dão-lhe forma.
O tratamento é antibiótico bactericida endovenoso durante 2 a 6 semanas na válvula nativa e 6 na prótese, contadas a partir da primeira hemocultura negativa, escolhido pelo agente, e cirurgia quando há insuficiência cardíaca, infeção que o antibiótico não controla ou risco alto de embolia, com um tempo que se mede em horas ou dias. A profilaxia antibiótica ficou reservada aos doentes de alto risco antes de procedimentos dentários invasivos; a higiene oral protege mais.
O que não se pode falhar: dar antibiótico a uma febre sem foco num valvulopata sem colher hemoculturas, aceitar um ecocardiograma transtorácico normal como exclusão, e deixar passar a janela da cirurgia quando a indicação existe.
Da lesão endotelial à vegetação
O endotélio valvular intacto resiste à maior parte das bactérias. A vegetação forma-se em quatro passos:
- Lesão do endotélio, no ponto onde bate um jato de alta velocidade ou no lado de baixa pressão de uma lesão estrutural. As situações que mais o fazem são a insuficiência mitral, a estenose e a insuficiência aórticas, a comunicação interventricular e as cardiopatias congénitas complexas.
- Trombo estéril de plaquetas e fibrina sobre o endotélio exposto, a chamada endocardite trombótica não bacteriana. Também aparece nos estados de hipercoagulabilidade: é a endocardite marântica das neoplasias e a de Libman-Sacks do lúpus e da síndrome antifosfolipídica.
- Aderência de bactérias trazidas por uma bacteriemia transitória, através de adesinas de superfície. O S. aureus adere também ao endotélio intacto, com a ajuda do fator de von Willebrand e de proteínas que se ligam à fibronectina, e por isso infeta válvulas previamente normais.
- Vegetação infetada: as bactérias multiplicam-se, atraem mais plaquetas e fibrina e ficam em densidades muito altas; as das camadas profundas estão quase paradas metabolicamente e toleram o antibiótico.
O que a vegetação explica
- Antibiótico bactericida, em dose alta e durante semanas: não há vasos que tragam fagócitos, e as bactérias em repouso só morrem com exposição prolongada.
- Bacteriemia contínua: a superfície da vegetação liberta bactérias para o sangue o tempo todo, pelo que as hemoculturas não precisam de picos febris.
- Embolia: fragmentos que se soltam causam enfartes e abcessos à distância.
- Fenómenos imunológicos: imunocomplexos circulantes dão glomerulonefrite, nódulos de Osler e manchas de Roth.
Portas de entrada
| porta | agente típico |
|---|---|
| Cavidade oral | estreptococos orais (grupo viridans) |
| Pele, cateteres, injeção de drogas | S. aureus, estafilococos coagulase-negativos |
| Vias respiratórias superiores | grupo HACEK |
| Tubo digestivo | Streptococcus gallolyticus (antes S. bovis) |
| Aparelho geniturinário | enterococos |
A escovagem, a mastigação e o fio dentário causam bacteriemias pequenas mas diárias, que no conjunto pesam mais do que as de um tratamento dentário pontual. É a base para restringir a profilaxia antibiótica.
Fatores de risco
| cardíacos | não cardíacos |
|---|---|
| Endocardite prévia | Cateter venoso central |
| Prótese valvular | Uso de drogas endovenosas |
| Valvulopatia | Imunossupressão |
| Dispositivo eletrónico cardíaco transvenoso | Procedimento dentário ou cirúrgico recente |
| Cardiopatia congénita | Internamento recente, hemodiálise |
Agentes
| agente | contexto | comportamento |
|---|---|---|
| Staphylococcus aureus | o mais frequente (cerca de 31% numa grande coorte internacional); cuidados de saúde, drogas endovenosas, cateteres | aguda, destrutiva, emboliza, abcessos |
| Estreptococos orais | cerca de 17%; válvula já lesada | subaguda, respondem bem à penicilina |
| Streptococcus gallolyticus | origem no cólon | associado a pólipos e carcinoma do cólon |
| Enterococos (90% Enterococcus faecalis) | idoso, porta urinária ou digestiva, cuidados de saúde | subaguda, exigem associação de dois fármacos |
| Estafilococos coagulase-negativos | cerca de 11%; prótese precoce e dispositivos | indolentes mas destroem o anel |
| Grupo HACEK | flora da orofaringe | Gram-negativos exigentes, de crescimento lento |
| Gram-negativos não HACEK | raros (menos de 2%) | graves, cirurgia precoce |
| Fungos (Candida, Aspergillus) | prótese, drogas endovenosas, imunodeprimidos | vegetações grandes, mortalidade acima de 50% |
Hemoculturas negativas
- 5 a 15% dos casos. Em um terço a metade a causa é antibiótico dado antes das colheitas.
- O resto são agentes que não crescem nos meios habituais: Coxiella burnetii (febre Q, com predileção pelas próteses), Bartonella, Brucella, Tropheryma whipplei, Granulicatella e Abiotrophia, grupo HACEK, fungos (Aspergillus).
- Imitam-na o mixoma auricular, a endocardite marântica e a síndrome antifosfolipídica.
Três pilares: suspeição clínica, microbiologia e imagem de lesão cardíaca.
Hemoculturas
- Três conjuntos, com 30 minutos de intervalo, antes do antibiótico, cada um com 10 mL de sangue em frasco aeróbio e anaeróbio, de veia periférica e não do cateter.
- A bacteriemia é contínua: não se espera pelo pico febril, e quase todas as colheitas saem positivas. Uma hemocultura positiva isolada deve ler-se com cautela.
- No doente estável, com quadro subagudo, sobretudo se fez antibiótico nas 2 semanas anteriores, adia-se o antibiótico empírico para colher mais hemoculturas. Com sépsis ou instabilidade hemodinâmica começa logo a seguir aos três conjuntos.
- Hemoculturas negativas às 48 horas: falar com o microbiologista. Serologias para Coxiella burnetii, Bartonella, Brucella, Legionella, Mycoplasma e Aspergillus, e técnicas moleculares (reação em cadeia da polimerase específica no sangue; sequenciação do gene 16S do ARN ribossómico no tecido valvular ou no êmbolo).
- Sem agente depois de tudo isto: anticorpos antinucleares e antifosfolipídicos, para a endocardite não infeciosa.
Ecocardiograma
- Transtorácico primeiro, logo que haja suspeita; o atraso aumenta a destruição valvular, as embolias e a necessidade de cirurgia.
- Transesofágico recomendado em quase todos: com transtorácico negativo ou inconclusivo e suspeita que se mantém, na prótese e no dispositivo intracardíaco, e mesmo com transtorácico positivo, para procurar complicações. A exceção é a endocardite isolada da tricúspide nativa com transtorácico de boa qualidade e inequívoco.
- Repete-se em 5 a 7 dias quando o primeiro exame é negativo ou duvidoso e a suspeita se mantém.
- Procura: vegetação (o tamanho é o comprimento máximo), abcesso, pseudoaneurisma, fístula, perfuração, deiscência de prótese.
- Deve pedir-se ecocardiograma nas bacteriemias por S. aureus, E. faecalis e alguns estreptococos.
Outros exames de imagem
| exame | quando |
|---|---|
| Tomografia computorizada (TC) cardíaca | endocardite possível de válvula nativa ou de prótese; abcesso ou pseudoaneurisma com ecocardiograma inconclusivo |
| Tomografia por emissão de positrões com fluorodesoxiglicose (PET-TC) | endocardite possível de prótese (sensibilidade 86%, especificidade 84%); pouco sensível na válvula nativa (cerca de 31%) |
| Cintigrafia com leucócitos marcados | prótese, quando não há PET-TC |
| RM cerebral, TC ou PET-TC de corpo inteiro | embolias e focos metastáticos, que acrescentam critérios minor |
Critérios de Duke-ISCVID (2023)
A revisão de 2023 da Sociedade Internacional de Doenças Infeciosas Cardiovasculares (ISCVID) substitui os critérios de Duke modificados de 2000.
| critérios major | |
|---|---|
| Microbiológico | agente típico em 2 ou mais conjuntos de hemoculturas separados; agente atípico em 3 ou mais; reação em cadeia da polimerase positiva no sangue para Coxiella, Bartonella ou Tropheryma whipplei; Coxiella numa só hemocultura ou IgG antifase I acima de 1:800; IgG para Bartonella de 1:800 ou mais |
| Imagem | no ecocardiograma ou na TC cardíaca: vegetação, perfuração, aneurisma do folheto, abcesso, pseudoaneurisma, fístula, regurgitação nova significativa ou deiscência nova de prótese; na PET-TC, captação anómala em válvula ou material protésico, com 3 meses ou mais de implantação |
| Cirúrgico | endocardite vista na inspeção direta durante a cirurgia cardíaca |
- Agentes típicos: S. aureus, Staphylococcus lugdunensis, E. faecalis, todos os estreptococos exceto o pneumococo e o Streptococcus pyogenes, Granulicatella, Abiotrophia, Gemella e grupo HACEK. Com material protésico juntam-se os estafilococos coagulase-negativos, Corynebacterium striatum e jeikeium, Serratia marcescens, Pseudomonas aeruginosa, Cutibacterium acnes, micobactérias não tuberculosas e Candida.
| critérios minor | |
|---|---|
| Predisposição | endocardite prévia, prótese ou reparação valvular, cardiopatia congénita, regurgitação ou estenose mais do que ligeiras, dispositivo eletrónico endovascular, cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva, drogas endovenosas |
| Febre | temperatura acima de 38,0 °C |
| Fenómenos vasculares | embolia arterial, enfarte pulmonar sético, abcesso cerebral ou esplénico, aneurisma micótico, hemorragia intracraniana, hemorragias conjuntivais, lesões de Janeway, púrpura purulenta |
| Fenómenos imunológicos | fator reumatoide, nódulos de Osler, manchas de Roth, glomerulonefrite por imunocomplexos |
| Microbiológico | hemoculturas positivas que não cumprem o critério major; agente compatível em local estéril |
| Imagem | captação na PET-TC nos primeiros 3 meses depois de implantar material protésico |
| Exame físico | regurgitação nova à auscultação, se não houver ecocardiograma |
| classificação | regra |
|---|---|
| Definitiva | patológica (agente ou endocardite ativa na vegetação, no tecido, na prótese ou num êmbolo); ou clínica: 2 major, 1 major e 3 minor, ou 5 minor |
| Possível | 1 major e 1 minor, ou 3 minor |
| Rejeitada | diagnóstico alternativo firme; sem recidiva com menos de 4 dias de antibiótico; sem evidência na cirurgia ou autópsia com menos de 4 dias de antibiótico; ou não cumpre critérios de possível |
- As recomendações europeias de 2023 usam uma versão próxima: juntam a cintigrafia com leucócitos marcados à imagem major, contam a PET-TC da prótese sem intervalo mínimo desde a cirurgia e classificam como possível 1 major com 1 ou 2 minor, ou 3 a 4 minor. A regra da endocardite definitiva é a mesma.
Diagnóstico diferencial
| entidade | o que a distingue |
|---|---|
| Endocardite trombótica não bacteriana (neoplasia, lúpus, síndrome antifosfolipídica) | hemoculturas negativas, doença de base, vegetações junto da linha de coaptação que nunca perfuram o folheto |
| Mixoma auricular | massa pediculada na aurícula, sem bacteriemia |
| Excrescências de Lambl, fibroelastoma | achados ecocardiográficos sem síndrome infeciosa |
| Bacteriemia com outro foco | foco extracardíaco que explica tudo, ecocardiograma sem lesões |
| Febre reumática aguda | poliartrite migratória, cardite, antecedente de faringite, hemoculturas negativas |
Dois planos: medidas gerais para todos os doentes de risco, e antibiótico só para o alto risco antes de procedimentos dentários invasivos.
Medidas gerais (alto risco e risco intermédio)
- Lavar os dentes duas vezes por dia; higiene oral profissional e revisão pelo menos duas vezes por ano no alto risco e uma vez por ano nos restantes.
- Higiene rigorosa da pele, desinfeção de feridas, tratamento das dermatoses crónicas.
- Antibiótico curativo para qualquer foco bacteriano, sem automedicação antibiótica.
- Desencorajar piercings e tatuagens.
- Limitar cateteres e procedimentos invasivos e cumprir as regras de cuidado dos cateteres.
- Educar o doente: perante febre sem causa, dizer ao médico que tem risco de endocardite, para se colherem hemoculturas antes do antibiótico.
Quem é de alto risco (profilaxia recomendada)
- Endocardite prévia.
- Prótese valvular cirúrgica e qualquer material de reparação valvular cirúrgica (anéis de anuloplastia, por exemplo).
- Prótese valvular transcateter em posição aórtica (implantação valvular aórtica transcateter, TAVI) ou pulmonar.
- Cardiopatia congénita cianótica não tratada, e a tratada com shunts paliativos, tubos ou outras próteses; depois de correção cirúrgica sem defeito residual nem prótese valvular, só nos primeiros 6 meses.
- Dispositivo de assistência ventricular.
- Também: deve considerar-se depois de reparação mitral ou tricúspide transcateter; pode considerar-se no transplantado cardíaco.
Risco intermédio (sem profilaxia por rotina)
- Cardiopatia reumática, valvulopatia degenerativa, anomalias valvulares congénitas incluindo a válvula aórtica bicúspide, dispositivos eletrónicos cardíacos e cardiomiopatia hipertrófica.
- Pode ponderar-se caso a caso, mas o que se insiste é nas medidas gerais.
Procedimentos dentários que pedem profilaxia no alto risco
- Extrações, cirurgia oral (periodontal, implantes, biópsias) e procedimentos com manipulação da gengiva ou da região periapical do dente, incluindo destartarização e tratamento de canais.
Esquema: dose única 30 a 60 minutos antes
| situação | adulto | criança |
|---|---|---|
| Sem alergia | amoxicilina 2 g oral, ou ampicilina 2 g intramuscular ou endovenosa | amoxicilina ou ampicilina 50 mg/kg |
| Alergia à penicilina | cefalexina 2 g oral; azitromicina ou claritromicina 500 mg oral; doxiciclina 100 mg oral; cefazolina ou ceftriaxona 1 g intramuscular ou endovenosa | cefalexina 50 mg/kg; azitromicina ou claritromicina 15 mg/kg; doxiciclina 2,2 mg/kg abaixo de 45 kg e 100 mg acima; cefazolina ou ceftriaxona 50 mg/kg |
- As cefalosporinas não se usam se a alergia à penicilina foi anafilaxia, angioedema ou urticária.
- A clindamicina deixou de ser recomendada, pelo risco de efeitos adversos graves, sobretudo infeção por Clostridioides difficile.
Outros procedimentos
- Procedimentos invasivos respiratórios, digestivos, geniturinários, cutâneos ou musculoesqueléticos: a profilaxia pode considerar-se no alto risco, mas não é de rotina. Em todos, assepsia rigorosa.
- Implantação de prótese valvular, enxerto vascular, oclusor ou dispositivo eletrónico: profilaxia antibiótica perioperatória.
- Antes de cirurgia cardíaca eletiva ou de TAVI, rastreio do S. aureus nasal e descolonização dos portadores com mupirocina e clorexidina.
- Eliminar focos dentários pelo menos 2 semanas antes de implantar uma prótese valvular ou outro material intracardíaco, salvo urgência.
A endocardite complicada (instabilidade, regurgitação grave, prótese, AVC, abcesso, hemoculturas positivas mais de 7 dias, agentes agressivos) trata-se num centro com cirurgia cardíaca e uma equipa de endocardite: cardiologia, cirurgia cardíaca, infeciologia e microbiologia.
Princípios da antibioterapia
- Bactericida, endovenoso, em doses altas. Duração de 2 a 6 semanas na válvula nativa e 6 na prótese.
- A duração conta-se do primeiro dia de antibiótico eficaz, ou seja, da primeira hemocultura negativa, e não do dia da cirurgia. Só se recomeça a contagem se a cultura da válvula operada for positiva.
- Operado de endocardite de válvula nativa e posto uma prótese: continua o esquema da válvula nativa.
- Aminoglicosídeos: já não se usam na endocardite estafilocócica de válvula nativa, porque não trazem benefício e lesam o rim. Onde entram, é em toma única diária e no máximo 2 semanas.
- Rifampicina: só quando há material estranho (prótese), acrescentada depois de 3 a 5 dias de antibiótico eficaz, com a bacteriemia já negativa.
- Daptomicina: em dose alta (10 mg/kg por dia) e sempre associada a outro antibiótico.
Antibiótico empírico
Começa logo que os três conjuntos de hemoculturas estejam colhidos, se o doente estiver séptico ou instável, e muda para o dirigido quando o agente se identifica, habitualmente em 24 a 48 horas.
| contexto | esquema |
|---|---|
| Válvula nativa comunitária, ou prótese com mais de 12 meses | ampicilina 12 g/dia com ceftriaxona 4 g/dia, ou ampicilina com (flu)cloxacilina 12 g/dia e gentamicina 3 mg/kg/dia; cobrem estafilococo, estreptococo e enterococo |
| Prótese nos primeiros 12 meses, ou endocardite associada aos cuidados de saúde | vancomicina 30 mg/kg/dia ou daptomicina 10 mg/kg/dia, com gentamicina e rifampicina; cobrem estafilococos resistentes à meticilina e enterococos |
| Válvula nativa ou prótese tardia com alergia à penicilina | cefazolina 6 g/dia ou vancomicina, com gentamicina |
| Utilizador de drogas endovenosas | cobrir sempre o S. aureus: (flu)cloxacilina, vancomicina ou daptomicina conforme a prevalência local de estirpes resistentes à meticilina (MRSA), com gentamicina |
- A gentamicina do esquema empírico é temporária: se o agente for um estafilococo e a válvula nativa, sai quando chega a identificação.
Antibiótico dirigido
| agente | válvula nativa | prótese |
|---|---|---|
| Estreptococos orais e S. gallolyticus sensíveis à penicilina | penicilina G, amoxicilina ou ceftriaxona 2 g/dia, 4 semanas; 2 semanas com gentamicina só na forma não complicada com função renal normal | o mesmo durante 6 semanas, sem o esquema curto |
| Estreptococos com sensibilidade reduzida ou resistentes à penicilina | o mesmo em dose mais alta, 4 semanas, com gentamicina nas 2 primeiras | 6 semanas, com gentamicina nas 2 primeiras |
| Estafilococo sensível à meticilina | (flu)cloxacilina 12 g/dia ou cefazolina 6 g/dia, 4 a 6 semanas, sem aminoglicosídeo | o mesmo com rifampicina durante pelo menos 6 semanas e gentamicina nas 2 primeiras |
| Estafilococo resistente à meticilina | vancomicina, 4 a 6 semanas; alternativa: daptomicina com cloxacilina, ceftarolina ou fosfomicina | vancomicina com rifampicina durante pelo menos 6 semanas e gentamicina nas 2 primeiras |
| Enterococo sem resistência de alto nível aos aminoglicosídeos | ampicilina ou amoxicilina com ceftriaxona durante 6 semanas, ou com gentamicina durante 2 semanas | igual |
| Enterococo com resistência de alto nível aos aminoglicosídeos | ampicilina ou amoxicilina com ceftriaxona, 6 semanas | igual |
| E. faecium resistente aos beta-lactâmicos | vancomicina 6 semanas com gentamicina nas 2 primeiras | igual |
| Enterococo resistente à vancomicina | daptomicina 10 a 12 mg/kg com ampicilina, ertapenem, ceftarolina ou fosfomicina | igual |
| Grupo HACEK | ceftriaxona 2 g/dia, 4 semanas | 6 semanas |
| Candida | equinocandina em dose alta ou anfotericina B lipossómica, com ou sem flucitosina; cirurgia; supressão prolongada com azol | igual |
- No estafilococo sensível com alergia não imediata à penicilina, cefazolina; a vancomicina é inferior aos beta-lactâmicos e fica para quando estes não se podem dar.
- A associação ampicilina com ceftriaxona no E. faecalis poupa o rim e funciona mesmo com resistência de alto nível à gentamicina; não serve para o E. faecium.
Hemoculturas negativas
| agente | tratamento |
|---|---|
| Coxiella burnetii | doxiciclina com hidroxicloroquina, mais de 18 meses |
| Bartonella | doxiciclina 4 semanas com gentamicina nas 2 primeiras |
| Brucella | doxiciclina, cotrimoxazol e rifampicina, 3 a 6 meses |
Passagem a via oral ou a tratamento em ambulatório
- Pode considerar-se na endocardite esquerda por estreptococos, E. faecalis, S. aureus ou estafilococos coagulase-negativos, depois de pelo menos 10 dias de antibiótico endovenoso adequado (ou 7 depois da cirurgia), com o doente estável.
- Estabilidade: sem febre há mais de 2 dias, proteína C reativa abaixo de 25% do máximo ou abaixo de 20 mg/L e leucócitos abaixo de 15 × 10⁹/L.
- Ecocardiograma transesofágico antes da mudança, sem abcesso nem nova indicação cirúrgica. Por via oral usam-se dois antibióticos associados.
- Não se faz com agentes de tratamento muito difícil, cirrose Child-Pugh B ou C, embolias cerebrais graves, abcessos extracardíacos grandes por tratar, complicações valvulares ou pós-operatórias graves, nem na endocardite de utilizadores de drogas endovenosas.
Cirurgia
Três indicações: insuficiência cardíaca, infeção não controlada e prevenção de embolia. O momento classifica-se em emergente (nas primeiras 24 horas, seja qual for a duração do antibiótico), urgente (em 3 a 5 dias) e não urgente (no mesmo internamento).
- Insuficiência cardíaca: edema pulmonar refratário ou choque por regurgitação aguda grave, obstrução ou fístula, emergente; insuficiência cardíaca ou má tolerância hemodinâmica, urgente. É a indicação mais frequente.
- Infeção não controlada: abcesso, pseudoaneurisma, fístula, vegetação a crescer, deiscência de prótese ou bloqueio auriculoventricular novo; hemoculturas positivas mais de 1 semana ou sépsis persistente, afastados outros focos; fungos ou multirresistentes; prótese infetada por S. aureus ou Gram-negativo não HACEK.
- Embolia: vegetação de 10 mm ou mais que persiste depois de uma embolia sob antibiótico adequado, ou com outra indicação cirúrgica; pode ponderar-se com vegetação de 10 mm ou mais isolada e risco cirúrgico baixo. O risco embólico é máximo nos primeiros dias, pelo que o benefício da cirurgia também.
- Prótese precoce, nos primeiros 6 meses depois da cirurgia valvular: reoperação com nova prótese e desbridamento completo.
Depois de uma complicação neurológica
- Acidente isquémico transitório: opera-se sem demora.
- Enfarte cerebral isquémico: não se adia a cirurgia indicada por insuficiência cardíaca, infeção não controlada, abcesso ou risco embólico alto, desde que não haja coma e a TC ou RM excluam hemorragia.
- Hemorragia intracraniana: adiar mais de 1 mês, se possível, com reavaliação frequente; as micro-hemorragias da RM não atrasam a cirurgia.
Dispositivos eletrónicos cardíacos
- Extração completa do sistema, sem demora, por via percutânea num centro com experiência; o antibiótico sozinho não chega enquanto o material fica.
- Reimplantação noutro local, depois de hemoculturas negativas durante pelo menos 72 horas se não havia vegetações, ou 2 semanas se havia.
Antitrombóticos
- A endocardite, por si, não é indicação para anticoagular nem para antiagregar.
- Trombólise contraindicada no AVC da endocardite; a trombectomia mecânica pode considerar-se.
- Quem já estava anticoagulado mantém-se, salvo contraindicação. Suspende-se perante hemorragia major, incluindo intracraniana. Sem AVC e com cirurgia provável (S. aureus, por exemplo), passa-se o anticoagulante oral a heparina não fracionada.
Seguimento durante o tratamento
- Hemoculturas repetidas até negativarem, diariamente no S. aureus; hemoculturas ainda positivas às 48 a 72 horas associam-se a maior mortalidade.
- Gentamicina e vancomicina com doseamento e vigilância da função renal (gentamicina: vale abaixo de 1 mg/L, uma vez por semana).
- Eletrocardiograma seriado: bloqueio auriculoventricular novo sugere abcesso do anel.
- Ecocardiograma de novo perante sopro novo, embolia, febre ou bacteriemia persistentes, insuficiência cardíaca ou bloqueio; e no fim do tratamento nos doentes não operados.
- Febre que persiste mais de 7 dias: procurar abcesso perivalvular, abcesso esplénico ou renal, embolia, cateter infetado; pensar também em febre medicamentosa.
Referências
- Delgado V, Ajmone Marsan N, de Waha S, Bonaros N, Brida M, Burri H, et al. 2023 ESC Guidelines for the management of endocarditis. Eur Heart J. 2023;44(39):3948-4042.
- Fowler VG, Durack DT, Selton-Suty C, Athan E, Bayer AS, Chamis AL, et al. The 2023 Duke-International Society for Cardiovascular Infectious Diseases criteria for infective endocarditis: updating the modified Duke criteria. Clin Infect Dis. 2023;77(4):518-26.
- Cosgrove SE, Karchmer AW. Infective endocarditis. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022. p. 1023-35.
- Wessels MR. Streptococcal infections. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022.
21 perguntas sobre Endocardite infeciosa
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar