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Endocardite infeciosa

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 21 perguntas neste tema

Em resumo

A endocardite infeciosa é a infeção do endocárdio, quase sempre de uma válvula, e a sua lesão é a vegetação: uma massa de plaquetas, fibrina e microrganismos, sem vasos, que destrói a válvula, se desfaz em êmbolos e lança bactérias no sangue de forma contínua. É rara, com cerca de 14 casos por 100 000 habitantes por ano, mas mata 15 a 30% dos doentes durante o internamento, uma proporção que pouco mudou em vinte anos.

O doente típico já não é o jovem com cardiopatia reumática. Hoje são o idoso com valvulopatia degenerativa, o portador de prótese valvular ou de pacemaker, o doente em hemodiálise ou com cateter venoso e o utilizador de drogas endovenosas, e o Staphylococcus aureus passou a ser o agente mais frequente, à frente dos estreptococos orais.

Apresenta-se como febre, quase sempre com sopro, às vezes só como sépsis sem foco ou como uma complicação à distância, em particular um acidente vascular cerebral. O diagnóstico junta hemoculturas colhidas antes de qualquer antibiótico e imagem, primeiro o ecocardiograma, transtorácico e depois transesofágico, e, quando este não chega, a tomografia computorizada cardíaca e a tomografia por emissão de positrões; os critérios de Duke revistos em 2023 dão-lhe forma.

O tratamento é antibiótico bactericida endovenoso durante 2 a 6 semanas na válvula nativa e 6 na prótese, contadas a partir da primeira hemocultura negativa, escolhido pelo agente, e cirurgia quando há insuficiência cardíaca, infeção que o antibiótico não controla ou risco alto de embolia, com um tempo que se mede em horas ou dias. A profilaxia antibiótica ficou reservada aos doentes de alto risco antes de procedimentos dentários invasivos; a higiene oral protege mais.

O que não se pode falhar: dar antibiótico a uma febre sem foco num valvulopata sem colher hemoculturas, aceitar um ecocardiograma transtorácico normal como exclusão, e deixar passar a janela da cirurgia quando a indicação existe.

Da lesão endotelial à vegetação

O endotélio valvular intacto resiste à maior parte das bactérias. A vegetação forma-se em quatro passos:

  1. Lesão do endotélio, no ponto onde bate um jato de alta velocidade ou no lado de baixa pressão de uma lesão estrutural. As situações que mais o fazem são a insuficiência mitral, a estenose e a insuficiência aórticas, a comunicação interventricular e as cardiopatias congénitas complexas.
  2. Trombo estéril de plaquetas e fibrina sobre o endotélio exposto, a chamada endocardite trombótica não bacteriana. Também aparece nos estados de hipercoagulabilidade: é a endocardite marântica das neoplasias e a de Libman-Sacks do lúpus e da síndrome antifosfolipídica.
  3. Aderência de bactérias trazidas por uma bacteriemia transitória, através de adesinas de superfície. O S. aureus adere também ao endotélio intacto, com a ajuda do fator de von Willebrand e de proteínas que se ligam à fibronectina, e por isso infeta válvulas previamente normais.
  4. Vegetação infetada: as bactérias multiplicam-se, atraem mais plaquetas e fibrina e ficam em densidades muito altas; as das camadas profundas estão quase paradas metabolicamente e toleram o antibiótico.

O que a vegetação explica

  • Antibiótico bactericida, em dose alta e durante semanas: não há vasos que tragam fagócitos, e as bactérias em repouso só morrem com exposição prolongada.
  • Bacteriemia contínua: a superfície da vegetação liberta bactérias para o sangue o tempo todo, pelo que as hemoculturas não precisam de picos febris.
  • Embolia: fragmentos que se soltam causam enfartes e abcessos à distância.
  • Fenómenos imunológicos: imunocomplexos circulantes dão glomerulonefrite, nódulos de Osler e manchas de Roth.

Portas de entrada

portaagente típico
Cavidade oralestreptococos orais (grupo viridans)
Pele, cateteres, injeção de drogasS. aureus, estafilococos coagulase-negativos
Vias respiratórias superioresgrupo HACEK
Tubo digestivoStreptococcus gallolyticus (antes S. bovis)
Aparelho geniturinárioenterococos

A escovagem, a mastigação e o fio dentário causam bacteriemias pequenas mas diárias, que no conjunto pesam mais do que as de um tratamento dentário pontual. É a base para restringir a profilaxia antibiótica.

Fatores de risco

cardíacosnão cardíacos
Endocardite préviaCateter venoso central
Prótese valvularUso de drogas endovenosas
ValvulopatiaImunossupressão
Dispositivo eletrónico cardíaco transvenosoProcedimento dentário ou cirúrgico recente
Cardiopatia congénitaInternamento recente, hemodiálise

Agentes

agentecontextocomportamento
Staphylococcus aureuso mais frequente (cerca de 31% numa grande coorte internacional); cuidados de saúde, drogas endovenosas, cateteresaguda, destrutiva, emboliza, abcessos
Estreptococos oraiscerca de 17%; válvula já lesadasubaguda, respondem bem à penicilina
Streptococcus gallolyticusorigem no cólonassociado a pólipos e carcinoma do cólon
Enterococos (90% Enterococcus faecalis)idoso, porta urinária ou digestiva, cuidados de saúdesubaguda, exigem associação de dois fármacos
Estafilococos coagulase-negativoscerca de 11%; prótese precoce e dispositivosindolentes mas destroem o anel
Grupo HACEKflora da orofaringeGram-negativos exigentes, de crescimento lento
Gram-negativos não HACEKraros (menos de 2%)graves, cirurgia precoce
Fungos (Candida, Aspergillus)prótese, drogas endovenosas, imunodeprimidosvegetações grandes, mortalidade acima de 50%

Hemoculturas negativas

  • 5 a 15% dos casos. Em um terço a metade a causa é antibiótico dado antes das colheitas.
  • O resto são agentes que não crescem nos meios habituais: Coxiella burnetii (febre Q, com predileção pelas próteses), Bartonella, Brucella, Tropheryma whipplei, Granulicatella e Abiotrophia, grupo HACEK, fungos (Aspergillus).
  • Imitam-na o mixoma auricular, a endocardite marântica e a síndrome antifosfolipídica.

Três pilares: suspeição clínica, microbiologia e imagem de lesão cardíaca.

Hemoculturas

  • Três conjuntos, com 30 minutos de intervalo, antes do antibiótico, cada um com 10 mL de sangue em frasco aeróbio e anaeróbio, de veia periférica e não do cateter.
  • A bacteriemia é contínua: não se espera pelo pico febril, e quase todas as colheitas saem positivas. Uma hemocultura positiva isolada deve ler-se com cautela.
  • No doente estável, com quadro subagudo, sobretudo se fez antibiótico nas 2 semanas anteriores, adia-se o antibiótico empírico para colher mais hemoculturas. Com sépsis ou instabilidade hemodinâmica começa logo a seguir aos três conjuntos.
  • Hemoculturas negativas às 48 horas: falar com o microbiologista. Serologias para Coxiella burnetii, Bartonella, Brucella, Legionella, Mycoplasma e Aspergillus, e técnicas moleculares (reação em cadeia da polimerase específica no sangue; sequenciação do gene 16S do ARN ribossómico no tecido valvular ou no êmbolo).
  • Sem agente depois de tudo isto: anticorpos antinucleares e antifosfolipídicos, para a endocardite não infeciosa.

Ecocardiograma

  • Transtorácico primeiro, logo que haja suspeita; o atraso aumenta a destruição valvular, as embolias e a necessidade de cirurgia.
  • Transesofágico recomendado em quase todos: com transtorácico negativo ou inconclusivo e suspeita que se mantém, na prótese e no dispositivo intracardíaco, e mesmo com transtorácico positivo, para procurar complicações. A exceção é a endocardite isolada da tricúspide nativa com transtorácico de boa qualidade e inequívoco.
  • Repete-se em 5 a 7 dias quando o primeiro exame é negativo ou duvidoso e a suspeita se mantém.
  • Procura: vegetação (o tamanho é o comprimento máximo), abcesso, pseudoaneurisma, fístula, perfuração, deiscência de prótese.
  • Deve pedir-se ecocardiograma nas bacteriemias por S. aureus, E. faecalis e alguns estreptococos.

Outros exames de imagem

examequando
Tomografia computorizada (TC) cardíacaendocardite possível de válvula nativa ou de prótese; abcesso ou pseudoaneurisma com ecocardiograma inconclusivo
Tomografia por emissão de positrões com fluorodesoxiglicose (PET-TC)endocardite possível de prótese (sensibilidade 86%, especificidade 84%); pouco sensível na válvula nativa (cerca de 31%)
Cintigrafia com leucócitos marcadosprótese, quando não há PET-TC
RM cerebral, TC ou PET-TC de corpo inteiroembolias e focos metastáticos, que acrescentam critérios minor

Critérios de Duke-ISCVID (2023)

A revisão de 2023 da Sociedade Internacional de Doenças Infeciosas Cardiovasculares (ISCVID) substitui os critérios de Duke modificados de 2000.

critérios major
Microbiológicoagente típico em 2 ou mais conjuntos de hemoculturas separados; agente atípico em 3 ou mais; reação em cadeia da polimerase positiva no sangue para Coxiella, Bartonella ou Tropheryma whipplei; Coxiella numa só hemocultura ou IgG antifase I acima de 1:800; IgG para Bartonella de 1:800 ou mais
Imagemno ecocardiograma ou na TC cardíaca: vegetação, perfuração, aneurisma do folheto, abcesso, pseudoaneurisma, fístula, regurgitação nova significativa ou deiscência nova de prótese; na PET-TC, captação anómala em válvula ou material protésico, com 3 meses ou mais de implantação
Cirúrgicoendocardite vista na inspeção direta durante a cirurgia cardíaca
  • Agentes típicos: S. aureus, Staphylococcus lugdunensis, E. faecalis, todos os estreptococos exceto o pneumococo e o Streptococcus pyogenes, Granulicatella, Abiotrophia, Gemella e grupo HACEK. Com material protésico juntam-se os estafilococos coagulase-negativos, Corynebacterium striatum e jeikeium, Serratia marcescens, Pseudomonas aeruginosa, Cutibacterium acnes, micobactérias não tuberculosas e Candida.
critérios minor
Predisposiçãoendocardite prévia, prótese ou reparação valvular, cardiopatia congénita, regurgitação ou estenose mais do que ligeiras, dispositivo eletrónico endovascular, cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva, drogas endovenosas
Febretemperatura acima de 38,0 °C
Fenómenos vascularesembolia arterial, enfarte pulmonar sético, abcesso cerebral ou esplénico, aneurisma micótico, hemorragia intracraniana, hemorragias conjuntivais, lesões de Janeway, púrpura purulenta
Fenómenos imunológicosfator reumatoide, nódulos de Osler, manchas de Roth, glomerulonefrite por imunocomplexos
Microbiológicohemoculturas positivas que não cumprem o critério major; agente compatível em local estéril
Imagemcaptação na PET-TC nos primeiros 3 meses depois de implantar material protésico
Exame físicoregurgitação nova à auscultação, se não houver ecocardiograma
classificaçãoregra
Definitivapatológica (agente ou endocardite ativa na vegetação, no tecido, na prótese ou num êmbolo); ou clínica: 2 major, 1 major e 3 minor, ou 5 minor
Possível1 major e 1 minor, ou 3 minor
Rejeitadadiagnóstico alternativo firme; sem recidiva com menos de 4 dias de antibiótico; sem evidência na cirurgia ou autópsia com menos de 4 dias de antibiótico; ou não cumpre critérios de possível
  • As recomendações europeias de 2023 usam uma versão próxima: juntam a cintigrafia com leucócitos marcados à imagem major, contam a PET-TC da prótese sem intervalo mínimo desde a cirurgia e classificam como possível 1 major com 1 ou 2 minor, ou 3 a 4 minor. A regra da endocardite definitiva é a mesma.

Diagnóstico diferencial

entidadeo que a distingue
Endocardite trombótica não bacteriana (neoplasia, lúpus, síndrome antifosfolipídica)hemoculturas negativas, doença de base, vegetações junto da linha de coaptação que nunca perfuram o folheto
Mixoma auricularmassa pediculada na aurícula, sem bacteriemia
Excrescências de Lambl, fibroelastomaachados ecocardiográficos sem síndrome infeciosa
Bacteriemia com outro focofoco extracardíaco que explica tudo, ecocardiograma sem lesões
Febre reumática agudapoliartrite migratória, cardite, antecedente de faringite, hemoculturas negativas

Dois planos: medidas gerais para todos os doentes de risco, e antibiótico só para o alto risco antes de procedimentos dentários invasivos.

Medidas gerais (alto risco e risco intermédio)

  • Lavar os dentes duas vezes por dia; higiene oral profissional e revisão pelo menos duas vezes por ano no alto risco e uma vez por ano nos restantes.
  • Higiene rigorosa da pele, desinfeção de feridas, tratamento das dermatoses crónicas.
  • Antibiótico curativo para qualquer foco bacteriano, sem automedicação antibiótica.
  • Desencorajar piercings e tatuagens.
  • Limitar cateteres e procedimentos invasivos e cumprir as regras de cuidado dos cateteres.
  • Educar o doente: perante febre sem causa, dizer ao médico que tem risco de endocardite, para se colherem hemoculturas antes do antibiótico.

Quem é de alto risco (profilaxia recomendada)

  • Endocardite prévia.
  • Prótese valvular cirúrgica e qualquer material de reparação valvular cirúrgica (anéis de anuloplastia, por exemplo).
  • Prótese valvular transcateter em posição aórtica (implantação valvular aórtica transcateter, TAVI) ou pulmonar.
  • Cardiopatia congénita cianótica não tratada, e a tratada com shunts paliativos, tubos ou outras próteses; depois de correção cirúrgica sem defeito residual nem prótese valvular, só nos primeiros 6 meses.
  • Dispositivo de assistência ventricular.
  • Também: deve considerar-se depois de reparação mitral ou tricúspide transcateter; pode considerar-se no transplantado cardíaco.

Risco intermédio (sem profilaxia por rotina)

  • Cardiopatia reumática, valvulopatia degenerativa, anomalias valvulares congénitas incluindo a válvula aórtica bicúspide, dispositivos eletrónicos cardíacos e cardiomiopatia hipertrófica.
  • Pode ponderar-se caso a caso, mas o que se insiste é nas medidas gerais.

Procedimentos dentários que pedem profilaxia no alto risco

  • Extrações, cirurgia oral (periodontal, implantes, biópsias) e procedimentos com manipulação da gengiva ou da região periapical do dente, incluindo destartarização e tratamento de canais.

Esquema: dose única 30 a 60 minutos antes

situaçãoadultocriança
Sem alergiaamoxicilina 2 g oral, ou ampicilina 2 g intramuscular ou endovenosaamoxicilina ou ampicilina 50 mg/kg
Alergia à penicilinacefalexina 2 g oral; azitromicina ou claritromicina 500 mg oral; doxiciclina 100 mg oral; cefazolina ou ceftriaxona 1 g intramuscular ou endovenosacefalexina 50 mg/kg; azitromicina ou claritromicina 15 mg/kg; doxiciclina 2,2 mg/kg abaixo de 45 kg e 100 mg acima; cefazolina ou ceftriaxona 50 mg/kg
  • As cefalosporinas não se usam se a alergia à penicilina foi anafilaxia, angioedema ou urticária.
  • A clindamicina deixou de ser recomendada, pelo risco de efeitos adversos graves, sobretudo infeção por Clostridioides difficile.

Outros procedimentos

  • Procedimentos invasivos respiratórios, digestivos, geniturinários, cutâneos ou musculoesqueléticos: a profilaxia pode considerar-se no alto risco, mas não é de rotina. Em todos, assepsia rigorosa.
  • Implantação de prótese valvular, enxerto vascular, oclusor ou dispositivo eletrónico: profilaxia antibiótica perioperatória.
  • Antes de cirurgia cardíaca eletiva ou de TAVI, rastreio do S. aureus nasal e descolonização dos portadores com mupirocina e clorexidina.
  • Eliminar focos dentários pelo menos 2 semanas antes de implantar uma prótese valvular ou outro material intracardíaco, salvo urgência.

A endocardite complicada (instabilidade, regurgitação grave, prótese, AVC, abcesso, hemoculturas positivas mais de 7 dias, agentes agressivos) trata-se num centro com cirurgia cardíaca e uma equipa de endocardite: cardiologia, cirurgia cardíaca, infeciologia e microbiologia.

Princípios da antibioterapia

  • Bactericida, endovenoso, em doses altas. Duração de 2 a 6 semanas na válvula nativa e 6 na prótese.
  • A duração conta-se do primeiro dia de antibiótico eficaz, ou seja, da primeira hemocultura negativa, e não do dia da cirurgia. Só se recomeça a contagem se a cultura da válvula operada for positiva.
  • Operado de endocardite de válvula nativa e posto uma prótese: continua o esquema da válvula nativa.
  • Aminoglicosídeos: já não se usam na endocardite estafilocócica de válvula nativa, porque não trazem benefício e lesam o rim. Onde entram, é em toma única diária e no máximo 2 semanas.
  • Rifampicina: só quando há material estranho (prótese), acrescentada depois de 3 a 5 dias de antibiótico eficaz, com a bacteriemia já negativa.
  • Daptomicina: em dose alta (10 mg/kg por dia) e sempre associada a outro antibiótico.

Antibiótico empírico

Começa logo que os três conjuntos de hemoculturas estejam colhidos, se o doente estiver séptico ou instável, e muda para o dirigido quando o agente se identifica, habitualmente em 24 a 48 horas.

contextoesquema
Válvula nativa comunitária, ou prótese com mais de 12 mesesampicilina 12 g/dia com ceftriaxona 4 g/dia, ou ampicilina com (flu)cloxacilina 12 g/dia e gentamicina 3 mg/kg/dia; cobrem estafilococo, estreptococo e enterococo
Prótese nos primeiros 12 meses, ou endocardite associada aos cuidados de saúdevancomicina 30 mg/kg/dia ou daptomicina 10 mg/kg/dia, com gentamicina e rifampicina; cobrem estafilococos resistentes à meticilina e enterococos
Válvula nativa ou prótese tardia com alergia à penicilinacefazolina 6 g/dia ou vancomicina, com gentamicina
Utilizador de drogas endovenosascobrir sempre o S. aureus: (flu)cloxacilina, vancomicina ou daptomicina conforme a prevalência local de estirpes resistentes à meticilina (MRSA), com gentamicina
  • A gentamicina do esquema empírico é temporária: se o agente for um estafilococo e a válvula nativa, sai quando chega a identificação.

Antibiótico dirigido

agenteválvula nativaprótese
Estreptococos orais e S. gallolyticus sensíveis à penicilinapenicilina G, amoxicilina ou ceftriaxona 2 g/dia, 4 semanas; 2 semanas com gentamicina só na forma não complicada com função renal normalo mesmo durante 6 semanas, sem o esquema curto
Estreptococos com sensibilidade reduzida ou resistentes à penicilinao mesmo em dose mais alta, 4 semanas, com gentamicina nas 2 primeiras6 semanas, com gentamicina nas 2 primeiras
Estafilococo sensível à meticilina(flu)cloxacilina 12 g/dia ou cefazolina 6 g/dia, 4 a 6 semanas, sem aminoglicosídeoo mesmo com rifampicina durante pelo menos 6 semanas e gentamicina nas 2 primeiras
Estafilococo resistente à meticilinavancomicina, 4 a 6 semanas; alternativa: daptomicina com cloxacilina, ceftarolina ou fosfomicinavancomicina com rifampicina durante pelo menos 6 semanas e gentamicina nas 2 primeiras
Enterococo sem resistência de alto nível aos aminoglicosídeosampicilina ou amoxicilina com ceftriaxona durante 6 semanas, ou com gentamicina durante 2 semanasigual
Enterococo com resistência de alto nível aos aminoglicosídeosampicilina ou amoxicilina com ceftriaxona, 6 semanasigual
E. faecium resistente aos beta-lactâmicosvancomicina 6 semanas com gentamicina nas 2 primeirasigual
Enterococo resistente à vancomicinadaptomicina 10 a 12 mg/kg com ampicilina, ertapenem, ceftarolina ou fosfomicinaigual
Grupo HACEKceftriaxona 2 g/dia, 4 semanas6 semanas
Candidaequinocandina em dose alta ou anfotericina B lipossómica, com ou sem flucitosina; cirurgia; supressão prolongada com azoligual
  • No estafilococo sensível com alergia não imediata à penicilina, cefazolina; a vancomicina é inferior aos beta-lactâmicos e fica para quando estes não se podem dar.
  • A associação ampicilina com ceftriaxona no E. faecalis poupa o rim e funciona mesmo com resistência de alto nível à gentamicina; não serve para o E. faecium.

Hemoculturas negativas

agentetratamento
Coxiella burnetiidoxiciclina com hidroxicloroquina, mais de 18 meses
Bartonelladoxiciclina 4 semanas com gentamicina nas 2 primeiras
Brucelladoxiciclina, cotrimoxazol e rifampicina, 3 a 6 meses

Passagem a via oral ou a tratamento em ambulatório

  • Pode considerar-se na endocardite esquerda por estreptococos, E. faecalis, S. aureus ou estafilococos coagulase-negativos, depois de pelo menos 10 dias de antibiótico endovenoso adequado (ou 7 depois da cirurgia), com o doente estável.
  • Estabilidade: sem febre há mais de 2 dias, proteína C reativa abaixo de 25% do máximo ou abaixo de 20 mg/L e leucócitos abaixo de 15 × 10⁹/L.
  • Ecocardiograma transesofágico antes da mudança, sem abcesso nem nova indicação cirúrgica. Por via oral usam-se dois antibióticos associados.
  • Não se faz com agentes de tratamento muito difícil, cirrose Child-Pugh B ou C, embolias cerebrais graves, abcessos extracardíacos grandes por tratar, complicações valvulares ou pós-operatórias graves, nem na endocardite de utilizadores de drogas endovenosas.

Cirurgia

Três indicações: insuficiência cardíaca, infeção não controlada e prevenção de embolia. O momento classifica-se em emergente (nas primeiras 24 horas, seja qual for a duração do antibiótico), urgente (em 3 a 5 dias) e não urgente (no mesmo internamento).

  • Insuficiência cardíaca: edema pulmonar refratário ou choque por regurgitação aguda grave, obstrução ou fístula, emergente; insuficiência cardíaca ou má tolerância hemodinâmica, urgente. É a indicação mais frequente.
  • Infeção não controlada: abcesso, pseudoaneurisma, fístula, vegetação a crescer, deiscência de prótese ou bloqueio auriculoventricular novo; hemoculturas positivas mais de 1 semana ou sépsis persistente, afastados outros focos; fungos ou multirresistentes; prótese infetada por S. aureus ou Gram-negativo não HACEK.
  • Embolia: vegetação de 10 mm ou mais que persiste depois de uma embolia sob antibiótico adequado, ou com outra indicação cirúrgica; pode ponderar-se com vegetação de 10 mm ou mais isolada e risco cirúrgico baixo. O risco embólico é máximo nos primeiros dias, pelo que o benefício da cirurgia também.
  • Prótese precoce, nos primeiros 6 meses depois da cirurgia valvular: reoperação com nova prótese e desbridamento completo.

Depois de uma complicação neurológica

  • Acidente isquémico transitório: opera-se sem demora.
  • Enfarte cerebral isquémico: não se adia a cirurgia indicada por insuficiência cardíaca, infeção não controlada, abcesso ou risco embólico alto, desde que não haja coma e a TC ou RM excluam hemorragia.
  • Hemorragia intracraniana: adiar mais de 1 mês, se possível, com reavaliação frequente; as micro-hemorragias da RM não atrasam a cirurgia.

Dispositivos eletrónicos cardíacos

  • Extração completa do sistema, sem demora, por via percutânea num centro com experiência; o antibiótico sozinho não chega enquanto o material fica.
  • Reimplantação noutro local, depois de hemoculturas negativas durante pelo menos 72 horas se não havia vegetações, ou 2 semanas se havia.

Antitrombóticos

  • A endocardite, por si, não é indicação para anticoagular nem para antiagregar.
  • Trombólise contraindicada no AVC da endocardite; a trombectomia mecânica pode considerar-se.
  • Quem já estava anticoagulado mantém-se, salvo contraindicação. Suspende-se perante hemorragia major, incluindo intracraniana. Sem AVC e com cirurgia provável (S. aureus, por exemplo), passa-se o anticoagulante oral a heparina não fracionada.

Seguimento durante o tratamento

  • Hemoculturas repetidas até negativarem, diariamente no S. aureus; hemoculturas ainda positivas às 48 a 72 horas associam-se a maior mortalidade.
  • Gentamicina e vancomicina com doseamento e vigilância da função renal (gentamicina: vale abaixo de 1 mg/L, uma vez por semana).
  • Eletrocardiograma seriado: bloqueio auriculoventricular novo sugere abcesso do anel.
  • Ecocardiograma de novo perante sopro novo, embolia, febre ou bacteriemia persistentes, insuficiência cardíaca ou bloqueio; e no fim do tratamento nos doentes não operados.
  • Febre que persiste mais de 7 dias: procurar abcesso perivalvular, abcesso esplénico ou renal, embolia, cateter infetado; pensar também em febre medicamentosa.
Indicações e momento da cirurgia na endocardite esquerda Válvula nativa ou prótese, aórtica ou mitral · recomendações europeias de 2023 Emergente: nas primeiras 24 horas Urgente: em 3 a 5 dias Pode ponderar-se 1. Insuficiência cardíaca Edema pulmonar refratário ou choque cardiogénico por regurgitação aguda grave, obstrução ou fístula Emergente, até 24 horas Insuficiência cardíaca por regurgitação ou obstrução graves, ou má tolerância hemodinâmica no ecocardiograma Urgente, em 3 a 5 dias 2. Infeção não controlada Abcesso, pseudoaneurisma, fístula, vegetação a crescer, deiscência de prótese ou bloqueio auriculoventricular novo Urgente, em 3 a 5 dias Hemoculturas positivas mais de 1 semana ou sépsis que persiste, com os focos à distância já controlados Urgente, em 3 a 5 dias Prótese infetada por Staphylococcus aureus ou por Gram-negativo não HACEK Urgente, em 3 a 5 dias Fungos ou bactérias multirresistentes Urgente ou no internamento 3. Prevenção de embolia Vegetação de 10 mm ou mais que persiste depois de uma embolia sob antibiótico adequado Urgente, em 3 a 5 dias Vegetação de 10 mm ou mais com outra indicação cirúrgica Urgente, em 3 a 5 dias Vegetação de 10 mm ou mais, sem embolia nem disfunção valvular grave, com risco cirúrgico baixo Pode ponderar-se cirurgia urgente Depois de uma complicação neurológica, com indicação cirúrgica Acidente isquémico transitório Operar sem demora. Enfarte cerebral isquémico Não adiar, desde que não haja coma e a TC ou a RM excluam hemorragia. Hemorragia intracraniana Adiar mais de 1 mês, se possível, reavaliando a clínica e a imagem.
Esquema InovaQB, a partir das recomendações europeias de 2023 para a endocardite.

Referências

  1. Delgado V, Ajmone Marsan N, de Waha S, Bonaros N, Brida M, Burri H, et al. 2023 ESC Guidelines for the management of endocarditis. Eur Heart J. 2023;44(39):3948-4042.
  2. Fowler VG, Durack DT, Selton-Suty C, Athan E, Bayer AS, Chamis AL, et al. The 2023 Duke-International Society for Cardiovascular Infectious Diseases criteria for infective endocarditis: updating the modified Duke criteria. Clin Infect Dis. 2023;77(4):518-26.
  3. Cosgrove SE, Karchmer AW. Infective endocarditis. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022. p. 1023-35.
  4. Wessels MR. Streptococcal infections. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022.

21 perguntas sobre Endocardite infeciosa

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