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Doenças sexualmente transmitidas

Matriz PNA:D · DiagnósticoP · PrevençãoGD · Gestão

Atualizado em 19 de julho de 2026 · 8 perguntas neste tema

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Em resumo

As infeções sexualmente transmissíveis (IST) são um dos poucos capítulos da infeciologia em que o diagnóstico começa quase sempre por um síndrome — corrimento, úlcera, verruga, proctite — e não por um agente. Para a PNA (relevância B) o que se testa é precisamente essa lógica sindrómica aplicada aos dois sexos, com as competências de diagnóstico, prevenção e gestão da matriz. Domina quatro coisas: distinguir uretrite/cervicite gonocócica de não gonocócica e saber que a infeção extragenital (faríngea e retal) é maioritariamente assintomática e escapa se só se testar a urina; reconhecer a úlcera genital pelo trio dor/consistência/adenopatia; conhecer a terapêutica atual à luz da resistência (ceftriaxona em monoterapia na gonorreia, doxiciclina preferida à azitromicina na clamídia); e nunca esquecer a camada de saúde pública — testar sempre para VIH e sífilis, notificar e tratar o parceiro, vacinar. As vulvovaginites na ótica ginecológica, a sífilis e o VIH têm capítulos próprios e são aqui apenas referenciados.

O diagnóstico das IST assenta hoje em testes de amplificação de ácidos nucleicos (TAAN/NAAT), que deslocaram a microscopia e a cultura para nichos específicos. Compreender que amostra colher, de que local e quando vale mais, no exame e na clínica, do que memorizar sensibilidades.

O TAAN e as suas amostras

O TAAN deteta ADN ou ARN do agente com sensibilidade muito superior à cultura, sobretudo para C. trachomatis, e permite amostras não invasivas.

SituaçãoAmostra de eleição
Homem, uretritePrimeiro jato de urina (não a urina do meio)
MulherExsudado vaginal (colhido pela doente ou pelo clínico) — superior à urina
Prática oral recetivaExsudado faríngeo
Prática anal recetivaExsudado retal

Dois detalhes que geram erro sistemático:

  1. No homem colhe-se o primeiro jato de urina, idealmente com pelo menos uma hora desde a última micção, porque o rendimento depende do arrastamento das células uretrais.
  2. Na mulher, a urina tem sensibilidade inferior ao exsudado vaginal — a amostra vaginal autocolhida é tão boa como a colhida pelo clínico e melhora a adesão.

Ponto muito testado — rastreio extragenital. A infeção faríngea e retal por gonococo e clamídia é maioritariamente assintomática e, em quem tem essas práticas, é frequentemente a única localização positiva. Testar apenas a urina falha uma proporção elevada destas infeções. Em HSH e em qualquer pessoa com sexo oral ou anal recetivo, o rastreio tem de ser multi-local — urina e faringe e reto. É um erro de omissão clássico em vinhetas de exame.


Onde a microscopia e a cultura ainda mandam

  • Coloração de Gram do exsudado uretral no homem sintomático: diplococos de Gram negativo intracelulares têm elevada sensibilidade e especificidade para gonorreia na uretrite masculina — permite decisão terapêutica imediata. No colo, faringe e reto o Gram é pouco fiável e não deve ser usado para excluir gonorreia.
  • Uretrite não gonocócica define-se pela evidência de inflamação (leucócitos polimorfonucleares no exsudado ou no primeiro jato de urina) sem diplococos intracelulares.
  • Cultura de N. gonorrhoeae — insubstituível quando se quer teste de sensibilidade aos antimicrobianos: falência terapêutica, suspeita de estirpe resistente, infeção faríngea persistente, vigilância epidemiológica. Exige meios seletivos (Thayer-Martin) e transporte rápido, porque o gonococo é frágil e sensível ao arrefecimento.

Diagnóstico por síndrome

Uretrite e cervicite

TAAN combinado para gonococo e clamídia em todas as amostras relevantes. Pesquisa de T. vaginalis por TAAN (muito superior ao exame a fresco, cuja sensibilidade é baixa). M. genitalium por TAAN: reservar para UNG persistente ou recorrente, cervicite persistente e DIP, e — quando disponível — pedir teste de resistência aos macrólidos (mutações na região 23S do ARNr), porque é isso que decide o esquema.

Úlcera genital

TesteIndicação
PCR para HSV da base da lesãoTeste de eleição para herpes; substituiu a cultura viral e o esfregaço de Tzanck
Serologia HSV tipo-específica (glicoproteína G)Papel limitado; útil em úlcera recorrente com PCR negativa ou aconselhamento de casal serodiscordante. Não se rastreia herpes na população geral
Serologia de sífilis (treponémica + não treponémica)Obrigatória em toda a úlcera genital — ver capítulo de sífilis
TAAN para C. trachomatis com genotipagem L1-L3Suspeita de LGV (úlcera + adenopatia com sulco, proctite hemorrágica em HSH)
Cultura em meio específico / PCR para H. ducreyiCancroide — pouco disponível; diagnóstico frequentemente clínico e de exclusão
Biópsia ou esfregaço com corpos de DonovanDonovanose
Teste para VIHSempre

O esfregaço de Tzanck aparece ainda em bancos de perguntas: mostra células multinucleadas gigantes, mas não distingue HSV de VZV e tem baixa sensibilidade — não é o teste de eleição.

Verrugas anogenitais

Diagnóstico clínico. Não há indicação para tipagem de HPV nas verrugas. Biópsia se: lesão atípica, pigmentada, indurada, ulcerada, hemorrágica, fixa a planos profundos, se há imunossupressão, ou se não responde ao tratamento — para excluir neoplasia intraepitelial ou carcinoma verrucoso. A aplicação de ácido acético ( "teste do acetobranco") não é recomendada como rastreio de rotina pela baixa especificidade.

Proctite

Anuscopia quando possível, com TAAN retal para gonococo e clamídia com reflexo para genotipagem de LGV se positivo em HSH, PCR para HSV e serologia de sífilis. A histologia da proctite por LGV pode mostrar granulomas e mimetizar doença de Crohn — armadilha diagnóstica com consequências (imunossupressão indevida).

Infeção gonocócica disseminada

Colher hemoculturas e líquido sinovial (Gram, cultura, contagem celular) antes da primeira dose de antibiótico — depois de administrada perde-se o antibiograma, que neste agente é insubstituível — juntamente com TAAN de todos os locais mucosos (genital, faríngeo e retal). Perante monoartrite aguda purulenta, a artrocentese é imediata e o quadro trata-se como artrite sética: a antibioterapia não deve ser adiada para além da colheita e a drenagem articular é urgente, porque a destruição da cartilagem começa em horas. A rentabilidade das hemoculturas e da cultura sinovial na forma artrite-dermatite é modesta, ao passo que os locais mucosos são frequentemente positivos mesmo em doente sem queixas genitais. Este é o padrão que explica muitas vinhetas: jovem com poliartralgias migratórias e pústulas, hemoculturas negativas, TAAN cervical positivo. Complementar com CH50 se houver recorrência ou história familiar.


Cronologia dos testes e janelas

  • Não repetir TAAN antes de 3-4 semanas após tratamento com intenção de comprovar cura: pode detetar ácido nucleico residual de organismos não viáveis e gerar um falso positivo. Esta é a razão técnica pela qual o "teste de cura" por TAAN precoce é desaconselhado.
  • Reteste às 3 meses após tratamento de clamídia ou gonorreia — não é teste de cura, é deteção de reinfeção, que é frequente.
  • Períodos de janela serológica: repetir serologia de VIH e de sífilis após uma exposição de risco recente, mesmo que a primeira colheita seja negativa; a extensão da janela depende do teste usado (os testes combinados antigénio/anticorpo de 4.ª geração encurtam-na substancialmente).

Regra de ouro do capítulo: perante qualquer IST diagnosticada, testar sempre para VIH e sífilis, e ponderar serologias de hepatite B e C. É a pergunta "qual o passo seguinte mais adequado" que mais vezes tem esta resposta.

IST por síndrome: o que pedir e o que tratar Organizar por síndrome, não por agente: o mesmo agente dá quadros diferentes conforme o local inoculado. 1 URETRITE / CERVICITE Gonocócica N. gonorrhoeae — diplococo de Gram negativo intracelular Incubação 2-7 dias; corrimento purulento e abundante Não gonocócica (UNG) C. trachomatis — a mais frequente, muitas vezes assintomática M. genitalium — resistência crescente aos macrólidos; T. vaginalis ! Testar por TAAN também nos locais EXTRAGENITAIS Faringe e reto em quem tem sexo oral ou anal recetivo. A infeção extragenital é maioritariamente assintomática e escapa se só se testar a urina. 2 ÚLCERA GENITAL Entidade Úlcera Adenopatia / pista Herpes genital HSV-2 / HSV-1 Vesículas agrupadas, múltiplas e DOLOROSAS; recorrente Bilateral, dolorosa na primo-infeção Sífilis primária T. pallidum Cancro DURO, único e INDOLOR, de fundo limpo Dura e indolor → ver capítulo Sífilis Cancroide H. ducreyi Úlcera MOLE, bordo irregular, muito DOLOROSA, fundo sujo Unilateral, dolorosa (bubão, pode fistulizar) Linfogranuloma venéreo (L1-L3) Úlcera fugaz; proctite hemorrágica em HSH Volumosa, com SINAL DO SULCO 3 PROCTITE EM HSH Gonococo, clamídia (incluindo LGV), HSV e sífilis. Pedir TAAN retal com genotipagem L1-L3. Na histologia, o LGV pode mimetizar doença de Crohn — armadilha diagnóstica. Saúde pública — perante QUALQUER IST diagnosticada 1. Testar sempre VIH e sífilis (± hepatites B e C) 2. Notificar e tratar o(s) parceiro(s) — evita reinfeção 3. Abstinência 7 dias após o tratamento e resolução

A prevenção das IST é o domínio onde o médico tem mais impacto populacional e onde, paradoxalmente, mais falha na prática. Organiza-se em cinco camadas: barreira, rastreio de assintomáticos, vacinação, profilaxia farmacológica e intervenção sobre o parceiro.

1. Barreira e aconselhamento

O preservativo (masculino ou interno) usado de forma consistente e correta reduz de forma substancial a transmissão de gonorreia, clamídia, tricomonas e VIH. A proteção é menor para as infeções transmitidas por contacto pele-com-pele que ultrapassa a área coberta — HPV, HSV e sífilis — o que deve ser explicitado ao doente para evitar falsa segurança. Os espermicidas com nonoxinol-9 não previnem IST e podem, por irritação da mucosa, aumentar o risco de aquisição de VIH; não devem ser recomendados com esse fim.

O aconselhamento eficaz é breve, específico e sem juízo de valor: número e tipo de parceiros, práticas (oral, vaginal, anal; insertivo, recetivo), uso de preservativo, consumo de substâncias associado ao sexo, estado vacinal e data do último rastreio. É esta anamnese sexual que determina quais os locais a testar — sem ela, o rastreio multi-local não acontece.


2. Rastreio de assintomáticos

A justificação do rastreio é fisiopatológica: a clamídia é assintomática na maioria das mulheres e, se não tratada, ascende ao trato genital superior e produz lesão tubária irreversível. Rastrear é a única forma de interromper esta cadeia.

PopulaçãoO quêPeriodicidade (CDC 2021, adaptado)
Mulheres sexualmente ativas <25 anosClamídia e gonorreiaAnual
Mulheres ≥25 anos com fatores de risco (novo parceiro, múltiplos parceiros, parceiro com IST)Clamídia e gonorreiaAnual enquanto o risco persistir
GrávidasClamídia, gonorreia, sífilis, VIH, hepatite B1.º trimestre / 1.ª consulta; em Portugal repetem-se VDRL e anticorpos VIH 1/2 às 32-34 semanas em TODAS as grávidas, independentemente do risco, e AgHBs se não imune (o rastreio universal de AgHBs é o do 1.º trimestre) (Programa Nacional para a Vigilância da Gravidez de Baixo Risco); clamídia e gonorreia retestam-se conforme fatores de risco
HSHClamídia e gonorreia multi-local (urina, faringe, reto), sífilis, VIHPelo menos anual; cada 3-6 meses se múltiplos parceiros ou sob PrEP
Pessoas com VIHIST bacterianas, multi-localAnual, mais frequente conforme o risco
Adolescentes e adultos 13-64 anosVIH pelo menos uma vez na vidaRepetir conforme risco

Enquadramento português: em Portugal não existe programa organizado de rastreio da clamídia ou da gonorreia — o rastreio é oportunista, orientado pelas práticas e fatores de risco identificados na anamnese sexual, e as periodicidades do quadro acima seguem orientações internacionais (CDC/IUSTI). Os rastreios verdadeiramente instituídos a nível nacional são o da grávida e o do cancro do colo do útero.

Não há benefício demonstrado no rastreio serológico universal de herpes (baixa especificidade, ansiedade gerada, ausência de intervenção que altere a história natural) nem no rastreio de Ureaplasma ou de M. genitalium em assintomáticos — testar M. genitalium em assintomáticos leva a tratamento desnecessário e alimenta resistência.


3. Vacinação

HPV

A vacinação contra o HPV é a intervenção com maior potencial de prevenção de cancro em toda a área das IST. Em Portugal, a vacina nonavalente integra o Programa Nacional de Vacinação e é administrada aos 10 anos, em duas doses com seis meses de intervalo, a ambos os sexos (raparigas desde 2008; rapazes desde outubro de 2020, coortes nascidas a partir de 2009) — antes do início da atividade sexual, que é quando a resposta imunitária é maior e a exposição ainda não ocorreu. A extensão aos rapazes acrescenta proteção direta contra os cancros do ânus, pénis e orofaringe e contra os condilomas, além da imunidade de grupo.

Pontos a fixar:

  • A vacinação não é terapêutica — não trata infeção nem lesões já existentes.
  • Vacinar não dispensa o rastreio do cancro do colo do útero (remetido para o capítulo respetivo).
  • Desde 2026, o PNV alargou o acesso gratuito a homens e mulheres até aos 26 anos (Norma DGS n.º 002/2026), permitindo completar o esquema até aos 27 — a vacinação tardia deixou de ser uma oferta excecional a grupos de risco e passou a prestação do programa, ainda que o benefício individual seja menor por exposição prévia provável. O número de doses depende da idade de início e da imunocompetência.

Hepatites B e A

A vacina da hepatite B deve ser assegurada em todos os adultos com IST ou comportamento de risco que não estejam imunizados — está no PNV desde a infância, mas há coortes de adultos não vacinados. A vacina da hepatite A está indicada em HSH e em pessoas que usam drogas, pela transmissão fecal-oral associada a práticas sexuais e pelos surtos documentados nestes grupos.


4. Profilaxia farmacológica

PrEP para o VIH

A profilaxia pré-exposição com antirretrovirais é altamente eficaz na prevenção da aquisição do VIH em pessoas com risco elevado. Tem, no entanto, um efeito colateral epidemiológico bem documentado: a incidência de outras IST bacterianas aumentou nas populações sob PrEP, por redução do uso de preservativo e — em parte — por efeito de deteção, já que o programa de PrEP implica rastreio trimestral sistemático. A leitura correta não é desincentivar a PrEP, mas reconhecer que o programa de PrEP é, ele próprio, uma plataforma de rastreio de IST. Em Portugal, a PrEP está enquadrada pela Norma DGS n.º 001/2024 e é gratuita no SNS, mas a prescrição está reservada à rede hospitalar de referência para o VIH: perante uma pessoa elegível em cuidados de saúde primários, a conduta correta é a referenciação para consulta de PrEP, com rastreio prévio de VIH e de IST, e não a prescrição direta. O VIH tem capítulo próprio.

DOXI-PEP

A doxiciclina pós-exposição consiste na toma de 200 mg de doxiciclina até 72 horas após uma relação sexual sem preservativo. A doxiciclina está contraindicada na gravidez e na amamentação, pelo que a DOXI-PEP não deve ser prescrita a pessoas grávidas ou que possam engravidar sem contraceção eficaz — é uma das razões pelas quais a indicação está limitada a HSH e a mulheres transgénero. Antes de iniciar, testar para VIH e integrar a pessoa num programa de rastreio de IST cada 3-6 meses. Os ensaios mostraram redução importante da incidência de sífilis, clamídia e, de forma menos consistente, de gonorreia (limitada pela resistência do gonococo às tetraciclinas). Os CDC emitiram orientação em 2024 recomendando que seja oferecida a HSH e a mulheres transgénero com IST bacteriana no ano anterior, com aconselhamento partilhado.

As reservas legítimas — e que devem ser mencionadas numa resposta bem construída — são a pressão seletiva sobre o gonococo, o Staphylococcus aureus e a flora comensal, o impacto no microbioma e a ausência de benefício demonstrado noutras populações (nomeadamente em mulheres cisgénero, em que um ensaio não mostrou eficácia, possivelmente por adesão). É por isso uma estratégia recente e ainda em discussão, não uma recomendação universal.


5. Notificação e tratamento do parceiro — o elo que mais falha

Tratar o doente e não tratar o parceiro garante reinfeção. Esta é, de longe, a falha mais frequente na prática real e um alvo previsível de pergunta.

  • Devem ser avaliados e tratados os parceiros sexuais dos últimos 60 dias (ou o último parceiro, se a última relação foi há mais de 60 dias) no caso de gonorreia, clamídia e uretrite não gonocócica. Para a sífilis o intervalo depende do estádio (ver capítulo próprio).
  • O parceiro deve ser tratado mesmo que assintomático e mesmo sem teste disponível — o tratamento epidemiológico é a norma.
  • O tratamento acelerado do parceiro (entregar ao doente índice a medicação ou a prescrição para o parceiro que não pode ser observado) é uma estratégia recomendada pelos CDC nos contextos em que é legalmente permitido, sobretudo para clamídia e gonorreia em parceiros heterossexuais. Não é adequado em HSH, pelo risco elevado de sífilis ou VIH não diagnosticados no parceiro, nem quando há suspeita de violência entre parceiros íntimos. O enquadramento legal varia entre países e deve ser verificado localmente.
  • Abstinência sexual até 7 dias após o tratamento em dose única (ou até completar o esquema de vários dias) e até à resolução dos sintomas, e até que o parceiro tenha também completado o tratamento. As três condições são cumulativas.
  • Notificação obrigatória: em Portugal são doenças de declaração obrigatória a gonorreia, a infeção por Chlamydia trachomatis (incluindo o linfogranuloma venéreo), a sífilis, a sífilis congénita e a infeção VIH. A notificação é clínica e laboratorial e faz-se através do SINAVE (Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica), dirigida à Autoridade de Saúde; a infeção VIH pode ser notificada no SINAVE ou no SI.VIDA. A notificação alimenta a vigilância epidemiológica e não substitui a comunicação ao parceiro.

Fecho de segurança: perante qualquer IST diagnosticada, testar sempre VIH e sífilis, verificar o estado vacinal para HPV e hepatites A e B, notificar no SINAVE se for doença de declaração obrigatória (gonorreia, clamídia/LGV, sífilis, VIH) e discutir PrEP se houver risco continuado.

O tratamento das IST bacterianas mudou substancialmente na última década e a razão é uma só: resistência antimicrobiana. Quem responde com esquemas de há dez anos erra. As três mudanças de paradigma a dominar são a monoterapia com ceftriaxona na gonorreia, a doxiciclina preferida à azitromicina na clamídia e a terapêutica guiada por resistência no M. genitalium.

Gonorreia — a monoterapia e o porquê

A N. gonorrhoeae acumulou resistência sequencialmente às sulfamidas, penicilinas, tetraciclinas e fluoroquinolonas (razão pela qual a ciprofloxacina deixou de ser empírica), restando as cefalosporinas de terceira geração como classe fiável.

Esquema atual (CDC 2021): ceftriaxona 500 mg IM em dose única para pessoas com menos de 150 kg; 1 g se ≥150 kg. A dose subiu em relação aos esquemas anteriores (250 mg) precisamente para cobrir estirpes com sensibilidade diminuída às cefalosporinas.

O ponto conceptual mais testado: a associação sistemática de azitromicina foi abandonada nas orientações dos CDC em 2021 (com base na revisão de 2020). Os motivos são três:

  1. A cobertura empírica dupla deixou de se justificar como estratégia antirresistência, uma vez aumentada a dose de ceftriaxona.
  2. A azitromicina exercia pressão seletiva relevante, com aumento documentado da resistência aos macrólidos — em particular no M. genitalium.
  3. A clamídia, quando não excluída, é hoje coberta com doxiciclina (e não com azitromicina).

Assim: se a coinfeção por clamídia não foi excluída, associa-se doxiciclina 100 mg de 12/12 h durante 7 dias. Se o TAAN excluiu clamídia, ceftriaxona isolada basta. Outras orientações divergem quanto à dose: a OMS, na atualização de 2024, recomenda ceftriaxona 1 g IM em dose única, também em monoterapia, e as guidelines europeias (IUSTI 2020) mantêm posições ligeiramente distintas quanto à dose e à terapêutica dupla — se a vinheta citar uma guideline, seguir essa.

Infeção faríngea é a mais difícil de erradicar (má penetração dos antimicrobianos na mucosa faríngea e possibilidade de transferência de material genético a partir de Neisseria comensais). Por isso: teste de cura na gonorreia faríngea, 7 a 14 dias após o tratamento, preferencialmente por cultura (que permite antibiograma) ou por TAAN.

Alternativas quando a ceftriaxona não é opção (alergia, indisponibilidade) — gentamicina IM associada a azitromicina oral, ou cefixima oral em dose única (menos eficaz, sobretudo na faringe) — devem ser vistas como soluções de recurso, com teste de cura obrigatório.


Clamídia — a doxiciclina passou à frente

Esquema preferido (CDC 2021): doxiciclina 100 mg de 12/12 h, 7 dias. A azitromicina 1 g em dose única passou a alternativa.

A razão é sobretudo a infeção retal: os ensaios mostraram superioridade clara da doxiciclina na erradicação da clamídia retal, e a infeção retal é frequente e assintomática — inclusive em mulheres, por autoinoculação, mesmo sem prática anal recetiva. Como não se testa o reto em todas as doentes, a escolha do fármaco com melhor desempenho retal protege quem não foi testada.

A azitromicina mantém-se preferida quando a adesão a sete dias é improvável e, sobretudo, na gravidez (a doxiciclina está contraindicada).


Mycoplasma genitalium — terapêutica guiada por resistência

É o cenário em que o tratamento empírico falha com mais frequência. O esquema, quando há teste de resistência aos macrólidos disponível:

PerfilEsquema (CDC 2021)
Sensível aos macrólidosDoxiciclina 100 mg 12/12 h 7 dias, seguida de azitromicina 1 g no dia 1 e depois 500 mg/dia nos dias 2-4
Resistente aos macrólidos ou teste indisponívelDoxiciclina 100 mg 12/12 h 7 dias, seguida de moxifloxacina 400 mg/dia 7 dias

A lógica sequencial é deliberada: a doxiciclina reduz a carga bacteriana e aumenta a taxa de erradicação do segundo fármaco, embora raramente erradique sozinha. Recordar que os betalactâmicos são inúteis — o agente não tem parede celular.


Restantes agentes

EntidadeEsquema de referência
Trichomonas vaginalisMulheres: metronidazol 500 mg 12/12 h, 7 dias (o esquema de 2 g em dose única mostrou-se inferior nas mulheres). Homens: metronidazol 2 g em dose única. Tratar sempre o parceiro
Herpes genital, primo-infeçãoAciclovir 400 mg 8/8 h 7-10 dias, ou valaciclovir 1 g 12/12 h 10 dias. Iniciar precocemente; não exigir confirmação laboratorial para começar
Herpes, recorrênciaCurso curto (ex.: valaciclovir 500 mg 12/12 h 3 dias), idealmente iniciado pelo doente no pródromo
Herpes, supressãoTerapêutica diária se ≥6 recorrências/ano, recorrências muito sintomáticas, ou para reduzir a transmissão a parceiro serodiscordante
CancroideAzitromicina 1 g dose única, ou ceftriaxona 250 mg IM dose única
LGVDoxiciclina 100 mg 12/12 h durante 21 dias — a duração longa é a chave da pergunta
DonovanoseAzitromicina em curso prolongado, até epitelização completa (≥3 semanas)
Condilomas acuminadosVer abaixo
Doença inflamatória pélvicaTeste de gravidez (β-hCG) obrigatório antes de iniciar qualquer esquema: um resultado positivo obriga a excluir gravidez ectópica antes de assumir DIP e contraindica a doxiciclina (DIP na gravidez = internamento e antibioterapia IV sem tetraciclinas). Excluída a gravidez: ceftriaxona 500 mg IM + doxiciclina 100 mg 12/12 h 14 dias + metronidazol 500 mg 12/12 h 14 dias
Infeção gonocócica disseminadaCeftriaxona 1 g IV ou IM cada 24 h, hospitalar, após colheita de hemoculturas e de líquido sinovial, com transição para oral guiada por antibiograma; duração ≥7 dias (mais prolongada na endocardite e na meningite) e drenagem articular urgente — artrocentese repetida, artroscopia ou artrotomia — se artrite purulenta, porque a destruição da cartilagem começa em horas

Condilomas — princípios

Nenhum tratamento erradica o HPV; todos removem a lesão visível, e a recorrência é frequente. Escolhe-se entre:

  • Aplicados pelo doente: imiquimod (imunomodulador), podofilotoxina (antimitótico), sinecatequinas.
  • Aplicados pelo clínico: crioterapia, ácido tricloroacético, excisão cirúrgica, eletrocoagulação, laser.

A podofilotoxina e o imiquimod estão contraindicados na gravidez; nesse contexto usam-se ácido tricloroacético, crioterapia ou excisão. A escolha depende do número, dimensão, localização (intra-anal, intrauretral, vaginal) e preferência do doente.


Erros terapêuticos previsíveis (checklist de exame)

  1. Associar azitromicina de rotina à ceftriaxona na gonorreia — abandonado.
  2. Usar ciprofloxacina empírica na gonorreia — resistência elevada; só com antibiograma.
  3. Preferir azitromicina à doxiciclina na clamídia retal — inferior.
  4. Prescrever doxiciclina a uma grávida — ou tratar dor pélvica como DIP sem β-hCG prévio, que é precisamente o passo que evita medicar uma gravidez ectópica.
  5. Tratar M. genitalium com betalactâmico ou com azitromicina isolada.
  6. Esquecer o metronidazol na DIP (cobertura de anaeróbios).
  7. Repetir TAAN demasiado cedo e tratar um falso positivo por ADN residual.
  8. Não tratar o parceiro e ver o doente regressar com "falência terapêutica" que é reinfeção.
  9. Não dar instruções de abstinência (7 dias + resolução dos sintomas + parceiro tratado).
  10. Não pedir VIH e sífilis.

Referências

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  2. Bachmann LH, Barbee LA, Chan P, Reno H, Workowski KA, Hoover K, et al. CDC Clinical Guidelines on the Use of Doxycycline Postexposure Prophylaxis for Bacterial Sexually Transmitted Infection Prevention, United States, 2024. MMWR Recomm Rep. 2024;73(2):1-8.
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  10. Unemo M, Seifert HS, Hook EW 3rd, Hawkes S, Ndowa F, Dillon JR. Gonorrhoea. Nat Rev Dis Primers. 2019;5(1):79.
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