Doenças sexualmente transmitidas
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 15 perguntas neste tema
As infeções sexualmente transmitidas são causadas por bactérias (gonococo, clamídia, Mycoplasma genitalium, Treponema pallidum), vírus (herpes simplex, papilomavírus) e protozoários (Trichomonas vaginalis), mas chegam à consulta em poucas síndromes: corrimento uretral, cervicite, úlcera genital, doença inflamatória pélvica, proctite e verrugas anogenitais. O mesmo agente dá quadros diferentes conforme o local inoculado, e a maioria das infeções da mulher, da faringe e do reto não dá sintomas.
O gonococo e a clamídia causam a maior parte das uretrites e cervicites. O gonococo incuba em poucos dias e dá corrimento purulento; a clamídia é quase sempre silenciosa e é a que mais sobe ao trato genital superior. O Mycoplasma genitalium explica muitas uretrites que persistem depois do tratamento. Na úlcera genital pensa-se primeiro em herpes e em sífilis, que se separam pela dor, pela consistência e pelo gânglio; a sífilis evolui por estadios e confirma-se com um teste treponémico e um não treponémico. O linfogranuloma venéreo apresenta-se sobretudo como proctite hemorrágica em homens que têm sexo com homens.
O diagnóstico faz-se por amplificação de ácidos nucleicos em todos os locais expostos, com o Gram uretral a decidir de imediato no homem com corrimento. O tratamento é curto e conhecido: ceftriaxona 1 g intramuscular na gonorreia, doxiciclina 7 dias na clamídia e 21 no linfogranuloma venéreo, penicilina benzatínica na sífilis, aciclovir ou valaciclovir no herpes, metronidazol na tricomoníase. Faz parte do tratamento testar e tratar os parceiros, cumprir a abstinência e notificar gonorreia, clamídia, sífilis e VIH.
Não se pode falhar o teste de VIH e de sífilis perante qualquer destas infeções, a colheita da faringe e do reto, a gravidez ectópica numa suspeita de doença inflamatória pélvica, a torção testicular no diferencial da epididimite, a neurossífilis num doente com sífilis e queixas visuais ou auditivas, e a sífilis e o herpes na grávida. A prevenção junta o preservativo, a vacina do papilomavírus e da hepatite B, a profilaxia pré-exposição do VIH e, em grupos escolhidos, a doxiciclina pós-exposição.
- Infeções transmitidas sobretudo por contacto sexual, vaginal, anal ou oral, e algumas também da mãe para o filho e pelo sangue.
- Organizam-se por síndrome, porque é assim que se apresentam e porque o tratamento inicial se decide antes de haver resultados.
| síndrome | como se reconhece | agentes principais |
|---|---|---|
| Uretrite | disúria e corrimento; confirma-se com 2 ou mais neutrófilos por campo de imersão no Gram uretral, 10 ou mais leucócitos por campo de grande ampliação no sedimento do primeiro jato, ou esterase leucocitária positiva | gonococo, clamídia, Mycoplasma genitalium, Trichomonas, herpes |
| Cervicite | exsudado endocervical mucopurulento e colo friável, que sangra ao toque | clamídia, gonococo, Mycoplasma genitalium; em cerca de metade não se encontra agente |
| Úlcera genital | lesão erosiva ou ulcerada anogenital | herpes e sífilis; cancroide, linfogranuloma venéreo e donovanose são raros na Europa |
| Doença inflamatória pélvica | dor pélvica com dor à mobilização do colo, uterina ou anexial | gonococo, clamídia, Mycoplasma genitalium, anaeróbios |
| Proctite | dor anorretal, tenesmo, corrimento mucopurulento ou sanguinolento; inflamação limitada aos 10 a 12 cm distais do reto | gonococo, clamídia incluindo o linfogranuloma venéreo, herpes, sífilis |
| Epididimite | dor e tumefação unilaterais do epidídimo | abaixo dos 35 anos, clamídia e gonococo; no mais velho e depois de instrumentação, bactérias urinárias; no sexo anal insertivo, enterobactérias |
| Verrugas anogenitais | pápulas ou vegetações indolores | papilomavírus 6 e 11 em cerca de 90% |
| Vaginite | corrimento, prurido, cheiro | Trichomonas vaginalis; a vaginose bacteriana e a candidíase não são infeções sexualmente transmitidas |
- A úlcera classifica-se por três perguntas: se dói, se é dura ou mole, e como está o gânglio.
| úlcera | gânglio | incubação | |
|---|---|---|---|
| Herpes, primeiro episódio | vesículas agrupadas que ulceram, múltiplas e dolorosas | bilateral, doloroso | 2 a 7 dias |
| Sífilis primária | cancro habitualmente único, indolor, endurecido, de fundo limpo | firme, indolor, não supura | 10 a 90 dias |
| Cancroide (Haemophilus ducreyi) | úlcera mole, muito dolorosa, não endurecida | unilateral em dois terços, doloroso, supura | 3 a 5 dias |
| Linfogranuloma venéreo | pápula ou úlcera fugaz e indolor, vista em poucos | inguinal ou femoral, doloroso, com abcessos e fístulas | 5 a 21 dias |
| Donovanose (Klebsiella granulomatis) | úlcera indolor, grande, carnuda, vermelho vivo | pseudobubões subcutâneos, sem adenopatia verdadeira | 9 a 50 dias |
Não falhar
- Torção testicular no homem jovem com dor escrotal: início súbito, testículo elevado, epidídimo rodado para a frente e sem fluxo no Doppler. É emergência cirúrgica e não se trata como epididimite.
- Gravidez ectópica e emergência cirúrgica abdominal na mulher com dor pélvica: o teste de gravidez vem antes do antibiótico.
- Sífilis em qualquer úlcera anogenital, e neurossífilis perante perda súbita de visão, perda súbita de audição ou meningite num doente sexualmente ativo.
- Gonococia disseminada no adulto jovem com febre, artralgias migratórias, tenossinovite e pústulas.
- Infeção por VIH, que partilha o risco com todas as outras e que as úlceras facilitam.
- Herpes genital ou sífilis na grávida, pelo risco para o feto e para o recém-nascido.
Outras causas a considerar
- Úlcera genital não infeciosa: traumatismo, doença de Behçet, toxidermia e neoplasia, incluindo o carcinoma epidermoide (também chamado espinocelular).
- Disúria sem uretrite objetiva: cistite e prostatite, que se procuram com exame de urina e urocultura; no homem sem atividade sexual, a uretrite obriga a pensar nelas.
- Proctite com granulomas: doença de Crohn, que o linfogranuloma venéreo imita.
- Epididimite que não responde ao tratamento: tumor do testículo e tuberculose.
História sexual
- Sexo e número dos parceiros (habituais, ocasionais, desconhecidos), práticas (oral, vaginal, anal, recetivo ou insertivo), uso de preservativo, consumo de drogas e álcool no sexo, infeções prévias, profilaxia pré-exposição do VIH, último teste de VIH e possibilidade de gravidez.
- Sintomas do parceiro e infeções que lhe foram diagnosticadas.
- Pergunta-se de forma direta e sem juízo; a vergonha faz o doente subestimar o risco, e a decisão sobre que locais testar depende das práticas.
Exame objetivo
- Genitais, região perianal, orofaringe, gânglios inguinais e pele, incluindo palmas e plantas.
- Na mulher, exame com espéculo e bimanual, procurando cervicite e dor à mobilização do colo.
- Na proctite, anuscopia com colheita do exsudado.
Sinais de alarme
| achado | pensar em | conduta |
|---|---|---|
| Dor testicular súbita, testículo elevado | torção | cirurgia urgente |
| Dor pélvica com febre acima de 38,5 °C, massa anexial, gravidez ou intolerância à via oral | doença inflamatória pélvica grave, abcesso tubo-ovárico | internamento |
| Febre, poliartralgias migratórias, tenossinovite, pústulas escassas | gonococia disseminada | internamento, hemoculturas |
| Alteração visual, auditiva ou neurológica num doente com sífilis | neurossífilis, sífilis ocular ou otológica | punção lombar e penicilina endovenosa |
| Retenção urinária ou obstipação com proctite herpética | radiculopatia sagrada herpética | antiviral, algaliação se preciso |
| Lesão genital ativa na grávida perto do termo | herpes | obstetrícia, discutir cesariana |
O que se pede sempre
- VIH e sífilis perante qualquer infeção sexualmente transmitida; hepatite B e C conforme o risco; estado vacinal para a hepatite B, a hepatite A e o papilomavírus.
A amostra certa
| local | amostra |
|---|---|
| Uretra do homem | primeiro jato de urina, até 20 mL, mais de 1 hora depois da última micção |
| Trato genital da mulher | zaragatoa vulvovaginal, colhida pelo profissional ou pela própria; a urina só se não houver outra amostra |
| Faringe e reto | zaragatoa, que a própria pessoa pode colher com a mesma exatidão |
- A amplificação de ácidos nucleicos é o exame de eleição para gonococo, clamídia, Mycoplasma genitalium e Trichomonas, e a única fiável na faringe e no reto.
- Testam-se todos os locais expostos: a infeção retal e faríngea é quase sempre assintomática e escapa a quem só testa a urina.
Por síndrome
| síndrome | exames |
|---|---|
| Uretrite | Gram uretral; amplificação para gonococo e clamídia; cultura do gonococo, para antibiograma, se o Gram for positivo; Mycoplasma genitalium com pesquisa de resistência aos macrólidos; Trichomonas se houver risco |
| Cervicite | amplificação para gonococo, clamídia, Mycoplasma genitalium e Trichomonas |
| Úlcera genital | PCR para herpes e para Treponema pallidum na base da lesão; serologia da sífilis; PCR para Haemophilus ducreyi só em doentes vindos de zonas endémicas |
| Doença inflamatória pélvica | teste de gravidez; amplificação para gonococo, clamídia e Mycoplasma genitalium; proteína C reativa; ecografia se houver suspeita de abcesso |
| Proctite | anuscopia; amplificação retal para gonococo e clamídia, com genotipagem do linfogranuloma venéreo se a clamídia for positiva; PCR para herpes; serologia da sífilis |
| Verrugas | diagnóstico clínico; biópsia se forem atípicas, pigmentadas, endurecidas, ulceradas ou refratárias |
O Gram
- No homem com corrimento, diplococos gram-negativos dentro dos neutrófilos confirmam a gonorreia na hora, com sensibilidade de 90 a 95% e especificidade acima de 99%.
- Tem sensibilidade baixa no homem sem sintomas, no colo e no reto, e não se usa na faringe: aí, um Gram negativo não exclui nada.
Úlcera com serologia negativa
- A serologia da sífilis é negativa nos primeiros dias do cancro. Com suspeita de sífilis primária, repete-se às 1, 2 e 6 semanas ou trata-se logo, sobretudo quando o seguimento é incerto.
Tratamento empírico, depois das colheitas
- Trata-se na primeira consulta quando há corrimento purulento, cervicite mucopurulenta, proctite, úlcera suspeita, doença inflamatória pélvica ou contacto com uma infeção confirmada: esperar pelos resultados perde doentes.
| situação | tratamento empírico |
|---|---|
| Uretrite com gonococo no Gram, ou sem Gram disponível | ceftriaxona 1 g intramuscular em dose única, com doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas durante 7 dias se a clamídia não estiver excluída |
| Uretrite não gonocócica | doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas durante 7 dias |
| Proctite | ceftriaxona e doxiciclina; a doxiciclina vai a 21 dias se o linfogranuloma venéreo for provado ou provável |
| Úlcera com herpes provável | aciclovir ou valaciclovir |
| Úlcera com sífilis provável | penicilina G benzatínica 2,4 milhões de unidades intramuscular |
| Epididimite abaixo dos 35 anos | ceftriaxona intramuscular em dose única e doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas durante 10 dias |
| Doença inflamatória pélvica | ceftriaxona intramuscular, doxiciclina e metronidazol durante 14 dias |
Parceiros
- Testar e tratar os parceiros é parte do tratamento: sem isso a reinfeção é a regra.
| infeção | parceiros a contactar |
|---|---|
| Gonorreia | últimos 3 meses |
| Clamídia, homem com uretrite sintomática | desde 4 semanas antes do início dos sintomas |
| Clamídia, restantes casos | últimos 6 meses, ou o último parceiro se for anterior |
| Sífilis primária | últimos 3 meses |
| Sífilis secundária e latente precoce | até 2 anos |
| Doença inflamatória pélvica | últimos 6 meses |
- As recomendações norte-americanas usam um período único de 60 dias para gonorreia, clamídia e doença inflamatória pélvica.
- A entrega de tratamento ao parceiro sem consulta só se faz onde a lei o permite e não substitui a sua avaliação, que pode revelar sífilis ou VIH.
Abstinência
- Na gonorreia e na clamídia, sem relações sexuais até 7 dias depois de o doente e os parceiros terminarem o tratamento e de os sintomas desaparecerem.
- No Mycoplasma genitalium, até ao teste de cura negativo.
Notificação
- São de notificação obrigatória em Portugal, no sistema nacional de vigilância epidemiológica (SINAVE): sífilis, sífilis congénita, gonorreia, infeção por Chlamydia trachomatis incluindo o linfogranuloma venéreo, VIH, hepatite B e hepatite C. Herpes, papilomavírus e tricomoníase não são.
Quando os sintomas persistem
- Confirmar que há uretrite objetiva; depois, por ordem de probabilidade: falta de adesão, reexposição a parceiro não tratado, agente que não foi procurado (Mycoplasma genitalium, Trichomonas) e, por fim, resistência, que obriga a cultura com antibiograma.
| para onde | quando |
|---|---|
| Urgência | suspeita de torção; doença inflamatória pélvica com critérios de internamento; gonococia disseminada; neurossífilis, sífilis ocular ou otológica; primeiro episódio grave de herpes com retenção urinária ou meningite |
| Consulta de infeções sexualmente transmitidas (dermatovenereologia ou infecciologia) | falência terapêutica e suspeita de gonococo resistente; Mycoplasma genitalium resistente aos macrólidos e às quinolonas; sífilis latente tardia, terciária ou com resposta serológica inadequada; alergia à penicilina que exija dessensibilização |
| Obstetrícia | sífilis, herpes genital ou gonorreia na grávida |
| Consulta de profilaxia pré-exposição | pessoa com risco acrescido de VIH; em Portugal é gratuita, dispensada nas farmácias dos hospitais do SNS e nas organizações de base comunitária |
| Urgência e medicina legal | violência sexual: profilaxias, contraceção de emergência e preservação de vestígios |
Preservativo
- Protege bem contra gonorreia, clamídia, tricomoníase e VIH, e menos contra herpes, papilomavírus e sífilis, que passam por contacto com pele fora da zona coberta.
- O espermicida nonoxinol-9 não previne infeções e pode aumentar o risco de VIH, por lesar a mucosa.
Rastreio
| quem | o quê | quando |
|---|---|---|
| Mulher sexualmente ativa com menos de 25 anos | clamídia e gonorreia | anual; repetir 3 a 6 meses depois de uma clamídia |
| Homem que tem sexo com homens | clamídia e gonorreia nos locais expostos, sífilis, VIH | anual; de 3 em 3 a 6 em 6 meses se tiver vários parceiros |
| Pessoa em profilaxia pré-exposição | VIH e sífilis | de 3 em 3 meses |
| Grávida, em Portugal | VIH e sífilis | primeiro trimestre e 32 a 34 semanas |
| Grávida, em Portugal | antigénio de superfície da hepatite B | primeiro trimestre |
| Adultos dos 18 aos 64 anos | VIH | pelo menos uma vez |
- Não se rastreia: serologia do herpes na população geral, Mycoplasma genitalium sem sintomas, Ureaplasma e Mycoplasma hominis, nem clamídia na faringe.
Vacinação
- Papilomavírus: vacina nonavalente no Programa Nacional de Vacinação aos 10 anos, em ambos os sexos, com duas doses aos 0 e 6 meses (Norma DGS 002/2026). Há esquema tardio de duas doses em ambos os sexos até aos 18 anos, no sexo feminino até aos 26 anos e, no sexo masculino, nas coortes nascidas entre 2000 e 2002; nas pessoas imunocomprometidas, incluindo as que vivem com VIH, são três doses (0, 1 a 2 e 6 meses) dos 10 aos 26 anos. É profilática: não trata lesões nem dispensa o rastreio do colo.
- Hepatite B a quem não está imune; hepatite A aos homens que têm sexo com homens e a quem inicia profilaxia pré-exposição sem imunidade.
Profilaxia pré-exposição do VIH (Norma DGS 001/2024)
- Para pessoas com 16 ou mais anos e risco acrescido: relações sem preservativo nos últimos 6 meses com parceiro de estado serológico desconhecido ou com VIH sem carga viral indetetável garantida, diagnóstico de infeção sexualmente transmitida, uso repetido de profilaxia pós-exposição, sexo sob efeito de drogas, trabalho sexual e partilha de material de injeção.
- Emtricitabina e tenofovir disoproxil (200 mg e 245 mg), um comprimido por dia. Nos homens cisgénero que têm sexo com homens admite-se o esquema intermitente: dois comprimidos 2 a 24 horas antes do sexo e um comprimido a cada 24 horas até 48 horas depois da última exposição.
- Antes de começar: teste de VIH de 4.ª geração no próprio dia ou até 7 dias antes, rastreio de sífilis, gonococo e clamídia, hepatites A, B e C, função renal e teste de gravidez.
- Não se prescreve com VIH positivo ou desconhecido, sintomas de infeção aguda por VIH ou depuração da creatinina abaixo de 60 mL/min.
- Seguimento de 3 em 3 meses, com teste de VIH e serologia da sífilis.
Doxiciclina pós-exposição
- Doxiciclina 200 mg em dose única depois de sexo sem preservativo, idealmente nas primeiras 24 horas e até às 72 horas, sem ultrapassar 200 mg em cada 24 horas.
- Reduz a sífilis e a clamídia em mais de 70% nos ensaios feitos em homens que têm sexo com homens e mulheres transgénero; o efeito na gonorreia foi de cerca de 50% nos Estados Unidos e ausente em França, onde o gonococo resistente às tetraciclinas é frequente, como no resto da Europa.
- Para quem: homens que têm sexo com homens e mulheres transgénero com pelo menos uma infeção bacteriana (sífilis, clamídia ou gonorreia) nos últimos 12 meses, segundo as recomendações norte-americanas de 2024; a Organização Mundial da Saúde recomendou-a em 2026, de forma condicional, para os mesmos grupos, dando prioridade a quem teve sífilis recente.
- Na Europa, a posição de 2024 da IUSTI (União Internacional contra as Infeções Sexualmente Transmitidas) reconhece o benefício individual, mas pede decisão caso a caso, dentro de programas que vigiem a resistência antimicrobiana e sem desviar recursos do rastreio, do tratamento e da profilaxia do VIH.
- Não há evidência que a sustente em mulheres cisgénero nem em homens heterossexuais, e não se usa na gravidez, onde as tetraciclinas se evitam.
Depois de violência sexual
- Profilaxia pós-exposição do VIH iniciada o mais cedo possível e até às 72 horas, mantida 28 dias; vacina da hepatite B e do papilomavírus a quem não as completou; contraceção de emergência; e tratamento empírico com ceftriaxona intramuscular, doxiciclina 7 dias e, na mulher, metronidazol 7 dias, a par das colheitas e da articulação com a medicina legal.
- Infeção por Neisseria gonorrhoeae, diplococo gram-negativo que adere ao epitélio colunar por pili e desencadeia uma resposta de neutrófilos intensa, que é o pus.
- Infeta a uretra, o colo, o reto, a faringe e a conjuntiva; transmite-se por contacto direto entre mucosas e ao recém-nascido no parto.
- Na União Europeia é a segunda infeção bacteriana sexualmente transmitida mais notificada, depois da clamídia, e a incidência mais do que triplicou desde 2008; em 2018, 76% dos casos eram em homens, refletindo a prevalência elevada nos homens que têm sexo com homens.
- O gonococo ganhou resistência a todos os antibióticos que já foram de primeira linha (penicilina, tetraciclinas, fluoroquinolonas, macrólidos), e a ceftriaxona é a última opção empírica fiável.
- Homem: uretrite aguda, com corrimento em mais de 80% e disúria em mais de 50%, 2 a 8 dias depois da exposição; o corrimento, escasso ao início, torna-se purulento e abundante. A infeção uretral assintomática é rara, menos de 10%.
- Mulher: corrimento vaginal em 50%, dor abdominal baixa em 25%, disúria em 10 a 15%, hemorragia intermenstrual; a infeção endocervical é assintomática em cerca de 50%.
- Reto e faringe: quase sempre assintomáticos, em ambos os sexos.
- Complicações locais: doença inflamatória pélvica, epididimite, conjuntivite.
Gonococia disseminada
- Rara, em menos de 3% das infeções, por bacteriemia.
- Duas formas: a tríade de tenossinovite, dermatite (pústulas escassas, indolores, nas extremidades) e poliartralgias migratórias, com febre; ou artrite purulenta de uma articulação.
- Mais frequente na mulher, durante a menstruação e a gravidez; episódios repetidos fazem procurar défice dos componentes terminais do complemento.
Laboratório
- Amplificação de ácidos nucleicos: o exame de eleição em todos os locais, e muito mais sensível do que a cultura na faringe e no reto.
- Gram uretral no homem sintomático: diagnóstico imediato. Pouco sensível no colo e no reto, e não se usa na faringe.
- Cultura em meio seletivo (Thayer-Martin) sempre que se possa e obrigatoriamente na falência terapêutica, porque é a única que dá o antibiograma.
- Pedir também clamídia, sífilis, VIH e hepatites; Mycoplasma genitalium só se houver sintomas.
Gonococia disseminada
- Hemoculturas e líquido sinovial antes do antibiótico, e amplificação na uretra ou no colo, no reto e na faringe, que são muitas vezes os únicos positivos.
Teste de cura
| recomendação | quem | como |
|---|---|---|
| Europeia (IUSTI 2020) | todos os casos | amplificação 2 semanas depois do tratamento; cultura aos 3 a 7 dias se os sintomas persistirem |
| Norte-americana (2021) | infeção faríngea | amplificação ou cultura 7 a 14 dias depois |
- Um teste de cura positivo pode ser falência, reinfeção ou ácido nucleico residual; antes de retratar, colhe-se cultura.
- Independentemente disso, repete-se o rastreio 3 meses depois, à procura de reinfeção.
Diagnóstico diferencial
- Outras causas de uretrite e cervicite (clamídia, Mycoplasma genitalium, Trichomonas, herpes), cistite e prostatite.
- Na gonococia disseminada: artrite reativa, que é estéril e surge semanas depois, e artrite sética por outros agentes.
Infeção não complicada (uretra, colo, reto, faringe)
| situação | esquema |
|---|---|
| Primeira linha | ceftriaxona 1 g intramuscular em dose única, em monoterapia |
| Clamídia não excluída | juntar doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas durante 7 dias; na grávida, azitromicina 1 g |
| Alergia grave aos betalactâmicos | gentamicina 240 mg intramuscular em dose única com azitromicina 2 g oral |
| Injeção recusada ou impossível | cefixima 800 mg oral com teste de cura; se não houver teste de cura ou se houver infeção faríngea, com azitromicina 2 g |
| Sensibilidade à ciprofloxacina confirmada | ciprofloxacina 500 mg oral em dose única |
- A monoterapia com 1 g é a recomendação de 2024 da Organização Mundial da Saúde, também para a grávida. A recomendação europeia de 2020 aceita-a onde a vigilância local não mostra resistência à ceftriaxona, o teste de cura é obrigatório e se dá doxiciclina se a clamídia não foi excluída; fora dessas condições, junta-lhe azitromicina 2 g.
- As recomendações norte-americanas usam 500 mg (1 g a partir de 150 kg), também em monoterapia.
- A azitromicina de rotina deixou de se juntar porque seleciona resistência no gonococo e no Mycoplasma genitalium, e não aumenta a cura.
- A ceftriaxona tem reatividade cruzada desprezível com as penicilinas: uma alergia não grave à penicilina não a impede.
Infeção complicada
| forma | esquema |
|---|---|
| Gonococia disseminada, forma artrite-dermatite | internamento; ceftriaxona 1 g intramuscular ou endovenosa de 24 em 24 horas, 7 dias no total, passando à via oral guiada pelo antibiograma 24 a 48 horas depois de melhoria clara; drenar a artrite purulenta |
| Meningite e endocardite | ceftriaxona 1 a 2 g endovenosa de 12 em 12 a 24 em 24 horas; 10 a 14 dias na meningite e pelo menos 4 semanas na endocardite |
| Epididimite | ceftriaxona intramuscular e doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas durante 10 dias |
| Conjuntivite do adulto | ceftriaxona intramuscular e irrigação com soro |
| Oftalmia do recém-nascido | ceftriaxona 25 a 50 mg/kg em dose única e irrigação ocular |
- Chlamydia trachomatis é uma bactéria intracelular obrigatória: o corpo elementar, extracelular e infecioso, entra na célula e transforma-se no corpo reticulado, que se multiplica dentro do vacúolo.
- É a infeção bacteriana sexualmente transmitida mais frequente na Europa e no mundo, com as taxas mais altas em mulheres jovens.
- Os serovares definem a doença:
| serovares | doença |
|---|---|
| A a C | tracoma, a principal causa infeciosa de cegueira evitável no mundo |
| D a K | infeção anogenital, conjuntivite e pneumonia do recém-nascido |
| L1 a L3 | linfogranuloma venéreo, invasivo, com atingimento ganglionar |
- Fatores de risco: idade inferior a 25 anos, parceiro novo ou vários parceiros no último ano, infeção prévia, sexo sem preservativo.
- Na mulher, a infeção não tratada elimina-se espontaneamente em 45 a 54% ao fim de um ano, mas pode subir e causar doença inflamatória pélvica. A infeção não deixa imunidade e a reinfeção é frequente.
- Incubação de 7 a 14 dias, mas a maioria das infeções não dá sintomas: 70 a 95% na mulher e mais de metade no homem.
- Mulher: cervicite com corrimento, colo friável, hemorragia pós-coital ou intermenstrual, disúria; cerca de 70% das mulheres com infeção urogenital têm também infeção retal.
- Homem: uretrite com corrimento escasso e mucoide e disúria; epididimite, de que a clamídia é a causa principal no homem sexualmente ativo com menos de 35 anos.
- Reto: habitualmente assintomático; às vezes corrimento e desconforto.
- Faringe: 1 a 3%, quase sempre assintomática.
- Olho: conjuntivite folicular do adulto, crónica se não tratada.
Linfogranuloma venéreo
- Serovares L1 a L3, invasivos; na Europa ocorre quase só em homens que têm sexo com homens, muitos com VIH, e cerca de 30% das infeções são assintomáticas.
- Primeiro estadio: pápula ou úlcera indolor no local da inoculação, que dura poucos dias e passa despercebida.
- Segundo estadio: adenopatia inguinal ou femoral dolorosa, habitualmente unilateral, que pode formar bubões, abcessos e fístulas, com febre.
- Proctite ou proctocolite: dor anorretal intensa, tenesmo, corrimento mucopurulento ou hemorrágico, obstipação e febre; é a apresentação habitual na Europa.
- Sem tratamento: estenoses e fístulas.
- Amplificação de ácidos nucleicos, no primeiro jato de urina do homem, na zaragatoa vulvovaginal e, conforme as práticas, no reto. Não precisa de teste de confirmação.
- A cultura e os testes rápidos não moleculares não se usam; a serologia não serve para a infeção anogenital não complicada.
- A faringe não se testa por rotina.
- Linfogranuloma venéreo: genotipagem de todas as amplificações retais positivas em homens que têm sexo com homens, com ou sem sintomas.
- Com exposição nas últimas 2 semanas, repete-se a amplificação 2 semanas depois da exposição.
Depois do tratamento
- Teste de cura não é de rotina com doxiciclina. Faz-se na gravidez, na infeção complicada, com sintomas persistentes, com esquemas de segunda linha, com má adesão ou suspeita de reexposição, e pelo menos 4 semanas depois de terminar o tratamento: antes disso, o ácido nucleico de bactérias mortas dá falsos positivos.
- Reteste de reinfeção 3 a 6 meses depois nas mulheres com menos de 25 anos, e cerca de 3 meses depois nos restantes.
Diagnóstico diferencial
- Gonorreia e Mycoplasma genitalium, que dão o mesmo quadro e coexistem.
- Proctite do linfogranuloma venéreo: doença inflamatória intestinal e herpes.
| situação | esquema |
|---|---|
| Infeção não complicada (uretra, colo, reto, faringe, olho) | doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas durante 7 dias |
| Alternativas | azitromicina 1 g em dose única; levofloxacina 500 mg por dia durante 7 dias |
| Gravidez | azitromicina 1 g em dose única, com teste de cura às 4 semanas |
| Epididimite | doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas durante 10 dias, com ceftriaxona se o gonococo não estiver excluído |
| Linfogranuloma venéreo | doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas durante 21 dias; alternativa, azitromicina 1 g por semana durante 3 semanas |
| Contacto de linfogranuloma venéreo | doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas durante 7 dias |
- A doxiciclina passou a primeira linha em todas as recomendações atuais porque cura a infeção retal em 94 a 100%, contra 74 a 85% com a azitromicina 1 g, e a infeção retal é frequente e assintomática também na mulher.
- A azitromicina em dose única seleciona resistência no Mycoplasma genitalium, que coexiste em 3 a 15% das infeções por clamídia.
- Doença inflamatória pélvica e as suas sequelas: infertilidade tubária, gravidez ectópica e dor pélvica crónica. É o risco que justifica o rastreio de uma infeção sem sintomas, embora seja menor do que se estimava.
- Peri-hepatite (síndrome de Fitz-Hugh-Curtis) em 3 a 10% das doenças inflamatórias pélvicas: dor pleurítica no hipocôndrio direito que pode dominar o quadro e fazer pensar em colecistite.
- Epididimite no homem.
- Artrite reativa em 1 a 2% das uretrites não gonocócicas: oligoartrite assimétrica dos membros inferiores semanas depois, às vezes com conjuntivite, uretrite e lesões mucocutâneas, sobretudo em homens jovens com HLA-B27. A articulação é estéril.
| artrite reativa | gonococia disseminada | |
|---|---|---|
| mecanismo | imunológico, articulação estéril | bacteriemia |
| quando | semanas depois da infeção | durante a infeção |
| articulações | oligoartrite assimétrica dos membros inferiores, lombalgia | poliartralgias migratórias com tenossinovite, ou monoartrite purulenta |
| associação | HLA-B27 | défice dos componentes terminais do complemento |
Grávida e recém-nascido
- Na gravidez associa-se a rotura prematura de membranas, parto pré-termo, corioamnionite e baixo peso ao nascer.
- A transmissão ocorre em 50 a 75% dos filhos de mães infetadas; destes, 30 a 50% têm conjuntivite e 10 a 20% pneumonia.
- A conjuntivite surge 5 a 12 dias depois do nascimento; a oftalmia gonocócica é mais precoce, aos 2 a 5 dias.
- A pneumonia surge entre 1 e 3 meses, com tosse em salvas, taquipneia, hiperinsuflação e infiltrados bilaterais.
- A profilaxia ocular do recém-nascido não previne a conjuntivite por clamídia: a prevenção é tratar a grávida.
- O recém-nascido trata-se com eritromicina 50 mg/kg por dia em 4 tomas durante 14 dias, ou azitromicina 20 mg/kg por dia durante 3 dias; abaixo das 6 semanas, os dois associam-se a estenose hipertrófica do piloro, e o bebé é vigiado.
- Bactéria sem parede celular, que não cora pelo Gram e quase não cresce em cultura: os betalactâmicos são inúteis contra ela.
- Causa 10 a 35% das uretrites não gonocócicas e não clamidianas no homem, e associa-se a cervicite, doença inflamatória pélvica e, provavelmente, infertilidade tubária na mulher.
- Está presente em 1 a 3,3% da população geral e 40 a 75% das infeções são assintomáticas.
- A resistência aos macrólidos é elevada e crescente na Europa, em grande parte pelo uso da azitromicina em dose única noutras infeções.
- Ureaplasma urealyticum, Ureaplasma parvum e Mycoplasma hominis não são patogénicos sexualmente transmitidos a pesquisar: encontrá-los e tratá-los só acrescenta antibiótico.
- Amplificação de ácidos nucleicos no primeiro jato de urina do homem ou na zaragatoa vaginal, seguida sempre de pesquisa de mutações de resistência aos macrólidos.
| testar | não testar |
|---|---|
| homem com uretrite; epididimite abaixo dos 50 anos; proctite depois de excluídos gonococo e clamídia | pessoas assintomáticas, incluindo grávidas |
| mulher com cervicite mucopurulenta, hemorragia intermenstrual ou pós-coital, disúria sem outra causa, dor pélvica ou doença inflamatória pélvica | |
| parceiros atuais de quem tem a infeção |
- Teste de cura em todos, não antes de 3 semanas depois do tratamento, pela resistência que pode existir ou surgir durante o tratamento.
| situação | esquema |
|---|---|
| Sem mutações de resistência, ou sem teste | azitromicina 500 mg no primeiro dia e 250 mg do segundo ao quinto dia |
| Com mutações de resistência aos macrólidos, ou falência da azitromicina | moxifloxacina 400 mg por dia durante 7 dias |
| Doença inflamatória pélvica ou epididimite | moxifloxacina 400 mg por dia durante 14 dias |
| Falência da azitromicina e da moxifloxacina | pristinamicina 1 g 4 vezes por dia durante 10 dias, ou minociclina 100 mg de 12 em 12 horas durante 14 dias |
- A doxiciclina sozinha cura só 30 a 40%, mas reduz a carga bacteriana. Por isso, algumas recomendações, como as norte-americanas, dão primeiro doxiciclina 7 dias enquanto se espera pela pesquisa de resistência, seguida de moxifloxacina ou de azitromicina conforme o resultado.
- Abstinência até ao teste de cura negativo.
- A moxifloxacina tem os efeitos adversos graves das quinolonas, para os quais a EMA (Agência Europeia de Medicamentos) alertou; na grávida com estirpe resistente, o tratamento pode adiar-se para depois do parto.
- Infeção pelo protozoário flagelado Trichomonas vaginalis, que infeta o epitélio pavimentoso do trato urogenital; é a infeção sexualmente transmitida não viral mais frequente no mundo.
- Transmite-se quase só por via sexual; incuba em poucos dias.
- Na mulher: corrimento purulento, eritema e irritação vulvar, cheiro anómalo e pH vaginal elevado; muitas são assintomáticas.
- No homem: uretrite, habitualmente ligeira ou assintomática.
- Amplificação de ácidos nucleicos, com sensibilidade de 95 a 100%, na zaragatoa vaginal, no primeiro jato de urina ou na zaragatoa uretral do homem.
- O exame a fresco, com tricomonas móveis, tem sensibilidade de só 44 a 68%: um negativo não exclui.
- Diagnóstico diferencial com a vaginose bacteriana, que também sobe o pH e dá cheiro, e com a candidíase, que dá prurido e não altera o pH.
| quem | esquema |
|---|---|
| Mulher | metronidazol 500 mg de 12 em 12 horas durante 7 dias |
| Homem | metronidazol 2 g em dose única |
| Alternativa | tinidazol 2 g em dose única |
| Mulher com VIH | sempre o esquema de 7 dias |
- O metronidazol pode usar-se em qualquer fase da gravidez e na amamentação.
- Tratar ao mesmo tempo todos os parceiros atuais e manter abstinência até ambos terminarem o tratamento e ficarem sem sintomas.
- Retestar a mulher cerca de 3 meses depois, pela reinfeção frequente.
- Infeção pelo Treponema pallidum, espiroqueta que não cresce em meios de cultura, atravessa as mucosas e a pele lesada, chega aos gânglios regionais e dissemina-se pelo sangue.
- Há uma epidemia de sífilis precoce na Europa, sobretudo em homens que têm sexo com homens, com coinfeção frequente pelo VIH.
- Transmite-se sobretudo no primeiro ano, nos estadios primário e secundário; depois, pela gravidez e por transfusão ou transplante.
- Incubação de 10 a 90 dias até ao cancro. Sem tratamento, cerca de um terço desenvolve sífilis secundária e cerca de 10% terciária.
| classificação para tratar | estadios |
|---|---|
| Precoce, adquirida há menos de 1 ano | primária, secundária, latente precoce |
| Tardia, adquirida há 1 ano ou mais, ou de duração desconhecida | latente tardia, terciária |
- A Organização Mundial da Saúde põe o limite nos 2 anos; as recomendações europeias, em 1 ano.
| estadio | quando | clínica |
|---|---|---|
| Primária | 10 a 90 dias depois do contágio | cancro habitualmente único, indolor, endurecido, de fundo limpo, com adenopatia regional indolor; cicatriza em 3 a 6 semanas sem tratamento; pode ser atípico, múltiplo ou doloroso, e passa despercebido na vagina, no colo e no reto |
| Secundária | semanas a meses depois do cancro, habitualmente no primeiro ano | exantema não pruriginoso que atinge palmas e plantas, lesões mucocutâneas em cerca de 90%, febre, adenopatias generalizadas; também hepatite, glomerulonefrite, periostite, artrite |
| Latente | depois da secundária | serologia positiva, sem clínica |
| Terciária | anos a décadas depois | gomas da pele, mucosas, osso ou vísceras; cardiovascular: aortite da aorta ascendente, insuficiência aórtica, aneurisma; neurossífilis tardia |
Neurossífilis
- Pode ocorrer em qualquer estadio.
- Precoce, na sífilis secundária: meningite, paralisia de pares cranianos, AVC por sífilis meningovascular, e as formas ocular (uveíte, retinite, papiledema, com perda súbita de visão) e otológica (perda auditiva súbita).
- Tardia: paralisia geral (demência progressiva e alterações do comportamento), tabes dorsal (ataxia sensitiva e dores lancinantes) e pupilas de Argyll Robertson, que não reagem à luz mas contraem na acomodação.
Deteção direta
- PCR para Treponema pallidum no exsudado da lesão, que substituiu o exame em campo escuro.
Serologia
| não treponémicos | treponémicos | |
|---|---|---|
| exemplos | VDRL (Venereal Disease Research Laboratory), RPR (reagina plasmática rápida) | TPHA e TPPA (hemaglutinação e aglutinação de partículas para Treponema pallidum), imunoensaios enzimáticos e de quimioluminescência, FTA-ABS (imunofluorescência com absorção) |
| o que medem | anticorpos contra cardiolipina, lecitina e colesterol | anticorpos contra o treponema |
| quando positivam | 10 a 15 dias depois do cancro | 5 a 15 dias depois do cancro |
| resultado | quantitativo, em título | qualitativo |
| depois do tratamento | o título desce, e pode negativar | ficam positivos para toda a vida |
| para que servem | atividade da doença e resposta ao tratamento | confirmação; não servem para seguir |
| falsos positivos | 0,2 a 0,8% dos testes, habitualmente com título até 1:4: gravidez, vacinação, infeções agudas, doenças autoimunes, VIH, drogas injetadas, idade | raros: doenças autoimunes, doença de Lyme |
- Pede-se sempre um teste de cada tipo. Muitos laboratórios começam pelo treponémico e, se for positivo, fazem o não treponémico quantitativo; outros fazem o inverso.
- O não treponémico quantifica-se diluindo pelo menos até 1:8 ou 1:16, para não falhar o fenómeno de prozona, em que o excesso de anticorpos dá um falso negativo na sífilis secundária.
- O título do dia do tratamento é a referência para o seguimento.
| treponémico | não treponémico | interpretação |
|---|---|---|
| positivo | positivo | sífilis ativa, a estadiar e tratar se não houver tratamento prévio documentado |
| positivo | negativo | sífilis tratada, sífilis muito precoce ou falso positivo do treponémico: rever a história, repetir ao fim de 1 mês e confirmar com outro treponémico |
| negativo | positivo | falso positivo biológico, ou sífilis muito precoce: repetir |
| negativo | negativo com cancro | sífilis primária inicial possível: repetir às 1, 2 e 6 semanas, ou tratar |
Punção lombar
- Indicada em qualquer estadio com sinais neurológicos, oculares ou otológicos, e na sífilis terciária. Faz-se fundoscopia antes.
- Não indicada na sífilis precoce sem sintomas neurológicos, com ou sem VIH.
- Alguns peritos pedem-na ainda no doente com VIH e sífilis tardia com CD4 até 350 por mm³ ou VDRL acima de 1:32, e na falência serológica.
- O VDRL no líquor é específico mas positivo em cerca de um terço das neurossífilis: negativo não exclui. Um treponémico negativo no líquor torna a neurossífilis muito improvável. Pleocitose e proteínas elevadas apoiam o diagnóstico.
Diagnóstico diferencial
- Cancro: herpes, cancroide, traumatismo, doença de Behçet, carcinoma epidermoide.
- Exantema secundário: pitiríase rósea, toxidermia, eritema multiforme, sarampo, dermatite seborreica, tinha.
| estadio | primeira linha | alergia à penicilina |
|---|---|---|
| Precoce (primária, secundária, latente precoce) | penicilina G benzatínica 2,4 milhões de unidades intramuscular, dose única | doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas durante 14 dias |
| Tardia (latente tardia ou de duração desconhecida), cardiovascular, gomosa | penicilina G benzatínica 2,4 milhões de unidades intramuscular nos dias 1, 8 e 15 | doxiciclina durante 21 a 28 dias, ou dessensibilização |
| Neurossífilis, sífilis ocular e otológica | benzilpenicilina 18 a 24 milhões de unidades por dia endovenosa (3 a 4 milhões de 4 em 4 horas) durante 10 a 14 dias | dessensibilização; ceftriaxona 1 a 2 g endovenosa por dia durante 10 a 14 dias como segunda linha |
| Gravidez | penicilina adequada ao estadio | dessensibilização e penicilina |
- A penicilina benzatínica não atinge concentrações treponemicidas no líquor e não trata a neurossífilis.
- A azitromicina deixou de ser alternativa em qualquer estadio, pela resistência do treponema aos macrólidos.
- Os contactos sexuais dos últimos 3 meses de um caso de sífilis precoce tratam-se como sífilis precoce, mesmo com serologia negativa.
- O doente com VIH trata-se da mesma forma.
Reação de Jarisch-Herxheimer
- Febre, arrepios, cefaleias e mialgias nas horas seguintes à primeira dose, pela libertação de lipoproteínas dos treponemas mortos; resolve em 24 horas.
- É frequente na sífilis precoce e não é alergia: não contraindica a penicilina. Na grávida pode desencadear contrações e sofrimento fetal.
Seguimento
- Sífilis precoce: clínica e título não treponémico 1, 3, 6 e 12 meses depois. Espera-se uma descida de 4 vezes (2 diluições) em 6 meses; cerca de 15% não a atingem aos 6 meses e reavaliam-se aos 12.
- Sem descida de 4 vezes aos 6 a 12 meses (falência serológica): considerar punção lombar e retratamento, excluindo reinfeção.
- Na sífilis tardia, a resposta serológica falta muitas vezes, e só uma subida do título ou a clínica pedem retratamento.
- Na neurossífilis com líquor alterado, repete-se a punção entre 6 semanas e 6 meses depois.
Grávida
- Em Portugal, a serologia da sífilis faz-se a todas as grávidas no primeiro trimestre e às 32 a 34 semanas.
- Sem tratamento, a sífilis precoce da grávida infeta 70 a 100% dos filhos, com morte fetal em até um terço; a maioria das transmissões ocorre depois das 28 semanas, e tratar antes disso previne em regra a doença congénita.
- Só a penicilina trata a mãe e o feto; a grávida alérgica é dessensibilizada. Alguns especialistas dão uma segunda dose de penicilina benzatínica ao 8.º dia na sífilis precoce.
- O tratamento materno conta como adequado quando é penicilina adequada ao estadio, iniciada 30 ou mais dias antes do parto, sem sinais de reinfeção.
- No recém-nascido, a decisão parte do tratamento materno, do exame do bebé e do título não treponémico do bebé comparado com o da mãe no parto; o sangue do cordão não serve.
Pessoa com VIH
- O tratamento é o mesmo. A descida do título pode ser mais lenta, e o seguimento clínico e serológico faz-se aos 3, 6, 9, 12 e 24 meses.
- Infeção pelos vírus herpes simplex tipo 1 e tipo 2, que depois da primeira infeção ficam latentes nos gânglios sensitivos, sobretudo nos sagrados (S2 a S5) no herpes genital, e reativam.
- O tipo 1 é hoje causa frequente de herpes genital, pelo sexo oral. O herpes genital pelo tipo 2 recorre mais e excreta mais vírus sem sintomas do que pelo tipo 1.
- A maioria das pessoas infetadas não sabe que o está: a transmissão faz-se muitas vezes a partir de excreção assintomática.
- Ter um tipo não protege do outro.
- Facilita a transmissão do VIH.
- Primeiro episódio: 2 a 7 dias depois da exposição, vesículas agrupadas em base eritematosa que ulceram, múltiplas e muito dolorosas, com adenopatia inguinal bilateral dolorosa e, muitas vezes, febre, cefaleias e mal-estar; dura 7 a 14 dias.
- Recorrência: mais ligeira, com pródromo local (ardor, parestesias) e lesões que duram 3 a 10 dias, sem sintomas sistémicos.
- Complicações: meningite asséptica, que pode ser recorrente; proctite, que na primoinfeção se pode complicar de radiculopatia sagrada com retenção urinária, obstipação e hipotonia do esfíncter anal; disseminação no imunodeprimido.
- PCR para herpes simplex, com tipagem, numa zaragatoa da base da lesão, destapando a vesícula; é o padrão, mais sensível e específico do que a cultura e com maior rendimento nas lesões recentes.
- O esfregaço de Tzanck é insensível e inespecífico e não se usa.
- A serologia específica de tipo (anticorpos contra a glicoproteína G) não serve de rastreio na população geral. Tem lugar na doença recorrente ou atípica com PCR negativa e na grávida sem história de herpes cujo parceiro o tem.
- Diagnóstico diferencial: sífilis primária (pedir sempre a serologia), cancroide, doença de Behçet, eritema pigmentado fixo, traumatismo.
| situação | esquema |
|---|---|
| Primeiro episódio | aciclovir 400 mg 3 vezes por dia, ou valaciclovir 500 mg a 1 g de 12 em 12 horas, durante 5 a 10 dias; começa-se sem esperar pelo resultado, se o doente vier nos primeiros 5 dias ou ainda com lesões novas |
| Recorrência, tratamento episódico | aciclovir 800 mg 3 vezes por dia durante 2 dias, ou valaciclovir 500 mg de 12 em 12 horas durante 3 dias; eficaz se começado no pródromo ou nas primeiras 24 horas |
| Tratamento supressivo | aciclovir 400 mg de 12 em 12 horas, ou valaciclovir 500 mg por dia (1 g por dia com mais de 10 recorrências por ano) |
| Doença grave ou disseminada | aciclovir endovenoso 5 a 10 mg/kg de 8 em 8 horas, pelo menos 10 dias no total |
- O tratamento supressivo oferece-se a quem tem recorrências frequentes: reduz-as em 70 a 80%, e o valaciclovir diário reduz para cerca de metade a transmissão ao parceiro não infetado.
- Nenhum antiviral elimina o vírus latente nem altera a história natural.
- Abstinência durante as lesões e informação sobre a transmissão assintomática.
- Na pessoa com VIH e imunossupressão avançada, doses mais altas e cursos mais longos; lesões que não cicatrizam fazem pensar em resistência ao aciclovir.
Grávida
- O risco para o recém-nascido depende da imunidade materna no parto: 57% na primoinfeção, 25% no primeiro episódio não primário e 2% na recorrência.
- Primeiro episódio no terceiro trimestre: considerar cesariana, sobretudo se os sintomas começaram nas 6 semanas antes do parto, e aciclovir 400 mg 3 vezes por dia até ao parto.
- Primeiro episódio no primeiro ou segundo trimestre: tratar, e aciclovir 400 mg 3 vezes por dia a partir das 36 semanas.
- Herpes recorrente: aciclovir 400 mg 3 vezes por dia a partir das 36 semanas reduz as lesões no termo e as cesarianas por lesão ativa. Sem lesões no parto, não há indicação para cesariana.
- A maioria das mães que transmitem o vírus não tem lesões nem história de herpes.
- Há mais de 100 tipos de papilomavírus humano; mais de 80% dos adultos sexualmente ativos infetam-se durante a vida, quase sempre sem sintomas e de forma transitória.
- Os condilomas acuminados devem-se em cerca de 90% aos tipos de baixo risco 6 e 11. Os tipos oncogénicos, com o 16 à cabeça e o 18, causam o cancro do colo, do ânus, da vulva, da vagina, do pénis e da orofaringe, e não dão verrugas.
- Os tipos 6 e 11 causam também a papilomatose respiratória recorrente na criança, rara.
- Diagnóstico clínico: pápulas ou vegetações moles, em couve-flor, na vulva, no pénis, no meato uretral, no ânus e no períneo, habitualmente indolores; às vezes pruriginosas ou dolorosas.
- Biópsia se a lesão for atípica, pigmentada, endurecida, fixa, ulcerada ou sangrante, se não responder ao tratamento ou se a pessoa for imunodeprimida.
- A pesquisa de papilomavírus não se usa para diagnosticar nem para orientar o tratamento das verrugas.
- Ter condilomas não muda a periodicidade do rastreio do cancro do colo.
- Diagnóstico diferencial: condiloma plano da sífilis secundária, molusco contagioso, pápulas perláceas do pénis, neoplasia intraepitelial e carcinoma epidermoide.
| aplicado pelo doente | aplicado pelo médico |
|---|---|
| imiquimod creme | crioterapia com azoto líquido |
| podofilotoxina solução ou gel | ácido tricloroacético a 80 a 90% |
| sinecatequinas pomada | excisão cirúrgica, eletrocirurgia, laser |
- O tratamento remove as lesões mas não erradica o vírus e provavelmente só reduz a infecciosidade.
- Sem tratamento, as verrugas podem regredir espontaneamente em até um ano, manter-se ou crescer: esperar é aceitável para algumas pessoas.
- As recidivas são frequentes, sobretudo nos primeiros 3 meses.
- Na gravidez, a podofilotoxina e as sinecatequinas estão contraindicadas e o imiquimod evita-se; usam-se a crioterapia, o ácido tricloroacético e a excisão. A cesariana só se indica se as verrugas obstruírem o canal de parto ou arriscarem hemorragia, e não para prevenir a papilomatose respiratória.
- A prevenção é a vacina nonavalente, que protege também contra os tipos 6 e 11.
- Infeção que sobe do colo ao endométrio, às trompas e ao peritoneu pélvico: endometrite, salpingite, abcesso tubo-ovárico, pelviperitonite. Gonococo, clamídia e Mycoplasma genitalium iniciam-na, com participação de anaeróbios e de flora da vaginose.
- Fatores de risco: idade jovem, vários parceiros, parceiro novo nos últimos 3 meses, infeção sexualmente transmitida prévia, e manipulação do colo (interrupção da gravidez, colocação de dispositivo intrauterino nas semanas anteriores).
Critérios clínicos
- Mínimos, para tratar numa mulher sexualmente ativa com dor pélvica ou abdominal baixa sem outra causa: dor à mobilização do colo, dor uterina ou dor anexial.
- Adicionais, que aumentam a especificidade: febre acima de 38,3 °C, corrimento mucopurulento ou colo friável, leucócitos abundantes no exame a fresco, velocidade de sedimentação ou proteína C reativa elevadas, gonococo ou clamídia confirmados.
Exames
- Teste de gravidez sempre; amplificação para gonococo, clamídia e Mycoplasma genitalium; ecografia se houver massa ou doença grave; laparoscopia se o diagnóstico ficar em dúvida.
Diagnóstico diferencial
- Gravidez ectópica, apendicite, torção ou rotura de quisto do ovário, endometriose, infeção urinária.
| situação | esquema |
|---|---|
| Ambulatório, doença ligeira a moderada | ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única, com doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas e metronidazol 500 mg de 12 em 12 horas durante 14 dias |
| Alternativa oral | moxifloxacina 400 mg por dia durante 14 dias, preferida se houver Mycoplasma genitalium; evitar se o gonococo for provável |
| Internamento | ceftriaxona 1 g endovenosa por dia com doxiciclina, passando à via oral depois da melhoria, até completar 14 dias |
- Internar se: emergência cirúrgica não excluída, abcesso tubo-ovárico, gravidez, doença grave com febre acima de 38,5 °C, náuseas e vómitos que impeçam a via oral, ou ausência de resposta às 72 horas.
- Reavaliar às 72 horas: sem melhoria, rever o diagnóstico, passar à via endovenosa e ponderar laparoscopia ou drenagem.
- O dispositivo intrauterino pode ficar na doença ligeira a moderada; retira-se se não houver melhoria.
- Testar e tratar os parceiros e manter abstinência até todos terminarem o tratamento.
- Infertilidade tubária: num estudo sueco, 11% depois de um episódio, 23% depois de dois e 54% depois de três ou mais; o risco cresce também com a gravidade. Num primeiro episódio tratado cedo, a fertilidade preserva-se na maioria.
- Gravidez ectópica, por cicatrização das trompas sem oclusão; o risco relativo sobe, mas o absoluto fica perto de 1%.
- Dor pélvica crónica, em cerca de 30%.
- Abcesso tubo-ovárico e pelviperitonite.
- Peri-hepatite (síndrome de Fitz-Hugh-Curtis), com dor no hipocôndrio direito.
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15 perguntas sobre Doenças sexualmente transmitidas
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar