Doença dos legionários
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 9 perguntas neste tema
A doença dos legionários é a pneumonia causada por bactérias do género Legionella, sobretudo Legionella pneumophila do serogrupo 1. O agente vive na água, dentro de amibas e do biofilme das canalizações, e multiplica-se entre os 20 e os 45 °C; chega ao doente por inalação de aerossóis de chuveiros, torres de arrefecimento, jacuzzis ou fontes decorativas, e não passa de pessoa para pessoa. O mesmo agente causa a febre de Pontiac, um quadro gripal sem pneumonia que atinge quase todos os expostos e cura sozinho.
Atinge sobretudo homens acima dos 50 anos, fumadores e doentes crónicos ou imunodeprimidos, com pico no verão e no outono. A maioria dos casos é esporádica, mas as torres de arrefecimento dão os grandes surtos comunitários, como o de Vila Franca de Xira em 2014, e as redes de água dos hospitais e dos hotéis dão os casos nosocomiais e os associados a viagem.
Apresenta-se como pneumonia grave com um quadro extrapulmonar desproporcionado: confusão, diarreia, cefaleia, bradicardia relativa, hiponatremia, disfunção renal e transaminases elevadas. Nenhum destes achados é específico, e a confirmação é microbiológica: antigénio urinário, que só deteta o serogrupo 1, e cultura ou amplificação de ácidos nucleicos em secreções respiratórias. A cultura pede-se mesmo com antigénio positivo, porque só o isolado permite ligar o caso à fonte.
Trata-se com um antibiótico que atinja o interior das células, levofloxacina ou azitromicina, e não com beta-lactâmicos. O atraso do antibiótico ativo triplica a mortalidade. É doença de notificação obrigatória, e cada caso obriga a perguntar pela exposição nos 10 dias anteriores ao início dos sintomas, porque pode ser o primeiro de um surto.
Quem se testa
- Pneumonia grave, sobretudo em cuidados intensivos.
- Falência de antibiótico em ambulatório, em particular de um beta-lactâmico.
- Imunodeprimido.
- Viagem com dormida fora de casa, hotel, spa ou cruzeiro nos 10 dias anteriores ao início dos sintomas.
- Pneumonia adquirida no hospital, e qualquer pneumonia durante um surto conhecido.
Antigénio urinário
- Primeira linha: rápido, resultado no próprio dia, colheita simples.
- Deteta apenas L. pneumophila do serogrupo 1. Falha a maioria das infeções pelos outros serogrupos e pelas outras espécies.
- Sensibilidade de cerca de 70% para o serogrupo 1, especificidade de cerca de 99%.
- A excreção do antigénio começa nos primeiros 3 dias e pode persistir meses. Pode ser negativo muito cedo, e continua positivo depois de iniciado o antibiótico.
- Não se usa no doente anúrico.
- É o teste que sustenta a grande maioria das notificações (88% dos casos europeus em 2024).
Cultura
- Padrão de referência: isola qualquer espécie e serogrupo.
- Em secreções respiratórias baixas (expetoração, aspirado brônquico, lavado broncoalveolar) ou em tecido, em meio BCYE. Avisar o laboratório do que se procura.
- Crescimento em 3 a 5 dias; uma cultura só é dada como negativa ao fim de 10 dias de incubação.
- A sensibilidade cai depois de iniciado o antibiótico: colher cedo, sem atrasar o tratamento.
- Pede-se mesmo com antigénio positivo, porque só o isolado permite a tipagem e a comparação com as estirpes ambientais, que é o que liga o caso à fonte. Na Europa só 8% dos casos têm cultura, e isso dificulta a investigação dos surtos.
Amplificação de ácidos nucleicos
- Por reação em cadeia da polimerase (PCR) em secreções respiratórias baixas: mais sensível do que a cultura e útil já sob antibiótico.
- Deteta o género ou apenas L. pneumophila, conforme o alvo; muitos ensaios comerciais só detetam L. pneumophila. Não dá o serogrupo nem deixa isolado.
- Para a vigilância, um resultado positivo apenas por amplificação classifica o caso como provável.
Serologia
- Exige duas amostras separadas por 10 ou mais dias. Confirma com subida de quatro vezes do título para L. pneumophila do serogrupo 1.
- Um título único elevado só permite classificar o caso como provável.
- 20 a 30% dos doentes não fazem resposta de anticorpos suficiente. Serve a investigação epidemiológica e não a decisão terapêutica.
Classificação do caso
| classificação | critério laboratorial |
|---|---|
| confirmado | isolamento em cultura; antigénio urinário de L. pneumophila; subida de quatro vezes do título para o serogrupo 1 |
| provável | amplificação de ácidos nucleicos; imunofluorescência direta; título único elevado; seroconversão para outras espécies ou serogrupos |
Diagnóstico diferencial entre as pneumonias atípicas
| pista epidemiológica | agente | marca clínica |
|---|---|---|
| água e aerossol, sem contágio entre pessoas | Legionella | confusão, diarreia, hiponatremia, creatina-cinase alta |
| aves | Chlamydia psittaci | psitacose |
| gado, produtos do parto | Coxiella burnetii | febre Q, com hepatite e risco de endocardite |
| jovens, contágio em casa ou na escola | Mycoplasma pneumoniae | aglutininas frias |
Não há vacina nem quimioprofilaxia, e o doente não se isola. A prevenção é ambiental, e a medida individual com impacto é deixar de fumar.
Redes de água
- A regra é manter a água quente quente e a água fria fria, fora da faixa dos 20 a 45 °C em que a Legionella se multiplica.
| ponto da rede | temperatura |
|---|---|
| Acumulador de água quente | 60 °C ou mais |
| Saída nas torneiras e chuveiros | 50 °C ou mais (de preferência 55) ao fim de 1 minuto |
| Retorno da recirculação | 50 °C ou mais (de preferência 55) |
| Água fria | abaixo de 25 °C (de preferência 20) ao fim de 2 minutos |
- Para evitar queimaduras não se baixa a temperatura da rede: montam-se válvulas misturadoras termostáticas tão perto do ponto de uso quanto possível.
- Evitar a estagnação: eliminar troços mortos e abrir semanalmente os pontos pouco usados.
- Limpar e desinfetar chuveiros, crivos e depósitos. O risco é máximo na reabertura de um edifício depois de um encerramento prolongado.
- Desinfeção: cloro, monocloramina ou ionização cobre-prata, com monitorização. Em surto, como medidas imediatas e temporárias, choque térmico e hipercloração, e filtros de ponto de uso nos locais de maior risco.
- Sem correção da temperatura e da hidráulica, o biofilme recoloniza a rede.
Torres de arrefecimento
- Tratamento contínuo da água, eliminadores de gotículas, limpeza e manutenção regulares e análises periódicas.
Unidades de saúde
- Plano de gestão da água, com identificação das áreas de alto risco (transplante, oncologia, cuidados intensivos).
- Água estéril em nebulizadores e equipamento respiratório, nunca água da rede.
- Fontes decorativas fora das áreas de doentes.
- Um só caso nosocomial obriga a investigar a rede de água e a procurar ativamente outros casos.
Lei n.º 52/2018
- Estabelece o regime de prevenção e controlo da doença dos legionários em Portugal, para os edifícios e estabelecimentos de acesso ao público, públicos ou privados.
- Abrange torres de arrefecimento, condensadores evaporativos e sistemas de arrefecimento industrial; humidificadores; sistemas de água para fins terapêuticos ou recreativos; redes de água quente sanitária; e sistemas de rega ou aspersão e fontes ornamentais.
- Obriga ao registo dos equipamentos, a um plano de prevenção e controlo (avaliação de risco, cadastro, pontos críticos, manutenção, limpeza e monitorização), a análises em laboratórios acreditados e a auditorias de três em três anos.
- As situações de risco elevado comunicam-se à autoridade de saúde local em 48 horas.
Notificação e investigação
- É doença de notificação obrigatória no sistema nacional de vigilância (SINAVE). Notifica-se logo que o caso é provável ou confirmado, sem esperar pela cultura nem pela tipagem.
- Regista-se a exposição dos 10 dias anteriores ao início dos sintomas: alojamentos e datas, viagens, spas, internamentos e contactos com unidades de saúde.
- É a notificação que desencadeia a investigação ambiental. A rede europeia de vigilância junta os casos associados a viagem por alojamento, e deteta aglomerados que nenhum país veria sozinho.
Antibiótico
- Começa-se logo que se suspeita, sem esperar pela confirmação: o atraso do antibiótico ativo triplica a mortalidade.
- Primeira linha, uma de duas classes:
| fármaco | dose |
|---|---|
| Levofloxacina | 750 mg uma vez por dia, oral ou endovenosa |
| Azitromicina | 500 mg uma vez por dia, oral ou endovenosa |
- Não há ensaios que comparem as duas classes. Estudos observacionais sugerem defervescência e internamento mais curtos com fluoroquinolona, e outros não mostram diferença.
- Endovenoso na doença grave e em todo o imunodeprimido, passando a oral quando melhora.
- Beta-lactâmicos não servem. A pneumonia medicada com amoxicilina ou amoxicilina e ácido clavulânico que não melhora é o cenário clássico.
- Alternativas: doxiciclina, rifampicina e cotrimoxazol, com resultados variáveis. A rifampicina nunca se usa sozinha. A associação de dois fármacos não mostrou melhorar o prognóstico.
- A levofloxacina ajusta-se à função renal. As duas classes prolongam o intervalo QT: corrigir o potássio e o magnésio e rever outros fármacos.
Duração
| situação | duração |
|---|---|
| Doença ligeira, doente imunocompetente | 10 a 14 dias |
| Doença grave ou imunodeprimido | 3 semanas |
| Formas extrapulmonares | conforme o local e a resposta |
- A maioria dos sintomas melhora nos primeiros 3 a 5 dias.
Evolução esperada
- A imagem pode agravar nos primeiros dias, sobretudo no imunodeprimido, e demora semanas a resolver.
- Isso não é falência: não se troca de antibiótico por causa da imagem nos primeiros dias.
Suporte
- Hiponatremia: corrigir sem exceder 10 mEq/L nas primeiras 24 horas e 8 mEq/L nas seguintes (ainda menos no doente de alto risco), pelo risco de desmielinização osmótica.
- Vigiar creatina-cinase e função renal.
- Precauções padrão: o doente não transmite e não se isola.
Febre de Pontiac
- Tratamento sintomático. Não se dá antibiótico.
Referências
- Pergam SA, Hawn TR. Legionella infections. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. p. 1250-7.
- Mandell LA, Niederman MS. Pneumonia. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. Capítulo 126.
- Surana NK, Kasper DL. Approach to the patient with an infectious disease. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. Tabela 119-1.
- Community-acquired pneumonia. In: Wing EJ, Schiffman FJ, editors. Cecil essentials of medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022.
- European Centre for Disease Prevention and Control. Legionnaires' disease. Annual epidemiological report for 2024. Stockholm: ECDC; 2026.
- European Study Group for Legionella Infections. European technical guidelines for the prevention, control and investigation of infections caused by Legionella species. Stockholm: ECDC; 2017.
- Direção-Geral da Saúde. Doença dos legionários: diagnóstico laboratorial. Lisboa: DGS; [consultado em 2026 set 28]. Disponível em: https://www.dgs.pt/doenca-dos-legionarios/informacao-para-profissionais1/diagnostico.aspx
- Lei n.º 52/2018, de 20 de agosto. Estabelece o regime de prevenção e controlo da doença dos legionários. Diário da República, 1.ª série, n.º 159; 2018.
- Centers for Disease Control and Prevention. Clinical guidance for Legionella infections. Atlanta: CDC; 2024.
- National Institute for Communicable Diseases. Legionellosis: guidelines for diagnosis, management and prevention. Version 1.2. Johannesburg: NICD; 2016.
- Metlay JP, Waterer GW, Long AC, Anzueto A, Brozek J, Crothers K, et al. Diagnosis and treatment of adults with community-acquired pneumonia. An official clinical practice guideline of the American Thoracic Society and Infectious Diseases Society of America. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45-67.
9 perguntas sobre Doença dos legionários
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