Abordagem ao doente com febre
Atualizado em 27 de setembro de 2026 · 8 perguntas neste tema
Febre é uma subida regulada da temperatura: citocinas libertadas por monócitos e macrófagos em resposta a infeção, inflamação ou lesão fazem o hipotálamo produzir prostaglandina E2, o ponto de referência sobe e o corpo passa a defender ativamente um valor mais alto. Na hipertermia o ponto de referência está normal e a temperatura sobe porque a produção de calor ultrapassa a dissipação, como no golpe de calor, na hipertermia maligna ou na síndrome neuroléptica maligna. A diferença decide a conduta: o antipirético baixa a febre e é inútil na hipertermia, que se trata arrefecendo.
Perante um doente febril, a primeira pergunta é se há tempo para investigar. Sépsis, meningite bacteriana e meningococemia, neutropenia febril, febre no asplénico e malária no viajante tratam-se antes de haver diagnóstico. Afastado o risco imediato, é a história de exposições e o estado imunitário que orientam, e os exames pedem-se para confirmar hipóteses. A ausência de febre não exclui infeção grave no idoso, no urémico, no cirrótico ou sob corticoides.
A febre de origem indeterminada é a febre de 38,3 °C ou mais, repetida, durante pelo menos três semanas, num doente imunocompetente que ficou sem diagnóstico depois de um conjunto mínimo de exames. As causas dividem-se em infeções, doenças inflamatórias não infeciosas, neoplasias, causas diversas e casos sem diagnóstico, que hoje são muitas vezes a maior fatia e têm, em regra, bom prognóstico. A tomografia por emissão de positrões com fluorodesoxiglicose entra cedo quando não há pistas, e o tratamento empírico fica reservado para quem está demasiado doente para esperar.
O antipirético trata o desconforto e protege quem tolera mal a taquicardia; no adulto, o paracetamol faz-se até 4 g por dia. Num doente estável em investigação, baixar sistematicamente a febre apaga um sinal que se quer seguir.
Temperatura normal e febre
- A temperatura central normal ronda os 37 °C, com oscilação diária de cerca de 0,4 °C para cada lado; o máximo é ao fim da tarde e o ritmo mantém-se durante a febre. A média medida hoje é mais baixa, perto de 36,7 °C.
- A temperatura retal é a que melhor reflete a central: é cerca de 0,4 °C mais alta do que a oral e 0,8 °C mais alta do que a axilar.
- A definição de febre mais usada é uma temperatura central de 38,3 °C ou mais, herdada dos estudos da febre de origem indeterminada. O valor de 38,0 °C é tido como o limite superior do normal e é o limiar de várias definições operacionais, como a da neutropenia febril.
- Hiperpirexia é a febre acima de 41,5 °C. Vê-se em infeções graves, mas a causa mais frequente é a hemorragia do sistema nervoso central.
Como se produz a febre
- Pirogénios exógenos (componentes e toxinas de microrganismos, produtos de lesão tecidular) ativam monócitos e macrófagos.
- Estes libertam pirogénios endógenos: interleucina-1, interleucina-6 e fator de necrose tumoral.
- As citocinas atuam no órgão vasculoso da lâmina terminal, uma zona do hipotálamo anterior sem barreira hematoencefálica, e induzem a produção de prostaglandina E2 na área pré-ótica, que eleva o ponto de referência.
- O corpo passa a sentir frio em relação ao novo alvo: vasoconstrição periférica, com mãos e pés frios, que por si só sobe a temperatura central 1 a 2 °C, e depois tremor e calafrios. Quando o ponto de referência desce, surgem vasodilatação e sudorese.
- A prostaglandina E2 produzida nos tecidos periféricos explica as mialgias e as artralgias que acompanham a febre.
- Os antipiréticos (paracetamol, ácido acetilsalicílico e outros anti-inflamatórios não esteroides) bloqueiam a síntese de prostaglandinas e baixam a temperatura.
O que a febre faz ao doente
- Tem valor defensivo: efeito antimicrobiano direto em algumas infeções e reforço da resposta imunitária humoral e celular. Em idosos com pneumonia, a mortalidade foi de 29% nos que não fizeram febre contra 4% nos que a fizeram.
- Tem custo: a frequência cardíaca sobe 15 a 20 batimentos por minuto por cada grau. O aumento de trabalho cardíaco pode precipitar insuficiência cardíaca ou enfarte em doentes com cardiopatia, e a febre pode causar desorientação no idoso e em quem tem doença cerebral.
- Bradicardia relativa é um pulso mais lento do que o esperado para a temperatura. É pouco sensível e pouco específica, mas é uma pista barata.
| Causas de bradicardia relativa | Exemplos |
|---|---|
| Bactérias intracelulares | febre tifoide, brucelose, febre Q, leptospirose, legionelose, Mycoplasma pneumoniae |
| Transmitidas por carraças | rickettsioses, babesiose |
| Outras infeções | malária, dengue, febre amarela |
| Não infeciosas | febre medicamentosa, bloqueadores beta, lesões do sistema nervoso central, linfoma, febre factícia |
Hipertermia
Na hipertermia o ponto de referência não mudou: a temperatura sobe porque se produz calor a mais ou porque não se consegue perdê-lo. Pode passar os 41 °C, não responde a antipiréticos e pode matar depressa.
- Golpe de calor: temperatura central acima de 40 °C, sintomas neurológicos (confusão, convulsões, coma) e exposição a calor ambiental (forma clássica) ou esforço intenso (forma de esforço). A mortalidade ronda os 10% e aproxima-se de um terço quando há hipotensão.
- Hipertermia maligna: reação hereditária a anestésicos voláteis ou à succinilcolina.
- Síndrome neuroléptica maligna: rigidez muscular, hipertermia, alteração do estado mental e instabilidade autonómica sob antipsicóticos, ou ao suspender bruscamente fármacos dopaminérgicos.
- Síndrome serotoninérgica: confusão, hipertermia, taquicardia, tremor, rigidez e sobretudo mioclonias, com dois fármacos serotoninérgicos em associação ou, em pessoas sensíveis, com um só.
- Tóxicos: simpaticomiméticos, ecstasy e anfetaminas, anticolinérgicos e salicilatos.
- Incapacidade de perder calor em doentes com lesão medular ou dermatoses extensas.
| Febre | Hipertermia | |
|---|---|---|
| Ponto de referência | elevado | normal |
| Mecanismo | citocinas e prostaglandina E2 | produção de calor acima da dissipação |
| Temperatura | subida regulada | pode passar os 41 °C |
| Antipirético | eficaz | ineficaz |
| Tratamento | a causa, e antipirético se útil | arrefecimento ativo e agente específico |
Primeiro, a gravidade
- A impressão geral conta: agitação ou ansiedade num doente febril pode anunciar doença crítica.
- Sinais vitais completos, com saturação de oxigénio, e avaliação da via aérea quando há infeção orofaríngea.
- Um doente crítico pode estar hipotérmico, e isso associa-se a falência de órgão e maior mortalidade.
Sinais de alarme
- Pressão arterial sistólica de 100 mmHg ou menos, frequência respiratória de 22 por minuto ou mais, alteração do estado mental: são os três itens do qSOFA (avaliação sequencial rápida de falência de órgão); dois ou mais anunciam mau prognóstico.
- Hipoxemia, oligúria, má perfusão periférica, lactato elevado.
- Petéquias ou púrpura, eritrodermia, rigidez da nuca, défice neurológico focal.
- Dor, edema ou alteração da cor de partes moles desproporcionadas.
- Contextos: neutropenia, asplenia, transplante e imunossupressão, infeção por VIH avançada, viagem a área de malária, idade avançada, cirrose, alcoolismo, diabetes, drogas endovenosas.
História
| Eixo | O que perguntar |
|---|---|
| Início e evolução | duração, ritmo, calafrios, antipiréticos tomados e a que horas |
| Sintomas localizadores | revisão por aparelhos, sobretudo neurológicos, pele, dor focal |
| Viagens | itinerário, datas, meio rural ou urbano, vacinas e profilaxia da malária |
| Animais e vetores | animais de estimação e de quinta, carraças, mosquitos, roedores |
| Alimentação e água | carne mal cozinhada, leite e queijo não pasteurizados, marisco, água não tratada |
| Contactos | pessoas doentes, tuberculose, contactos sexuais |
| Ocupação e passatempos | exposição profissional, jardinagem, água doce |
| Fármacos | início recente, imunossupressores, quimioterapia, antibióticos, drogas |
| Dispositivos e cirurgia | cateteres, próteses, drenos, cirurgia recente |
| Estado imunitário | neutropenia, VIH, transplante, esplenectomia, doença de base |
Exame objetivo
- Pele inteira, à frente e atrás: petéquias, escara de inoculação, eritrodermia, hemorragias subungueais, nódulos de Osler, lesões de Janeway, úlceras de pressão.
- Mucosas e conjuntivas (petéquias da meningococemia e da endocardite).
- Gânglios de todas as regiões: gânglios epitrocleares palpáveis são sempre patológicos.
- Sopros cardíacos, fígado e baço, articulações.
- Sinais meníngeos, estado mental, pares cranianos, défices focais.
- Cateteres, drenos e feridas.
- Repetir o exame: os sinais localizadores aparecem muitas vezes mais tarde.
O padrão da febre
- Vale pouco, sobretudo sob antipiréticos.
- Oscilações amplas da temperatura sugerem abcesso.
- Febre alta com calafrios separada por 1 a 3 dias sem febre, depois de estadia em área endémica, sugere malária.
Febre aguda
- Adulto saudável com quadro viral e sem sinais de alarme: muitas vezes nenhum exame.
- Suspeita de infeção bacteriana: hemograma com fórmula e plaquetas, bioquímica com função renal e hepática, proteína C reativa, lactato, urina, hemoculturas e radiografia de tórax. Esfregaço de sangue em quem esteve em área de malária.
- Hemoculturas antes do antibiótico, sem que isso o atrase; três séries se há suspeita de endocardite aguda.
- Suspeita de meningite: punção lombar antes do antibiótico. Com défice focal, depressão da consciência ou edema papilar, colhem-se hemoculturas, dá-se o antibiótico e só depois se faz a tomografia, seguida da punção lombar se for segura.
- Suspeita de abcesso: tomografia ou ressonância imediata, a pensar na drenagem.
Interpretação
- Neutrofilia com formas jovens aponta para bactérias, linfocitose para vírus, eosinofilia para parasitas; muitas viroses dão leucopenia.
- A proteína C reativa muda em horas e pode seguir-se dia a dia; a velocidade de sedimentação muda devagar e não vale a pena repeti-la mais do que uma vez por semana. Uma velocidade de sedimentação acima de 100 mm/h tem valor preditivo de 90% para doença grave subjacente.
- A procalcitonina é um adjuvante: não decide sozinha.
Febre de origem indeterminada
Definição atual: febre de 38,3 °C ou mais em várias ocasiões, durante pelo menos três semanas, num doente imunocompetente, sem explicação depois de um conjunto mínimo de exames. O conjunto mínimo substituiu o critério de tempo das definições antigas. Baixar o limiar para 38,0 °C foi proposto e não reuniu consenso.
Investigação mínima obrigatória
- Hemograma com fórmula, bioquímica com cálcio e provas hepáticas, velocidade de sedimentação, proteína C reativa, ferritina, tirotropina, fator reumatoide, anticorpos antinucleares e anticorpos anticitoplasma dos neutrófilos.
- Serologia do VIH, urina com sedimento, prova tuberculínica ou teste de libertação de interferão gama, três séries de hemoculturas.
- Imagem: ecografia abdominal e radiografia de tórax, ou, de preferência, tomografia computorizada de tórax, abdómen e pélvis.
Classificação clássica, de 1991, ainda usada para o contexto:
| Tipo | Critério |
|---|---|
| Clássica | mais de 38,3 °C em várias ocasiões, mais de 3 semanas, sem diagnóstico após 3 consultas, 3 dias de internamento ou 1 semana de investigação invasiva em ambulatório |
| Nosocomial | mais de 38,3 °C em várias ocasiões num internado em cuidados agudos, sem infeção presente ou em incubação à entrada; 3 dias de investigação, com pelo menos 2 dias de incubação das culturas |
| Neutropénica | mais de 38,3 °C em várias ocasiões com neutrófilos abaixo de 500/µL ou com descida prevista para esse valor em 1 a 2 dias |
| Associada ao VIH | mais de 38,3 °C em várias ocasiões durante mais de 4 semanas em ambulatório, ou mais de 3 dias internado |
Confirmar que há febre: numa série de 347 doentes enviados por febre prolongada, até 35% não tinham febre significativa ou tinham febre factícia. Desconfiar quando falta variação diurna, não há taquicardia, a temperatura oral e a retal simultâneas não batem certo, ou a defervescência é súbita.
Causas, em cinco grupos:
| Grupo | Exemplos |
|---|---|
| Infeções | abcessos abdominais e pélvicos, endocardite, tuberculose, infeção urinária complicada, doença das vias biliares, osteomielite, citomegalovírus, VIH, brucelose |
| Inflamatórias não infeciosas | no jovem, doença de Still do adulto e lúpus; no idoso, arterite de células gigantes e polimialgia reumática; sarcoidose |
| Neoplasias | linfoma, leucemia, carcinoma de células renais, carcinoma hepatocelular, metástases |
| Diversas | tromboembolismo venoso, febre medicamentosa, hipertiroidismo, febres periódicas |
| Sem diagnóstico | numa série holandesa, 51%; infeção 16%, inflamatórias 22%, neoplasia 7%, diversas 4% |
Sequência
- Reler a história e repetir o exame à procura de pistas: são elas que escolhem o exame seguinte. Pedir tudo às cegas gera falsos positivos, custos e atrasos.
- Sem pistas, a tomografia por emissão de positrões com fluorodesoxiglicose é um exame precoce depois da investigação mínima. Quando é negativa, a remissão espontânea é mais provável.
- Ecocardiograma se há sopro e suspeita de endocardite com culturas negativas ou de mixoma.
- Biópsias (gânglio, medula óssea, artéria temporal) quando há suspeita dirigida; a biópsia da artéria temporal considera-se a partir dos 55 anos.
Febre no imunodeprimido e neutropenia febril
- Os sinais inflamatórios estão atenuados: pneumonia sem infiltrado, infeção urinária sem piúria, abdómen sem dor sob corticoides. A febre pode ser o único sinal.
- Neutropenia febril: temperatura oral acima de 38,3 °C, ou duas leituras acima de 38,0 °C ao longo de 2 horas, com neutrófilos abaixo de 500/µL ou com descida prevista para esse valor. As orientações americanas usam 38,3 °C numa medição ou 38,0 °C mantidos durante 1 hora. É uma emergência: hemoculturas, incluindo de cada lúmen do cateter central, e antibiótico na primeira hora, sem esperar por foco. O tratamento e a estratificação de risco estão em febre e infeção no doente imunodeprimido.
- Com défice da imunidade celular a febre prolongada deve-se muitas vezes a fungos e citomegalovírus, e não a bactérias piogénicas.
- Infeção por VIH, pela contagem de linfócitos T CD4:
| CD4 | Infeção a considerar e profilaxia primária |
|---|---|
| Abaixo de 200/µL | Pneumocystis jirovecii; profilaxia também com candidíase orofaríngea |
| Abaixo de 100/µL, com IgG anti-Toxoplasma positiva | toxoplasmose cerebral |
| Abaixo de 50/µL | complexo Mycobacterium avium, se a terapêutica antirretroviral não começar logo; citomegalovírus |
Febre no viajante
- Excluir malária primeiro em qualquer doente febril que tenha estado em área de malária: a malária por Plasmodium falciparum mata se não for tratada a tempo.
- Gota espessa e esfregaço, que dão a espécie e a parasitemia. Se forem negativos, repetir de 12 em 12 ou de 24 em 24 horas até três séries antes de excluir. O teste rápido de antigénio confirma-se sempre por microscopia.
- As causas mais frequentes continuam a ser as comuns, como infeções respiratórias e urinárias; entre as importadas, dengue, febre tifoide e abcesso hepático amebiano.
| Pista | Pensar em |
|---|---|
| Exantema | dengue, chikungunya, rickettsioses, febre entérica, VIH agudo, sarampo, esquistossomose aguda |
| Leucócitos normais ou baixos | dengue, malária, rickettsioses, febre entérica, chikungunya |
| Hemorragia | dengue e outras febres hemorrágicas, meningococemia, leptospirose, rickettsioses |
| Eosinofilia | esquistossomose aguda, reação a fármacos, outras parasitoses |
| Alteração do estado mental | malária cerebral, meningoencefalite |
| Início mais de 6 semanas após a viagem | malária por Plasmodium vivax, hepatite aguda B, C ou E, tuberculose, abcesso hepático amebiano |
O diagnóstico diferencial por destino e incubação está em doenças associadas ao viajante e o da malária em zoonoses e infeções transmitidas por artrópodes.
Doente grave: tratar sem esperar pelo diagnóstico
- Choque sético possível ou sépsis provável: antibiótico imediato, idealmente na primeira hora. Sépsis possível sem choque: investigação rápida e antibiótico nas primeiras 3 horas se a suspeita se mantiver.
- Hipoperfusão ou choque: pelo menos 30 mL/kg de cristaloide nas primeiras 3 horas, noradrenalina como primeiro vasopressor, alvo de pressão arterial média de 65 mmHg, lactato para guiar a reanimação.
- Controlo do foco: drenar o abcesso, retirar o cateter infetado, desbridar. Na fasceíte necrotizante, a cirurgia precede tudo o resto.
- Meningite bacteriana: dexametasona antes ou com a primeira dose de antibiótico.
- Meningococemia: ceftriaxona 2 g de 12 em 12 horas.
- Asplénico com febre: ceftriaxona 2 g de 12 em 12 horas com vancomicina 15 mg/kg de 12 em 12 horas, pelo risco de sépsis fulminante por pneumococo, Haemophilus influenzae e meningococo.
- Neutropenia febril: beta-lactâmico com atividade anti-Pseudomonas em monoterapia (cefepima, piperacilina com tazobactam ou um carbapenemo). Índice de risco de 21 ou mais no score da associação multinacional de cuidados de suporte no cancro identifica o baixo risco, candidato a ciprofloxacina com amoxicilina e ácido clavulânico por via oral. A vancomicina não se junta por rotina, e o antifúngico empírico considera-se se a febre persistir 4 a 7 dias.
A sépsis tem tratamento detalhado em sépsis e choque sético.
Doente estável
- Tratar a causa. Numa virose autolimitada, a atitude é sintomática e de vigilância.
- Na febre de origem indeterminada, não dar antibiótico nem corticoide empíricos ao doente estável e imunocompetente: raramente curam e atrasam o diagnóstico. A prova terapêutica fica para quem falhou todas as abordagens ou está demasiado doente para esperar. O imunodeprimido e o neutropénico são a exceção.
- Num doente em investigação, o antipirético pode suspender-se para seguir a curva e a resposta ao tratamento.
Antipiréticos no adulto
Quando usar: desconforto, doença cardiopulmonar que tolera mal a taquicardia, doença cerebral ou idoso que fica confuso com a febre.
| Fármaco | Dose no adulto | Cautelas |
|---|---|---|
| Paracetamol oral | 1 g por toma, 2 a 4 vezes por dia, com intervalo de 4 a 8 horas; máximo 4 g por dia | reduzir a dose ou alargar o intervalo na insuficiência hepática ou renal e na doença de Gilbert |
| Paracetamol endovenoso | acima de 50 kg: 1 g até 4 vezes por dia, intervalo mínimo de 4 horas, máximo 4 g; entre 33 e 50 kg: 15 mg/kg por toma, máximo 60 mg/kg sem passar 3 g | máximo 3 g por dia na insuficiência hepatocelular, alcoolismo crónico, desnutrição e desidratação; intervalo mínimo de 6 horas com depuração da creatinina de 30 mL/min ou menos |
| Ibuprofeno oral | 400 mg até 3 vezes por dia, depois das refeições; máximo 1200 mg por dia sem receita | contraindicado com úlcera ativa ou hemorragia digestiva com anti-inflamatórios, insuficiência cardíaca grave, insuficiência renal ou hepática, doença cardiovascular estabelecida, desidratação importante; interage com anticoagulantes, lítio, metotrexato e anti-hipertensores |
| Metamizol | autorizado em Portugal para dor e febre | agranulocitose não dependente da dose, em qualquer altura do tratamento ou pouco depois; suspender perante febre, dor de garganta ou úlceras das mucosas |
- O ácido acetilsalicílico não se usa como antipirético em crianças e adolescentes, pelo risco de síndrome de Reye.
- Febre que dura mais de 3 dias sob automedicação justifica avaliação médica.
Hipertermia
- Golpe de calor: arrefecer primeiro. Imersão do corpo, do pescoço para baixo, em água fria (1 a 26 °C), até a temperatura central ficar abaixo de 39 °C, idealmente entre 38,5 e 38,0 °C, com o objetivo de lá chegar nos primeiros 30 minutos. Sem temperatura central, manter cerca de 15 minutos ou até os sintomas neurológicos resolverem. Sem imersão, combinar gelo, água pulverizada, ventilação e duche frio. Paracetamol e ácido acetilsalicílico não têm benefício.
- Hipertermia maligna: suspender o agente desencadeante, dantroleno 2,5 mg/kg endovenoso logo que possível, oxigénio a 100% e arrefecimento ativo.
- Síndrome neuroléptica maligna: suspender o antipsicótico; dantroleno, benzodiazepina ou agonista dopaminérgico; suporte em cuidados intensivos.
- Síndrome serotoninérgica: suspender os fármacos serotoninérgicos; benzodiazepinas e ciproheptadina.
Referências
- Wright WF, Auwaerter PG. Fever and fever of unknown origin: review, recent advances, and lingering dogma. Open Forum Infect Dis. 2020;7(5):ofaa132.
- Wright WF, Stelmash L, Betrains A, Mulders-Manders CM, Rovers CP, Vanderschueren S, et al. Recommendations for updating fever and inflammation of unknown origin from a modified Delphi consensus panel. Open Forum Infect Dis. 2024;11(7):ofae298.
- Bleeker-Rovers CP, Vos FJ, de Kleijn EM, Mudde AH, Dofferhoff TS, Richter C, et al. A prospective multicenter study on fever of unknown origin: the yield of a structured diagnostic protocol. Medicine (Baltimore). 2007;86(1):26-38.
- Durack DT, Street AC. Fever of unknown origin: reexamined and redefined. Curr Clin Top Infect Dis. 1991;11:35-51.
- Fever and febrile syndromes. In: Cecil essentials of medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. cap. 90.
- Approach to the patient with an infectious disease. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. cap. 119.
- Barlam TF. Approach to the acutely ill infected febrile patient. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. cap. 122.
- Human immunodeficiency virus disease: AIDS and related disorders. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. cap. 202 (tabela 202-11).
- Walter EJ, Hanna-Jumma S, Carraretto M, Forni L. The pathophysiological basis and consequences of fever. Crit Care. 2016;20(1):200.
- Singer M, Deutschman CS, Seymour CW, Shankar-Hari M, Annane D, Bauer M, et al. The third international consensus definitions for sepsis and septic shock (Sepsis-3). JAMA. 2016;315(8):801-10.
- Evans L, Rhodes A, Alhazzani W, Antonelli M, Coopersmith CM, French C, et al. Surviving sepsis campaign: international guidelines for management of sepsis and septic shock 2021. Intensive Care Med. 2021;47(11):1181-247.
- Freifeld AG, Bow EJ, Sepkowitz KA, Boeckh MJ, Ito JI, Mullen CA, et al. Clinical practice guideline for the use of antimicrobial agents in neutropenic patients with cancer: 2010 update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2011;52(4):e56-93.
- Klastersky J, de Naurois J, Rolston K, Rapoport B, Maschmeyer G, Aapro M, et al. Management of febrile neutropaenia: ESMO clinical practice guidelines. Ann Oncol. 2016;27(suppl 5):v111-v118.
- Taplitz RA, Kennedy EB, Bow EJ, Crews J, Gleason C, Hawley DK, et al. Outpatient management of fever and neutropenia in adults treated for malignancy: American Society of Clinical Oncology and Infectious Diseases Society of America clinical practice guideline update. J Clin Oncol. 2018;36(14):1443-53.
- Centers for Disease Control and Prevention. Malaria diagnostic tests [Internet]. Atlanta: CDC; 2024 [citado 2026 set 27]. Disponível em: https://www.cdc.gov/malaria/hcp/diagnosis-testing/malaria-diagnostic-tests.html
- Lott C, Karageorgos V, Abelairas-Gomez C, Alfonzo A, Bierens J, Cantellow S, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2025: special circumstances in resuscitation. Resuscitation. 2025;215 Suppl 1:110753.
- Djärv T, Rogers J, Semeraro F, Brädde L, Cassan P, Cimpoesu D, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2025: first aid. Resuscitation. 2025;215 Suppl 1:110752.
- Tremor, chorea, and other movement disorders. In: Jameson JL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Loscalzo J, editors. Harrison's principles of internal medicine. 20th ed. New York: McGraw Hill; 2018 (síndrome neuroléptica maligna e síndrome serotoninérgica).
- INFARMED. Resumo das características do medicamento: Paracetamol Farmoz 1000 mg comprimidos. Lisboa: INFARMED; 2022.
- INFARMED. Resumo das características do medicamento: Paracetamol Farmoz 10 mg/ml solução para perfusão. Lisboa: INFARMED; 2022.
- INFARMED. Protocolo de dispensa exclusiva em farmácia: ibuprofeno 400 mg. Versão 3. Lisboa: INFARMED.
- INFARMED. Circular informativa n.º 071/CD/550.20.001: medicamentos contendo metamizol, risco de agranulocitose. Lisboa: INFARMED; 2024.
8 perguntas sobre Abordagem ao doente com febre
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar