Suporte transfusional de sangue e hemoderivados
Atualizado em 17 de julho de 2026 · 7 perguntas neste tema
O suporte transfusional consiste na administração de componentes sanguíneos (concentrado eritrocitário, plaquetas, plasma fresco congelado e crioprecipitado) para corrigir défices específicos, e não "sangue total". A decisão de transfundir assenta numa estratégia restritiva baseada em limiares de hemoglobina e num rigoroso controlo de compatibilidade ABO/Rh. A segurança do processo depende sobretudo da identificação correta do doente e da unidade, sendo o erro de identificação a causa da reação transfusional mais temida.
A avaliação pré-transfusional (competência de diagnóstico) tem duas frentes: decidir se transfundir e garantir a compatibilidade.
Limiares (estratégia restritiva, guidelines AABB 2023):
- Doente hospitalizado, hemodinamicamente estável: transfundir com Hb < 7 g/dL.
- Doença cardiovascular preexistente ou cirurgia ortopédica: limiar de 8 g/dL.
- Cirurgia cardíaca: pode considerar-se 7,5 g/dL. Na hemorragia ativa os limiares numéricos não se aplicam de forma isolada: decide-se pela clínica, magnitude e velocidade da perda.
Provas laboratoriais imunohematológicas:
- Tipagem ABO/RhD do recetor.
- Rastreio de anticorpos irregulares (pesquisa de aloanticorpos anti-eritrocitários clinicamente significativos, por exemplo anti-Kell, anti-Rh não-D, anti-Duffy).
- Prova de compatibilidade (cross-match): confronto do soro do recetor com eritrócitos da unidade a transfundir. O cross-match completo (fase antiglobulina) confirma ausência de reatividade; havendo rastreio negativo e histórico limpo, pode usar-se cross-match eletrónico/imediato.
Reconhecer a reação transfusional é parte do diagnóstico. A vigilância clínica durante e após a transfusão orienta o tipo de reação:
- Febre isolada com calafrios (mais frequente): sugere reação febril não hemolítica.
- Febre, dor lombar, hemoglobinúria, hipotensão durante os primeiros mL: muito sugestivo de reação hemolítica aguda por incompatibilidade ABO.
- Urticária/prurido sem instabilidade: reação alérgica ligeira.
- Dispneia com hipoxémia: distinguir TRALI (infiltrados bilaterais, normovolémia, tipicamente < 6 h) de TACO (sobrecarga, hipertensão, resposta a diuréticos). O estudo pós-reação inclui repetir tipagem, teste de antiglobulina direto (Coombs direto), inspeção do plasma para hemólise e cultura da unidade se houver suspeita de contaminação.
A abordagem terapêutica (competência de gestão) integra a escolha do componente, a dose, a via e a resposta às complicações.
Administração:
- Verificação beira-leito obrigatória: confirmar identidade do doente e correspondência com a unidade antes de iniciar (passo que previne o erro ABO).
- CE administrado por sistema com filtro; vigilância apertada nos primeiros 15 minutos, período em que surge a maioria das reações graves.
- Transfundir uma unidade de cada vez e reavaliar (one unit at a time), evitando transfusão excessiva.
Alvos por componente:
- CE: habitualmente 1 unidade e reavaliação clínica/analítica.
- Plaquetas: profilaxia se contagem muito baixa (por exemplo < 10 ×10⁹/L na trombocitopenia hipoproliferativa) ou limiares superiores antes de procedimentos invasivos/hemorragia ativa.
- PFC: coagulopatia com hemorragia ou pré-procedimento com alteração significativa dos tempos de coagulação; 10-15 mL/kg.
- Crioprecipitado: repor fibrinogénio quando baixo, sobretudo em hemorragia maciça e contexto obstétrico.
Gestão das reações:
- Parar imediatamente a transfusão em qualquer reação significativa, manter acesso com soro fisiológico e reverificar a identificação doente/unidade.
- Hemolítica aguda / suspeita de contaminação bacteriana: emergência: suporte hemodinâmico agressivo, fluidos, manter diurese; na contaminação, antibioticoterapia de largo espetro e hemoculturas do doente e da unidade.
- Anafilaxia: adrenalina intramuscular, suporte de via aérea e circulação; investigar défice de IgA.
- Reação febril não hemolítica: antipiréticos e exclusão de hemólise/sépsis antes de rotular como benigna.
- TACO: interromper, oxigénio, diuréticos e postura sentada; prevenir com transfusão lenta e restritiva no doente com risco cardíaco/renal.
- TRALI: suporte ventilatório; é de causa imunológica, não responde a diuréticos. Qualquer reação deve ser notificada ao serviço de hemovigilância e ao banco de sangue.
Referências
- Carson JL, Stanworth SJ, Guyatt G, et al. Red Blood Cell Transfusion: 2023 AABB International Guidelines. JAMA. 2023;330(19):1892-1902.
- Suddock JT, Crookston KP. Transfusion Reactions. StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2023.
- Estcourt LJ, Birchall J, Allard S, et al; British Society for Haematology. Guidelines for the use of platelet transfusions. Br J Haematol. 2017;176(3):365-394.
- New HV, Berryman J, Bolton-Maggs PHB, et al; British Society for Haematology. Guidelines on transfusion for fetuses, neonates and older children. Br J Haematol. 2016;175(5):784-828.
- Greenberg PL, Stone RM, Al-Kali A, et al. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology: Myelodysplastic Syndromes. Version 2024.
- Fenaux P, Platzbecker U, Mufti GJ, et al. Luspatercept in Patients with Lower-Risk Myelodysplastic Syndromes. N Engl J Med. 2020;382(2):140-151.
7 perguntas sobre Suporte transfusional de sangue e hemoderivados
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