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Síndromes mielodisplásicas

Matriz PNA:MD · MecanismosD · Diagnóstico

Atualizado em 29 de setembro de 2026 · 11 perguntas neste tema

Em resumo

As síndromes mielodisplásicas, que a classificação da OMS (Organização Mundial da Saúde) de 2022 passou a chamar neoplasias mielodisplásicas, são neoplasias mieloides clonais da célula estaminal hematopoiética. A medula, normo ou hipercelular, produz precursores que morrem antes de amadurecer, e daí nasce o paradoxo que as define: citopenias no sangue com uma medula cheia, displasia de uma ou mais linhagens e blastos abaixo de 20%, que é o limiar da leucemia mieloide aguda.

São doenças do idoso, com mediana de idade de 70 anos, e nascem sobretudo da acumulação de mutações com o envelhecimento; uma minoria segue-se a quimioterapia ou radioterapia, com pior prognóstico, e no doente jovem procura-se uma predisposição hereditária. Metade dos doentes não tem sintomas e chega por um hemograma, habitualmente com anemia, muitas vezes macrocítica, e reticulócitos baixos; os outros apresentam-se com cansaço, infeções ou hemorragias.

O diagnóstico exige mielograma e biópsia óssea, citogenética e estudo molecular, e só se faz depois de excluir o que imita a doença: défice de vitamina B12, de folato ou de cobre, álcool, fármacos e infeções. A citogenética e as mutações definem entidades próprias, como a deleção isolada de 5q, a mutação SF3B1 e a inativação bialélica de TP53, e entram nas escalas de prognóstico que orientam o tratamento.

No risco mais baixo trata-se a anemia: transfusão só da anemia sintomática, como pede a norma da DGS, epoetina quando a eritropoietina endógena é baixa, luspatercept, e lenalidomida na deleção de 5q. No risco mais alto tenta-se mudar a história natural com azacitidina, e o transplante alogénico é a única cura. O que não se pode falhar é a carência tratável tomada por neoplasia, a leucemia mielomonocítica crónica arrumada com as mielodisplasias e a forma hereditária no doente jovem.

Causas e fatores de risco

  • Envelhecimento: acumulação de mutações numa célula estaminal de uma medula envelhecida. É a situação da maioria, sem exposição identificável nem doença hematológica prévia.
  • Exposições: radiação ionizante, benzeno e outros solventes orgânicos.
  • Terapêutica citotóxica prévia: alquilantes e radioterapia, com latência de 5 a 7 anos; inibidores da topoisomerase II, com latência de cerca de 2 anos e alterações de 11q23. A OMS de 2022 junta-as às restantes neoplasias mieloides pós-terapêutica citotóxica.
  • Predisposição constitucional: anemia de Fanconi, telomeropatias e outras falências medulares hereditárias, variantes germinativas de GATA2, RUNX1 e DDX41. A anemia aplástica adquirida também pode evoluir para mielodisplasia.

Hematopoiese ineficaz

  • A medula produz precursores em número normal ou aumentado, mas a maturação é defeituosa e há apoptose intramedular: morrem antes de chegar ao sangue.
  • Há também um componente imune, sobretudo no risco mais baixo, que explica as respostas à imunossupressão, como na anemia aplástica.
  • Na deleção de 5q, a perda de um alelo de um gene de proteína ribossómica (RPS14) imita a aplasia eritroide congénita.

Genética

  • Citogenética alterada em cerca de metade dos doentes. Predominam perdas e ganhos de cromossomas (perda de 5, 7 ou 20, trissomia 8) sobre as translocações.
  • Mutações somáticas em cerca de 80%, em mais de 40 genes recorrentes, muitos partilhados com a leucemia mieloide aguda.
  • A evolução é clonal: o clone fundador adquire mutações sucessivas até à dominância e, por fim, à leucemia.
viagenessignificado
SpliceossomaSF3B1, SRSF2, U2AF1, ZRSR2SF3B1 associa-se a sideroblastos em anel e a prognóstico favorável
Regulação epigenéticaTET2, DNMT3A, ASXL1, EZH2, IDH1, IDH2ASXL1 e EZH2 desfavoráveis; TET2 associa-se a cariótipo normal
Fator de transcriçãoRUNX1desfavorável; baixa o recetor da trombopoietina e dá trombocitopenia
Resposta ao dano do ADNTP53muito desfavorável; associa-se a cariótipo complexo

A displasia ao microscópio

linhagemachados
Eritroidenúcleos megaloblastoides, multinucleação, sideroblastos em anel (grânulos de ferro nas mitocôndrias, em coroa à volta do núcleo, vistos com a coloração de Perls)
Granulocíticahipogranulação, anomalia de pseudo-Pelger-Huet (núcleo bilobado, em pince-nez), corpos de Döhle
Megacariocíticamicromegacariócitos, núcleos hipolobulados ou separados; plaquetas grandes e sem grânulos

Sangue periférico

  • Anemia na maioria, isolada ou com bi ou pancitopenia; neutropenia ou trombocitopenia isoladas são pouco habituais.
  • Macrocitose frequente, com reticulócitos baixos para o grau de anemia. Leucócitos normais ou baixos, exceto na leucemia mielomonocítica crónica.
  • Esfregaço: neutrófilos hipogranulares e pseudo-Pelger-Huet (suspeitar quando o contador automático dá muitas formas em banda), plaquetas grandes e sem grânulos, ponteado basófilo, por vezes blastos circulantes.

O que excluir antes

causacomo se exclui
Défice de vitamina B12 ou de folatodoseamentos
Défice de vitamina B6prova terapêutica com piridoxina, se houver sideroblastos em anel
Défice de cobredoseamento; dá citopenias e medula displásica de celularidade variável
Consumo crónico de álcoolhistória
Fármacos, suplementos, tóxicoshistória e relação temporal
Infeções virais agudas e infeção pelo VIHserologias; a displasia de uma infeção aguda é transitória
Quimioterapia ou radioterapia nos últimos 6 meseshistória
Anemia aplástica e hemoglobinúria paroxística noturna, se a medula for pobrebiópsia; citometria de fluxo para o clone

Medula óssea

  • Mielograma e biópsia óssea são obrigatórios. A medula é normo ou hipercelular; numa minoria é hipocelular e confunde-se com anemia aplástica.
  • A displasia conta-se por linhagem: significativa a partir de 10% das células.
  • Os blastos contam-se à mão no esfregaço e por citometria de fluxo: definem a entidade e pesam no prognóstico.
  • Coloração de Perls para os sideroblastos em anel.
  • Citogenética convencional, com hibridação in situ por fluorescência quando é preciso, e sequenciação de nova geração, que prova a clonalidade quando o cariótipo é normal (cerca de metade dos casos).

Classificação da OMS de 2022

grupoentidadecritérios
Definidas pela genéticacom deleção isolada de 5qdel(5q) só, ou com uma outra alteração que não a monossomia 7 nem a del(7q); blastos abaixo de 5% na medula e de 2% no sangue
com mutação SF3B1sem del(5q), monossomia 7 nem cariótipo complexo; blastos baixos; 15% ou mais de sideroblastos em anel substituem a mutação
com inativação bialélica de TP53duas mutações, ou uma mutação com perda do outro alelo; blastos abaixo de 20%
Definidas pela morfologiacom blastos baixosabaixo de 5% na medula e de 2% no sangue
hipoplásicacelularidade de 25% ou menos, ajustada à idade
com blastos aumentados, tipo 15 a 9% na medula ou 2 a 4% no sangue
com blastos aumentados, tipo 210 a 19% na medula, 5 a 19% no sangue, ou bastonetes de Auer
com fibrose5 a 19% de blastos na medula ou 2 a 19% no sangue, com fibrose medular
  • Com blastos aumentados de tipo 2, a OMS admite tratar a doença como uma leucemia mieloide aguda.
  • A leucemia mielomonocítica crónica não é uma mielodisplasia: pertence às neoplasias mielodisplásicas e mieloproliferativas, e define-se por monocitose persistente de 0,5 x 10⁹/L ou mais e 10% ou mais dos leucócitos.

Estratificação do risco

A escala internacional de prognóstico revista (IPSS-R, do inglês) soma os pontos de cinco variáveis:

variável00,511,5234
Citogenéticamuito boaboaintermédiamámuito má
Blastos na medula (%)2 ou menosmais de 2 e menos de 55 a 10mais de 10
Hemoglobina (g/dL)10 ou mais8 a menos de 10menos de 8
Plaquetas (x 10⁹/L)100 ou mais50 a menos de 100menos de 50
Neutrófilos (x 10⁹/L)0,8 ou maismenos de 0,8
grupo citogenéticoalterações
Muito bomperda do Y, del(11q)
Bomcariótipo normal, del(5q), del(12p), del(20q), dupla que inclua del(5q)
Intermédiodel(7q), trissomia 8, trissomia 19, i(17q), outras simples ou duplas
Maumonossomia 7, alterações de 3q, dupla que inclua monossomia 7 ou del(7q), complexo com 3 alterações
Muito maucomplexo com mais de 3 alterações
  • Categorias: muito baixo até 1,5 pontos; baixo acima de 1,5 e até 3; intermédio acima de 3 e até 4,5; alto acima de 4,5 e até 6; muito alto acima de 6.
  • Na prática separam-se dois grupos: risco mais baixo (muito baixo e baixo) e risco mais alto (alto e muito alto). O intermédio é a zona cinzenta e decide-se caso a caso; as indicações aprovadas dos fármacos da anemia incluem-no no risco mais baixo.
  • A escala molecular (IPSS-M, do inglês), de 2022, junta às mesmas variáveis clínicas (citogenética, blastos, hemoglobina, plaquetas) as mutações de 31 genes, tem seis categorias (muito baixo, baixo, moderado baixo, moderado alto, alto, muito alto) e muda de categoria 46% dos doentes em relação à escala revista.
Síndromes mielodisplásicas Neoplasias mieloides clonais da célula estaminal, com hematopoiese ineficaz Paradoxo central: medula rica em precursores, sangue periférico pobre Medula normo/hipercelular produção de precursores mantida ou aumentada Apoptose intramedular maturação defeituosa; precursores morrem antes Citopenias periféricas anemia · neutropenia · trombocitopenia Mielodisplasia: displasia e blastos abaixo de 20% Leucemia mieloide aguda: 20% ou mais A fronteira dos 20% de blastos separa a mielodisplasia da leucemia mieloide aguda Esfregaço e medula (displasia) Pseudo-Pelger-Huet: hipossegmentação Hipogranulação dos neutrófilos Sideroblastos em anel (Perls; SF3B1) Micromegacariócitos hipolobulados Displasia significativa: 10% ou mais de uma linhagem; blastos abaixo de 20% Citogenética e mutações del(5q) isolada: favorável Monossomia 7: prognóstico mau Cariótipo complexo (3 ou mais anomalias): mau TP53 bialélica: muito mau prognóstico SF3B1: sideroblastos em anel (bom prognóstico quando isolada) Escala de prognóstico revista: cinco categorias de risco de morte e de leucemia Muito baixo Baixo Intermédio Alto Muito alto Risco mais baixo: tratar as citopenias Transfusão se sintomática; quelação de ferro Epoetina se eritropoietina até 500 U/L Luspatercept na dependência transfusional Lenalidomida na del(5q) isolada Risco mais alto: mudar a história natural Azacitidina, hipometilante de referência Transplante alogénico: o único curativo no doente elegível pela idade e pelas comorbilidades, com dador disponível

Referências

  1. Young NS. Bone marrow failure syndromes including aplastic anemia and myelodysplasia. In: Loscalzo J, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Jameson JL, editors. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022. cap. 102.
  2. Wang ES, Berliner N. Hematopoiesis and hematopoietic failure. In: Wing EJ, Schiffman FJ, editors. Cecil Essentials of Medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. cap. 46.
  3. Khoury JD, Solary E, Abla O, et al. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Myeloid and Histiocytic/Dendritic Neoplasms. Leukemia. 2022;36(7):1703-1719.
  4. Greenberg PL, Tuechler H, Schanz J, et al. Revised International Prognostic Scoring System for myelodysplastic syndromes. Blood. 2012;120(12):2454-2465.
  5. Bernard E, Tuechler H, Greenberg PL, et al. Molecular International Prognostic Scoring System for Myelodysplastic Syndromes. NEJM Evid. 2022;1(7):EVIDoa2200008.
  6. Fenaux P, Haase D, Santini V, et al. Myelodysplastic syndromes: ESMO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, treatment and follow-up. Ann Oncol. 2021;32(2):142-156.
  7. van de Loosdrecht AA, Mandac Smoljanović I. EHA endorsement of ESMO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, treatment, and follow-up for myelodysplastic syndromes. HemaSphere. 2022;6(3):e695.
  8. Park S, Kelaidi C, Meunier M, Casadevall N, Gerds AT, Platzbecker U. The prognostic value of serum erythropoietin in patients with lower-risk myelodysplastic syndromes: a review of the literature and expert opinion. Ann Hematol. 2020;99(1):7-19.
  9. Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 038/2012: Utilização clínica de concentrado eritrocitário no adulto. Lisboa: DGS; 2012.
  10. Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 010/2012: Utilização clínica de concentrados plaquetários no adulto. Lisboa: DGS; 2012.
  11. European Medicines Agency. Reblozyl (luspatercept): CHMP post-authorisation summary of positive opinion (II/21). Amsterdam: EMA; 2024.

11 perguntas sobre Síndromes mielodisplásicas

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