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Síndromes mielodisplásicas

Matriz PNA:MD · MecanismosD · Diagnóstico

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 8 perguntas neste tema

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Em resumo

As síndromes mielodisplásicas (SMD) são neoplasias mieloides clonais da célula estaminal hematopoiética, caracterizadas por hematopoiese ineficaz que gera citopenias periféricas apesar de uma medula habitualmente normo ou hipercelular. Predominam no idoso e distinguem-se das leucemias agudas por uma contagem de blastos inferior a 20%, embora comportem risco significativo de transformação em leucemia mieloide aguda (LMA). Este capítulo foca o diagnóstico morfológico, citogenético e molecular, a estratificação prognóstica pela IPSS-R/IPSS-M e uma orientação terapêutica atual por grupo de risco.

A SMD inicia-se com a aquisição de mutações somáticas numa célula estaminal hematopoiética, que ganha vantagem proliferativa e origina um clone displásico. O paradoxo central é a hematopoiese ineficaz: apesar de medula normo ou hipercelular, ocorre apoptose intramedular e maturação defeituosa dos precursores, pelo que muitos morrem antes de atingir o sangue periférico, resultando em citopenias apesar da abundância de precursores.

As mutações recorrentes agrupam-se em vias funcionais e têm valor prognóstico:

  • Genes do spliceossoma: SF3B1 (fortemente associado a sideroblastos em anel e, isoladamente, a bom prognóstico), SRSF2, U2AF1, ZRSR2.
  • Regulação epigenética: TET2, DNMT3A, ASXL1, IDH1/2, EZH2.
  • Fatores de transcrição e sinalização: RUNX1, NRAS.
  • Via de resposta ao dano do DNA: TP53, cuja alteração bialélica (multi-hit) define um subgrupo de muito mau prognóstico, com cariótipo complexo e elevada probabilidade de transformação leucémica.

As alterações citogenéticas completam o retrato fisiopatológico. A del(5q) isolada caracteriza uma entidade própria (síndrome 5q-) de prognóstico favorável, enquanto a monossomia 7/del(7q) e o cariótipo complexo (>=3 anomalias) marcam doença agressiva.

Morfologicamente, a displasia traduz esta desregulação: pseudo-Pelger-Huet e hipogranulação nos neutrófilos, sideroblastos em anel na linhagem eritroide (ferro mitocondrial perinuclear, ligado à mutação SF3B1) e micromegacariócitos.

A evolução clonal, com aquisição sequencial de novas mutações, aumenta progressivamente a fração de blastos. Quando estes atingem >=20%, considera-se transformação em LMA. Assim, a SMD deve entender-se como um continuum biológico entre a hematopoiese clonal e a leucemia aguda, e não como uma doença estática.

O diagnóstico de SMD assenta na integração de hemograma, esfregaço de sangue periférico, mielograma com biópsia, citogenética e estudo molecular, depois de excluir causas reversíveis de citopenia com displasia.

Sangue periférico. O hemograma revela uma ou mais citopenias; a anemia é frequentemente macrocítica (VCM elevado) com reticulócitos baixos (inadequados ao grau de anemia). O esfregaço pode mostrar pseudo-Pelger-Huet, neutrófilos hipogranulares, plaquetas gigantes e, por vezes, blastos circulantes.

Exclusão de mimetizadores. Antes de assumir SMD, é essencial descartar défice de vitamina B12/folato, défice de cobre, infeção por VIH, consumo de álcool, exposição a fármacos/quimioterapia recente e outras causas de displasia secundária. Esta etapa reduz falsos diagnósticos, sobretudo nas formas de baixo grau.

Medula óssea. O mielograma avalia a celularidade, quantifica a displasia (habitualmente considerada significativa quando afeta >=10% das células de uma linhagem) e faz a contagem de blastos, determinante para a classificação. A coloração de Perls identifica sideroblastos em anel. A biópsia acrescenta informação sobre celularidade, fibrose e topografia dos precursores.

Citogenética convencional. Obrigatória: define entidades (del(5q)), pesa no prognóstico e orienta a terapêutica. Anomalias frequentes incluem del(5q), -7/del(7q) e cariótipo complexo.

Estudo molecular (NGS). Cada vez mais integrado, deteta mutações como SF3B1, TP53, ASXL1, RUNX1, refinando a classificação (OMS 2022/ICC 2022) e o prognóstico.

Estratificação de risco. A IPSS-R combina citogenética, percentagem de blastos, hemoglobina, plaquetas e neutrófilos, distribuindo os doentes em cinco categorias (muito baixo a muito alto). A IPSS-M (2022) incorpora o perfil mutacional, reclassificando uma fração relevante dos doentes e orientando a probabilidade de transformação em LMA e a escolha terapêutica.

Síndromes mielodisplásicas Neoplasias mieloides clonais da célula estaminal — hematopoiese ineficaz Paradoxo central: medula rica em precursores, sangue periférico pobre Medula normo/hipercelular produção de precursores mantida ou aumentada Apoptose intramedular maturação defeituosa; precursores morrem antes Citopenias periféricas anemia · neutropenia · trombocitopenia SMD: displasia + blastos < 20% LMA: blastos ≥ 20% A fronteira dos 20% de blastos separa a SMD da leucemia mieloide aguda Esfregaço e medula (displasia) Pseudo-Pelger-Huet — hipossegmentação Hipogranulação dos neutrófilos Sideroblastos em anel (Perls; SF3B1) Micromegacariócitos / displasia Displasia significativa: ≥10% de uma linhagem; blastos < 20% Citogenética e mutações del(5q) isolada → 5q- (favorável) Monossomia 7/del(7q) → agressivo Cariótipo complexo (≥3) → mau TP53 multi-hit → muito mau prog. SF3B1 → sideroblastos em anel (bom prognóstico quando isolada) IPSS-R / IPSS-M → risco e probabilidade de transformação em LMA Muito baixo Baixo Intermédio Alto Muito alto Baixo risco: melhorar citopenias Suporte transfusional + quelação de ferro ESA se eritropoietina sérica baixa Luspatercept (sideroblastos em anel) Lenalidomida na del(5q) isolada Alto risco: alterar a história natural Azacitidina — hipometilante de referência Decitabina como alternativa Transplante alogénico — único potencial- mente curativo (doente elegível)

Referências

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  8. Platzbecker U, Della Porta MG, Santini V, et al. Luspatercept versus epoetin alfa in erythropoiesis-stimulating agent-naive, transfusion-dependent, lower-risk myelodysplastic syndromes (COMMANDS): interim analysis of a phase 3, open-label, randomised controlled trial. Lancet. 2023;402(10399):373-385.

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