HematológicaPolicitemia vera e síndromes mieloproliferativasPublicado (Premium)

Policitemia vera e síndromes mieloproliferativas

Matriz PNA:MD · MecanismosD · Diagnóstico

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 9 perguntas neste tema

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Em resumo

As neoplasias mieloproliferativas crónicas clássicas BCR-ABL1 negativas (policitemia vera, trombocitemia essencial e mielofibrose primária) partilham uma proliferação clonal da célula estaminal hematopoiética conduzida por ativação constitutiva da via JAK-STAT. Este capítulo distingue estas entidades entre si e da eritrocitose/trombocitose secundárias, com foco no reconhecimento clínico, nos critérios da OMS 2022 e nos princípios de tratamento relevantes para o PNA.

O evento iniciador é uma mutação somática adquirida numa célula estaminal hematopoiética, que confere vantagem proliferativa clonal. O paradigma é a mutação JAK2 V617F, uma substituição no domínio pseudocinase (JH2) que remove a autoinibição da cínase JAK2. O resultado é sinalização JAK-STAT constitutiva, independente do ligando, com hipersensibilidade dos progenitores aos fatores de crescimento (eritropoietina, trombopoietina). Na PV, esta ativação traduz-se em eritropoiese autónoma, com formação de colónias eritroides endógenas (independentes de EPO) e supressão fisiológica da EPO sérica, que fica baixa (achado central que distingue a eritrocitose primária das secundárias).

As mutações CALR (deleções/inserções que geram um neopeptídeo C-terminal) ativam patologicamente o recetor MPL e, por essa via, também a sinalização JAK-STAT; as mutações MPL (ex.: W515) ativam diretamente o recetor. Estas explicam a maioria das TE e MFP JAK2 negativas. Cerca de 10-15% das TE/MFP são triplo-negativas para JAK2/CALR/MPL, o que não afasta o diagnóstico.

A carga alélica e mutações adicionais (ex.: ASXL1, SRSF2, TP53, EZH2) modulam o fenótipo e o prognóstico, associando-se a maior risco de progressão e transformação.

A fisiopatologia das complicações decorre do fenótipo:

  • Trombose (arterial e venosa): hiperviscosidade por eritrocitose na PV, ativação plaquetária e leucocitária, e estado pró-trombótico associado ao clone JAK2. É a principal causa de morbimortalidade na PV e na TE.
  • Hemorragia: na trombocitose extrema (habitualmente plaquetas superiores a 1000-1500 x10⁹/L) surge doença de von Willebrand adquirida, por consumo/proteólise dos multímeros de alto peso molecular, tornando a TE paradoxalmente hemorrágica.
  • Mielofibrose: libertação de citocinas e fatores (ex.: TGF-beta, PDGF) por megacariócitos clonais displásicos estimula os fibroblastos medulares, gerando fibrose reticulínica/colagénica. A medula fibrótica falha, com hematopoiese extramedular (baço e fígado), justificando a esplenomegalia volumosa e o esfregaço leucoeritroblástico com dacriócitos (eritrócitos em lágrima).
  • Prurido aquagénico (típico da PV): atribuído a desgranulação de mastócitos/basófilos e a mediadores libertados após contacto com a água.

A avaliação começa por confirmar a eritrocitose/trombocitose absoluta e por excluir causas reativas, apoiando-se nos critérios da OMS 2022 (5.ª edição) e da classificação ICC 2022. A pesquisa de BCR-ABL1 deve ser feita perante trombocitose, para não confundir com leucemia mieloide crónica.

Policitemia vera (OMS 2022): 3 critérios major ou os 2 primeiros major + o minor.

  • Major 1: hemoglobina superior a 16,5 g/dL (homem) ou 16,0 g/dL (mulher), ou hematócrito superior a 49% (homem)/48% (mulher), ou aumento da massa eritrocitária.
  • Major 2: biópsia medular com hipercelularidade para a idade e panmielose trilinhagem (proliferação eritroide, granulocítica e megacariocítica com megacariócitos pleomórficos maduros).
  • Major 3: presença de JAK2 V617F ou do exão 12.
  • Minor: EPO sérica subnormal (baixa).

Abordagem prática da eritrocitose: uma EPO baixa com hematócrito elevado é muito sugestiva de PV e orienta a pesquisa de JAK2; uma EPO normal/alta aponta para causas secundárias.

  • Secundária: hipoxémia crónica (DPOC, apneia do sono, altitude, cardiopatia com shunt), tabagismo (carboxi-hemoglobina), produção ectópica/inapropriada de EPO (carcinoma renal, hepatocarcinoma, hemangioblastoma), doping com EPO.
  • Relativa (espúria): hemoconcentração por depleção de volume, sem aumento da massa eritrocitária.

Trombocitemia essencial (OMS 2022): trombocitose persistente igual ou superior a 450 x10⁹/L; biópsia com proliferação predominante da linhagem megacariocítica, megacariócitos grandes e maduros, sem fibrose relevante; não cumprir critérios de PV, MFP, LMC ou SMD; e mutação JAK2, CALR ou MPL (ou, na ausência de driver, exclusão de trombocitose reativa: ferropenia, inflamação/infeção, hemorragia, esplenectomia, neoplasia).

Mielofibrose primária (OMS 2022): proliferação megacariocítica atípica com fibrose reticulínica/colagénica (grau 2-3 na MFP manifesta; a fase pré-fibrótica tem fibrose mínima); driver JAK2/CALR/MPL ou outro marcador clonal; e critérios minor como anemia, leucocitose, esplenomegalia palpável, LDH elevada e leucoeritroblastose. O esfregaço mostra dacriócitos, eritroblastos e formas mieloides imaturas. A aspiração medular é frequentemente seca (dry tap), pelo que a biópsia é essencial.

Neoplasias mieloproliferativas crónicas (BCR-ABL1 negativas) PV · TE · MFP — reconhecimento e diagnóstico diferencial Doença clonal da célula estaminal — via JAK-STAT constitutiva JAK2 V617F (maioria) · CALR · MPL como drivers alternativos Policitemia vera (PV) Mutação: JAK2 V617F (~95%) Eritrocitose primária EPO sérica baixa (chave) Prurido aquagénico Eritromelalgia · trombose Hb >16,5(H) / >16,0(M) g/dL Tratamento Flebotomia: Hct <45% + AAS Hidroxiureia se alto risco Trombocitemia essencial (TE) Mutação: JAK2/CALR/MPL Trombocitose persistente Plaquetas ≥450 x10⁹/L Trombose E hemorragia von Willebrand adquirida (na trombocitose extrema) Tratamento Aspirina em dose baixa Hidroxiureia se alto risco Mielofibrose primária (MFP) Mutação: JAK2/CALR/MPL Fibrose medular progressiva Esplenomegalia volumosa (hematopoiese extramedular) Esfregaço leucoeritroblástico Dacriócitos (em lágrima) Biópsia medular essencial Tratamento Ruxolitinib (inibidor JAK) Transplante = única cura Distinção da eritrocitose: a EPO sérica é a chave Primária (PV) EPO baixa · JAK2 positivo Massa eritrocitária absoluta aumentada Secundária EPO normal ou alta Hipóxia · tabaco EPO ectópica (renal/hepática) Relativa (espúria) Hemoconcentração Massa eritrocitária normal (depleção de volume)

Referências

  1. Khoury JD, Solary E, Abla O, et al. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Myeloid and Histiocytic/Dendritic Neoplasms. Leukemia. 2022;36(7):1703-1719.
  2. Arber DA, Orazi A, Hasserjian RP, et al. International Consensus Classification of Myeloid Neoplasms and Acute Leukemias: integrating morphologic, clinical, and genomic data. Blood. 2022;140(11):1200-1228.
  3. Tefferi A, Barbui T. Polycythemia vera: 2024 update on diagnosis, risk-stratification, and management. Am J Hematol. 2023;98(9):1465-1487.
  4. Tefferi A, Vannucchi AM, Barbui T. Essential thrombocythemia: 2024 update on diagnosis, risk stratification, and management. Am J Hematol. 2024;99(4):697-718.
  5. Tefferi A. Primary myelofibrosis: 2023 update on diagnosis, risk-stratification and management. Am J Hematol. 2023;98(5):801-821.
  6. Marchioli R, Finazzi G, Specchia G, et al. Cardiovascular events and intensity of treatment in polycythemia vera (CYTO-PV). N Engl J Med. 2013;368(1):22-33.

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