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Mieloma e distúrbios de plasmócitos

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 11 perguntas neste tema

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Em resumo

O mieloma múltiplo é uma neoplasia dos plasmócitos que produz uma paraproteína monoclonal (componente M) e integra um espetro que vai da gamapatia monoclonal de significado indeterminado (MGUS), passando pelo mieloma indolente (smoldering), até à doença sintomática com lesão de órgão-alvo. Para o PNA, o essencial é reconhecer os critérios CRAB, distinguir os estádios do espetro e saber quando a doença deixa de ser vigiada para passar a ser tratada.

A doença inicia-se com uma transformação clonal de um plasmócito já comprometido para a produção de uma única imunoglobulina. Alterações genéticas primárias incluem translocações que envolvem o locus da cadeia pesada (IGH, no cromossoma 14), por exemplo t(11;14), t(4;14) e t(14;16), ou hiperdiploidia. A progressão ao longo do espetro (MGUS -> smoldering -> mieloma) associa-se à acumulação de eventos secundários, como alterações de MYC, del(17p) e mutações de vias de proliferação. O microambiente medular é decisivo: os plasmócitos clonais dependem de sinais das células estromais e da interleucina-6, criando um nicho que sustenta a sobrevivência e a resistência à apoptose.

Os achados clínicos derivam diretamente da biologia:

  • Doença óssea: os plasmócitos ativam os osteoclastos (via RANK-ligando) e inibem os osteoblastos (via inibição de Wnt, com aumento de DKK-1). O resultado são lesões líticas em saca-bocado, osteopenia, dor óssea, fraturas patológicas e hipercalcemia por reabsorção óssea.
  • Insuficiência renal: as cadeias leves livres filtradas precipitam nos túbulos distais formando cilindros (nefropatia por cilindros, o clássico rim do mieloma), a que se somam hipercalcemia, desidratação, hiperuricemia e nefrotoxicidade de anti-inflamatórios.
  • Anemia e citopenias: a infiltração medular desloca a hematopoiese normal; contribui também a doença renal com défice de eritropoietina.
  • Imunodepressão: a expansão do clone suprime a produção de imunoglobulinas policlonais normais (imunoparésia), o que explica as infeções bacterianas de repetição (por germes capsulados e respiratórios), uma das principais causas de morbimortalidade.
  • Hiperviscosidade: paraproteínas em concentração elevada, sobretudo IgA (que polimeriza) ou IgM, aumentam a viscosidade sérica, com manifestações neurológicas, visuais e hemorrágicas.

No esfregaço de sangue periférico, o excesso de paraproteína neutraliza as cargas dos eritrócitos e produz o empilhamento em rouleaux. A produção monoclonal também explica a discrepância entre uma eletroforese com pico estreito (pico monoclonal) e a hipogamaglobulinemia funcional do restante repertório.

O diagnóstico assenta em confirmar clonalidade plasmocitária, quantificar a paraproteína e procurar lesão de órgão. A avaliação laboratorial inicial combina:

  • Eletroforese de proteínas séricas e urinárias com imunofixação (identifica e tipifica o componente M) e doseamento de cadeias leves livres séricas com cálculo do rácio envolvida/não envolvida.
  • Hemograma (anemia normocítica, rouleaux no esfregaço), cálcio corrigido, função renal (creatinina, taxa de filtração), albumina, beta-2-microglobulina e LDH.
  • Mielograma e/ou biópsia óssea com citometria de fluxo e estudo citogenético por FISH (pesquisa de del(17p), t(4;14), t(14;16), ganho de 1q).

Os critérios diagnósticos IMWG (atualizados em 2014) exigem 10% ou mais de plasmócitos clonais na medula (ou plasmocitoma comprovado por biópsia) mais pelo menos um evento definidor:

  • CRAB (lesão de órgão atribuível ao mieloma): hiperCalcemia, insuficiência Renal, Anemia e lesões ósseas (Bone), estas como uma ou mais lesões líticas.
  • Biomarcadores SLiM (que definem doença mesmo sem CRAB, por progressão quase inevitável): S = 60% ou mais de plasmócitos clonais na medula; Li = rácio de cadeias leves livres envolvidas/não envolvidas igual ou superior a 100; M = mais de uma lesão focal na ressonância magnética.

Na imagem, a radiografia convencional mostra as clássicas lesões líticas em saca-bocado (por exemplo no crânio), mas está ultrapassada: as recomendações atuais preferem TC de baixa dose de corpo inteiro, RM ou PET-TC, mais sensíveis para doença focal e medular. A cintigrafia óssea tem baixo rendimento porque as lesões são líticas, sem resposta osteoblástica.

Confirmado o mieloma, faz-se estadiamento e estratificação de risco com o R-ISS (Revised International Staging System, 2015), que combina beta-2-microglobulina e albumina (ISS) com a LDH e a citogenética de alto risco por FISH. O diagnóstico diferencial inclui MGUS e smoldering (sem lesão de órgão), macroglobulinemia de Waldenström (IgM, infiltração linfoplasmocitária), amiloidose AL e metástases ósseas de outros tumores.

Mieloma múltiplo: espetro, critérios CRAB e diagnóstico Espetro dos distúrbios de plasmócitos (IMWG) — a mesma clonalidade evolui no tempo MGUS benigno — vigilância Componente M < 30 g/L Plasmócitos medula < 10% Sem critérios CRAB Progressão ~1% ao ano Mieloma indolente smoldering — assintomático Componente M ≥ 30 g/L Plasmócitos 10–60% Sem lesão de órgão Vigilância (ensaio se alto risco) Mieloma múltiplo sintomático — tratar Plasmócitos medula ≥ 10% + evento definidor CRAB ou biomarcador SLiM Indicação para tratamento Critério diagnóstico IMWG (2014): ≥ 10% plasmócitos clonais na medula + pelo menos um evento definidor CRAB — lesão de órgão-alvo C hiperCalcemia R insuficiência Renal (cilindros de cadeias leves) A Anemia B lesões ósseas líticas (Bone) SLiM — biomarcadores (definem doença) S ≥ 60% plasmócitos clonais na medula Li cadeias leves livres, rácio ≥ 100 M > 1 lesão focal na ressonância (RM) definem mieloma mesmo sem CRAB Achados-chave no diagnóstico Proteína M Pico monoclonal na eletroforese Bence-Jones na urina (cadeias leves) Medula óssea Plasmócitos ≥ 10% FISH: del(17p), t(4;14), t(14;16) estratifica o risco Esfregaço Rouleaux (empilhamento de eritrócitos) Imagem Lesões líticas em saca-bocado TC baixa dose, RM ou PET-TC Abordagem terapêutica (mieloma sintomático) Quatro classes-base: inibidor do proteassoma (bortezomib) + IMiD (lenalidomida) + anti-CD38 (daratumumab) + dexametasona. Apto a transplante: indução D-VRd → transplante autólogo → manutenção (PERSEUS, 2024). Suporte: bifosfonatos, hidratação, profilaxia de infeções, tromboprofilaxia com IMiD. Classificação OMS 2022 · critérios IMWG 2014 · estadiamento R-ISS 2015

A decisão terapêutica separa duas realidades. MGUS e mieloma indolente não se tratam: fazem vigilância periódica (o smoldering de alto risco pode entrar em ensaio clínico ou beneficiar de tratamento precoce, mas fora disso é observação). O mieloma sintomático (com CRAB ou biomarcador SLiM) tem indicação para tratamento sistémico.

O tratamento combina classes de fármacos com mecanismos complementares:

  • Inibidores do proteassoma: bortezomib, carfilzomib (bloqueiam a degradação proteica, a que os plasmócitos são muito sensíveis).
  • Imunomoduladores (IMiD): lenalidomida, talidomida, pomalidomida.
  • Anticorpos monoclonais anti-CD38: daratumumab, isatuximab (o CD38 é fortemente expresso nos plasmócitos).
  • Corticosteroides em dose alta: dexametasona.

A estratégia depende da elegibilidade para transplante autólogo, sobretudo função da idade, comorbilidades e estado geral:

  • Candidatos a transplante: indução com quádrupla anti-CD38 + inibidor do proteassoma + IMiD + dexametasona (esquema D-VRd: daratumumab, bortezomib, lenalidomida, dexametasona), seguida de transplante autólogo de células estaminais (após colheita e condicionamento com melfalano em dose alta), consolidação e manutenção. O ensaio PERSEUS (2024) demonstrou que a incorporação do daratumumab em todo o esquema, incluindo a manutenção com daratumumab + lenalidomida (e não lenalidomida isolada) até progressão, aumenta a profundidade de resposta e a negativação da doença residual mínima (DRM).
  • Não candidatos a transplante: esquemas baseados em daratumumab associado a bortezomib/lenalidomida e dexametasona, ajustados à fragilidade do doente.

A par do tratamento antitumoral, os cuidados de suporte são obrigatórios: bifosfonatos (ou denosumab) para a doença óssea e a hipercalcemia, hidratação e correção da insuficiência renal, profilaxia de infeções (vacinação, ponderar profilaxia antiviral/antibiótica com bortezomib e anti-CD38), tromboprofilaxia com IMiD e controlo da dor. Na recidiva, recorre-se a combinações com fármacos de classes ainda não usadas ou a terapêuticas dirigidas ao BCMA (CAR-T e anticorpos biespecíficos, como o teclistamab). O objetivo passou a ser respostas profundas e DRM negativa, marcador que se correlaciona com melhor sobrevivência livre de progressão.

Referências

  1. Rajkumar SV, Dimopoulos MA, Palumbo A, et al. International Myeloma Working Group updated criteria for the diagnosis of multiple myeloma. Lancet Oncol. 2014;15(12):e538-e548.
  2. Alaggio R, Amador C, Anagnostopoulos I, et al. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Lymphoid Neoplasms. Leukemia. 2022;36(7):1720-1748.
  3. Palumbo A, Avet-Loiseau H, Oliva S, et al. Revised International Staging System for Multiple Myeloma: A Report From International Myeloma Working Group. J Clin Oncol. 2015;33(26):2863-2869.
  4. Sonneveld P, Dimopoulos MA, Boccadoro M, et al. Daratumumab, Bortezomib, Lenalidomide, and Dexamethasone for Multiple Myeloma (PERSEUS). N Engl J Med. 2024;390(4):301-313.
  5. Rajkumar SV. Multiple myeloma: 2024 update on diagnosis, risk-stratification, and management. Am J Hematol. 2024;99(9):1802-1824.

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