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Linfomas

Matriz PNA:MD · MecanismosD · Diagnóstico

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 12 perguntas neste tema

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Em resumo

Os linfomas são neoplasias do sistema linfoide que se apresentam tipicamente como adenopatias persistentes, com ou sem sintomas sistémicos. A distinção fundamental separa o linfoma de Hodgkin (célula de Reed-Sternberg, disseminação contígua e ordenada, elevada curabilidade) do vasto grupo dos linfomas não-Hodgkin (heterogéneos, disseminação não contígua e frequente envolvimento extranodal). O diagnóstico exige biópsia excisional ganglionar e o estadiamento assenta na classificação de Ann Arbor com PET-TC.

O evento central é a transformação clonal de um linfócito num ponto específico da sua diferenciação, o que explica a diversidade de subtipos.

Linfoma de Hodgkin clássico: a célula de Reed-Sternberg deriva de um linfócito B do centro germinativo que perdeu grande parte do programa transcricional B (daí o CD20 habitualmente negativo). Apesar de rara na lesão, sustenta um denso infiltrado reativo através da secreção de citocinas e quimiocinas, o que ajuda a explicar os sintomas constitucionais. A ativação constitutiva da via NF-kB e a evasão imunitária pelo eixo PD-1/PD-L1 são mecanismos-chave e alvos terapêuticos.

Linfomas não-Hodgkin B: muitos resultam de erros nos processos fisiológicos do centro germinativo (recombinação, hipermutação somática e troca de classe), que geram translocações justapondo oncogenes a promotores fortes de imunoglobulinas:

  • Linfoma folicular: t(14;18) com sobre-expressão de BCL2, bloqueando a apoptose e conferindo curso indolente mas geralmente incurável, com risco de transformação para forma agressiva.
  • Linfoma de Burkitt: translocação do MYC (classicamente t(8;14)), com índice proliferativo muito elevado e comportamento altamente agressivo.
  • Linfoma difuso de grandes células B: biologicamente heterogéneo, com subgrupos de célula do centro germinativo e de células B ativadas, este último com ativação crónica da via NF-kB.

Agentes infecciosos contribuem por estimulação antigénica crónica ou por transformação direta:

  • EBV: LH (sobretudo em imunodeprimidos), Burkitt endémico e linfomas associados a imunossupressão.
  • VIH: aumenta a incidência de linfomas agressivos B (difuso de grandes células, Burkitt, primário do SNC).
  • Helicobacter pylori: linfoma MALT gástrico, dependente do estímulo antigénico, podendo regredir com a erradicação da bactéria.
  • Outros: HTLV-1 (linfoma/leucemia de células T do adulto), VHC e HHV-8.

A acumulação de linfócitos clonais causa adenomegalias, infiltração de medula (com citopenias), envolvimento extranodal e, por libertação de citocinas, os sintomas sistémicos.

A avaliação inicia-se com história e exame objetivo: caracterizar adenopatias (localização, dimensão, consistência, evolução), pesquisar sintomas B, prurido e organomegalias (esplenomegalia, hepatomegalia).

Passo diagnóstico decisivo: a biópsia excisional ganglionar (gânglio inteiro) é o padrão. Permite avaliar a arquitetura, indispensável para classificar o subtipo. A citologia aspirativa por agulha fina não é adequada porque não preserva arquitetura nem fornece material suficiente para os estudos necessários; a biópsia por agulha grossa pode ser aceitável quando a excisão não é exequível. A caracterização inclui morfologia, imuno-histoquímica (ex.: CD15/CD30 no LH; CD20 e marcadores B nos LNH B) e, quando indicado, citometria de fluxo, citogenética/FISH e biologia molecular, integrados segundo a classificação da OMS 2022.

Estadiamento pela classificação de Ann Arbor (com modificações de Cotswolds), operacionalizada pelo sistema de Lugano (2014):

  • Estádio I: uma região ganglionar (ou um local extranodal único).
  • Estádio II: duas ou mais regiões do mesmo lado do diafragma.
  • Estádio III: regiões em ambos os lados do diafragma.
  • Estádio IV: envolvimento extranodal difuso (ex.: medula óssea, fígado, pulmão).
  • Sufixos: A (sem) ou B (com sintomas B); E (extensão extranodal contígua); X (massa volumosa/bulky).

Imagem: a PET-TC com FDG é o exame de eleição para estadiamento e avaliação de resposta na maioria dos linfomas ávidos (LH e agressivos), usando o score de Deauville (escala 1-5). A biópsia de medula óssea deixou de ser sistemática quando a PET-TC é fiável, mantendo-se em situações selecionadas.

Estudo complementar: hemograma com esfregaço, LDH (marcador de carga tumoral e prognóstico), função renal e hepática, ácido úrico, serologias VIH, VHB e VHC (relevantes para risco e para terapêutica), e avaliação cardíaca e de fertilidade antes do tratamento. Ferramentas prognósticas: Índice Prognóstico Internacional (IPI) no difuso de grandes células B e FLIPI no folicular.

Linfoma de Hodgkin vs não-Hodgkin A distinção assenta na célula de Reed-Sternberg e no padrão de disseminação Característica Hodgkin (LH) Não-Hodgkin (LNH) Célula Reed-Sternberg (CD15+/CD30+) Heterogéneo (B, T ou NK) Idade Bimodal (jovem e após 55 anos) Todas as idades Disseminação Contígua e ordenada Não contígua (por saltos) Extranodal Pouco frequente Frequente (TD, pele, SNC) Pista clínica Dor ganglionar com álcool Massa de crescimento rápido Curabilidade Muito curável Agressivo curável; indolente não 1.ª linha ABVD (PET-adaptada) R-CHOP no difuso GC B (anti-CD20) LNH: agressivos — difuso de grandes células B (o mais comum) e Burkitt; indolente — folicular Sintomas B — associam-se a pior prognóstico Febre inexplicada · Sudorese noturna profusa · Perda ponderal > 10% em 6 meses Diagnóstico e estadiamento Biópsia excisional ganglionar + imuno-histoquímica (classificação da OMS 2022) A aspiração por agulha fina NÃO é adequada — não preserva a arquitetura Ann Arbor / Lugano 2014 com PET-TC (FDG); pedir sempre LDH e serologias VIH/VHB/VHC

Referências

  1. Alaggio R, Amador C, Anagnostopoulos I, et al. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Lymphoid Neoplasms. Leukemia. 2022;36(7):1720-1748.
  2. Campo E, Jaffe ES, Cook JR, et al. The International Consensus Classification of Mature Lymphoid Neoplasms: a report from the Clinical Advisory Committee. Blood. 2022;140(11):1229-1253.
  3. Cheson BD, Fisher RI, Barrington SF, et al. Recommendations for initial evaluation, staging, and response assessment of Hodgkin and non-Hodgkin lymphoma: the Lugano classification. J Clin Oncol. 2014;32(27):3059-3068.
  4. Eichenauer DA, Aleman BMP, André M, et al. Hodgkin lymphoma: ESMO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, treatment and follow-up. Ann Oncol. 2018;29(Suppl 4):iv19-iv29.
  5. Tilly H, Gomes da Silva M, Vitolo U, et al. Diffuse large B-cell lymphoma (DLBCL): ESMO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, treatment and follow-up. Ann Oncol. 2015;26(Suppl 5):v116-v125.
  6. Dreyling M, Ghielmini M, Rule S, et al. Newly diagnosed and relapsed follicular lymphoma: ESMO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, treatment and follow-up. Ann Oncol. 2021;32(3):298-308.
  7. Kaseb H, Babiker HM. Hodgkin Lymphoma. StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2023.

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