Leucemias
Atualizado em 17 de julho de 2026 · 14 perguntas neste tema
As leucemias são neoplasias clonais das células hematopoiéticas que se dividem em agudas (proliferação de blastos imaturos com falência medular rápida) e crónicas (expansão de células mais maduras, curso mais indolente). Este capítulo foca a distinção entre as quatro entidades clássicas (LMA, LLA, LMC e LLC), a abordagem diagnóstica integrada (hemograma, esfregaço, mielograma, citometria de fluxo e citogenética/molecular) e uma orientação terapêutica atual por tipo. Reconhecer a leucemia promielocítica aguda como emergência médica é um ponto de alto rendimento para o PNA.
As leucemias resultam da acumulação de alterações genéticas somáticas num precursor hematopoiético, conferindo vantagem proliferativa e bloqueio da diferenciação. O modelo mais aceite exige a cooperação entre lesões que aumentam a proliferação/sobrevivência e lesões que impedem a maturação, gerando um clone que substitui a hematopoiese normal.
Leucemia promielocítica aguda (LPA), subtipo de LMA com fisiopatologia paradigmática:
- Translocação t(15;17) que funde os genes PML e RARA, gerando a proteína de fusão PML-RARA.
- Esta bloqueia a diferenciação mieloide ao nível do promielócito; os promielócitos anómalos são ricos em grânulos com atividade pró-coagulante e fibrinolítica.
- Resulta coagulação intravascular disseminada (CID) e hiperfibrinólise, com risco hemorrágico grave: por isto a LPA é uma emergência médica.
- O ácido all-trans retinoico (ATRA) liga-se ao recetor alterado e restaura a diferenciação dos promielócitos (terapêutica de diferenciação), revertendo o bloqueio maturativo.
Outras alterações-chave por entidade:
- LMC: translocação t(9;22), o cromossoma Filadélfia, que cria o gene de fusão BCR-ABL1. Codifica uma tirosina-cinase constitutivamente ativa que dirige a proliferação mieloide. É o alvo direto dos inibidores da tirosina-cinase (ITC).
- LMA (geral): heterogénea; alterações como mutações de NPM1, FLT3 e rearranjos de RUNX1::RUNX1T1 ou CBFB::MYH11 definem subtipos com prognóstico distinto. Os bastonetes de Auer (inclusões citoplasmáticas de material azurófilo) são marcadores morfológicos de linhagem mieloide.
- LLA: proliferação de linfoblastos B ou T; um subgrupo é Filadélfia-positivo (BCR-ABL1), relevante porque beneficia de ITC associados à quimioterapia.
- LLC: acumulação de linfócitos B maduros funcionalmente incompetentes, com resistência à apoptose (sobre-expressão de BCL2). O estado mutacional do IGHV e alterações como del(17p)/TP53 têm valor prognóstico e preditivo.
A avaliação começa perante citopenias inexplicadas, leucocitose, sintomas de falência medular (astenia, infeções recorrentes, petéquias, equimoses, hemorragia) ou achados como adenopatias, esplenomegalia ou dor óssea. A sequência diagnóstica é escalonada.
1. Hemograma com esfregaço de sangue periférico:
- Pode mostrar citopenias, leucocitose, presença de blastos (leucemias agudas) ou linfocitose de aspeto maduro (LLC).
- Achados morfológicos orientadores: bastonetes de Auer (LMA), smudge cells ou células de Gumprecht (fragmentos de linfócitos frágeis, muito sugestivos de LLC), e a fórmula leucocitária com toda a série mieloide em maturação na LMC.
2. Mielograma e/ou biópsia osteomedular:
- Confirma a infiltração medular e quantifica os blastos (habitualmente ≥20% nas leucemias agudas, com exceções definidas por genética na OMS 2022).
3. Citometria de fluxo (imunofenotipagem):
- Determina a linhagem e o grau de maturação; distingue LMA (marcadores mieloides, p.ex. MPO, CD33, CD13) de LLA (marcadores linfoides B ou T). Na LLC identifica um clone B com coexpressão característica de CD5 e CD23.
4. Citogenética e biologia molecular:
- Essenciais para subclassificar e estratificar o prognóstico. Pesquisam-se t(15;17)/PML-RARA (urgente na suspeita de LPA), t(9;22)/BCR-ABL1, NPM1, FLT3, entre outras. Guiam a decisão terapêutica (p.ex. ITC na LMC/LLA Ph+).
Notas de raciocínio clínico:
- Criança com blastos e envolvimento frequente do sistema nervoso central e do testículo aponta para LLA; a avaliação do líquido cefalorraquidiano integra a estratificação.
- Suspeita de LPA (blastos com coagulopatia/CID) obriga a confirmação genética urgente e a não atrasar o tratamento.
- Linfocitose madura persistente num idoso, muitas vezes assintomático, torna a LLC muito provável; a citometria confirma.
Referências
- Khoury JD, Solary E, Abla O, et al. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Myeloid and Histiocytic/Dendritic Neoplasms. Leukemia. 2022;36(7):1703-1719.
- Alaggio R, Amador C, Anagnostopoulos I, et al. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Lymphoid Neoplasms. Leukemia. 2022;36(7):1720-1748.
- Arber DA, Orazi A, Hasserjian RP, et al. International Consensus Classification of Myeloid Neoplasms and Acute Leukemias: integrating morphologic, clinical, and genomic data. Blood. 2022;140(11):1200-1228.
- Sanz MA, Fenaux P, Tallman MS, et al. Management of acute promyelocytic leukemia: updated recommendations from an expert panel of the European LeukemiaNet. Blood. 2019;133(15):1630-1643.
- Döhner H, Wei AH, Appelbaum FR, et al. Diagnosis and management of AML in adults: 2022 recommendations from an international expert panel on behalf of the ELN. Blood. 2022;140(12):1345-1377.
- Hochhaus A, Baccarani M, Silver RT, et al. European LeukemiaNet 2020 recommendations for treating chronic myeloid leukemia. Leukemia. 2020;34(4):966-984.
- Hallek M, Al-Sawaf O. Chronic lymphocytic leukemia: 2022 update on diagnostic and therapeutic procedures. American Journal of Hematology. 2021;96(12):1679-1705.
- Kaushansky K, Prchal JT, Burns LJ, et al. Williams Hematology. 10th ed. New York: McGraw-Hill; 2021.
14 perguntas sobre Leucemias
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar