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Distúrbios das plaquetas e da parede vascular

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 13 perguntas neste tema

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Em resumo

Os distúrbios da hemostase primária (plaquetas e parede vascular) manifestam-se tipicamente por hemorragia mucocutânea (petéquias, equimoses, epistaxe, gengivorragia, menorragia), ao contrário da hemorragia profunda e da hemartrose das coagulopatias. Este capítulo cobre as trombocitopenias (PTI, PTT, SHU, HIT, pseudotrombocitopenia), a disfunção plaquetária qualitativa, as púrpuras vasculares e a distinção entre trombocitose reativa e clonal. Reconhecer a PTT e a HIT como emergências é o ponto de maior rendimento examinável.

A PTI (púrpura trombocitopénica imune) resulta de autoanticorpos (tipicamente anti-GPIIb/IIIa) que opsonizam as plaquetas, promovendo destruição macrofágica esplénica e também produção medular inadequada por lesão dos megacariócitos. É uma trombocitopenia isolada (restante hemograma normal) e um diagnóstico de exclusão.

A PTT (púrpura trombocitopénica trombótica) é uma microangiopatia trombótica por defeito da ADAMTS13, a metaloprotease que cliva os multímeros ultragrandes do FvW. A forma adquirida deve-se a autoanticorpos anti-ADAMTS13; a atividade cai tipicamente abaixo de 10%. Os multímeros não clivados formam microtrombos plaquetários na microcirculação, causando anemia hemolítica microangiopática com esquizócitos no esfregaço, trombocitopenia de consumo e isquemia de órgão. A pêntade clássica (trombocitopenia, anemia hemolítica microangiopática, alterações neurológicas, disfunção renal, febre) surge completa numa minoria; a díade de trombocitopenia mais hemólise microangiopática sem outra causa basta para agir.

A SHU (síndrome hemolítico-urémico) típica associa-se à toxina Shiga de E. coli O157:H7, sobretudo em crianças após diarreia hemorrágica; a toxina lesa o endotélio, com predomínio de lesão renal aguda. O SHU atípico deve-se a desregulação do complemento.

A HIT (trombocitopenia induzida pela heparina) é mediada por anticorpos IgG contra o complexo heparina-fator plaquetário 4 (PF4), que ativam plaquetas via recetor FcγRIIa, gerando um estado pró-trombótico. Ocorre queda plaquetária tipicamente entre os dias 5 a 10 de exposição, com trombose paradoxal (venosa ou arterial) apesar da trombocitopenia.

Na disfunção qualitativa, a Glanzmann é defeito da GPIIb/IIIa (agregação) e a Bernard-Soulier da GPIb-IX-V (adesão ao FvW, com plaquetas gigantes); a urémia altera a função plaquetária por toxinas retidas; a aspirina inibe irreversivelmente a COX-1. A pseudotrombocitopenia por EDTA é um artefacto in vitro (aglutinação), sem doença real.

A avaliação começa pelo hemograma completo e pelo esfregaço de sangue periférico, o passo mais rentável. Antes de investigar, confirmar que a trombocitopenia é real: pedir esfregaço e, se houver agregados plaquetários, repetir a colheita em tubo com citrato para excluir pseudotrombocitopenia por EDTA.

No esfregaço procuram-se pistas decisivas:

  • Esquizócitos (eritrócitos fragmentados): sinal de microangiopatia trombótica (PTT, SHU). A sua presença com trombocitopenia obriga a considerar PTT como emergência.
  • Plaquetas gigantes: sugerem destruição periférica acelerada (PTI) ou Bernard-Soulier.
  • Blastos, células imaturas ou citopenias múltiplas: apontam para doença medular e afastam a PTI isolada.

Na PTI, o diagnóstico é de exclusão: trombocitopenia isolada, restante hemograma e esfregaço normais, sem esplenomegalia; não existe teste confirmatório. Excluem-se causas secundárias relevantes (VIH, VHC, H. pylori, fármacos, lúpus). Na PTT, colher atividade de ADAMTS13 e inibidor antes de iniciar plasmaférese, mas nunca aguardar o resultado para tratar; o score PLASMIC ajuda a estimar a probabilidade pré-teste. Na HIT, aplicar o score 4Ts (Trombocitopenia, Timing 5-10 dias, Trombose, ausência de outra causa): baixa probabilidade (0-3) torna a HIT improvável; probabilidade intermédia/alta motiva ensaio imunológico anti-PF4 e, se positivo, teste funcional confirmatório (libertação de serotonina). Na avaliação da disfunção qualitativa, o tempo de hemorragia e os estudos de agregação plaquetária caracterizam Glanzmann e Bernard-Soulier. Nas púrpuras vasculares, a contagem e a função plaquetárias são normais; o diagnóstico de vasculite por IgA é clínico (púrpura palpável de predomínio nos membros inferiores mais artralgia, dor abdominal ou envolvimento renal), apoiado pelos critérios EULAR/PRINTO/PRES 2010 e, se necessário, por biópsia com depósitos de IgA.

Distúrbios das plaquetas: padrão hemorrágico e trombocitopenias Hemostase primária (plaquetas/parede) Hemorragia MUCOCUTÂNEA Petéquias e equimoses superficiais Epistaxe, gengivorragia, menorragia Início imediato após o trauma Hemostase secundária (coagulopatia) Hemorragia PROFUNDA Hemartrose, hematomas musculares Hemorragia tardia após o trauma Ex.: hemofilia (defeito da coagulação) Trombocitopenias que caem: mecanismo, pista e conduta Entidade Mecanismo Pista diagnóstica Conduta PTI imune Autoanticorpos anti-GPIIb/IIIa; destruição esplénica Trombocitopenia ISOLADA; diagnóstico de exclusão Corticoides (1.ª linha); IVIG p/ subida rápida PTT ADAMTS13 Défice de ADAMTS13 (atividade abaixo de 10%) ESQUIZÓCITOS; pêntade (a díade já basta) Plasmaférese urgente + corticoides (ver caixa) SHU Shiga Toxina Shiga de E. coli O157:H7 Criança, diarreia; lesão renal aguda Suporte e diálise; antibióticos desaconselhados HIT heparina IgG anti-heparina-PF4; ativa as plaquetas Queda ao dia 5-10; TROMBOSE paradoxal Parar heparina; anticoag. não-heparínico ! PTT: NÃO transfundir plaquetas (salvo hemorragia com risco de vida). As plaquetas transfundidas podem agravar a trombose microvascular.

A abordagem depende do diagnóstico e da gravidade; várias entidades são emergências.

PTI: tratar quando há hemorragia ou plaquetas abaixo de 30 x 10⁹/L (as guidelines ASH 2019 sugerem observação em adultos assintomáticos com contagem igual ou superior a 30 x 10⁹/L). A primeira linha são os corticoides (prednisolona 1 mg/kg/dia ou dexametasona 40 mg/dia durante 4 dias). A imunoglobulina intravenosa (IVIG) ou a anti-D usam-se quando é necessária subida rápida (hemorragia grave, pré-procedimento). Nas linhas seguintes: agonistas do recetor da trombopoetina (eltrombopag, romiplostim), rituximab e esplenectomia (habitualmente diferida).

PTT: emergência com plasmaférese (troca plasmática) urgente, que remove os anticorpos e repõe a ADAMTS13, associada a corticoides. Acrescenta-se caplacizumab (nanobody anti-FvW) e rituximab conforme as guidelines ISTH 2020 (mantidas na atualização de 2025). Regra examinável: NÃO transfundir plaquetas salvo hemorragia com risco de vida, por poderem agravar a trombose microvascular.

HIT: suspender toda a heparina de imediato (incluindo lavagens) e iniciar anticoagulante não-heparínico em dose terapêutica (argatroban, danaparóide, fondaparinux ou um DOAC). Não transfundir plaquetas de rotina e não iniciar varfarina até recuperação plaquetária (risco de gangrena venosa). Evitar heparina no futuro.

SHU típico: suporte (hidratação, gestão da lesão renal aguda, diálise se necessária); antibióticos são desaconselhados na infeção por E. coli O157:H7, por poderem aumentar a libertação de toxina. O SHU atípico trata-se com eculizumab.

Disfunção plaquetária: na urémia, otimizar a diálise, corrigir a anemia e usar desmopressina (DDAVP); suspender antiagregantes quando possível. Nas hemorragias graves das trombocitopatias hereditárias, transfusão de plaquetas.

Vasculite por IgA: geralmente autolimitada, com suporte e analgesia; corticoides nos casos com dor abdominal intensa ou nefrite significativa.

Referências

  1. Neunert C, Terrell DR, Arnold DM, et al. American Society of Hematology 2019 guidelines for immune thrombocytopenia. Blood Adv. 2019;3(23):3829-3866.
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  3. Zheng XL, Vesely SK, Cataland SR, et al. ISTH guidelines for treatment of thrombotic thrombocytopenic purpura. J Thromb Haemost. 2020;18(10):2496-2502.
  4. Cuker A, Arepally GM, Chong BH, et al. American Society of Hematology 2018 guidelines for management of venous thromboembolism: heparin-induced thrombocytopenia. Blood Adv. 2018;2(22):3360-3392.
  5. Ozen S, Pistorio A, Iusan SM, et al. EULAR/PRINTO/PRES criteria for Henoch-Schonlein purpura, childhood polyarteritis nodosa, childhood Wegener granulomatosis and childhood Takayasu arteritis: Ankara 2008. Ann Rheum Dis. 2010;69(5):798-806.
  6. Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, et al., eds. Harrison's Principles of Internal Medicine. 21st ed. New York: McGraw-Hill; 2022.
  7. Arnold DM, Zeller MP, Smith JW, Nazy I. Diseases of Platelet Number: Immune Thrombocytopenia, Neonatal Alloimmune Thrombocytopenia, and Posttransfusion Purpura. In: Hoffman R, et al. Hematology: Basic Principles and Practice. 8th ed. Elsevier; 2023.

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