Anemias
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 32 perguntas neste tema
A anemia é a descida da hemoglobina abaixo do limiar da Organização Mundial da Saúde para o sexo, a idade e a gravidez: menos de 13 g/dL no homem, menos de 12 g/dL na mulher não grávida e, na grávida, menos de 11 g/dL no primeiro e no terceiro trimestres e menos de 10,5 g/dL no segundo. É um sinal e não um diagnóstico, e o trabalho é sempre encontrar o mecanismo.
A primeira leitura cruza dois eixos. O volume globular médio separa a anemia microcítica, a normocítica e a macrocítica; os reticulócitos dizem se a medula responde, e separam o defeito de produção da perda e da hemólise. Com o esfregaço, estes dois números resolvem a maioria dos casos à cabeceira.
A ferropenia é a causa mais frequente. Confirma-se pela ferritina, que abaixo de 15 µg/L traduz reservas esgotadas mas que sobe com a inflamação, pelo que num doente inflamado se aceita um limiar até 70 µg/L. No homem e na mulher pós-menopausa obriga a procurar perda digestiva com endoscopia alta e baixa, e trata-se com um comprimido de ferro por dia, ou em dias alternados, até cerca de três meses depois de a hemoglobina normalizar. A anemia da inflamação e a da doença renal crónica são hipoproliferativas, com ferro retido pela hepcidina e eritropoietina insuficiente.
A anemia megaloblástica resulta do défice de vitamina B12 ou de folato. Só o da B12 lesa a medula espinhal e os nervos, e por isso a B12 repõe-se antes do folato, e sem esperar pelos resultados quando há clínica neurológica.
A hemólise reconhece-se pela reticulocitose com desidrogenase láctica e bilirrubina indireta altas e haptoglobina baixa, e o teste de antiglobulina direta separa a autoimune das restantes. Os esquizócitos com trombocitopenia são uma emergência até se excluir a púrpura trombocitopénica trombótica. As talassemias dão microcitose desproporcionada à anemia com ferritina normal, e a drepanocitose dá crises vaso-oclusivas, síndrome torácica aguda e AVC, e trata-se com hidroxiureia.
A aplasia medular é a pancitopenia com medula vazia. A gravidade decide-se pelos neutrófilos, pelas plaquetas e pelos reticulócitos, e o tratamento é o transplante de irmão compatível no doente jovem ou a imunossupressão nos restantes.
O que não se pode falhar é o carcinoma do cólon por trás de uma ferropenia, a degeneração combinada da medula por défice de B12 e a microangiopatia trombótica por trás de uma anemia com plaquetas baixas.
Limiares da Organização Mundial da Saúde (2024)
| grupo | anemia se a hemoglobina for menor do que | ligeira | moderada | grave |
|---|---|---|---|---|
| Homem, 15 a 65 anos | 13 g/dL | 11 a 12,9 | 8 a 10,9 | abaixo de 8 |
| Mulher não grávida, 15 a 65 anos | 12 g/dL | 11 a 11,9 | 8 a 10,9 | abaixo de 8 |
| Grávida, 1.º e 3.º trimestres | 11 g/dL | 10 a 10,9 | 7 a 9,9 | abaixo de 7 |
| Grávida, 2.º trimestre | 10,5 g/dL | 9,5 a 10,4 | 7 a 9,4 | abaixo de 7 |
| Criança, 6 a 23 meses | 10,5 g/dL | 9,5 a 10,4 | 7 a 9,4 | abaixo de 7 |
| Criança, 24 a 59 meses | 11 g/dL | 10 a 10,9 | 7 a 9,9 | abaixo de 7 |
| Criança, 5 a 11 anos | 11,5 g/dL | 11 a 11,4 | 8 a 10,9 | abaixo de 8 |
| 12 a 14 anos, ambos os sexos | 12 g/dL | 11 a 11,9 | 8 a 10,9 | abaixo de 8 |
- O tabaco e a altitude sobem a hemoglobina, e a guideline de 2024 manda corrigi-las: ao limiar soma-se 0,3 g/dL num fumador de menos de 10 cigarros por dia (ou de quantidade desconhecida), 0,5 g/dL entre 10 e 19 e 0,6 g/dL a partir de 20; e 0,4 g/dL a quem vive entre 500 e 999 metros de altitude, mais acima de mil metros.
- A inflamação e a infeção não se corrigem no limiar.
As duas classificações
| volume globular médio (VGM) | grupo | o que traduz |
|---|---|---|
| abaixo de 80 fL | microcítica | falha da síntese de hemoglobina (ferro, globina, heme) |
| 80 a 100 fL | normocítica | grupo heterogéneo: inflamação, rim, hemorragia aguda, hemólise, medula |
| acima de 100 fL | macrocítica | megaloblástica (B12, folato, fármacos) ou não megaloblástica |
| reticulócitos | leitura |
|---|---|
| inapropriadamente baixos para a anemia | hipoproliferativa: defeito de produção |
| altos | medula que responde: perda de sangue ou hemólise |
- O índice de produção reticulocitária corrige a contagem para o grau de anemia: acima de 3 a resposta medular é adequada (hemólise, hemorragia); abaixo de 2 a produção é insuficiente.
As que não se podem falhar
| situação | pista |
|---|---|
| Hemorragia aguda | queda brusca da hemoglobina, instabilidade; nas primeiras horas a hemoglobina ainda não desceu |
| Neoplasia digestiva por trás de uma ferropenia | ferropenia no homem ou na mulher pós-menopausa |
| Microangiopatia trombótica (púrpura trombocitopénica trombótica, síndrome hemolítico-urémico) | esquizócitos, trombocitopenia, lesão renal ou neurológica |
| Anemia hemolítica autoimune aguda | queda da hemoglobina em dias, icterícia, teste de antiglobulina direta positivo |
| Hemólise aguda por défice de glucose-6-fosfato desidrogenase | favas, infeção ou fármaco oxidante; urina escura |
| Aplasia medular ou leucemia aguda | pancitopenia, blastos no esfregaço |
| Défice de vitamina B12 com clínica neurológica | parestesias, ataxia, alteração da propriocepção |
Por grupo de VGM
- Microcítica: ferropenia; talassemias; anemia da inflamação de longa duração; anemia sideroblástica (neoplasia mielodisplásica e formas hereditárias raras).
- Normocítica hipoproliferativa: inflamação e cancro; doença renal crónica; hipotiroidismo e outros estados hipometabólicos; hepatopatia; ferropenia inicial; aplasia ou infiltração da medula.
- Normocítica com reticulocitose: hemorragia aguda; hemólise.
- Macrocítica megaloblástica: défice de vitamina B12 ou de folato; metotrexato, hidroxiureia e outros fármacos que interferem com a síntese do ácido desoxirribonucleico; óxido nitroso.
- Macrocítica não megaloblástica: álcool; hepatopatia; hipotiroidismo; neoplasia mielodisplásica; reticulocitose marcada, porque o reticulócito é maior.
Mecanismos que atravessam os grupos
- A hepcidina, hormona hepática que bloqueia a ferroportina, está baixa na ferropenia (aumenta a absorção) e alta na inflamação (retém o ferro nos macrófagos e no enterócito).
- Na inflamação, na doença renal e nos estados hipometabólicos a produção de eritropoietina é inadequada para o grau de anemia.
- A eritropoiese ineficaz (talassemia, megaloblástica) destrói precursores na medula e dá marcadores de hemólise com reticulócitos baixos.
História e exame
- A tolerância depende sobretudo da velocidade de instalação: a anemia crónica é bem tolerada com valores baixos, a aguda descompensa com valores mais altos.
- Sintomas de anemia: cansaço, dispneia de esforço, palpitações, palidez; em quem tem cardiopatia, angina e insuficiência cardíaca.
- Perguntar por perdas (digestivas, menstruais, urinárias, dádivas de sangue), dieta, cirurgia gástrica ou bariátrica, fármacos (inibidores da bomba de protões, metformina, anti-inflamatórios, anticoagulantes), álcool, doença crónica e história familiar de anemia ou esplenectomia.
- Icterícia, urina escura e esplenomegalia sugerem hemólise; queilite angular e coiloníquia, ferropenia avançada; glossite e alterações da sensibilidade vibratória, défice de B12; adenopatias, hepatoesplenomegalia e febre, doença hematológica maligna.
Primeiros exames
- Hemograma completo com índices e reticulócitos, e esfregaço de sangue periférico.
- Ferritina e saturação da transferrina; vitamina B12 e folato na macrocítica; função renal e hepática, TSH e proteína C reativa conforme o contexto.
- Suspeita de hemólise: desidrogenase láctica, bilirrubina indireta, haptoglobina e teste de antiglobulina direta.
Sinais de alarme
- Instabilidade hemodinâmica, hemorragia ativa, angina ou insuficiência cardíaca.
- Descida rápida da hemoglobina.
- Citopenias em mais de uma linha, blastos, esquizócitos ou eritroblastos no esfregaço.
- Défice neurológico com macrocitose.
- Hemoglobinúria ou icterícia de instalação aguda.
Microcítica
| achado | provável | próximo passo |
|---|---|---|
| Ferritina baixa | ferropenia | procurar a causa da perda ou da má absorção |
| Ferritina normal ou alta, saturação da transferrina baixa, proteína C reativa alta | anemia da inflamação, com ou sem ferropenia associada | ferritina até 70 µg/L ainda é compatível com ferropenia |
| Ferritina e ferro normais, amplitude de distribuição eritrocitária normal, anemia ligeira desproporcionada à microcitose | traço talassémico | eletroforese ou cromatografia das hemoglobinas; HbA2 alta na beta |
| Ferro normal ou alto, sem talassemia | anemia sideroblástica | mielograma com coloração do ferro |
- A amplitude de distribuição eritrocitária está alta na ferropenia e é habitualmente normal no traço talassémico.
Normocítica
- Reticulócitos altos: hemorragia ou hemólise. Estudar a hemólise (ver abaixo) e procurar a hemorragia.
- Reticulócitos baixos: ver ferro, função renal, proteína C reativa, função tiroideia e hepática. Com outras citopenias, ou sem causa ao fim deste estudo, mielograma com biópsia óssea.
Macrocítica
- Doseamento de vitamina B12 e folato, e esfregaço (neutrófilos hipersegmentados, macro-ovalócitos).
- Sem défice vitamínico: álcool, fígado, tiroide, fármacos; reticulocitose; e, no idoso com outras citopenias ou displasia, neoplasia mielodisplásica, que se confirma na medula.
Hemólise
- Confirmar: reticulocitose, desidrogenase láctica e bilirrubina indireta altas, haptoglobina baixa.
- Teste de antiglobulina direta: positivo aponta para anemia hemolítica autoimune ou para hemólise por fármaco ou pós-transfusional.
- Negativo: ler o esfregaço. Esquizócitos apontam para microangiopatia ou prótese valvular; esferócitos para esferocitose hereditária; células mordidas e corpos de Heinz para défice de glucose-6-fosfato desidrogenase; hemoglobinúria com trombose ou citopenias para hemoglobinúria paroxística noturna.
- O tratamento é o da causa. A transfusão corrige o número e não substitui o diagnóstico: colher o estudo (ferro, vitaminas, hemólise) antes de transfundir.
- Na hemorragia aguda a prioridade inverte-se: estabilizar, repor sangue e parar a hemorragia.
Transfusão de concentrado eritrocitário (guideline internacional de 2023)
| doente estável | considerar transfundir abaixo de |
|---|---|
| Adulto internado, em geral | 7 g/dL |
| Cirurgia cardíaca | 7,5 g/dL |
| Cirurgia ortopédica ou doença cardiovascular prévia | 8 g/dL |
- A decisão é clínica: sintomas, velocidade de instalação e comorbilidade pesam tanto como o número.
- Uma unidade sobe a hemoglobina cerca de 1 g/dL no adulto.
- Na anemia megaloblástica grave transfunde-se só se indispensável, uma a duas unidades devagar, pelo risco de sobrecarga de volume.
- Urgência: instabilidade, hemorragia ativa, hemoglobina muito baixa com sintomas, suspeita de microangiopatia trombótica, hemólise aguda, pancitopenia grave ou blastos.
- Gastrenterologia: ferropenia no homem ou na mulher pós-menopausa, ou em qualquer idade com sintomas digestivos, para endoscopia alta e baixa.
- Hematologia: citopenias em várias linhas, suspeita de neoplasia mielodisplásica, aplasia, hemólise crónica, hemoglobinopatia sintomática ou anemia sem causa depois do estudo inicial.
- Nefrologia: anemia da doença renal crónica candidata a agente estimulador da eritropoiese.
- Anemia por falta de ferro para a síntese de hemoglobina. É a causa mais frequente de anemia, e cerca de metade das anemias no mundo atribui-se-lhe.
- A carência instala-se por etapas: primeiro esgotam-se as reservas (ferritina baixa, hemoglobina normal), depois falta ferro à eritropoiese (saturação da transferrina baixa), por fim surge a anemia microcítica e hipocrómica.
- Mais frequente na mulher em idade fértil, na grávida, na criança pequena e no adolescente, e no idoso.
Causas
| mecanismo | exemplos |
|---|---|
| Perda | menstrual; digestiva (neoplasia, úlcera, angiodisplasia, doença inflamatória intestinal, anti-inflamatórios, anticoagulantes); urinária; dádivas repetidas; flebotomias |
| Má absorção | doença celíaca; gastrite atrófica e infeção por Helicobacter pylori; gastrectomia e cirurgia bariátrica; inibidores da bomba de protões prolongados |
| Aumento das necessidades | gravidez; crescimento rápido na infância e na adolescência; tratamento com agentes estimuladores da eritropoiese |
| Aporte insuficiente | dieta pobre em ferro, sobretudo vegetariana |
- A doença celíaca encontra-se em 3 a 5% das anemias ferropénicas.
- O adulto só perde ferro por hemorragia e descamação: não há via de excreção regulada. Uma perda acima de 10 a 20 mL de eritrócitos por dia ultrapassa o que o intestino consegue absorver de uma dieta normal.
Absorção
- O ferro absorve-se no duodeno e no jejuno proximal; o ferro heme, da carne, absorve-se melhor, e os fitatos e fosfatos dos vegetais reduzem a absorção.
- A hepcidina bloqueia a ferroportina, que exporta o ferro do enterócito e do macrófago. Na ferropenia está baixa e a absorção sobe; uma dose de ferro oral faz subir a hepcidina durante cerca de 24 horas e reduz a absorção da dose seguinte.
- Sintomas de anemia, muitas vezes insidiosos e bem tolerados.
- Sinais de carência tecidular avançada: queilite angular e coiloníquia (unhas em colher); glossite.
- Pica: vontade de comer gelo, terra ou outras substâncias não alimentares.
- Procurar sempre sinais da causa: alteração do trânsito, sangue nas fezes, perda de peso, menorragias.
Estudo do ferro
| parâmetro | ferropenia | anemia da inflamação |
|---|---|---|
| Ferritina | baixa | normal ou alta |
| Saturação da transferrina | abaixo de 20% | baixa, em regra 15 a 20% |
| Capacidade total de fixação do ferro | alta | baixa ou normal |
| Recetor solúvel da transferrina | alto | normal |
| VGM | baixo | normal ou baixo |
- A ferritina é o melhor marcador isolado: abaixo de 15 µg/L traduz reservas ausentes; abaixo de 30 µg/L, reservas baixas; 45 µg/L é o corte com melhor equilíbrio entre sensibilidade e especificidade.
- É reagente de fase aguda: na inflamação sobe tipicamente para o triplo. Com infeção ou inflamação, uma ferritina abaixo de 70 µg/L no adulto indica ferropenia (Organização Mundial da Saúde, 2020); acima de 150 µg/L a ferropenia absoluta é improvável mesmo com inflamação.
- A saturação da transferrina ajuda quando se suspeita de uma ferritina falsamente normal.
- Uma subida da hemoglobina de pelo menos 1 g/dL em 2 semanas de ferro oral confirma a ferropenia, mesmo com estudo do ferro duvidoso.
Procurar a causa (guideline britânica de gastrenterologia, 2021)
- Sempre: análise de urina e serologia da doença celíaca (ou biópsia duodenal na endoscopia).
- Homem e mulher pós-menopausa: endoscopia alta e colonoscopia, como primeira linha. Só se adia a colonoscopia se a endoscopia alta mostrar um cancro.
- Mulher em idade fértil: a causa habitual é a menstruação; endoscopia só com sintomas digestivos, história familiar de cancro colorretal ou ferropenia que recidiva ou não responde.
- Homem jovem: mesmo algoritmo do adulto mais velho.
- Endoscopia bidirecional negativa com resposta insuficiente ou recidiva: cápsula endoscópica do intestino delgado e estudo do aparelho urinário.
Diagnóstico diferencial da microcitose
- Traço talassémico: ferritina e ferro normais, amplitude de distribuição eritrocitária normal, HbA2 alta na beta.
- Anemia da inflamação: ferritina normal ou alta.
- Anemia sideroblástica: ferro normal ou alto, sideroblastos em anel.
- Na microcitose com estudo do ferro normal pede-se estudo das hemoglobinas antes de qualquer endoscopia.
- Dieta com ferro heme (carne, peixe) e alimentos enriquecidos; na dieta vegetariana a absorção é menor.
- Grávida: hemograma na primeira consulta e às 28 semanas; nos grupos de risco sem anemia (anemia prévia, gravidez múltipla, gestações seguidas, vegetarianas) doseia-se a ferritina e dá-se ferro se estiver abaixo de 30 µg/L.
- Depois de corrigida a ferropenia de causa não resolvida, hemograma periódico (por exemplo, de 6 em 6 meses no início) para detetar a recidiva.
- Ferro de manutenção prolongado quando a causa é desconhecida ou irreversível.
- Começa-se o ferro logo, sem esperar pela investigação, a menos que a colonoscopia esteja iminente.
Ferro oral
- Um comprimido por dia de sulfato, fumarato ou gluconato ferroso. As tomas várias por dia deixaram de se recomendar: cada dose faz subir a hepcidina e reduz a absorção da seguinte.
- Dias alternados absorvem mais por dose, porque evitam a subida de hepcidina da dose anterior, e dão menos náuseas: são opção de início e a alternativa natural na intolerância.
- Em jejum absorve melhor; a vitamina C associada não melhora a resposta nem a tolerância e não se recomenda.
- Efeitos adversos digestivos (dor, náuseas, obstipação) em 15 a 20%.
- Resposta: reticulócitos sobem em 4 a 7 dias, com pico em 1 a 1,5 semanas; hemoglobina a subir 1 g/dL em 2 semanas (ou em 4 semanas com dias alternados).
- Manter cerca de 3 meses depois de normalizar a hemoglobina, para repor as reservas.
Ferro endovenoso
- Quando o oral está contraindicado, não é tolerado ou não resulta; na perda contínua que excede a absorção; na má absorção; na doença inflamatória intestinal com intolerância ao oral e hemoglobina abaixo de 10 g/dL; na doença renal crónica em hemodiálise.
- Na gravidez, a partir do segundo trimestre, se o oral falhar ou não for tolerado.
- Formulações atuais (carboximaltose férrica, derisomaltose férrica, sacarose de ferro) dão reações graves raramente; administra-se onde se possa tratar uma anafilaxia. A carboximaltose pode causar hipofosfatemia.
Falência de resposta
- Rever adesão, perda que continua, má absorção (doença celíaca, gastrite atrófica, Helicobacter pylori) e diagnóstico errado (talassemia, inflamação).
- Grávida: anemia se a hemoglobina for menor de 11 g/dL no primeiro e no terceiro trimestres ou de 10,5 g/dL no segundo; uma prova terapêutica com ferro oral é diagnóstica e terapêutica, e tem de subir a hemoglobina em 2 semanas. Com hemoglobinopatia conhecida doseia-se primeiro a ferritina. Referencia-se a anemia grave (hemoglobina abaixo de 7 g/dL), sintomática ou depois das 34 semanas.
- Idoso: a anemia atinge cerca de 11% dos idosos na comunidade e até 40% dos que vivem em lares, e em um terço não se encontra causa. Associa-se a quedas, fragilidade, internamentos e mortalidade, e nunca se atribui à idade sem estudo. Depois dos 60 anos, 15 a 20% das ferropenias têm também défice de B12.
- Insuficiência cardíaca: ferritina abaixo de 100 µg/L, ou saturação abaixo de 20%, define carência de ferro, que se encontra em 40 a 70% dos doentes.
- Também chamada anemia da doença crónica. É a segunda causa de anemia hipoproliferativa, depois da ferropenia, e acompanha infeções, doenças autoimunes (artrite reumatoide, vasculites), cancro e lesão tecidular.
- A interleucina 6 faz subir a hepcidina, que retém o ferro nos macrófagos e bloqueia a absorção: há ferro armazenado mas não chega à medula.
- A interleucina 1 e o fator de necrose tumoral reduzem a produção de eritropoietina e a resposta da medula a ela; a sobrevida dos eritrócitos encurta ligeiramente.
- Habitualmente normocítica e ligeira a moderada; microcítica na doença inflamatória prolongada (artrite reumatoide ativa, tuberculose).
- Uma infeção aguda pode baixar a hemoglobina 2 a 3 g/dL em 1 a 2 dias.
- Ferro sérico e saturação da transferrina baixos, capacidade total de fixação baixa ou normal, ferritina normal ou alta, reticulócitos baixos.
- O problema é a ferropenia sobreposta, frequente quando a doença inflamatória também sangra (doença inflamatória intestinal, anti-inflamatórios): com inflamação, ferritina abaixo de 70 µg/L ainda é ferropenia; o recetor solúvel da transferrina, alto na ferropenia e normal na inflamação, ajuda nos casos duvidosos.
- Uma resposta ao ferro corrige a parte ferropénica e deixa a inflamatória.
- Tratar a doença de base, que é o que corrige a anemia.
- Corrigir a ferropenia associada; o ferro endovenoso contorna o bloqueio da absorção pela hepcidina.
- Agentes estimuladores da eritropoiese em situações escolhidas, por exemplo na anemia induzida pela quimioterapia, com alvo apenas o necessário para evitar transfusões, pelo risco de trombose e de progressão tumoral.
- Transfusão pelos sintomas, com estratégia restritiva.
- Causa principal: défice relativo de eritropoietina, que se agrava com o estadio.
- Juntam-se o défice de ferro (perdas, sobretudo na hemodiálise, e hepcidina alta, que bloqueia a absorção e a libertação do ferro), a inflamação, o hiperparatiroidismo e a menor sobrevida dos eritrócitos.
- Normocítica, normocrómica, com reticulócitos baixos. A diabetes e o mieloma dão défice de eritropoietina mais grave para a mesma função renal; a doença poliquística, menos grave.
- Estudo: hemograma, reticulócitos, ferritina e saturação da transferrina, e, conforme o caso, B12, folato, TSH, desidrogenase láctica e paratormona.
- A anemia só se atribui ao rim depois de excluídas as outras causas.
- Carência de ferro de causa incerta, sobretudo com ferritina abaixo de 45 µg/L (o mesmo que ng/mL) ou microcitose: procurar perdas digestivas, urinárias ou ginecológicas.
Primeiro o ferro (KDIGO, Kidney Disease: Improving Global Outcomes, 2026)
| situação | iniciar ferro se | via |
|---|---|---|
| Hemodiálise | ferritina de 500 µg/L ou menos e saturação da transferrina de 30% ou menos | endovenosa |
| Sem diálise ou em diálise peritoneal | ferritina abaixo de 100 com saturação abaixo de 40%, ou ferritina de 100 a 300 com saturação abaixo de 25% | oral ou endovenosa |
- Suspender o ferro com ferritina acima de 700 µg/L ou saturação de 40% ou mais, e durante uma infeção ativa.
Depois o agente estimulador da eritropoiese
- Quando o ferro está reposto e não há outra causa corrigível.
- Início: hemoglobina de 9 a 10 g/dL em hemodiálise; sem diálise, pelos sintomas, em geral entre 8,5 e 10 g/dL.
- Não se usa para manter a hemoglobina em 11,5 g/dL ou mais, pelos riscos do fármaco (AVC, trombose) com valores mais altos.
- Suspende-se durante um AVC ou uma trombose.
- Os inibidores da prolil-hidroxilase do fator induzível por hipoxia (por exemplo, o roxadustat) são alternativa oral; não se usam com cancro ativo nem depois de um evento cardiovascular ou trombótico recente.
- Hiporresposta: défice de ferro, infeção ou inflamação, diálise insuficiente, perdas ocultas, hiperparatiroidismo grave.
- Anemia por defeito na síntese do ácido desoxirribonucleico, com núcleo imaturo em células de citoplasma já hemoglobinizado. A medula é hipercelular mas a eritropoiese é ineficaz.
- Quase sempre por défice de vitamina B12 (cobalamina) ou de folato; mais raramente por fármacos (metotrexato, hidroxiureia, mercaptopurina, citarabina, análogos de nucleósidos).
- As reservas de B12 (2 a 3 mg) duram 3 a 4 anos sem aporte; as de folato só 3 a 4 meses.
- A anemia perniciosa, por gastrite atrófica autoimune, é a causa clássica de défice grave de B12; a mediana de início é aos 70 a 80 anos.
Défice de vitamina B12
| mecanismo | causas |
|---|---|
| Falta de fator intrínseco | anemia perniciosa (gastrite atrófica autoimune); gastrectomia total (défice inevitável) ou parcial |
| Má libertação da B12 dos alimentos | gastrite atrófica ligeira, inibidores da bomba de protões, idosos, cirurgia bariátrica |
| Doença ou resseção do íleo terminal | doença de Crohn, resseção de mais de 1,2 metros de íleo, sobrecrescimento bacteriano, doença celíaca |
| Aporte nulo | dieta vegana estrita |
| Fármacos e tóxicos | metformina, inibidores da bomba de protões; óxido nitroso, que inativa a metilcobalamina |
Défice de folato
- Dieta pobre (idoso, alcoolismo, pobreza) é quase sempre um dos fatores.
- Necessidades aumentadas: gravidez, hemólise crónica, doenças inflamatórias, diálise.
- Má absorção: doença celíaca, sprue tropical.
- Fármacos: metotrexato, trimetoprim e pirimetamina (inibem a di-hidrofolato redutase), fenitoína, primidona, sulfassalazina; o álcool é antagonista.
Porque é que só a B12 lesa os nervos
- A B12 é cofator de duas reações: a da metionina sintase, que regenera o folato ativo, e a da metilmalonil-CoA mutase.
- Sem B12 o folato fica retido como metiltetra-hidrofolato (a «armadilha do folato»), e por isso o défice de B12 também dá megaloblastose e sobe o folato sérico.
- A lesão da mielina do sistema nervoso depende da B12 e não se corrige com folato: doses altas de ácido fólico podem corrigir a anemia e deixar progredir a neuropatia.
- Anemia de instalação lenta e bem tolerada; glossite, queilite angular, icterícia ligeira (eritropoiese ineficaz), perda de peso e anorexia.
- Neurológica, só no défice de B12: neuropatia periférica e degeneração combinada subaguda dos cordões posteriores e laterais da medula, com parestesias, perda da sensibilidade vibratória e da propriocepção, Romberg positivo, sinal de Lhermitte, marcha atáxica com espasticidade; também atrofia ótica, alterações cognitivas, depressão e psicose.
- A clínica neurológica pode surgir sem anemia nem macrocitose.
- O folato em falta na gravidez associa-se a defeitos do tubo neural.
Sangue e medula
- VGM habitualmente acima de 100 fL (pode ser normal se coexistir ferropenia ou traço talassémico), macro-ovalócitos, neutrófilos hipersegmentados (mais de cinco lobos); leucopenia e trombocitopenia ligeiras.
- Eritropoiese ineficaz: desidrogenase láctica alta, bilirrubina indireta alta, haptoglobina baixa, reticulócitos baixos.
- Mielograma só na dúvida com neoplasia mielodisplásica ou leucemia.
Vitamina B12 (NICE, National Institute for Health and Care Excellence, 2024)
| B12 total | B12 ativa (holotranscobalamina) | leitura |
|---|---|---|
| abaixo de 180 ng/L | abaixo de 25 pmol/L | défice confirmado |
| 180 a 350 ng/L | 25 a 70 pmol/L | indeterminado: pedir ácido metilmalónico |
| acima de 350 ng/L | acima de 70 pmol/L | défice improvável |
- O ácido metilmalónico e a homocisteína sobem no défice verdadeiro; a homocisteína sobe também no défice de folato e na doença renal.
- Os anticorpos anti-fator intrínseco são específicos mas só aparecem em cerca de metade dos doentes com anemia perniciosa (os bloqueadores em 55%), pelo que um resultado negativo não a exclui; os anticorpos anti-célula parietal estão em cerca de 90% mas são pouco específicos (até 16% das mulheres acima dos 60 anos). Gastrina alta e pepsinogénio I baixo apoiam.
- Na anemia perniciosa faz-se uma endoscopia com biópsia do corpo gástrico, pelo risco de neoplasia gástrica.
Folato e causa
- Folato sérico reflete a dieta recente; o folato eritrocitário reflete as reservas.
- Défice de folato: história alimentar e alcoólica, e serologia da doença celíaca.
- Uma ferropenia e um défice de B12 coexistem com frequência no idoso: doseia-se sempre o outro.
- Ácido fólico 0,4 mg por dia antes da conceção e no primeiro trimestre reduz em cerca de 70% os defeitos do tubo neural; 5 mg por dia se houve uma gravidez prévia com defeito do tubo neural.
- B12 profilática para toda a vida depois de gastrectomia total ou resseção do íleo terminal; vigiar e suplementar depois de cirurgia bariátrica e com inibidores da bomba de protões ou metformina prolongados.
- Dieta vegana: suplemento de B12.
- Ácido fólico nas hemólises crónicas e na diálise.
Vitamina B12
- Não se espera pelos resultados quando há anemia megaloblástica com clínica neurológica: colhe-se o sangue e trata-se.
- Hidroxocobalamina 1 mg intramuscular, seis doses com 3 a 7 dias de intervalo para repor as reservas (mais frequentes se houver neuropatia), e depois 1 mg de 3 em 3 meses.
- Intramuscular para toda a vida na anemia perniciosa, na gastrectomia total e na resseção completa do íleo terminal.
- Nas restantes causas (dieta, fármacos, má absorção ligeira) a via oral é opção; na má absorção, pelo menos 1 mg por dia.
- Primeira avaliação da resposta aos 3 meses; os sintomas podem começar a melhorar em 2 semanas.
Folato
- Ácido fólico 5 a 15 mg por dia por via oral, durante cerca de 4 meses, e mais tempo se a causa persistir.
- Antes de dar ácido fólico em dose alta, exclui-se ou corrige-se o défice de B12.
- O ácido folínico é o antídoto do metotrexato e dos outros inibidores da di-hidrofolato redutase.
Durante a resposta
- Na primeira ou segunda semana pode haver trombocitose reativa.
- A anemia corrige em semanas; a lesão neurológica pode ficar irreversível se o tratamento for tardio, e é essa a razão de não adiar a B12.
- Na anemia perniciosa há maior risco de carcinoma gástrico e de outras doenças autoimunes (tiroide, vitiligo, diabetes tipo 1, doença de Addison).
- Anemia por destruição acelerada dos eritrócitos, cuja vida normal é de cerca de 120 dias, quando a medula não consegue compensar.
- Hereditárias (quase sempre defeito do próprio eritrócito): membrana (esferocitose), enzimas (défice de glucose-6-fosfato desidrogenase, de piruvato cinase), hemoglobina (talassemias, drepanocitose).
- Adquiridas (quase sempre causa externa): imune, microangiopática, mecânica, infeciosa (malária, Clostridium perfringens), tóxica. A hemoglobinúria paroxística noturna é a exceção adquirida com defeito intrínseco.
- Intravascular: hemoglobinemia, hemoglobinúria, hemossiderinúria, haptoglobina indoseável. Extravascular (baço, fígado): icterícia e esplenomegalia predominam.
Anemia hemolítica autoimune
| a quente | por aglutininas frias | |
|---|---|---|
| Anticorpo | IgG, ativo a 37 °C, muitas vezes anti-Rh | IgM anti-I, ativo ao frio, fixa complemento |
| Antiglobulina direta | positiva para IgG (com ou sem C3) | positiva para C3 |
| Destruição | extravascular, sobretudo no baço | complemento: intra e extravascular, sem predomínio esplénico |
| Causas associadas | idiopática; lúpus; leucemia linfocítica crónica e linfomas; imunodeficiências; inibidores de checkpoint imunitário | clone B indolente; infeções, como a do vírus Epstein-Barr |
- Síndrome de Evans: anemia hemolítica autoimune com trombocitopenia imune; sinal de doença de alto risco.
Esferocitose hereditária
- A mais frequente das doenças da membrana: 1 em 2000 a 5000 pessoas de ascendência europeia; habitualmente autossómica dominante, com formas recessivas graves.
- Defeito das ligações verticais (anquirina, banda 3, espectrina, proteína 4.2): o eritrócito perde membrana, fica esférico e é destruído no baço.
Défice de glucose-6-fosfato desidrogenase
- Ligado ao X, afeta sobretudo homens; as mulheres heterozigóticas são mosaicos e algumas são tão afetadas como os homens. Mais de 500 milhões de pessoas no mundo, frequente no Mediterrâneo, em África e na Ásia.
- É a única fonte de poder redutor do eritrócito (via das pentoses fosfato): sem ela, o glutatião não se regenera e a hemoglobina oxida-se e precipita (corpos de Heinz) perante o stress oxidativo. Crises desencadeadas por favas, infeções e fármacos (primaquina, dapsona, rasburicase, pegloticase).
Microangiopatia e hemólise mecânica
- Fragmentação dos eritrócitos em microtrombos ou contra superfícies anómalas: púrpura trombocitopénica trombótica (défice grave da ADAMTS13, protease que cliva o fator de von Willebrand), síndrome hemolítico-urémico (Escherichia coli produtora de toxina Shiga, sobretudo na criança; forma atípica por desregulação do complemento), coagulação intravascular disseminada, próteses valvulares com regurgitação paraprotésica, hipertensão maligna.
Hemoglobinúria paroxística noturna
- Mutação somática do PIGA numa célula estaminal: falta a âncora GPI e com ela as proteínas CD55 e CD59, que protegem do complemento. Tríade de hemólise intravascular, trombose venosa (hepáticas, abdominais, cerebrais) e citopenias, muitas vezes ligada à aplasia medular.
- Palidez, icterícia, urina escura, esplenomegalia; nas formas crónicas, litíase biliar pigmentar em idade jovem.
- A anemia hemolítica autoimune a quente pode instalar-se em dias, com hemoglobina a cair até 4 g/dL.
- Défice de glucose-6-fosfato desidrogenase: horas a 2 a 3 dias depois do desencadeante, mal-estar, dor lombar ou abdominal, icterícia e urina escura; no adulto a complicação mais séria é a lesão renal aguda. No recém-nascido, icterícia neonatal que pode chegar ao kernicterus.
- Aglutininas frias: hemólise que agrava com a exposição ao frio, por vezes com hemoglobinúria.
- Crise aplástica: a infeção por parvovírus B19 para a eritropoiese durante dias; numa hemólise crónica causa queda abrupta da hemoglobina com reticulócitos ausentes.
- Microangiopatia trombótica: trombocitopenia, alterações neurológicas e lesão renal, esta dominante no síndrome hemolítico-urémico.
Confirmar a hemólise
- Reticulocitose, desidrogenase láctica alta, bilirrubina indireta alta, haptoglobina baixa; na intravascular, hemoglobinúria e hemossiderinúria.
- A reticulocitose marcada sobe o VGM.
Descobrir a causa
| teste ou achado | aponta para |
|---|---|
| Teste de antiglobulina direta positivo (IgG, com ou sem C3) | anemia hemolítica autoimune a quente, fármaco, reação transfusional |
| Teste positivo só para C3, aglutinação da amostra ao frio | doença das aglutininas frias |
| Esquizócitos com trombocitopenia | microangiopatia trombótica: pedir atividade da ADAMTS13 |
| Esferócitos, concentração de hemoglobina corpuscular média acima de 34 e amplitude de distribuição acima de 14%, antiglobulina negativa, história familiar | esferocitose hereditária: teste de ligação da eosina-5-maleimida por citometria |
| Células mordidas, corpos de Heinz, urina escura depois de favas ou fármaco | défice de glucose-6-fosfato desidrogenase: doseamento quantitativo |
| Hemólise intravascular com antiglobulina negativa, trombose ou citopenias | hemoglobinúria paroxística noturna: citometria de fluxo (eritrócitos e granulócitos sem CD55 e CD59) |
- Na púrpura trombocitopénica trombótica, atividade da ADAMTS13 abaixo de 10% confirma; enquanto se espera o resultado usam-se scores clínicos de probabilidade, e o tratamento não espera pelo doseamento.
- O doseamento da glucose-6-fosfato desidrogenase logo a seguir a uma crise pode dar falso normal, porque os eritrócitos mais velhos e mais pobres na enzima já foram destruídos.
Medidas comuns
- Ácido fólico nas hemólises crónicas; transfusão pelos sintomas; na intravascular crónica, repor o ferro perdido na urina.
Anemia hemolítica autoimune a quente
- Prednisolona 1 mg/kg/dia, com remissão em pelo menos metade; o rituximab associa-se cada vez mais em primeira linha e reduz as recaídas.
- Recaída ou refratariedade: rituximab, esplenectomia (respostas semelhantes), depois azatioprina, ciclofosfamida, ciclosporina, micofenolato.
- Anemia grave: transfundir mesmo que as unidades sejam incompatíveis na prova cruzada, em diálogo com a imuno-hemoterapia.
Doença das aglutininas frias
- Evitar o frio; rituximab (até 60% respondem); os corticoides e a esplenectomia não resultam. O sutimlimab, inibidor do complemento, controla a hemólise enquanto é administrado. Transfundir com o sangue e o doente aquecidos.
Esferocitose hereditária
- Esplenectomia nas formas graves, pelos 4 a 6 anos; nas moderadas, adiada até à puberdade; nas ligeiras, não se faz. Vacinação contra pneumococo e meningococo antes. Colecistectomia só se indicada.
Défice de glucose-6-fosfato desidrogenase
- Evitar favas e fármacos oxidantes, e testar antes de prescrever rasburicase ou primaquina. A crise resolve-se em regra sozinha; transfusão se grave e diálise na lesão renal.
Púrpura trombocitopénica trombótica imune
- Plasmaférese com corticoides, rituximab e caplacizumab, logo que o diagnóstico é provável.
- As transfusões de plaquetas evitam-se.
Hemoglobinúria paroxística noturna
- Inibidores do complemento: eculizumab (de 2 em 2 semanas) ou ravulizumab (de 8 em 8), que param a hemólise intravascular e reduzem a trombose; inibidores proximais para a hemólise extravascular residual. Anticoagular quem já teve trombose. Transplante alogénico na forma associada a aplasia.
- Hemólise crónica: litíase biliar, hiperesplenismo, sobrecarga de ferro nas formas transfundidas ou com eritropoiese muito ativa; ferropenia na hemólise intravascular crónica.
- Anemia hemolítica autoimune a quente: mortalidade de 5 a 10% mesmo com tratamento adequado, e recaídas frequentes.
- Síndrome hemolítico-urémico atípico: antes dos inibidores do complemento, uma parte importante evoluía para doença renal terminal.
- Síntese reduzida de uma das cadeias de globina, com excesso da outra. São as doenças mendelianas mais frequentes e acompanham a distribuição histórica da malária (Mediterrâneo, Médio Oriente, Ásia, África).
- Beta: mutações pontuais do gene da beta-globina (cromossoma 11); portadores com traço (talassemia minor).
- Alfa: habitualmente deleções dos genes da alfa-globina (quatro, no cromossoma 16).
- A classificação clínica atual separa as formas dependentes de transfusão das não dependentes.
- Na beta, as cadeias alfa em excesso precipitam nos eritroblastos e matam-nos na medula: eritropoiese ineficaz, com hemólise dos eritrócitos que chegam ao sangue. A medula expande-se (deformações ósseas, hematopoiese extramedular) e a eritroferrona suprime a hepcidina, pelo que há sobrecarga de ferro mesmo sem transfusões.
- A beta-talassemia manifesta-se quando a hemoglobina fetal cai, nos primeiros meses de vida.
| genes alfa perdidos | quadro |
|---|---|
| 1 | portador silencioso |
| 2 | traço alfa-talassémico: microcitose, anemia ligeira ou ausente |
| 3 | doença da hemoglobina H: hemólise moderada, esplenomegalia |
| 4 | hidropisia fetal por hemoglobina Bart, em regra fatal in utero |
- Traço (alfa ou beta): assintomático, microcitose marcada com anemia ligeira ou nenhuma; às vezes esplenomegalia discreta.
- Dependente de transfusão: anemia grave desde os primeiros meses, hepatoesplenomegalia, deformações ósseas da face, atraso de crescimento se não tratada.
- Não dependente: anemia moderada, esplenomegalia, hematopoiese extramedular, sobrecarga de ferro, trombose e hipertensão pulmonar.
- Hemograma: microcitose e hipocromia desproporcionadas à anemia; eritrócitos em alvo; amplitude de distribuição eritrocitária em regra normal.
- Excluir primeiro a ferropenia: ferritina normal.
- Separação das hemoglobinas por cromatografia líquida de alta resolução ou eletroforese capilar: no traço beta, HbA2 elevada (cerca de 4 a 6%), às vezes com HbF alta; no traço alfa, as frações são normais e o diagnóstico é molecular; na doença da hemoglobina H, hemoglobina H presente.
- Estudo molecular para aconselhamento genético e diagnóstico pré-natal.
- Identificar os portadores pelos índices eritrocitários e pela HbA2, e estudar o parceiro: só assim se conhece o risco de um filho com forma grave.
- Aconselhamento genético e diagnóstico pré-natal (biópsia das vilosidades coriónicas) quando os dois são portadores; é esta a estratégia que evita a hidropisia por hemoglobina Bart e as formas dependentes de transfusão.
- Traço: não precisa de tratamento; não se dá ferro a quem não tem ferropenia.
- Dependente de transfusão (Federação Internacional de Talassemia, 2025):
- transfusão de 2 em 2 a 5 em 5 semanas, com hemoglobina pré-transfusional de 9,5 a 10,5 g/dL (10 a 11 g/dL com cardiopatia ou hematopoiese extramedular importante);
- quelação de ferro contínua (deferasirox e deferiprona orais, desferrioxamina parentérica), vigiada pela ferritina de 3 em 3 meses e pela ressonância magnética hepática e cardíaca (T2*);
- luspatercept no adulto, para reduzir a carga transfusional;
- transplante alogénico de irmão compatível, curativo em mais de 80%; a terapia génica é alternativa aprovada na Europa a partir dos 12 anos.
- Não dependente: vigilância da sobrecarga de ferro, que pode exigir quelação; transfusões nas descompensações e na gravidez; esplenectomia quando as necessidades transfusionais aumentam.
- Doença da hemoglobina H: em regra sem transfusões, que se reservam para as descompensações (infeção, gravidez); vigiar periodicamente o ferro.
- A sobrecarga de ferro é a principal causa de morbilidade: miocardiopatia e arritmias, cirrose, endocrinopatias (hipogonadismo, diabetes, hipotiroidismo).
- Osteoporose em cerca de metade, mesmo nos bem tratados; trombose e hipertensão pulmonar, sobretudo depois da esplenectomia.
- Com transfusão e quelação regulares e ininterruptas, a sobrevida ultrapassa os 50 anos.
- Anemia de células falciformes: homozigotia para a hemoglobina S, por troca de ácido glutâmico por valina na cadeia beta. Doença de células falciformes inclui também as heterozigotias compostas (hemoglobina SC, S-beta-talassemia), em regra mais tardias e menos graves, exceto a S-beta zero, que se comporta como a homozigótica.
- Originou-se em África, onde o portador está protegido da malária grave por Plasmodium falciparum; hoje distribui-se com as migrações.
- Traço falciforme (portador): benigno, com esperança de vida normal; os portadores são cerca de 25 vezes mais do que os doentes.
- Desoxigenada, a hemoglobina S polimeriza; o eritrócito desidrata, deforma-se em foice e, depois de repetidos ciclos, fica irreversivelmente falciforme. A desidratação, a acidose, a hipoxia e o frio favorecem a polimerização.
- Dois braços:
- vaso-oclusão: os eritrócitos aderem ao endotélio e aos leucócitos e ocluem a microcirculação, com isquemia e dor;
- hemólise: os eritrócitos vivem menos de 20 dias; a hemoglobina livre consome o óxido nítrico e dá vasculopatia (hipertensão pulmonar, úlceras de perna, priapismo, AVC, nefropatia).
- Os enfartes esplénicos repetidos levam à asplenia funcional e à suscetibilidade a bactérias capsuladas (pneumococo) e, no osso, à Salmonella.
- A hemoglobina fetal impede a polimerização: é o alvo da hidroxiureia.
- Crise dolorosa vaso-oclusiva: a complicação aguda mais frequente; na maioria, uma a duas por ano, com duração de dias a semanas. Na criança pequena, dactilite (síndrome mão-pé).
- Síndrome torácica aguda: dor torácica, tosse, febre, hipoxemia e novo infiltrado no radiograma; atinge mais de metade dos doentes ao longo da vida e é o segundo evento agudo mais frequente; em cerca de um quarto dos internamentos por dor surge nas 72 horas seguintes.
- AVC em 10 a 15%, isquémico na criança e hemorrágico no adulto.
- Outras: osteonecrose da cabeça do fémur, úlceras de perna, priapismo, litíase biliar, nefropatia com albuminúria, hipertensão pulmonar, crise aplástica por parvovírus B19.
- Traço falciforme: hematúria, hipostenúria, maior risco de tromboembolismo; raramente rabdomiólise de esforço com calor.
- Anemia hemolítica crónica com reticulocitose; esfregaço com drepanócitos e células em alvo.
- Separação das hemoglobinas (cromatografia líquida de alta resolução ou eletroforese capilar): na homozigótica, mais de 75% de HbS e ausência de HbA; no traço, cerca de 30 a 40% de HbS com HbA; na SC, HbS e HbC em partes iguais.
- Estudo molecular para aconselhamento e diagnóstico pré-natal.
- Na crise dolorosa não há teste que a confirme: é clínica, e procuram-se desencadeantes (infeção, desidratação) e complicações (síndrome torácica, AVC).
- Rastreio neonatal, onde existe, e seguimento em centro de referência.
- Na criança: penicilina profilática até aos 5 anos, vacinação antipneumocócica, Doppler transcraniano anual dos 2 aos 16 anos para prevenir o AVC.
- Evitar desidratação, frio, esforço extremo e altitude.
- Estudo do parceiro dos portadores, aconselhamento genético e diagnóstico pré-natal.
Modificar a doença
- Hidroxiureia para todos com anemia de células falciformes e S-beta zero, a partir dos 9 meses de idade, independentemente dos sintomas, titulada até à dose máxima tolerada pelos neutrófilos e plaquetas. Sobe a hemoglobina fetal, reduz para cerca de metade as crises dolorosas e a síndrome torácica e reduz a mortalidade.
- Transplante alogénico de irmão compatível, com sobrevida sem eventos acima de 95%, mas só cerca de 15% têm dador; a terapia génica por edição (exagamglogene) está aprovada na Europa.
- O voxelotor foi retirado do mercado em 2024 e a autorização europeia do crizanlizumab foi revogada em 2023.
Crise dolorosa
- Tratar o desencadeante e a dor sem demora: opioide endovenoso (morfina) em doses fixas frequentes ou por analgesia controlada pelo doente, sem esquemas «em SOS».
- Hidratação sem excesso, espirometria de incentivo, tromboprofilaxia; oxigénio só se houver hipoxemia.
- Monitorização da saturação nas primeiras 48 a 72 horas, pela síndrome torácica.
Síndrome torácica aguda
- Antibiótico, oxigénio se a saturação estiver abaixo de 95%, analgesia sem sedação excessiva.
- Transfusão se houver hipoxemia ou atingimento de vários lobos; eritrocitaférese (transfusão de permuta) nas formas graves.
Transfusão
- Indicações: anemia sintomática grave, AVC (tratamento e prevenção), síndrome torácica com hipoxemia, antes de cirurgia com anestesia geral (até cerca de 10 g/dL).
- Não se transfunde na crise dolorosa não complicada nem para corrigir a anemia crónica estável.
- Sangue fenotipado para Rh (C, E) e Kell, pelo risco de aloimunização e de reações hemolíticas tardias.
- Mortalidade infantil elevada em África; nos países com cuidados organizados a morte na infância é rara e a mediana de sobrevida situa-se entre a quinta e a sexta décadas.
- Complicações transfusionais: aloimunização, sobrecarga de ferro, reação hemolítica tardia e hiper-hemólise.
- Gravidez de alto risco, com seguimento conjunto.
- Pancitopenia com medula hipocelular, sem infiltração nem fibrose. Exige pelo menos dois de: hemoglobina abaixo de 10 g/dL, plaquetas abaixo de 50 × 10⁹/L, neutrófilos abaixo de 1,5 × 10⁹/L.
- Rara: 2 a 3 casos por milhão por ano na Europa, mais na Ásia oriental. Distribuição bimodal, com picos entre os 10 e os 25 anos e depois dos 60.
- 70 a 80% idiopáticas; as restantes sobretudo por falência medular hereditária (anemia de Fanconi, telomeropatias, défice de GATA2).
- Na forma adquirida idiopática, destruição imune das células estaminais por linfócitos T citotóxicos (interferão gama); daí a resposta à imunossupressão.
- Causas e associações: radiação e quimioterapia (dose-dependentes); benzeno; reações idiossincráticas a fármacos (anti-inflamatórios, sulfonamidas, antitiroideus, penicilamina, alopurinol, ouro); hepatite seronegativa (cerca de 5%, sobretudo em homens jovens, 1 a 2 meses depois); lúpus; timoma; hemoglobinúria paroxística noturna, com a qual se sobrepõe.
- Hereditárias: anemia de Fanconi (baixa estatura, manchas café com leite, anomalias do polegar e do rádio), disqueratose congénita (leucoplasia, distrofia ungueal, hiperpigmentação reticulada), mutações da telomerase no adulto (cabelos grisalhos precoces, fibrose pulmonar ou hepática na família).
- Hemorragia mucocutânea (equimoses, gengivorragias, epistaxes, menorragias, petéquias) é o sintoma inicial mais frequente, com os sintomas de anemia.
- A infeção é um sintoma inicial pouco comum, ao contrário da agranulocitose, e os doentes têm muitas vezes bom aspeto apesar das contagens muito baixas.
- Sem adenopatias nem esplenomegalia: se existirem, pensar noutra doença.
- Sangue: pancitopenia com reticulócitos baixos, VGM muitas vezes aumentado, sem células imaturas.
- Aspirado e biópsia óssea (biópsia de pelo menos 2 cm): medula hipocelular, substituída por gordura, sem blastos, fibrose nem displasia dos megacariócitos.
- Complementares: citometria de fluxo para clone de hemoglobinúria paroxística noturna; citogenética e painel de mutações mieloides; estudo de fragilidade cromossómica (Fanconi) e do comprimento dos telómeros nos jovens; B12, folato, serologias víricas e provas hepáticas.
- Diferencial: neoplasia mielodisplásica hipocelular, leucemia aguda, infiltração medular, mielofibrose, défice grave de B12, lúpus, hiperesplenismo.
Gravidade (critérios de Camitta)
| grau | critérios |
|---|---|
| Grave | celularidade abaixo de 25% (ou 25 a 50% com menos de 30% de células hematopoiéticas residuais) e pelo menos dois de: neutrófilos abaixo de 0,5 × 10⁹/L, plaquetas abaixo de 20 × 10⁹/L, reticulócitos abaixo de 60 × 10⁹/L |
| Muito grave | como a grave, com neutrófilos abaixo de 0,2 × 10⁹/L |
| Não grave | não cumpre os critérios de grave |
Tratamento definitivo da aplasia grave e muito grave (guideline britânica, 2024)
- Transplante alogénico de irmão HLA-compatível é o tratamento de escolha abaixo dos 40 anos; entre os 40 e os 50 anos decide-se pelas comorbilidades. Tipagem HLA do doente e dos irmãos logo ao diagnóstico.
- Sem irmão compatível, ou no doente mais velho: imunossupressão com globulina antitimocítica de cavalo e ciclosporina, com eltrombopag. A globulina de cavalo é mais eficaz do que a de coelho. A associação ao eltrombopag sobe a resposta global aos 6 meses de 41% para 68%.
- Transplante de dador não relacionado depois da falência da imunossupressão, ou logo de início no adulto jovem com infeção grave e dador disponível.
- Os corticoides isolados não tratam a aplasia; os fatores de crescimento (eritropoietina, fator estimulador de colónias de granulócitos) também não. Suspende-se qualquer fármaco suspeito.
Suporte
- Transfusão de plaquetas profilática com plaquetas abaixo de 10 × 10⁹/L durante o tratamento ativo; concentrado eritrocitário com estratégia restritiva (7 a 8 g/dL, 8 g/dL com doença cardiovascular).
- Nos candidatos a transplante, evitar transfusões de familiares, para não sensibilizar contra o dador.
- Neutropenia grave: profilaxia antibiótica e antifúngica; a febre trata-se como neutropenia febril, com antibiótico de largo espetro imediato.
- Evitar ácido acetilsalicílico e anti-inflamatórios.
- Sem tratamento, a aplasia grave é rapidamente fatal por infeção ou hemorragia.
- Depois da imunossupressão: recaídas frequentes, sobretudo ao reduzir a ciclosporina; evolução clonal para neoplasia mielodisplásica ou leucemia em cerca de 15% na década seguinte; expansão de um clone de hemoglobinúria paroxística noturna.
- O transplante cura, à custa da doença do enxerto contra o hospedeiro e das infeções, piores no adulto.
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- European Medicines Agency. Oxbryta (voxelotor): suspensão da autorização de introdução no mercado. Amesterdão: EMA; 2024.
32 perguntas sobre Anemias
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar