Amiloidose
Atualizado em 17 de julho de 2026 · 7 perguntas neste tema
A amiloidose é um grupo heterogéneo de doenças de depósito em que proteínas mal enoveladas se agregam no espaço extracelular sob a forma de fibrilhas insolúveis, com atingimento frequentemente multiorgânico. Distingue-se dos restantes depósitos proteicos por uma assinatura tintorial única: afinidade para o vermelho-Congo com birrefringência verde-maçã sob luz polarizada. Para o PNA importa reconhecer os padrões de órgão-alvo, distinguir os tipos principais (AL, AA, ATTR, esta última com forte relevância epidemiológica em Portugal) e saber que o diagnóstico assenta na biópsia com tipagem.
A patogénese comum a todos os tipos é a transição conformacional de uma proteína precursora solúvel para um estado propenso à agregação em folha beta-pregueada. As fibrilhas resultantes acumulam-se no interstício, distorcem a arquitetura tecidular, comprometem a microvasculatura e exercem toxicidade direta sobre as células adjacentes (particularmente relevante no miocárdio, onde os oligómeros pré-fibrilhares são cardiotóxicos).
Os mecanismos diferem consoante o tipo:
- AL: um clone de plasmócitos produz uma cadeia leve monoclonal (mais frequentemente lambda) com propriedades intrínsecas de instabilidade. A carga tumoral pode ser pequena, mas a cadeia é amiloidogénica, pelo que a gravidade depende da natureza da proteína e não apenas do volume do clone. Isto explica a discrepância entre uma medula com plasmocitose modesta e um atingimento cardíaco ou renal grave.
- AA: a inflamação crónica sustenta níveis elevados de proteína sérica amiloide A (produzida no fígado sob estímulo de IL-1, IL-6 e TNF). O excesso mantido de precursor favorece o depósito, tipicamente renal. O controlo da doença inflamatória subjacente reduz a produção de precursor.
- ATTR: a transtirretina é um tetrâmero que transporta tiroxina e retinol. Mutações desestabilizam o tetrâmero, favorecendo a sua dissociação em monómeros que se enovelam mal e se depositam (forma hereditária). Na forma wild-type, o envelhecimento por si só permite a deposição progressiva da proteína não mutada, sobretudo no coração.
A distribuição do órgão-alvo depende do tropismo tecidular de cada precursor: a AL tende a atingir rim e coração; a AA privilegia o rim; a ATTR hereditária manifesta-se por neuropatia periférica e autonómica e/ou miocardiopatia, enquanto a ATTR wild-type é predominantemente cardíaca.
Um ponto fisiopatológico com implicação terapêutica: como o depósito depende de um precursor circulante, reduzir a produção desse precursor (suprimir o clone na AL, silenciar o gene TTR ou estabilizar o tetrâmero na ATTR, controlar a inflamação na AA) trava a progressão. As fibrilhas já depositadas são removidas lentamente, pelo que o benefício clínico surge sobretudo por interrupção de novos depósitos.
O diagnóstico exige suspeita clínica perante padrões sugestivos de doença multiorgânica infiltrativa e assenta em três passos: demonstrar amiloide, tipar a proteína e estadiar o atingimento de órgão.
Quando suspeitar (achados-chave):
- Rim: síndrome nefrótico (proteinúria nefrótica, hipoalbuminemia, edema), frequentemente a apresentação da AL e da AA.
- Coração: miocardiopatia restritiva com insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada, espessamento parietal na ecocardiografia e, de forma muito sugestiva, baixa voltagem no ECG apesar do aumento da massa (dissociação entre a parede espessa e a voltagem reduzida). Biomarcadores (NT-proBNP e troponinas) elevados de forma desproporcionada.
- Nervo: polineuropatia sensitivo-motora e disautonomia (hipotensão ortostática, disfunção gastrointestinal, disfunção eréctil); síndrome do túnel do carpo bilateral, muitas vezes anos antes de outras manifestações.
- Outros: macroglossia e equimoses periorbitárias (relativamente específicas da AL), hepatomegalia.
Confirmação histológica: a prova definitiva é a biópsia com coloração pelo vermelho-Congo demonstrando birrefringência verde-maçã. A aspiração de gordura abdominal subcutânea é o método menos invasivo e de primeira linha; em alternativa ou complemento, biópsia do órgão atingido (renal, cardíaca, do nervo sural).
Tipagem da proteína (passo indispensável): identificar o tipo é obrigatório porque dita o tratamento. Os métodos de referência são a espetrometria de massa sobre o depósito e a imunohistoquímica. Não basta confirmar amiloide: um doente pode ter gamopatia monoclonal incidental e amiloide ATTR, pelo que assumir AL sem tipagem é um erro.
Avaliação da AL: pesquisa de componente monoclonal por eletroforese com imunofixação sérica e urinária e cadeias leves livres séricas (rácio kappa/lambda), com biópsia/aspirado de medula óssea. O estadiamento prognóstico usa biomarcadores cardíacos (NT-proBNP e troponina), base do sistema de estadiamento da Clínica Mayo.
Avaliação da ATTR: a cintigrafia óssea com traçadores marcados com tecnécio (por exemplo, DPD/PYP) capta no miocárdio na ATTR cardíaca e permite, na ausência de gamopatia monoclonal, o diagnóstico não invasivo. O estudo genético do gene TTR distingue formas hereditárias de wild-type, com implicação para aconselhamento familiar, particularmente relevante em Portugal.
Referências
- Wechalekar AD, Gillmore JD, Hawkins PN. Systemic amyloidosis. Lancet. 2016;387(10038):2641-2654.
- Gertz MA. Immunoglobulin light chain amyloidosis: 2024 update on diagnosis, prognosis, and treatment. Am J Hematol. 2024.
- Kastritis E, Palladini G, Minnema MC, et al. Daratumumab-based treatment for immunoglobulin light-chain amyloidosis (ANDROMEDA). N Engl J Med. 2021;385:46-58.
- Maurer MS, Schwartz JH, Gundapaneni B, et al. Tafamidis treatment for patients with transthyretin amyloid cardiomyopathy (ATTR-ACT). N Engl J Med. 2018;379:1007-1016.
- Adams D, Gonzalez-Duarte A, O'Riordan WD, et al. Patisiran, an RNAi therapeutic, for hereditary transthyretin amyloidosis (APOLLO). N Engl J Med. 2018;379:11-21.
- Benson MD, Waddington-Cruz M, Berk JL, et al. Inotersen treatment for patients with hereditary transthyretin amyloidosis (NEURO-TTR). N Engl J Med. 2018;379:22-31.
- Gillmore JD, Maurer MS, Falk RH, et al. Nonbiopsy diagnosis of cardiac transthyretin amyloidosis. Circulation. 2016;133(24):2404-2412.
7 perguntas sobre Amiloidose
Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.
Criar conta e treinar