HematológicaAbordagem ao doente com alterações hematológicasPublicado (Premium)

Abordagem ao doente com alterações hematológicas

Matriz PNA:MD · MecanismosD · DiagnósticoGD · Gestão

Atualizado em 17 de julho de 2026 · 13 perguntas neste tema

Fazer perguntas deste tema
Em resumo

O hemograma é um dos exames mais pedidos na prática clínica e a sua leitura estruturada permite distinguir achados benignos de doença hematológica grave. Este capítulo organiza a abordagem ao hemograma alterado, das citopenias às citoses, através do raciocínio por mecanismo (produção reduzida, destruição/consumo periférico ou sequestro), com destaque para o papel central do esfregaço de sangue periférico e dos índices eritrocitários. Ao longo do texto sinalizam-se as bandeiras vermelhas que obrigam a mielograma/biópsia óssea e a referenciação urgente.

O raciocínio hematológico organiza-se por mecanismo, aplicável a qualquer linhagem. Uma citopenia resulta de: produção medular reduzida, destruição ou consumo periférico aumentado, ou sequestro esplénico.

Produção reduzida (defeito central): aplasia/hipoplasia medular (anemia aplásica, fármacos, radiação), infiltração/substituição da medula (leucemias, linfomas, metástases, mielofibrose), hematopoiese ineficaz (síndromes mielodisplásicos) e défices de substrato (ferro, vitamina B12, folato, eritropoietina na doença renal). Caracteriza-se, na anemia, por reticulócitos baixos, porque a medula não repõe. A infiltração medular produz tipicamente um quadro leucoeritroblástico (eritroblastos e granulócitos imaturos em circulação) com dacriócitos.

Destruição/consumo periférico: na anemia corresponde à hemólise (imune, microangiopática, membranopatias, hemoglobinopatias), com reticulocitose compensadora, LDH e bilirrubina indireta elevadas e haptoglobina consumida. Nas plaquetas, o consumo imune (púrpura trombocitopénica imune) ou por microangiopatia/coagulação intravascular disseminada; nos neutrófilos, a destruição imune ou o consumo em sépsis.

Sequestro: o hiperesplenismo (hipertensão portal, esplenomegalia de qualquer causa) retém células no baço, causando citopenias habitualmente moderadas e multilinhagem, com medula normal ou hiperplásica.

As citoses seguem lógica análoga: primárias/clonais (neoplasias mieloproliferativas) versus secundárias/reativas. A eritrocitose reativa surge por hipóxia ou excesso de eritropoietina (doença pulmonar, apneia do sono, tumores secretores); a primária é a policitemia vera (mutação JAK2). A leucocitose reativa acompanha infeção, inflamação, corticoterapia ou stress, com desvio à esquerda; blastos ou basofilia sugerem causa clonal. A trombocitose é reativa na maioria dos casos (ferropenia, inflamação, hemorragia, pós-esplenectomia) e clonal na trombocitemia essencial.

A avaliação começa pela história (fármacos, tóxicos, infeções, hemorragia, sintomas B, antecedentes) e pelo exame objetivo dirigido: adenopatias, esplenomegalia/hepatomegalia, sinais hemorrágicos (petéquias, equimoses, hemartrose), palidez e sinais de doença sistémica.

O passo seguinte é integrar os índices e o esfregaço de sangue periférico, o instrumento mais custo-eficaz da hematologia. Na anemia, o VGM classifica em microcítica (ferropenia, talassemia, doença crónica), normocítica (hemólise, hemorragia aguda, doença crónica, insuficiência renal) e macrocítica (défice de B12/folato, mielodisplasia, alcoolismo, hipotiroidismo). O RDW elevado favorece ferropenia ou carência sobre talassemia; a contagem de reticulócitos separa produção deficiente de perda/destruição periférica.

O esfregaço fornece pistas quase específicas:

  • Esquizócitos (esquizócitos/fragmentos): anemia hemolítica microangiopática (PTT, SHU, CID, HELLP).
  • Esferócitos: esferocitose hereditária ou anemia hemolítica autoimune.
  • Corpos de Howell-Jolly: hipoesplenismo/asplenia.
  • Rouleaux: paraproteinemia (mieloma), estados inflamatórios.
  • Granulação tóxica e desvio à esquerda: infeção/sépsis.
  • Blastos: leucemia aguda até prova em contrário.

O estudo laboratorial complementa-se conforme a hipótese: painel de hemólise (LDH, bilirrubina, haptoglobina, teste de antiglobulina direta), cinética do ferro, B12/folato, função renal/hepática e tiroideia, eletroforese de proteínas na suspeita de mieloma, e citometria de fluxo quando se suspeita de clonalidade.

O mielograma com biópsia óssea está indicado perante pancitopenia não explicada, blastos ou células imaturas em circulação, suspeita de infiltração/mielodisplasia, quadro leucoeritroblástico, ou citopenia isolada persistente sem causa periférica identificada.

Abordagem ao hemograma alterado Citopenias vs citoses, raciocínio por mecanismo, esfregaço e quando pedir mielograma CITOPENIAS (valores baixos) Anemia: Hb <13 (H) / <12 (M) g/dL Neutropenia: <1,5 ×10⁹/L (grave <0,5) Trombocitopenia: plaquetas <150 ×10⁹/L Pancitopenia: 3 linhagens ↓ — alarme CITOSES (valores altos) Eritrocitose: Hb/hematócrito elevados Leucocitose: leucócitos >11 ×10⁹/L Trombocitose: plaquetas >450 ×10⁹/L Distinguir: reativa vs clonal (NMP) Raciocínio por mecanismo (aplica-se a qualquer linhagem) PRODUÇÃO REDUZIDA (medula) • Aplasia / infiltração medular • Mielodisplasia (ineficaz) • Défice: ferro, B12, folato, EPO • Anemia: reticulócitos baixos DESTRUIÇÃO / CONSUMO • Hemólise (imune, microang.) • Reticulocitose, LDH e bili ↑ • Haptoglobina consumida • PTI, CID, consumo em sépsis SEQUESTRO (baço) • Baço retém células • Citopenias moderadas, multi • Medula normal/hiperplásica • Hipertensão portal, baço ↑ Achados-chave do esfregaço de sangue periférico Achado Significado / associação Esquizócitos Microangiopatia: PTT, SHU, CID, HELLP Blastos Leucemia aguda até prova em contrário Esferócitos Esferocitose hereditária ou AHAI (Coombs) Corpos de Howell-Jolly Hipoesplenismo / asplenia Rouleaux Paraproteína / mieloma Dacriócitos Mielofibrose (infiltração medular) Granulação tóxica Infeção / sépsis ! Quando pedir mielograma / biópsia óssea • Pancitopenia não explicada • Blastos / células imaturas em circulação • Infiltração / mielodisplasia suspeita • Citopenia isolada persistente sem causa Confirmar a alteração (afastar pseudotrombocitopenia por EDTA) antes de investigar.

A abordagem terapêutica é sempre dirigida à causa, mas há prioridades transversais e emergências que não podem esperar pelo diagnóstico definitivo.

Neutropenia febril é uma emergência médica: num doente com neutrófilos ≤0,5 ×10⁹/L (ou ≤1,0 com queda prevista) e temperatura isolada ≥38,3 °C ou ≥38,0 °C mantida uma hora, colhem-se hemoculturas e inicia-se antibioterapia empírica de largo espetro (habitualmente betalactâmico antipseudomonas) idealmente na primeira hora, sem aguardar resultados. A estratificação de risco orienta terapêutica oral/ambulatória versus internamento. Este tópico é aprofundado no capítulo de patologia neoplásica.

Anemia: a transfusão de concentrado eritrocitário guia-se por estratégia restritiva na maioria dos doentes estáveis, reservando-a para anemia sintomática ou grave; corrige-se em paralelo o défice subjacente (ferro, B12, folato, eritropoietina na doença renal). A ferropenia trata-se com ferro (oral ou endovenoso) e investigação da fonte de perda.

Trombocitopenia: transfusão de plaquetas na hemorragia ativa significativa ou profilaticamente em trombocitopenia grave; na púrpura trombocitopénica imune, corticoterapia. Atenção: na PTT as plaquetas estão em regra contraindicadas e o tratamento é a plasmaférese urgente.

Citoses: as reativas resolvem-se tratando a causa e não exigem citorredução. Na policitemia vera faz-se flebotomia com alvo de hematócrito abaixo de 45% e antiagregação com aspirina em baixa dose. Leucocitose extrema com blastos e sintomas de leucostase (dispneia, alterações neurológicas) é emergência que obriga a referenciação imediata.

Critérios de referenciação urgente a Hematologia: blastos no esfregaço, pancitopenia, suspeita de leucemia aguda, hiperleucocitose sintomática ou microangiopatia.

Referências

  1. Khoury JD, Solary E, Abla O, et al. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Myeloid and Histiocytic/Dendritic Neoplasms. Leukemia. 2022;36(7):1703-1719.
  2. Alaggio R, Amador C, Anagnostopoulos I, et al. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Lymphoid Neoplasms. Leukemia. 2022;36(7):1720-1748.
  3. Rajkumar SV, Dimopoulos MA, Palumbo A, et al. International Myeloma Working Group updated criteria for the diagnosis of multiple myeloma. Lancet Oncol. 2014;15(12):e538-e548.
  4. Freifeld AG, Bow EJ, Sepkowitz KA, et al. Clinical practice guideline for the use of antimicrobial agents in neutropenic patients with cancer: 2010 update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2011;52(4):e56-e93.
  5. Greenberg PL, Tuechler H, Schanz J, et al. Revised International Prognostic Scoring System for Myelodysplastic Syndromes. Blood. 2012;120(12):2454-2465.
  6. Killick SB, Bown N, Cavenagh J, et al. Guidelines for the diagnosis and management of adult aplastic anaemia. Br J Haematol. 2016;172(2):187-207.

13 perguntas sobre Abordagem ao doente com alterações hematológicas

Ler consolida, treinar é o que fixa. Cada pergunta tem justificação alínea a alínea, no formato da Prova Nacional de Acesso.

Criar conta e treinar