Lesão vascular do rim
Atualizado em 18 de julho de 2026 · 6 perguntas neste tema
O rim é um órgão de alto débito e circulação terminal, o que o torna particularmente vulnerável a doença dos seus vasos, das grandes artérias aos capilares glomerulares. Sob a designação de lesão vascular do rim agrupa-se um conjunto heterogéneo de entidades (estenose da artéria renal, nefrosclerose hipertensiva, microangiopatias trombóticas, trombose da veia renal, doença ateroembólica e enfarte renal) que partilham a via final comum de isquemia e perda de função. Para o PNA, o rendimento está em reconhecer o perfil clínico típico de cada uma e escolher o exame diagnóstico e a terapêutica inicial adequados.
Estenose da artéria renal. Uma estenose hemodinamicamente significativa (habitualmente >70% do lúmen, ou 50-69% com gradiente transestenótico relevante) reduz a pressão de perfusão pós-estenótica e ativa o aparelho justaglomerular, com libertação de renina e formação de angiotensina II e aldosterona. O comportamento difere conforme a anatomia:
- Na estenose unilateral com rim contralateral normal (modelo de dois rins, um clipe) a hipertensão é dependente da renina; o rim contralateral, exposto a pressão elevada, faz natriurese pressórica, pelo que o volume extracelular se mantém relativamente normal.
- Na estenose bilateral ou em rim único funcionante (um rim, um clipe) predomina a retenção de sódio e água, a renina normaliza e a hipertensão torna-se volume-dependente. É este cenário que explica o edema pulmonar súbito ("flash") de Pickering e a descida acentuada da taxa de filtração glomerular após IECA ou ARA, porque a filtração depende criticamente da vasoconstrição eferente mediada pela angiotensina II.
A isquemia crónica gera stresse oxidativo, infiltrado inflamatório e fibrose tubulointersticial, o que explica por que a revascularização tardia nem sempre recupera função.
Nefrosclerose hipertensiva. A pressão elevada sustentada provoca hialinose arteriolar e espessamento fibrointimal das artérias interlobulares, com isquemia glomerular, glomerulosclerose global e atrofia tubular. A arteriolosclerose hiperplásica em "casca de cebola", com proliferação concêntrica de músculo liso e necrose fibrinoide, não pertence a esta forma crónica: é a marca da hipertensão maligna/acelerada e está tipicamente ausente na arterionefrosclerose benigna. O resultado é perda progressiva de massa renal com rins pequenos e proteinúria discreta.
Microangiopatias trombóticas. A lesão inicial é endotelial, com formação de trombos ricos em plaquetas na microcirculação e fragmentação mecânica dos eritrócitos (esquizócitos). Os mecanismos diferem: no SHU típico a toxina Shiga de E. coli O157:H7 lesa o endotélio; no SHU atípico existe desregulação da via alterna do complemento; na PTT há défice grave de ADAMTS13 com multímeros ultragrandes de von Willebrand; na hipertensão maligna a lesão é sobretudo mecânica, com necrose fibrinoide arteriolar; na esclerose sistémica há proliferação intimal com redução do lúmen e ativação do eixo renina-angiotensina.
Trombose da veia renal. No síndrome nefrótico há perda urinária de antitrombina III e aumento da síntese hepática de fibrinogénio e fatores procoagulantes, criando um estado de hipercoagulabilidade, particularmente marcado quando a albumina sérica é muito baixa.
Doença ateroembólica. A manipulação endovascular desloca cristais de colesterol de placas da aorta, que ocluem arteríolas e desencadeiam uma reação inflamatória de corpo estranho, com eosinofilia, eosinofilúria e consumo de complemento.
Quando suspeitar de EAR. As pistas clínicas mais valorizadas são: hipertensão resistente (não controlada com três fármacos, incluindo um diurético); hipertensão de início precoce (<30 anos, sugerindo DFM) ou de início tardio e abrupto (>55 anos, sugerindo aterosclerose); sopro abdominal sistodiastólico; subida da creatinina superior a cerca de 30% após introdução de IECA ou ARA; assimetria do tamanho renal (diferença superior a 1,5 cm); episódios de edema pulmonar súbito; e hipocaliemia com alcalose por hiperaldosteronismo secundário.
Exames de imagem. O eco-Doppler renal é o rastreio inicial, não invasivo e sem contraste, mas muito dependente do operador e do biótipo; velocidades sistólicas máximas elevadas e padrão tardus-parvus distal apoiam o diagnóstico. A angio-TC e a angio-RM têm elevada acuidade; a angio-TC exige contraste iodado e a angio-RM com gadolínio deve ser ponderada com prudência na doença renal avançada. A arteriografia renal mantém-se o exame de referência e permite tratamento no mesmo tempo; é o exame que demonstra o padrão em "colar de contas" da DFM. O renograma com captopril caiu em desuso pela baixa sensibilidade na doença bilateral e na insuficiência renal.
Microangiopatia trombótica. Perante lesão renal aguda com hipertensão grave, procurar anemia hemolítica microangiopática: esquizócitos no esfregaço, LDH elevada, haptoglobina baixa, bilirrubina indireta elevada, teste de Coombs negativo e trombocitopenia. A coagulação está tipicamente normal, o que ajuda a distinguir de coagulação intravascular disseminada. Doseamento de ADAMTS13 (atividade <10% confirma PTT, no contexto clínico adequado; valores de 10-20% obrigam a procurar diagnósticos alternativos), pesquisa de toxina Shiga nas fezes e estudo do complemento orientam a etiologia. O fundo ocular com hemorragias, exsudados e edema da papila sustenta hipertensão maligna.
Outras entidades. Na trombose da veia renal, a apresentação vai da forma silenciosa à dor no flanco com hematúria e agravamento da proteinúria; confirma-se por angio-TC ou angio-RM em fase venosa. No enfarte renal, a dor súbita no flanco com náuseas e LDH desproporcionadamente elevada deve motivar angio-TC, que mostra defeito de perfusão em cunha; investigar fonte embólica com eletrocardiograma e ecocardiograma. Na doença ateroembólica, o diagnóstico é sobretudo clínico: livedo reticular, dedos azuis com pulsos periféricos mantidos, eosinofilia e deterioração renal subaguda após procedimento vascular; a biópsia (cutânea ou renal) mostra fendas biconvexas nas arteríolas.
Referências
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6 perguntas sobre Lesão vascular do rim
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