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Doenças tubulointersticiais do rim

Matriz PNA:MD · MecanismosD · Diagnóstico

Atualizado em 18 de julho de 2026 · 7 perguntas neste tema

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Em resumo

As doenças tubulointersticiais agrupam entidades que lesam primariamente os túbulos e o interstício renal, poupando de forma relativa os glomérulos e os vasos. Traduzem-se por defeitos funcionais tubulares (perda da capacidade de concentração, acidose tubular, perdas urinárias de sódio e de potássio) e por proteinúria de baixo grau, de padrão tubular. Distinguem-se uma forma aguda, sobretudo iatrogénica e imunoalérgica, e uma forma crónica, tipicamente tóxica, obstrutiva ou infeciosa, com rins pequenos e de contorno irregular.

Nefrite intersticial aguda. O mecanismo dominante é uma reação de hipersensibilidade mediada por células T, não dependente da dose e independente do efeito farmacológico do agente. O fármaco ou um seu metabolito comporta-se como hapteno, ligando-se a proteínas tubulares ou da membrana basal tubular, ou mimetiza um antigénio renal endógeno. Segue-se apresentação antigénica, expansão de linfócitos T CD4+ e CD8+ e formação de um infiltrado inflamatório intersticial rico em linfócitos, monócitos, plasmócitos e, com frequência variável, eosinófilos. Podem observar-se granulomas não caseificados. A tubulite (invasão do epitélio tubular pelo infiltrado) é o achado histológico caracteristicamente associado. O edema intersticial aumenta a pressão no interstício, comprime os túbulos e os capilares peritubulares e reduz a taxa de filtração glomerular, o que explica a lesão renal aguda apesar de os glomérulos estarem morfologicamente normais.

Principais grupos implicados:

  • Antibióticos: beta-lactâmicos (a meticilina foi o protótipo histórico), quinolonas, sulfonamidas, rifampicina e vancomicina.
  • Anti-inflamatórios não esteroides, com um padrão mais insidioso, latência mais longa, escassa expressão alérgica sistémica e possível associação a lesão glomerular de alterações mínimas com proteinúria nefrótica.
  • Inibidores da bomba de protões, causa frequente e subdiagnosticada, muitas vezes com apresentação larvada e latência de semanas a meses.
  • Inibidores de checkpoint imunitário (anti-PD-1, anti-PD-L1, anti-CTLA-4), em que a perda de tolerância periférica pode desencadear nefrite intersticial, por vezes com latência de meses e potenciada pela coexposição a inibidores da bomba de protões.
  • Outros: diuréticos, alopurinol, mesalazina, antiepiléticos, antivíricos.

Existem ainda formas infeciosas (pielonefrite aguda bacteriana, leptospirose, hantavírus, tuberculose, infeção por vírus BK no transplantado) e imunomediadas (síndrome de Sjögren, sarcoidose, doença relacionada com IgG4, lúpus, e a síndrome TINU, que associa nefrite tubulointersticial a uveíte, sobretudo em adolescentes do sexo feminino).

Formas crónicas. A lesão sustentada do epitélio tubular ativa vias profibróticas, com transição para fibrose intersticial e atrofia tubular, perda de capilares peritubulares e hipóxia crónica. Mecanismos relevantes: nefropatia dos analgésicos, com isquemia da medula e necrose papilar; lítio, com lesão do túbulo coletor, resistência à vasopressina e microquistos; chumbo, com nefropatia crónica e hiperuricémia; obstrução crónica e refluxo vesicoureteral, com nefropatia de refluxo e cicatrizes corticais; mieloma múltiplo, com precipitação de cadeias leves e formação de cilindros obstrutivos (rim do mieloma); nefropatia por ácido aristolóquico, fibrosante e com risco acrescido de carcinoma urotelial.

Suspeita clínica. Perante lesão renal aguda sem causa pré-renal, obstrutiva ou isquémica evidente, com sedimento urinário sem cilindros hemáticos nem eritrócitos dismórficos (isto é, sem padrão nefrítico) e exposição recente a fármacos, a NIA deve entrar no diagnóstico diferencial. A latência típica é de dias a semanas (mais curta na reexposição, mais longa com AINE e inibidores da bomba de protões). A tríade clássica de febre, exantema e eosinofilia surge numa minoria dos doentes, pelo que a sua ausência não exclui o diagnóstico. Podem coexistir artralgias e lombalgia surda por distensão da cápsula.

Urina.

  • Proteinúria tubular de baixo grau; a dissociação entre relação proteína/creatinina elevada e albuminúria comparativamente baixa favorece origem tubular.
  • Sedimento com leucocitúria estéril, cilindros leucocitários e hematúria microscópica; a hematúria macroscópica é pouco frequente.
  • Eosinofilúria (coloração de Hansel ou de Wright): sugestiva mas com sensibilidade e especificidade baixas, pelo que não deve ser usada isoladamente para confirmar nem para excluir.
  • Na doença crónica: densidade urinária baixa e fixa, glicosúria com glicémia normal, aminoacidúria, fosfatúria e hipouricémia por perda tubular proximal (síndrome de Fanconi).

Sangue. Elevação da creatinina segundo os critérios KDIGO de lesão renal aguda; hiato aniónico normal na acidose tubular; hipocaliémia ou hipercaliémia consoante o segmento afetado; eosinofilia inconstante. Na suspeita de causa sistémica, pedir cálcio, enzima conversora da angiotensina, anticorpos anti-SSA/SSB, IgG4 e eletroforese com imunofixação sérica e urinária mais cadeias leves livres.

Imagem. Ecografia com rins de dimensões normais ou aumentadas e hiperecogénicos na forma aguda; rins pequenos, assimétricos e de contorno irregular na forma crónica, com cicatrizes corticais no refluxo, calcificações papilares na nefropatia dos analgésicos e microquistos no lítio. A cintigrafia com gálio-67 pode mostrar captação renal difusa, mas é pouco específica e de uso restrito.

Biopsia renal. É o exame de confirmação e deve ser ponderada quando o diagnóstico é incerto, a função não recupera após suspensão do fármaco suspeito, se pondera corticoterapia ou se suspeita de doença sistémica subjacente. Mostra infiltrado inflamatório intersticial com edema e tubulite na forma aguda, e fibrose intersticial com atrofia tubular na forma crónica, esta última com menor probabilidade de resposta ao tratamento.

Doenças tubulointersticiais do rim Lesão de túbulos e interstício, com glomérulos e vasos relativamente poupados ASSINATURA TUBULOINTERSTICIAL (defeitos tubulares) Perda da capacidade de concentração: poliúria, noctúria, osmolalidade urinária baixa Acidose tubular renal (proximal tipo 2 ou distal tipo 1): hiato aniónico normal Perdas de sódio e de potássio: depleção de volume e hipocaliémia (tipo 4 → hipercaliémia) Proteinúria de BAIXO grau (<1 a 2 g/24 h), tubular: beta-2-microglobulina Ao contrário da glomerular: tira-teste pouco sensível; hematúria macroscópica e HTA precoce atípicas NEFRITE INTERSTICIAL AGUDA Dias a semanas · hipersensibilidade por células T Fármacos (causa dominante) beta-lactâmicos, quinolonas, sulfonamidas AINE (latência longa, poucos sinais alérgicos) inibidores da bomba de protões inibidores de checkpoint imunitário Clínica e exames tríade febre + exantema + eosinofilia: pouco frequente (minoria dos doentes) eosinofilúria sugestiva, pouco sensível leucocitúria estéril e cilindros leucocitários biopsia: tubulite e infiltrado intersticial TRATAMENTO: suspender o fármaco Corticoide se não houver recuperação ou se a biopsia mostrar pouca fibrose NEFRITE TUBULOINTERSTICIAL CRÓNICA Meses a anos · fibrose e atrofia tubular Causas típicas analgésicos → necrose papilar lítio → diabetes insípida e microquistos obstrução crónica e refluxo vesicoureteral mieloma: cilindros de cadeias leves ácido aristolóquico → carcinoma urotelial chumbo (nefropatia crónica, hiperuricémia) Imagem rins pequenos e de contorno irregular cicatrizes corticais na nefropatia de refluxo ABORDAGEM: tratamento etiológico Retirar o tóxico, desobstruir, tratar o refluxo e o mieloma; DRC (KDIGO 2024) ! A ausência da tríade febre + exantema + eosinofilia não exclui nefrite intersticial aguda. A eosinofilúria é pouco sensível e pouco específica: não confirma nem exclui o diagnóstico.

Referências

  1. Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) CKD Work Group. KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney Int. 2024;105(4S):S117-S314.
  2. Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Acute Kidney Injury Work Group. KDIGO Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury. Kidney Int Suppl. 2012;2(1):1-138. [A KDIGO 2026 AKI/AKD Guideline esteve em revisão pública até 11 de maio de 2026; a versão final ainda não estava publicada à data de redação, pelo que o documento de 2012 se mantém a referência vigente.]
  3. Praga M, González E. Acute interstitial nephritis. Kidney Int. 2010;77(11):956-961.
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  11. Loscalzo J, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Longo DL, Jameson JL, editores. Harrison's Principles of Internal Medicine. 22.ª ed. New York: McGraw Hill; 2025. Capítulo sobre doenças tubulointersticiais do rim.

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