Doença renal poliquística
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 13 perguntas neste tema
A doença renal poliquística autossómica dominante é a doença renal monogénica mais frequente e responde por cerca de 5% dos doentes em diálise ou com transplante renal na Europa. É uma ciliopatia: variantes em PKD1 ou, menos vezes, em PKD2 alteram as policistinas do cílio primário do epitélio tubular, o AMP cíclico sobe e uma pequena fração dos túbulos transforma-se em quistos que crescem durante décadas, comprimem o parênquima e o substituem por fibrose.
Durante muitos anos a taxa de filtração glomerular mantém-se normal, e o que aparece primeiro é a hipertensão arterial, em média no início dos 30 anos, com dor lombar, hematúria macroscópica, litíase ou infeção de quisto. Fora do rim, a maioria dos adultos tem quistos hepáticos, e os aneurismas intracranianos são a complicação extrarrenal mais temida.
Com história familiar, o diagnóstico faz-se por ecografia, com um número mínimo de quistos que sobe com a idade; a ressonância mede o volume renal ajustado à altura, que prevê a progressão melhor do que a creatinina, e a genética fica para os casos duvidosos, os dadores aparentados e as formas atípicas. O tratamento assenta no controlo apertado da pressão arterial com um inibidor do sistema renina-angiotensina, na água abundante e na restrição de sal, e no tolvaptan para quem progride depressa.
O que não se pode falhar: uma cefaleia súbita e explosiva num doente com rins poliquísticos é hemorragia subaracnoideia até prova em contrário; a infeção de quisto trata-se com antibiótico lipossolúvel durante semanas, mesmo com urocultura negativa; o tolvaptan obriga a vigiar as transaminases. A forma autossómica recessiva é outra doença, de outro gene, que se apresenta no feto e no recém-nascido.
Genética
| gene | proteína | famílias | curso renal |
|---|---|---|---|
| PKD1 (cromossoma 16) | policistina-1 | cerca de dois terços (48% truncante, 19% não truncante) | rins grandes cedo; com variante truncante, doença renal crónica G3 pelos 40 anos e falência renal pelos 50 |
| PKD2 (cromossoma 4) | policistina-2 | cerca de 15% | mais tardio e mais ligeiro; G3 pelos 55 anos e falência renal pelos 70 |
| IFT140 | proteína ciliar | 1 a 2% | poucos quistos grandes, rins aumentados, função preservada até tarde |
| GANAB, DNAJB11, ALG5, ALG9 | proteínas do retículo endoplasmático | menos de 0,5% cada | poucos quistos; GANAB com doença hepática predominante; DNAJB11 com rins pequenos e fibrose |
- Uma parte dos doentes com fenótipo típico fica sem causa genética identificada nos testes clínicos.
- Dentro do PKD1, as variantes truncantes dão doença mais grave do que as não truncantes, mas há sobreposição.
- A forma do gene conta para o tratamento: a classificação de Mayo e o tolvaptan só estão validados para PKD1 e PKD2.
Cílio primário e AMP cíclico
- A policistina-1 funciona como recetor e a policistina-2 como canal de cálcio da família TRP. Juntas formam um complexo no cílio primário do epitélio tubular, que funciona como sensor mecânico e químico e regula a sinalização do cálcio.
- A perda de função baixa o cálcio intracelular, o que aumenta a atividade da adenilciclase e reduz a da fosfodiesterase: o AMP cíclico sobe.
- O AMP cíclico, pela proteína cinase A, faz crescer o quisto por duas vias: proliferação do epitélio e secreção de líquido para o lúmen, por canais de cloro (o CFTR) e de água.
- O segmento dilatado destaca-se do túbulo e passa a cavidade fechada, que cresce por secreção e não por filtração. É por isso que a urocultura pode ser negativa na infeção de um quisto.
- A vasopressina, pelo recetor V2 do tubo coletor, é o principal estímulo da produção de AMP cíclico renal, e está elevada nestes doentes. Suprimi-la com água e bloquear o recetor V2 com tolvaptan atua sobre o mecanismo da doença.
Porque só alguns túbulos
- Todas as células têm a variante germinativa, mas só cerca de 5% dos túbulos formam quistos.
- Explica-o um segundo evento somático no alelo normal, ou a descida da policistina abaixo de um limiar crítico; uma agressão adicional, como a lesão renal, acelera a formação de quistos.
- A função perde-se pelo efeito de massa, pela compressão vascular e pela fibrose intersticial à volta dos quistos.
Hipertensão
- A expansão quística comprime a microcirculação, causa isquemia focal e ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona intrarrenal; contribuem a atividade simpática aumentada e a disfunção endotelial.
- A hipertensão, por sua vez, acelera o crescimento dos rins e a perda de função: é o fundamento de bloquear o sistema renina-angiotensina em primeira linha.
Com história familiar: ecografia
A ecografia é o primeiro exame em quem tem um familiar afetado. Os critérios de Pei, unificados para o gene desconhecido, contam os quistos por idade, porque os quistos simples aumentam com a idade:
| idade | diagnóstico | exclusão |
|---|---|---|
| 15 a 29 anos | 3 ou mais quistos, uni ou bilaterais | nenhum quisto torna a doença improvável, mas não a exclui (valor preditivo negativo de cerca de 90%, 84% na forma PKD2) |
| 30 a 39 anos | 3 ou mais quistos, uni ou bilaterais | nenhum quisto (valor preditivo negativo de cerca de 98%) |
| 40 a 59 anos | 2 ou mais quistos em cada rim | menos de 2 quistos no total exclui (valor preditivo negativo de 100%) |
| 60 anos ou mais | 4 ou mais quistos em cada rim | sem critério definido |
- A sensibilidade é mais baixa na forma PKD2, de início mais tardio: é nas famílias PKD2 que uma ecografia normal num jovem mais engana.
- Os critérios valem para PKD1 e PKD2; não servem para excluir os genes menores.
Ressonância magnética
- Deteta quistos de 2 a 3 mm e é mais sensível do que a ecografia. Faz-se sem gadolínio, com sequências ponderadas em T2.
- Entre os 16 e os 40 anos, com história familiar: mais de 10 quistos no total confirma, menos de 5 exclui.
- Quantifica o volume renal total ajustado à altura, o melhor marcador de prognóstico nas fases iniciais, quando a filtração ainda é normal.
Sem história familiar
- Quistos múltiplos e bilaterais com rins aumentados, sem sinais de outra doença quística, permitem em regra o diagnóstico.
- Ajuda estudar os pais e outros familiares por ecografia, e a genética dos pais pode provar uma mutação de novo.
- Com poucos quistos, rins de tamanho normal ou achados atípicos, completa-se com ressonância e genética; poucos quistos com função normal tornam a doença incerta abaixo dos 40 anos e improvável acima.
Testes genéticos
- Não são precisos num doente com apresentação típica e história familiar.
- Têm lugar na imagem duvidosa, na ausência de história familiar, na doença muito precoce ou muito grave, na variabilidade marcada dentro da família, no dador vivo aparentado e no aconselhamento reprodutivo.
- Fazem-se por painel de sequenciação de nova geração; um resultado negativo ou incerto não exclui a doença.
Estratificação do risco de progressão
Classificação de Mayo: coloca o volume renal total ajustado à altura, medido por ressonância ou TC, numa curva por idade, e divide a forma típica em cinco classes pela taxa de crescimento anual presumida.
| classe | crescimento anual do volume | idade mediana de falência renal |
|---|---|---|
| 1A | menos de 1,5% | menos de 20% chegam à falência renal |
| 1B | 1,5 a 3% | cerca de 71 anos |
| 1C | 3 a 4,5% | cerca de 63 anos |
| 1D | 4,5 a 6% | cerca de 56 anos |
| 1E | mais de 6% | cerca de 45 anos |
- Aplica-se dos 15 aos 80 anos. A classe 2 (doença unilateral, segmentar, assimétrica ou com rins atróficos) fica fora da previsão.
- As classes 1C a 1E definem progressão rápida.
- Sem ressonância nem TC, o comprimento médio dos rins por ecografia acima de 16,5 cm prevê as classes 1C a 1E até aos 45 anos.
- Queda da taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) ao longo do tempo: uma perda de 3 mL/min/1,73 m² ou mais por ano, sem outra causa, também define progressão rápida.
- Com genética disponível, o score PROPKD soma pontos: sexo masculino 1; hipertensão antes dos 35 anos 2; primeiro evento urológico (hematúria, hemorragia ou infeção de quisto, dor no flanco) antes dos 35 anos 2; PKD2 0, PKD1 não truncante 2, PKD1 truncante 4. Mais de 6 pontos prevê falência renal antes dos 60 anos; 3 ou menos torna-a improvável.
Diagnóstico diferencial
| entidade | o que a distingue |
|---|---|
| Quistos simples | poucos, rins de tamanho normal, frequentes a partir dos 40 anos |
| Doença quística adquirida | 3 ou mais quistos por rim num doente com doença renal crónica avançada ou em diálise, rins pequenos, sem manifestações extrarrenais |
| Esclerose tuberosa | angiomiolipomas, lesões cutâneas e neurológicas; deleção contígua PKD1 e TSC2 dá doença quística muito precoce |
| Von Hippel-Lindau | quistos e carcinoma de células renais, hemangioblastomas, feocromocitoma |
| Doença tubulointersticial autossómica dominante | rins pequenos e fibrosos, poucos quistos medulares, gota precoce |
| Nefronoftise | recessiva, rins pequenos, urina pouco concentrada, falência renal na infância ou adolescência |
| Doença quística por HNF1B | quistos com malformações renais e das vias urinárias, e diabetes |
| Forma autossómica recessiva | feto ou recém-nascido com rins grandes e hiperecogénicos, fibrose hepática congénita, pais sem quistos |
| Doença hepática poliquística autossómica dominante (PRKCSH, SEC63) | muitos quistos hepáticos, poucos ou nenhuns renais, sem falência renal |
Referências
- Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) ADPKD Work Group. KDIGO 2025 clinical practice guideline for the evaluation, management, and treatment of autosomal dominant polycystic kidney disease (ADPKD). Kidney Int. 2025;107(2S):S1-S239.
- Zhou J, Pollak MR. Polycystic kidney disease and other inherited disorders of tubule growth and development. In: Loscalzo J, Fauci A, Kasper D, Hauser S, Longo D, Jameson JL, editors. Harrison's principles of internal medicine. 21st ed. New York: McGraw Hill; 2022. cap. 315.
- Major nonglomerular disorders of the kidney. In: Wing EJ, Schiffman FJ, editors. Cecil essentials of medicine. 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. cap. 27.
- Pei Y, Obaji J, Dupuis A, Paterson AD, Magistroni R, Dicks E, et al. Unified criteria for ultrasonographic diagnosis of ADPKD. J Am Soc Nephrol. 2009;20(1):205-12.
- Irazabal MV, Rangel LJ, Bergstralh EJ, Osborn SL, Harmon AJ, Sundsbak JL, et al. Imaging classification of autosomal dominant polycystic kidney disease: a simple model for selecting patients for clinical trials. J Am Soc Nephrol. 2015;26(1):160-72.
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