Doença renal poliquística
Atualizado em 18 de julho de 2026 · 9 perguntas neste tema
A doença renal poliquística autossómica dominante (DRPAD) é a doença renal hereditária mais frequente e uma causa relevante de doença renal crónica terminal no adulto. Caracteriza-se pela formação progressiva de quistos em ambos os rins, com destruição do parênquima, e por manifestações extrarrenais que condicionam morbilidade própria, sobretudo quistos hepáticos e aneurismas intracranianos. Este capítulo cobre a fisiopatologia, os critérios ecográficos de diagnóstico ajustados à idade, o diagnóstico diferencial com a forma autossómica recessiva e a orientação terapêutica atual.
Cílio primário e policistinas. A policistina-1 (recetor transmembranar de grande dimensão) e a policistina-2 (canal catiónico da família TRP, TRPP2) formam um complexo localizado no cílio primário das células epiteliais tubulares. Este complexo funciona como mecanossensor do fluxo tubular e regula a entrada de cálcio para o citosol. A perda de função das policistinas traduz-se em redução do cálcio intracelular, o que desinibe as adenilciclases inibidas por cálcio (AC5/AC6) e, em paralelo, reduz a atividade da fosfodiesterase 1, dependente de cálcio-calmodulina, diminuindo a degradação do AMPc; o resultado somado é aumento do AMPc intracelular.
O AMPc elevado tem dois efeitos convergentes e centrais:
- Proliferação do epitélio tubular, por ativação anómala da via B-Raf/MEK/ERK (numa célula normal, o AMPc seria antiproliferativo).
- Secreção transepitelial de cloro e água para o lúmen do quisto, mediada pelo canal CFTR apical, com expansão progressiva da cavidade.
Acresce a desdiferenciação e perda de polaridade celular, com relocalização de transportadores, alterações da matriz extracelular e da membrana basal, que permitem que o segmento tubular dilatado se destaque do néfron e passe a funcionar como cavidade fechada e autónoma. Menos de 5% dos nefrónios originam quistos, mas o efeito de massa, a compressão vascular e tubular e a fibrose intersticial com infiltrado inflamatório crónico destroem progressivamente o parênquima adjacente. É esta fibrose, mais do que o quisto em si, que determina a perda funcional.
Modelo de dois eventos e dosagem génica. A distribuição focal dos quistos, num contexto de mutação germinativa presente em todas as células, é habitualmente explicada por um segundo evento somático no alelo normal (hipótese do second hit), a que se soma um modelo de dosagem génica: abaixo de um limiar crítico de policistina funcional inicia-se a quistogénese. Variantes truncantes de PKD1 deixam menos proteína funcional e associam-se ao fenótipo mais grave; variantes não truncantes (hipomórficas) e as de PKD2 associam-se a doença mais ligeira, o que sustenta a correlação genótipo-fenótipo usada em prognóstico.
Hipertensão arterial. A expansão quística comprime a microvasculatura, gera isquemia focal e ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona intrarrenal, com hipertensão dependente de angiotensina II. Somam-se disfunção endotelial e ativação simpática. Esta é a base fisiopatológica para preferir IECA ou ARA como primeira linha anti-hipertensora. A hipertensão, por sua vez, acelera o crescimento quístico e a fibrose, fechando um ciclo de progressão.
Alvo terapêutico. A vasopressina, através do recetor V2 do tubo coletor, é o principal estímulo fisiológico para a produção de AMPc renal. Daí que a supressão da vasopressina (hidratação abundante, redução do sal e da proteína) e o antagonismo V2 pelo tolvaptan tenham racional direto sobre o mecanismo da doença.
Suspeita clínica. Considerar DRPAD perante história familiar positiva, hipertensão arterial de início jovem, dor lombar ou no flanco, hematúria macroscópica recorrente, litíase de repetição, infeções urinárias altas atípicas ou rins palpáveis. A dor pode ser aguda (hemorragia intraquística, cálculo, infeção) ou crónica e surda (efeito de massa, tração capsular). A hemorragia intraquística é causa clássica de dor no flanco com hematúria macroscópica autolimitada. A capacidade de concentração urinária perde-se precocemente, com nictúria e poliúria ligeira antes de qualquer alteração da creatinina.
Ecografia renal: exame de primeira linha. Aplicam-se os critérios unificados de Pei (2009), evolução dos critérios de Ravine, ajustados à idade em indivíduos com história familiar e genótipo desconhecido:
- 15 a 39 anos: ≥3 quistos, uni ou bilaterais.
- 40 a 59 anos: ≥2 quistos em cada rim.
- ≥60 anos: ≥4 quistos em cada rim.
Critérios de exclusão em indivíduos em risco: menos de 2 quistos entre os 40 e os 59 anos exclui a doença com elevada fiabilidade (valor preditivo negativo próximo de 100%); a ausência de quistos entre os 30 e os 39 anos torna o diagnóstico pouco provável, mas não o exclui em absoluto, sobretudo em famílias com PKD2. Abaixo dos 30 anos a ecografia tem baixo valor preditivo negativo.
Na ausência de história familiar, a presença de ≥10 quistos por rim com rins bilateralmente aumentados, sobretudo se houver quistos hepáticos associados, é considerada suficiente para o diagnóstico.
RM e TC. Mais sensíveis para quistos pequenos. A RM sem contraste permite quantificar o volume renal total ajustado à altura (htTKV) e aplicar a classificação imagiológica de Mayo, que estratifica o risco de progressão por classe (1A a 1E) em função do htTKV para a idade, e é o instrumento prático para identificar doença de progressão rápida. Está validada em doença típica com variantes PKD1/PKD2.
Testes genéticos. Não são necessários na maioria dos casos. Reservam-se para: ecografia inconclusiva em indivíduo jovem, sobretudo na avaliação de dador vivo aparentado; apresentação atípica (quistos assimétricos, rins pequenos, suspeita de outra ciliopatia); doença muito precoce ou muito grave; aconselhamento genético e diagnóstico pré-implantação.
Diagnóstico diferencial. Quistos simples relacionados com a idade (poucos, sem história familiar, rins de dimensão normal); doença quística adquirida da diálise; esclerose tuberosa (deleção contígua TSC2/PKD1, angiomiolipomas, estigmas cutâneos); doença de von Hippel-Lindau (quistos e carcinoma de células renais, hemangioblastomas); nefronoftise e doença renal tubulointersticial autossómica dominante (rins pequenos, quistos cortico-medulares, sem hipertensão precoce); rim medular esponjoso; e a forma autossómica recessiva.
Referências
- Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) ADPKD Work Group. KDIGO 2025 Clinical Practice Guideline for the Evaluation, Management, and Treatment of Autosomal Dominant Polycystic Kidney Disease (ADPKD). Kidney Int. 2025;107(2S):S1-S239.
- Pei Y, Obaji J, Dupuis A, et al. Unified criteria for ultrasonographic diagnosis of ADPKD. J Am Soc Nephrol. 2009;20(1):205-12.
- Bergmann C, Guay-Woodford LM, Harris PC, Horie S, Peters DJM, Torres VE. Polycystic kidney disease. Nat Rev Dis Primers. 2018;4(1):50.
- Torres VE, Chapman AB, Devuyst O, et al.; TEMPO 3:4 Trial Investigators. Tolvaptan in patients with autosomal dominant polycystic kidney disease. N Engl J Med. 2012;367(25):2407-18.
- Torres VE, Chapman AB, Devuyst O, et al.; REPRISE Trial Investigators. Tolvaptan in later-stage autosomal dominant polycystic kidney disease. N Engl J Med. 2017;377(20):1930-42.
- Schrier RW, Abebe KZ, Perrone RD, et al.; HALT-PKD Trial Investigators. Blood pressure in early autosomal dominant polycystic kidney disease. N Engl J Med. 2014;371(24):2255-66.
- Irazabal MV, Rangel LJ, Bergstralh EJ, et al. Imaging classification of autosomal dominant polycystic kidney disease: a simple model for selecting patients for clinical trials. J Am Soc Nephrol. 2015;26(1):160-72.
- Cornec-Le Gall E, Alam A, Perrone RD. Autosomal dominant polycystic kidney disease. Lancet. 2019;393(10174):919-35.
9 perguntas sobre Doença renal poliquística
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