Doença renal crónica
Atualizado em 28 de setembro de 2026 · 19 perguntas neste tema
A doença renal crónica é qualquer anomalia da estrutura ou da função renal que dure mais de 3 meses e tenha implicações para a saúde: uma taxa de filtração glomerular (TFG) abaixo de 60 mL/min/1,73 m², ou um marcador de lesão, dos quais o mais importante é a albuminúria. Atinge perto de um em cada dez adultos, sobretudo por diabetes e hipertensão, e é silenciosa até fases avançadas; por isso procura-se nos grupos de risco, com a creatinina sérica e a razão albumina/creatinina na urina.
Classifica-se pela causa, pela categoria de TFG (G1 a G5) e pela categoria de albuminúria (A1 a A3), e os dois eixos acrescentam risco de forma independente. Qualquer que seja a agressão inicial, os nefrónios que restam hiperfiltram, e a hipertensão intraglomerular que daí resulta esclerosa mais glomérulos: é este ciclo que o tratamento interrompe.
O tratamento que trava a progressão assenta no bloqueio do sistema renina-angiotensina quando há albuminúria e no inibidor do SGLT2, a que se juntam, na diabetes tipo 2, a finerenona e o agonista do recetor GLP-1; somam-se a estatina, o controlo da pressão arterial, a restrição de sódio e a revisão constante dos fármacos.
À medida que a filtração desce aparecem a anemia, a doença mineral e óssea, a acidose metabólica e a hipercaliemia, e na categoria G5 a síndrome urémica. A diálise inicia-se pela clínica, muitas vezes com TFG entre 5 e 10, e o transplante é o tratamento de eleição; o tratamento conservador sem diálise é uma opção legítima para quem o escolhe.
O que não se pode falhar: a maioria destes doentes morre de causa cardiovascular antes de precisar de diálise; uma subida da creatinina até 30% depois de iniciar o bloqueio não obriga a suspendê-lo; e o agente estimulador da eritropoiese não se usa para manter a hemoglobina acima de 11,5 g/dL.
Definição
Anomalia da estrutura ou da função renal presente há mais de 3 meses, com implicações para a saúde. Basta um dos critérios:
- TFG abaixo de 60 mL/min/1,73 m² (categorias G3a a G5).
- Marcador de lesão renal: albuminúria com razão albumina/creatinina de 30 mg/g (3 mg/mmol) ou mais; alterações do sedimento urinário; hematúria persistente; alterações eletrolíticas de causa tubular; alterações histológicas; anomalias estruturais na imagem; história de transplante renal.
A duração é o que a separa da lesão renal aguda: um valor isolado de TFG ou de albuminúria não chega para o diagnóstico.
Classificação
A classificação junta a causa, a categoria de TFG e a categoria de albuminúria.
| categoria de TFG | mL/min/1,73 m² | termo |
|---|---|---|
| G1 | 90 ou mais | normal ou elevada |
| G2 | 60 a 89 | ligeiramente diminuída |
| G3a | 45 a 59 | ligeira a moderadamente diminuída |
| G3b | 30 a 44 | moderada a gravemente diminuída |
| G4 | 15 a 29 | gravemente diminuída |
| G5 | abaixo de 15 | falência renal |
| categoria de albuminúria | razão albumina/creatinina | termo |
|---|---|---|
| A1 | abaixo de 30 mg/g (abaixo de 3 mg/mmol) | normal a ligeiramente aumentada |
| A2 | 30 a 300 mg/g (3 a 30 mg/mmol) | moderadamente aumentada |
| A3 | acima de 300 mg/g (acima de 30 mg/mmol) | gravemente aumentada |
- Em G1 e G2 só há doença renal crónica se houver um marcador de lesão. Uma TFG de 75 sem albuminúria nem outra anomalia não é doença renal crónica.
- O risco de progressão, de eventos cardiovasculares e de morte sobe de forma independente com a descida da TFG e com a subida da albuminúria: um doente G2A3 pode ter mais risco do que um G3aA1.
Epidemiologia
- Prevalência mundial estimada em cerca de 9% de todas as idades, e a doença é largamente desconhecida por quem a tem.
- Na Europa e na América do Norte a causa mais frequente é a nefropatia diabética, sobretudo da diabetes tipo 2; seguem-se a doença renal associada à hipertensão, as glomerulonefrites, a doença renal poliquística autossómica dominante e as nefropatias tubulointersticiais e quísticas.
- A TFG desce com a idade, cerca de 1 mL/min/1,73 m² por ano a partir do pico da terceira década; a descida do idoso é perda real de função, com as mesmas consequências para as complicações e para a dose dos fármacos.
- A causa genética explica 15 a 40% da doença renal crónica do adulto.
Fatores de risco
| domínio | exemplos |
|---|---|
| Frequentes | hipertensão, diabetes, doença cardiovascular (incluindo insuficiência cardíaca), lesão renal aguda prévia |
| Urológicos | doença estrutural do aparelho urinário, litíase recorrente |
| Sistémicos e inflamatórios | lúpus eritematoso sistémico, vasculites, infeção pelo VIH, hepatites B e C |
| Iatrogénicos | nefrotoxicidade de fármacos (anti-inflamatórios, lítio, muitos antineoplásicos), nefrite rádica |
| Nascimento e infância | prematuridade, baixo peso para a idade gestacional, doença renal na infância, mesmo resolvida |
| Outros | pré-eclâmpsia, nefrectomia ou doação de rim, tabagismo, história familiar |
Hiperfiltração: a via final comum
- A lesão inicial é específica (imunocomplexos, hiperglicemia, isquemia, tóxicos); o que se segue é comum a todas as causas.
- Os nefrónios que restam hiperfiltram e hipertrofiam. A angiotensina II contrai sobretudo a arteríola eferente e sobe a pressão intraglomerular.
- A adaptação mantém a TFG a curto prazo, mas a pressão e o fluxo aumentados distorcem a arquitetura glomerular, lesam os podócitos e rompem a barreira de filtração: esclerose e perda de mais nefrónios.
- É por isso que uma perda isolada de massa renal pode progredir durante anos, e é também por isso que os fármacos que baixam a pressão intraglomerular protegem o rim.
Como atuam os fármacos que travam a progressão
| fármaco | mecanismo |
|---|---|
| IECA ou ARA | dilatam a arteríola eferente e baixam a pressão intraglomerular e a proteinúria |
| Inibidor do SGLT2 | mais sódio a chegar à mácula densa reativa o feedback tubuloglomerular, que contrai a aferente e corrige a hiperfiltração |
| Finerenona | bloqueia o recetor mineralocorticoide, porque o bloqueio renina-angiotensina não suprime totalmente a aldosterona, que contribui para a albuminúria residual e a fibrose |
- A descida inicial e estável da TFG com IECA, ARA ou inibidor do SGLT2 é o sinal hemodinâmico de que a pressão intraglomerular baixou, e não lesão.
- Quanto mais um tratamento reduz a proteinúria, maior a proteção contra a perda de TFG.
A síndrome urémica
- A ureia e a creatinina são marcadores medíveis, mas não explicam os sintomas: acumulam-se muitas outras toxinas, hidrossolúveis e ligadas a proteínas.
- Juntam-se a perda das funções endócrinas (eritropoietina, calcitriol) e homeostáticas (sódio, água, potássio, ácido-base) e uma inflamação sistémica que acelera a doença vascular e a desnutrição.
- G1 e G2: habitualmente assintomáticas; a doença descobre-se em análises pedidas por outro motivo.
- G3 e G4: começam as complicações laboratoriais e clínicas, sobretudo anemia com fadiga, perda de apetite, alterações do cálcio, do fósforo e da paratormona, e do sódio, do potássio e do equilíbrio ácido-base.
- G5: acumulam-se as toxinas e surge a síndrome urémica, que afeta quase todos os órgãos.
Síndrome urémica, por aparelho
| aparelho | manifestações |
|---|---|
| Geral e digestivo | anorexia, náuseas, vómitos, perda de peso, hálito urémico, disgeusia, gastrite e hemorragia digestiva |
| Neurológico | défice de memória e de concentração, perturbação do sono, soluços, cãibras, fasciculações; tardiamente asterixis, mioclonias, convulsões e coma |
| Nervo periférico | polineuropatia sensitiva, distal e dos membros inferiores, clinicamente evidente a partir de G4; pernas inquietas |
| Cardiovascular | hipertensão, sobrecarga de volume, insuficiência cardíaca, pericardite urémica |
| Pele | prurido, hiperpigmentação |
| Hemostase | tempo de hemorragia prolongado, equimoses, hemorragias |
| Endócrino | hipogonadismo, alterações menstruais e infertilidade, menor degradação da insulina |
- A sobrecarga de volume com hipertensão é frequente e responde à restrição de sódio e aos diuréticos de ansa.
- Pode surgir edema pulmonar de baixa pressão, com imagem em asa de borboleta, mesmo sem sobrecarga, que responde à diálise.
Exame físico
- Pressão arterial e lesão de órgão-alvo: fundoscopia (retinopatia diabética ou hipertensiva) e auscultação cardíaca.
- Edema e polineuropatia sensitiva.
- Asterixis e atrito pericárdico sem outra causa indicam síndrome urémica.
Os dois exames
Todo o doente em risco faz TFG estimada e razão albumina/creatinina na urina. Um resultado alterado encontrado por acaso repete-se para confirmar, e a cronicidade exige mais de 3 meses.
Estimar a TFG
- Usa-se uma equação e não a creatinina sozinha; a equação recomendada é a CKD-EPI (colaboração de epidemiologia da doença renal crónica) de 2021, que não usa a raça.
- As equações só valem em estado estacionário, com a creatinina estável ao longo de dias; não servem na lesão renal aguda.
- Quando a TFG pela creatinina é pouco fiável e o valor muda decisões (diagnóstico, estadiamento, dose de fármacos), usa-se a equação que junta creatinina e cistatina C.
- A creatinina engana quando a massa muscular é anormal (caquexia, amputação, lesão medular, culturistas), nas dietas pobres ou ricas em proteína e com fármacos que diminuem a secreção tubular de creatinina (trimetoprim).
- Na desnutrição, na cirrose, na insuficiência cardíaca e no cancro todas as estimativas perdem exatidão, e para decidir mede-se a TFG com um marcador exógeno.
Medir a albuminúria
- Razão albumina/creatinina em urina da primeira micção da manhã, jato médio. A tira-teste positiva confirma-se por quantificação.
- Uma razão de 30 mg/g ou mais numa amostra ocasional confirma-se numa primeira urina da manhã.
- Sobem-na sem doença renal: hematúria, menstruação, exercício e infeção urinária. A razão é mais alta na mulher e em quem tem pouca massa muscular, porque excretam menos creatinina.
- A tira de albumina não vê as cadeias leves: proteinúria franca com albuminúria baixa faz pensar em mieloma.
Distinguir da lesão renal aguda
- O primeiro passo é saber se é doença nova e aguda, potencialmente reversível: procurar creatininas anteriores.
- A favor de cronicidade: valores antigos já alterados, rins pequenos bilateralmente, redução da espessura cortical, anemia e alterações do metabolismo mineral.
- Rins de tamanho normal ou aumentado não excluem cronicidade na nefropatia diabética, na amiloidose, na nefropatia do VIH e na doença poliquística.
- Uma assimetria de mais de 1 cm no comprimento sugere doença renovascular ou anomalia unilateral.
- Mesmo na doença crónica procura-se sempre um fator agudo sobreposto: depleção de volume, infeção urinária, obstrução, nefrotóxicos ou reativação da doença de base.
Procurar a causa
- História: hipertensão, diabetes, pré-eclâmpsia, fármacos (anti-inflamatórios, lítio, antineoplásicos, antirretrovirais, inibidores da bomba de protões, laxantes com fosfato), história familiar.
- Ecografia renal em todos: dois rins, tamanho, simetria, massas, obstrução, quistos.
- Sedimento urinário: eritrócitos dismórficos e cilindros eritrocitários apontam para doença glomerular.
- Eletroforese e imunofixação das proteínas séricas e urinárias e cadeias leves livres em todos os doentes com mais de 35 anos com doença renal crónica sem causa, sobretudo com anemia ou cálcio alto ou inapropriadamente normal.
- Com glomerulonefrite: autoanticorpos (lúpus, anticorpos anticitoplasma do neutrófilo, antimembrana basal glomerular, anticorpo anti-recetor da fosfolipase A2) e serologias das hepatites B e C e do VIH.
- Biópsia renal quando o resultado muda o tratamento. Não se faz com rins pequenos e cicatriciais: é mais arriscada e já não mostra a causa. Outras contraindicações: hipertensão não controlada, infeção urinária ativa, diátese hemorrágica e obesidade grave.
- Estudo genético no adulto jovem com doença renal crónica sem causa.
Seguimento e progressão
- TFG e albuminúria pelo menos uma vez por ano, e mais vezes no doente de maior risco.
- Uma variação da TFG de mais de 20% entre duas análises excede a variabilidade esperada e merece avaliação; depois de iniciar fármacos hemodinamicamente ativos o limiar é mais de 30%.
- A duplicação da razão albumina/creatinina excede a variabilidade laboratorial.
- Uma aceleração da perda de TFG obriga a procurar causas reversíveis antes de a atribuir à doença de base.
Prognóstico individual
- Em G3 a G5 estima-se o risco absoluto de falência renal com uma equação validada, como a equação de risco de falência renal, que usa idade, sexo, TFG e razão albumina/creatinina.
- Não está validada em G1 e G2.
Quem procurar
Procura-se a doença em quem tem risco, com TFG e razão albumina/creatinina; não se rastreia a população inteira.
- Prioridade: hipertensão, diabetes e doença cardiovascular, incluindo insuficiência cardíaca.
- Diabetes: anualmente; na tipo 2 desde o diagnóstico, na tipo 1 a partir dos 5 anos de evolução.
- Lesão renal aguda prévia, sobretudo repetida.
- Litíase recorrente, doença estrutural urológica, lúpus, vasculites, VIH, nefrotóxicos, história familiar de doença renal.
- Nos adultos com fatores de risco, sem diabetes, a avaliação faz-se pelo menos de 2 em 2 anos.
O que muda a história natural
| medida | alvo |
|---|---|
| Sódio | menos de 2 g por dia (menos de 5 g de sal) |
| Proteína, em G3 a G5 | 0,8 g/kg por dia; evitar mais de 1,3 g/kg no doente em risco de progressão |
| Atividade física | moderada, pelo menos 150 minutos por semana, ou o que a tolerância permitir |
| Tabaco | cessação |
| Peso | perder peso na obesidade |
| Dieta | mais alimentos vegetais do que animais, menos ultraprocessados |
- Não se restringem proteínas na criança, pelo atraso de crescimento, nem no doente metabolicamente instável; no idoso frágil ou sarcopénico o alvo proteico e calórico pode ser mais alto.
- Não se restringem por rotina a fruta e os legumes nas fases iniciais: a dieta rica em potássio natural parece proteger.
- Na diabetes, hemoglobina glicada individualizada entre menos de 6,5% e menos de 8,0%.
Proteger o rim no dia a dia
- Evitar anti-inflamatórios não esteroides e rever a medicação em cada consulta e em cada transição de cuidados.
- Regras dos dias de doença: com vómitos, diarreia ou febre com desidratação, suspender temporariamente IECA, ARA, diuréticos, metformina, sulfonilureias, anti-inflamatórios e inibidores do SGLT2, com instruções claras para os retomar.
- Antes de cirurgia eletiva, ponderar suspender metformina, IECA, ARA e inibidores do SGLT2 nas 48 a 72 horas anteriores, e retomá-los depois.
- Contraste iodado endovenoso em G3a a G5 segundo os protocolos de radiologia: evitar a hipovolemia e minimizar a dose.
- Gadolínio em G4 e G5 só se for necessário, preferindo os agentes de menor risco, pela fibrose sistémica nefrogénica.
O tratamento tem três objetivos: travar a progressão, reduzir o risco cardiovascular e tratar as complicações. Na maioria dos doentes o esqueleto é o mesmo: estilo de vida, bloqueio do sistema renina-angiotensina, inibidor do SGLT2 e estatina, com finerenona e agonista GLP-1 a acrescentar na diabetes tipo 2.
Os fármacos que travam a progressão
| fármaco | indicação |
|---|---|
| IECA ou ARA | albuminúria A3 sem diabetes (recomendado); albuminúria A2 sem diabetes (sugerido); albuminúria A2 ou A3 com diabetes (recomendado); em G1 a G4 |
| Inibidor do SGLT2 | diabetes tipo 2 com TFG de 20 ou mais; sem diabetes, TFG de 20 ou mais com razão albumina/creatinina de 200 mg/g ou mais, ou insuficiência cardíaca; sugerido também com TFG de 20 a 45 e albuminúria menor |
| Finerenona | diabetes tipo 2 com TFG acima de 25, potássio normal e albuminúria acima de 30 mg/g apesar da dose máxima tolerada de IECA ou ARA |
| Agonista do recetor GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon 1) de ação longa | diabetes tipo 2 que não atinge o alvo glicémico com metformina e inibidor do SGLT2, ou que não os pode usar |
IECA e ARA
- Na dose máxima aprovada que o doente tolere: foi com essas doses que se demonstrou o benefício.
- Pressão arterial, creatinina e potássio 2 a 4 semanas depois de iniciar ou de aumentar a dose.
- Continuar salvo subida da creatinina de mais de 30% nas 4 semanas seguintes. Uma subida progressiva faz pensar em doença renovascular.
- Continuar também com TFG abaixo de 30. Reduzir ou suspender só com hipotensão sintomática, hipercaliemia não controlada apesar do tratamento, ou para aliviar sintomas urémicos em G5.
- A hipercaliemia trata-se primeiro com medidas que baixam o potássio, e não com a redução do bloqueio.
- Nunca associar IECA, ARA e inibidor direto da renina: mais lesão renal aguda e hipercaliemia, sem benefício.
- Na albuminúria A1 usam-se se houver outra indicação, como hipertensão ou insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida.
Inibidores do SGLT2
- A queda inicial e reversível da TFG não é motivo para suspender, nem obriga a vigiar mais vezes.
- Depois de iniciado, mantém-se mesmo que a TFG desça abaixo de 20, até à diálise ou ao transplante, se for tolerado.
- Suspende-se temporariamente no jejum prolongado, na cirurgia e na doença aguda grave, pelo risco de cetose.
Finerenona e agonista GLP-1
- Finerenona: inicia-se com potássio de 4,8 mmol/L ou menos, 10 mg por dia com TFG de 25 a 59 e 20 mg com TFG de 60 ou mais; potássio ao fim de 1 mês e depois de 4 em 4 meses; suspende-se com potássio acima de 5,5 e retoma-se abaixo de 5,0.
- Pode juntar-se ao IECA ou ARA e ao inibidor do SGLT2.
- Os antagonistas esteroides (espironolactona, eplerenona) ficam para a insuficiência cardíaca, o hiperaldosteronismo e a hipertensão resistente, com mais hipercaliemia.
- Na diabetes tipo 2 com doença renal crónica, a semaglutida semanal reduziu em 24% um composto de falência renal, perda de 50% ou mais da TFG e morte de causa renal ou cardiovascular. Escolhem-se agonistas com benefício cardiovascular demonstrado.
Pressão arterial
- Alvo de pressão sistólica abaixo de 120 mmHg quando tolerado, medida de forma estandardizada no consultório (KDIGO, iniciativa internacional de guidelines de nefrologia, 2021).
- Alvo menos intensivo na fragilidade, no risco de quedas, na esperança de vida curta e na hipotensão postural.
- Com albuminúria, a primeira linha é o IECA ou o ARA; sem ela, também um antagonista do cálcio di-hidropiridínico ou um diurético.
- As tiazidas perdem eficácia em G3 a G5, e os diuréticos de ansa passam a ser os de escolha, muitas vezes em doses mais altas.
Risco cardiovascular
| situação | estatina |
|---|---|
| 50 anos ou mais, TFG abaixo de 60, sem diálise nem transplante | estatina ou estatina com ezetimiba (recomendado) |
| 50 anos ou mais, TFG de 60 ou mais | estatina (recomendado) |
| 18 a 49 anos, sem diálise nem transplante | estatina se doença coronária, diabetes, AVC isquémico prévio ou risco coronário a 10 anos acima de 10% (sugerido) |
| Em diálise | não se inicia; mantém-se se já a tomava ao iniciar a diálise |
| Transplantado renal | estatina (sugerido) |
- Escolhe-se o regime que mais baixa o colesterol das lipoproteínas de baixa densidade (LDL); o inibidor da PCSK9 (pró-proteína convertase subtilisina/kexina tipo 9) considera-se quando há indicação.
- A guideline europeia de 2026 da ESC (sociedade europeia de cardiologia), com a associação renal europeia, põe a terapêutica com estatina entre os tratamentos a iniciar cedo na doença renal crónica, ao lado do bloqueio renina-angiotensina e do inibidor do SGLT2.
- Ácido acetilsalicílico em dose baixa em prevenção secundária, na doença cardiovascular isquémica estabelecida.
- Na doença coronária estável, a terapêutica médica intensiva é alternativa aceitável à estratégia invasiva inicial.
- Fibrilhação auricular: anticoagulantes orais diretos (DOAC) de preferência aos antagonistas da vitamina K em G1 a G4, com ajuste de dose à função renal e cautela em G4 e G5.
Outros
- Gota: alopurinol ou febuxostate de preferência aos uricosúricos; na crise, colquicina em dose baixa ou corticoide em vez de anti-inflamatórios. A hiperuricemia assintomática não se trata para atrasar a progressão.
- Metformina: dose plena com TFG de 60 ou mais; de 45 a 59 mantém-se, ponderando reduzir; de 30 a 44 metade da dose; abaixo de 30 suspende-se.
- A insulina é menos degradada pelo rim, e as necessidades baixam à medida que a TFG desce.
Ajuste de fármacos
- A dose de carga não muda; a de manutenção dos fármacos de eliminação renal ajusta-se à TFG.
- Na maioria das situações serve a TFG estimada pela creatinina; nos fármacos de margem estreita usa-se a equação com cistatina C ou a TFG medida.
- A evitar: anti-inflamatórios, petidina, metformina abaixo de 30, laxantes com fosfato; ajustar muitos antibióticos, anti-hipertensores, antiarrítmicos e os anticoagulantes orais diretos.
Referenciar à nefrologia
- TFG abaixo de 30.
- Risco de falência renal a 5 anos de 3 a 5% ou mais pela equação de risco.
- Queda sustentada da TFG de mais de 20%, ou de mais de 30% depois de iniciar fármacos hemodinâmicos.
- Albuminúria de 300 mg/g ou mais com hematúria, razão albumina/creatinina consistentemente acima de 700 mg/g, ou duplicação da albuminúria já significativa.
- Cilindros eritrocitários, ou mais de 20 eritrócitos por campo de grande ampliação, persistentes e sem explicação.
- Hipertensão refratária a 4 ou mais fármacos; alterações persistentes do potássio; acidose, anemia, doença óssea ou desnutrição.
- Causa incerta, doença renal hereditária, litíase recorrente extensa.
- Risco de falência a 2 anos acima de 10%: cuidados multidisciplinares.
O risco cardiovascular domina
- A doença cardiovascular é a principal causa de morbilidade e de morte em todas as categorias; a maioria dos doentes morre de causa cardiovascular antes de chegar a G5.
- Somam-se os fatores clássicos (hipertensão, diabetes, dislipidemia, sobrecarga de volume) e os próprios da doença renal (anemia, hiperfosfatemia, hiperparatiroidismo, FGF23 elevado, inflamação, apneia do sono).
- A hipertensão e a hipertrofia ventricular esquerda são as complicações mais frequentes.
- Em diálise, grande parte das mortes cardiovasculares é por insuficiência cardíaca e morte súbita, e não por enfarte.
- Em diálise, a pressão arterial, o colesterol e o peso baixos associam-se a pior prognóstico, porque marcam desnutrição e inflamação; isto não justifica deixar de os tratar nas fases iniciais.
Pericardite urémica
- Dor torácica pleurítica com atrito; hoje vê-se sobretudo no doente em diálise insuficiente.
- É indicação absoluta de iniciar ou intensificar a diálise, sem heparina, pelo risco de hemopericárdio.
Outras
- Desnutrição proteico-energética, agravada pela acidose e pela inflamação.
- Tendência hemorrágica e, na síndrome nefrótica, tendência trombótica.
- Infeções, pela imunodepressão urémica.
- Hipogonadismo, infertilidade e perda de gravidezes.
Prognóstico
- Define-se pela grelha de TFG e albuminúria e refina-se com a equação de risco de falência renal.
- Muitos idosos com TFG estável em G2 ou G3 sem proteinúria nunca progridem: seguem-se com análises periódicas e atenção aos nefrotóxicos, sem necessidade de nefrologia.
- Acelera a progressão: albuminúria elevada, hipertensão mal controlada, episódios de lesão renal aguda, nefrotóxicos e reativação da doença de base.
Idoso
- Numa mulher de 80 anos, uma creatinina dentro dos valores de referência pode corresponder a uma TFG abaixo de 50; mesmo uma subida ligeira da creatinina representa uma perda grande de TFG.
- Alvo tensional menos intensivo na fragilidade, nas quedas e na hipotensão postural; atenção à desprescrição e à dose dos fármacos.
- A decisão sobre diálise inclui o tratamento conservador, por decisão partilhada.
Mulher em idade fértil e gravidez
- IECA e ARA são teratogénicos: rever os fármacos antes da conceção e aconselhar contraceção enquanto os toma.
- Com TFG perto de 40 a gravidez tem taxa alta de aborto espontâneo e pode acelerar a doença; planeia-se com nefrologia e obstetrícia de risco.
Criança
- Não se restringem proteínas; a atividade física alvo é de 60 minutos por dia.
- A estatina não se inicia antes dos 18 anos.
- O crescimento insuficiente apesar de tratamento otimizado é indicação própria para iniciar terapêutica de substituição, e o transplante preemptivo é o tratamento de eleição.
Transplantado renal
- Continua a ter doença renal crónica e segue as mesmas regras de estatina, de pressão arterial e de ajuste de fármacos.
- A metformina mantém-se com TFG de 30 ou mais.
Anemia
- Normocítica e normocrómica; atinge mais de metade dos doentes em G4 e G5.
- Causa principal: défice relativo de eritropoietina e resistência medular a ela.
- Somam-se o défice de ferro (perdas, menor absorção e hepcidina alta, que bloqueia a absorção intestinal e a libertação do ferro armazenado), a inflamação, as perdas de sangue, o hiperparatiroidismo com fibrose medular e a menor sobrevida dos eritrócitos.
Doença mineral e óssea
- A TFG desce e o fósforo fica retido.
- O fósforo estimula o FGF23 (fator de crescimento fibroblástico 23) nos osteócitos e a paratormona.
- O FGF23 e o fósforo reduzem o calcitriol; menos calcitriol dá hipocalcemia e estimula diretamente o gene da paratormona.
- O resultado é o hiperparatiroidismo secundário, que começa a instalar-se com TFG abaixo de 60.
| lesão óssea | características |
|---|---|
| Osteíte fibrosa quística | alto turnover, paratormona alta; dor e fragilidade óssea, tumores castanhos |
| Doença óssea adinâmica | baixo turnover, paratormona baixa ou normal; excesso de cálcio ou de vitamina D, diabetes, idade; fraturas e calcificação vascular |
| Osteomalacia | menos calcitriol, osteoide por mineralizar |
- A hiperfosfatemia e a hipercalcemia associam-se a calcificação vascular e valvular e a mais mortalidade cardiovascular.
- Calcifilaxia: oclusão arteriolar com calcificação, quase só na doença renal avançada; a varfarina é fator de risco, porque inibe a proteína Gla da matriz, que impede a calcificação.
Acidose metabólica
- O rim ainda acidifica a urina mas produz menos amónio, e não excreta o ácido da dieta.
- O bicarbonato começa a descer quando a TFG cai abaixo de 60.
- Nas fases intermédias a acidose é hiperclorémica, de hiato aniónico normal; nas avançadas junta-se a retenção de aniões orgânicos e o hiato aniónico aumenta.
- É habitualmente ligeira, com pH raramente abaixo de 7,32. Associa-se a catabolismo proteico e perda muscular.
Hipercaliemia
- A excreção de potássio depende sobretudo da secreção distal mediada pela aldosterona e da excreção intestinal, que aumenta: por isso a caliemia mantém-se normal até fases avançadas.
- Precipitam-na a dieta, a hemólise, as transfusões, a acidose e sobretudo os fármacos.
- Aparece cedo, fora de proporção com a TFG, no hipoaldosteronismo hiporreninémico do diabético, na uropatia obstrutiva e na nefropatia da drepanocitose; costuma acompanhar-se de acidose hiperclorémica.
| fármacos que sobem o potássio | exemplos |
|---|---|
| Bloqueio renina-angiotensina-aldosterona | IECA, ARA, espironolactona, eplerenona, finerenona |
| Poupadores de potássio e semelhantes | amilorido, triamtereno, trimetoprim, pentamidina |
| Outros | betabloqueantes, anti-inflamatórios, ciclosporina, tacrolimus, heparina, digoxina |
Hemostase
- Tempo de hemorragia prolongado por disfunção plaquetária (agregação e adesão anómalas), com plaquetas em número normal.
- Na proteinúria nefrótica, pelo contrário, perdem-se anticoagulantes naturais e há tendência trombótica.
Anemia
- Definição da Organização Mundial da Saúde: hemoglobina abaixo de 13 g/dL no homem e 12 g/dL na mulher.
- Pesquisar pelo menos uma vez por ano em G3, duas vezes por ano em G4 e de 3 em 3 meses em G5 e em diálise.
- Estudo: hemograma, reticulócitos, ferritina e saturação da transferrina.
- Défice de ferro de causa incerta, sobretudo com ferritina abaixo de 45 ng/mL ou volume globular médio abaixo de 80 fL: procurar perdas digestivas, urinárias ou ginecológicas.
- Se não se explica: esfregaço, haptoglobina, desidrogenase láctica, proteína C reativa, vitamina B12, folatos, provas hepáticas, eletroforese com imunofixação, cadeias leves livres, tirotropina e paratormona.
- A anemia só se atribui à doença renal depois de excluídas as outras causas.
Doença mineral e óssea
- Cálcio, fósforo, paratormona e fosfatase alcalina a partir de G3a, com a frequência a depender das alterações e da velocidade de progressão.
- Decide-se pelas tendências dos três em conjunto, e não por um valor isolado.
- Paratormona ou fosfatase alcalina óssea muito altas ou muito baixas indicam o turnover ósseo; a biópsia óssea faz-se se o tipo de osteodistrofia mudar o tratamento.
- A calcificação vascular vê-se na radiografia lateral do abdómen, e a valvular no ecocardiograma; quem a tem é de risco cardiovascular máximo.
- Calcifilaxia: livedo reticular doloroso e nódulos subcutâneos que evoluem para necrose, nas pernas, coxas, abdómen e mamas.
Acidose metabólica
- Bicarbonato sérico nas análises de rotina.
- Uma acidose grave ou de hiato aniónico alto numa fase precoce não é da doença renal crónica: procurar outra causa.
Hipercaliemia
- Confirmar e excluir pseudo-hipercaliemia (hemólise, trombocitose, leucocitose); o potássio sérico é mais alto do que o plasmático.
- Rever fármacos, dieta, acidose, glicemia e obstipação antes de culpar a dieta.
- Eletrocardiograma sempre que o potássio está alto.
Anemia (KDIGO 2026)
Primeiro o ferro.
| situação | iniciar ferro se | via |
|---|---|---|
| Hemodiálise | ferritina de 500 ng/mL ou menos e saturação da transferrina de 30% ou menos | endovenosa |
| Sem diálise ou em diálise peritoneal | ferritina abaixo de 100 com saturação abaixo de 40%, ou ferritina de 100 a 300 com saturação abaixo de 25% | oral ou endovenosa; passar a endovenosa se o efeito for insuficiente em 1 a 3 meses |
- Em todos: suspender o ferro com ferritina acima de 700 ng/mL ou saturação de 40% ou mais, e durante uma infeção ativa.
- A carboximaltose férrica pode causar hipofosfatemia: vigiar o fósforo.
Depois o agente estimulador da eritropoiese, quando o ferro está reposto e não há outra causa corrigível.
- Início: hemoglobina de 9 a 10 g/dL em diálise; sem diálise, pelos sintomas, habitualmente entre 8,5 e 10 g/dL.
- Alvo: 11,5 g/dL ou menos, habitualmente entre 10 e 11,5. Alvos mais altos aumentam a hipertensão, e alvos de 13 ou mais aumentam o AVC e a perda do acesso vascular.
- Subida de mais de cerca de 1 g/dL em 2 semanas: reduzir a dose em 25 a 50%.
- Via subcutânea fora da hemodiálise.
- Ponderar suspender no AVC agudo e na trombose, e ponderar não usar no cancro ativo.
- Hiporresposta: défice de ferro, inflamação, diálise insuficiente, perdas ocultas, hiperparatiroidismo grave.
Inibidores da prolil-hidroxilase do fator induzido pela hipoxia (orais, como o roxadustate): alternativa quando o doente prefere a via oral, não tolera o agente estimulador ou este é impraticável. Não se usam com neoplasia ativa nem depois de evento cardiovascular ou trombótico recente, não se associam ao agente estimulador, e suspendem-se ao fim de 3 a 4 meses sem resposta.
Transfusão: evitar no candidato a transplante, pela aloimunização; reserva-se para a anemia grave ou refratária.
Doença mineral e óssea (KDIGO 2017)
- Baixar o fósforo em direção ao normal e evitar a hipercalcemia.
- Restringir o fósforo da dieta, atendendo à origem (animal, vegetal ou aditivos).
- Quelantes do fósforo às refeições; limitar os que têm cálcio (carbonato, acetato), pelo risco de sobrecarga de cálcio; sevelâmero e lantânio não têm cálcio. Evitar o alumínio a longo prazo.
- Sem diálise, não usar calcitriol nem análogos por rotina; reservá-los para G4 e G5 com hiperparatiroidismo grave e progressivo. Corrigir primeiro o fósforo, o cálcio e o défice de vitamina D.
- Em diálise: paratormona entre 2 e 9 vezes o limite superior; se for preciso baixá-la, calcimiméticos (cinacalcet, etelcalcetide), calcitriol ou análogos (paricalcitol), isolados ou associados.
- Paratiroidectomia no hiperparatiroidismo grave que não responde ao tratamento médico.
- Calcifilaxia: suspender a varfarina e escolher outra anticoagulação.
Acidose metabólica
- Considerar bicarbonato de sódio oral, com ou sem dieta rica em alimentos vegetais, para evitar a acidose com consequências clínicas, por exemplo bicarbonato sérico abaixo de 18 mmol/L no adulto (KDIGO 2024).
- A guideline deixou de graduar esta indicação: corrigir o bicarbonato para o normal não mostrou reduzir a falência renal. O Harrison sugere considerar o tratamento abaixo de 20 a 23 mmol/L.
- Não ultrapassar o limite superior do normal e vigiar a pressão arterial, o potássio e a volemia, pela carga de sódio.
Hipercaliemia crónica
- Corrigir o que se pode: acidose, obstipação, hiperglicemia, fármacos dispensáveis (anti-inflamatórios, poupadores de potássio, suplementos, substitutos do sal com potássio).
- Dieta: limitar os alimentos com potássio muito biodisponível, como os processados, em G3 a G5 com hipercaliemia; restringir fruta e legumes por rotina não é recomendado.
- Diuréticos de ansa, ou tiazida com TFG preservada, que aumentam a excreção urinária.
- Ligantes do potássio para manter o bloqueio renina-angiotensina e a finerenona:
| ligante | troca | a saber |
|---|---|---|
| Patirómero | cálcio | liga também magnésio: hipomagnesemia |
| Ciclossilicato de zircónio sódico | sódio e hidrogeniões | cerca de 400 mg de sódio por 5 g: atenção à carga de sódio |
| Poliestirenossulfonato de sódio ou de cálcio | sódio ou cálcio | pior tolerado |
- A hipercaliemia intratável é indicação para diálise.
Hemostase
- Hemorragia ou procedimento invasivo: desmopressina, crioprecipitado, estrogénios conjugados endovenosos, transfusão e correção da anemia; a diálise adequada corrige habitualmente o tempo de hemorragia.
- Antes de uma biópsia renal com tempo de hemorragia prolongado, desmopressina imediatamente antes.
Volume, prurido e outros
- Sobrecarga de volume: restrição de sódio e diuréticos de ansa, se preciso com metolazona; restrição hídrica só se houver hiponatremia.
- Prurido: excluir outras causas (sarna), corrigir o fósforo; emolientes, corticoide tópico ligeiro, anti-histamínicos, fototerapia.
Preparar com tempo
- Educação sobre as modalidades e sobre o tratamento conservador o mais tardar em G4, com equipa multidisciplinar e a família.
- Planear o acesso para diálise e o transplante preemptivo quando a TFG desce abaixo de 15 a 20, ou o risco de falência renal a 2 anos passa 40%.
- A preparação evita começar a hemodiálise por cateter provisório, com o risco de sépsis, hemorragia e trombose e maior mortalidade.
Quando iniciar a diálise
A decisão é clínica, e não por um valor de creatinina ou de ureia. Inicia-se quando há um ou mais de:
- Sintomas ou sinais de falência renal: neurológicos (encefalopatia, neuropatia), pericardite, anorexia e náuseas, prurido intratável, serosite.
- Alterações ácido-base ou eletrolíticas resistentes ao tratamento médico, sobretudo hipercaliemia e acidose.
- Sobrecarga de volume ou pressão arterial que não se controlam.
- Deterioração nutricional progressiva que não responde à dieta, ou declínio cognitivo.
Isto acontece muitas vezes, mas nem sempre, com TFG entre 5 e 10 mL/min/1,73 m². Iniciar cedo por rotina, com TFG de 10 a 14, não traz benefício de sobrevida face a iniciar pelos sintomas.
Modalidades
| modalidade | como funciona | a favor | contra |
|---|---|---|---|
| Hemodiálise (no centro ou em casa) | difusão através de membrana semipermeável, sessões de 3 a 4 horas, habitualmente três por semana | eficiente na depuração, feita por profissionais | exige acesso vascular; hipotensão intradialítica; dieta e líquidos mais restritos |
| Diálise peritoneal contínua ambulatória (trocas manuais, 3 a 5 por dia) ou automática noturna | o peritoneu é a membrana; solução hipertónica, habitualmente com glicose | em casa, contínua, dieta mais livre em potássio e fósforo | peritonite; absorção de glicose com hiperglicemia e aumento de peso; perda de proteínas |
| Transplante renal | enxerto de dador vivo ou falecido | melhor sobrevida e reabilitação; único que repõe as funções endócrinas | cirurgia, imunossupressão para toda a vida |
| Tratamento conservador | sem diálise, centrado nos sintomas e na qualidade de vida | evita um tratamento pesado a quem não ganha com ele | não substitui a função renal |
- Os resultados da hemodiálise e da diálise peritoneal são semelhantes, e a escolha faz-se pela preferência e pela qualidade de vida.
- O transplante é o tratamento de eleição; o transplante preemptivo, antes de qualquer diálise, habitualmente de dador vivo, faz-se quando a falência é seguramente irreversível.
Acesso vascular
- Fístula arteriovenosa nativa (por exemplo, radiocefálica): é o acesso com maior permeabilidade a longo prazo e menos infeção.
- Enxerto arteriovenoso de politetrafluoroetileno quando a fístula não amadurece ou as veias não o permitem; complica-se sobretudo por trombose.
- Cateter venoso central tunelizado, de preferência na jugular interna, quando os outros falham: é o de maior risco de infeção. Evita-se a subclávia, cuja estenose inviabiliza um acesso definitivo nesse braço.
- Na doença renal avançada preserva-se o capital venoso para o futuro acesso, evitando punções e cateteres desnecessários nos braços.
Tratamento conservador
- Informar todos os doentes sobre as opções, incluindo o tratamento conservador, e apoiá-lo como escolha válida, sobretudo no idoso com muita comorbilidade.
- Não é ausência de tratamento: mantém o controlo da anemia, da acidose, do potássio e do volume, e inclui planeamento avançado de cuidados.
Hemodiálise
- Hipotensão intradialítica: a complicação aguda mais frequente, sobretudo no diabético. Para-se a ultrafiltração e dá-se 100 a 250 mL de soro fisiológico; previne-se acertando o peso seco e evitando remover líquido depressa (mais de 13 mL/kg por hora associa-se a mortalidade cardiovascular).
- Cãibras, por remoção rápida de volume ou abaixo do peso seco.
- Reações ao dialisador: tipo A, nos primeiros minutos, mediada por IgE, que pode evoluir para anafilaxia; tipo B, dor torácica e lombar inespecífica, que cede com a continuação.
- Fístula ou enxerto de alto débito podem dar insuficiência cardíaca de alto débito.
- Dialisado com potássio muito baixo associa-se a morte súbita.
Diálise peritoneal
- Peritonite: dor abdominal e efluente turvo, muitas vezes com febre; definida por mais de 100 leucócitos por mm³ no efluente com pelo menos 50% de neutrófilos. Sobretudo cocos Gram-positivos da pele; trata-se na maioria com antibiótico intraperitoneal ou oral. Com Pseudomonas ou fungos, retira-se o cateter.
- Infeção do orifício e do túnel do cateter.
- Hiperglicemia, aumento de peso e hipertrigliceridemia pela glicose absorvida; hipoproteinemia pela perda de proteínas.
Prognóstico
- A mortalidade em diálise é alta, sobretudo por causa cardiovascular e por infeção.
- O transplante dá mais sobrevida do que a diálise, com o benefício a aparecer dias a meses depois da cirurgia, mesmo ajustando para a idade, a diabetes e a doença cardiovascular.
Referências
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- Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Anemia Work Group. KDIGO 2026 clinical practice guideline for the management of anemia in chronic kidney disease. Kidney Int. 2026. Executive summary: Babitt JL, et al. Kidney Int. 2026;109:44-56.
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- Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Diabetes Work Group. KDIGO 2022 clinical practice guideline for diabetes management in chronic kidney disease. Kidney Int. 2022;102(5S):S1-S127.
- Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Blood Pressure Work Group. KDIGO 2021 clinical practice guideline for the management of blood pressure in chronic kidney disease. Kidney Int. 2021;99(3S):S1-S87.
- Perkovic V, Tuttle KR, Rossing P, Mahaffey KW, Mann JFE, Bakris G, et al. Effects of semaglutide on chronic kidney disease in patients with type 2 diabetes. N Engl J Med. 2024;391(2):109-21.
- Damman K, ter Maaten JM, Mayne KJ, Bolignano D, Brown EM, da Costa BR, et al. 2026 ESC guidelines for the management of cardiovascular disease and chronic kidney disease, in collaboration with the European Renal Association (ERA). Eur Heart J. 2026. doi:10.1093/eurheartj/ehag098.
19 perguntas sobre Doença renal crónica
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